cadernos do ticino

Uma boa nova para quem gostar de ler e pensar literatura. Patrícia Melo acaba de inaugurar o seu blog- cadernosdoticino.wordpress.com , assim mesmo, sem espaço entre as palavras. Como conheço bem a autora, serei leitor assíduo de seus comentários…

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Contribuição de Alain Lompech

O texto que abaixo reproduzo é um comentário ao meu último post. No entanto, dada a importância de seu conteúdo e a importância de quem o redigiu, achei necessário estampá-lo com destaque nesse blog. O original, em francês, é de autoria de Alain Lompech, editor de cultura do jornal francês “Le Monde”, um dos mais importantes jornais europeus e cuja irradiação é imensamente maior do que a desse modesto blog. Em seguida tomei a liberdade de traduzi-lo para o português, para que fosse compreensível para todos os leitores. Finalizo dizendo que é uma honra para esse blogueiro poder trazer aqui com exclusividade um texto de Alain Lompech sobre a nossa realidade musical e cultural. Mais feliz ainda fico por observar que muito daquilo que vem no texto condiz com as linhas mestras do pensamento que venho tentanto expressar no decorrer dos últimos 10 meses de existência desse blog. Divirtam-se.

La seule chose qui soit derrière l’affaire OSB, c’est la médiocrité intellectuelle d’individus qui n’ont pas compris qu’une institution artistique était plus importante que ceux qui détiennent un simple pouvoir temporel sur elle. Ils doivent la rendre en meilleur état que le jour où ils en ont reçu les clefs.

Une institution n’est pas un outil de promotion personnelle : quand il en est ainsi, ce n’est que catastrophe et ruine. Quand ceux qui la dirigent n’ont qu’un but : faire grandir l’institution, alors le prestige de l’institution rejaillit sur eux.

Le Brésil est un pays qui, vu de l’extérieur, a profondément changé. Il n’est plus seulement ce pays tropical, sensuel et dangereux, ce pays poursuivi par un avenir radieux qui ne le rattrapait jamais. Le Brésil est enfin vu pour ce qu’il est, un pays dont la culture érudite et populaire est aussi importante pour le monde que la forêt amazonienne l’est pour l’équilibre écologique de la planète.

La médiocrité intellectuelle dont je parlais vient de ce que l’OSB n’est pas regardé par ses tutelles, autant publiques que privées, comme le trésor national qu’il devrait être. Alors, on le confie à des artistes et des administrateurs qui n’ont pas conscience de l’enjeu que représente cette institution, de son passé comme de son avenir et de la forte implication qu’elle doit avoir dans la vie musicale et intellectuelle du pays.

La seule justification qu’il y a de maintenir en vie une institution symphonique, comme un opéra, est qu’elle créée la musique de notre temps et qu’elle maintienne en vie le répertoire au plus haut niveau de qualité possible.

Le Brésil a les ressources financières et intellectuelles pour mener un tel projet à la victoire. Il le peut et il le doit.


“A única coisa que pode estar por detrás do “affair” OSB é a mediocridade intelectual de indivíduos que não entenderam que uma instituição artística é mais importante do que aqueles que detém um simples poder temporal sobre ela. Eles precisam devolvê-la num estado melhor do que aquele que existia quando as chaves lhes foram entregues.

Uma instituição não é um utensílio de promoção pessoal: quando este é o caso, não passa de uma catástrofe e da ruína. Só quando os seus dirigentes não têm outro objetivo senão fazer crescer a instituição, é que o prestígio dessa instituição acaba por resvalar sobre eles próprios.

O Brasil é um país que, visto de fora, mudou profundamente. Não é mais somente aquele país tropical, sensual e perigoso, um país perseguido por um futuro radioso, que nunca consegue alcançá-lo. O Brasil está finalmente sendo visto pelo que ele é, um país cujas culturas erudita e popular são tão importantes para o mundo quanto a floresta amazônica o é para o equilíbrio ecológico do planeta.

A mediocridade intelectual a que me referia está refletida naquilo que a OSB não representa, mas que deveria representar para os seus tutores, tanto públicos quanto privados: o tesouro nacional que deveria ser. O resultado é que se confia a instituição a artistas e a administradores que não têm a consciência do desafio que esta instituição representa, do seu passado e do seu futuro, e das fortes implicações que ela necessita excercer na vida intelectual e musical do país.

A única justificativa que existe para que se mantenha uma instituição sinfônica, assim com uma ópera, é que ela crie a música de nosso tempo e que ela mantenha vivo o repertório no seu mais alto nível de qualidade.

O Brasil possue recursos financeiros e intelectuais para levar um tal projeto à vitória. Ele o pode e ele o deve.”

Voilà…

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Direto da Europa

dedicado a Sonia Racy

No Estadão de hoje:
“ADVERTÊNCIA SOBRE AS DÍVIDAS DOS EUA ABALAM MERCADOS”
Há quem acredite que John Neschling esteja por detrás disso

Ainda na edição de hoje do Estadão:
“DEBANDADA DE VEREADORES AMPLIA CRISE NO PSDB”
Há também quem acredite que John Neschling esteja por detrás disso

Agora na Ilustrada da Folha de São Paulo de hoje:
“STROKES, ARCADE FIRE E KINGS OF LEON CONSAGRAM COACHELLA”
Há certamente muita gente que acredita que John Neschling esteja por detrás disso

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Fogueira das verdades

esse texto foi devidamente completado depois da coluna de hoje – “Direto da Fonte”, de Sonia Racy. (19.04.2011)

A saída de Roberto Minczuk da Osesp foi bastante polêmica, e por anos carreguei a “pecha” de ter sido injusto com ele. Ainda ontem, um leitor deste blog lembrou-me de uma matéria que saiu no Estadão em que um jornalista me chamava de “tiranete da batuta”, como se eu estivesse prejudicando o desenvolvimento artístico e profissional do meu regente assistente.
No entanto, sua saída teve razões muito claras e objetivas: naquela época Roberto sofria, por parte dos músicos da OSESP, muita resistência à sua atuação como regente e tinha uma agenda no exterior que o impedia de me ajudar no dia a dia da orquestra. Além disso, ele havia assumido a direção do Festival de Inverno de Campos de Jordão, o que lhe consumiria ainda mais tempo, nos períodos em que passava no Brasil.
Quando um membro da comissâo dos músicos da OSESP me chamou para contar que a então Secretária de Estado de Cultura, Cláudia Costin (atual membro do conselho de administraçâo da OSB), durante uma de minhas viagens, havia convocado a comissão de músicos da OSESP para dizer que meu contrato estava expirando e abrindo espaço à dicussão de uma sucessão, as coisas começaram a ficar preocupantes. Soube logo depois, por fonte idônea, que Cláudia Costin e Roberto já haviam inclusive acertado o salário para que ele me substituísse.
Não havia mais sentido em trabalhar com uma pessoa em que eu não confiasse.
Roberto deixou o emprego numa situação muito confortável: já no seu último concerto frente à OSESP, ele estava contratado pela OSB. Em seguida, sofri uma intensa campanha de difamação, alimentada por amigos e familiares de Roberto.
Antes ainda, eu já havia pago um preço alto pela demissão de sete músicos da OSESP, cuja responsabilidade artística era minha, mas cuja causa foi a briga desses mesmos músicos com Roberto, incapaz de resolver o problema sozinho.
Acho curioso que um jornalista sério como Ancelmo Góes ( ou uma jornalista séria como Sonia Racy) coloque na sua coluna de hoje do Globo que “…John Neschling estaria atuando contra Roberto Minczuk”.
Vivo na Europa, onde trabalho, e tenho meus projetos. Estou longe dos lamentáveis acontecimentos na OSB, que são de inteira responsabilidade do maestro e do conselho de administração da orquestra.
Há centenas, se não milhares de vozes no Brasil e no mundo, aí incluindo políticos eleitos como Jandira Feghali, críticos como Norman Lebrecht, sindicatos de músicos canadenses, americanos e de outros países além do Brasil, grande solistas e compositores brasileiros tomando posições inequívocas neste imbróglio.
Escolher a mim, por conta de análises que faço no meu blog, não apenas sobre a OSB, mas sobre diversos assuntos musicais referentes ao Brasil e à América Latina, como um dos arquitetos da derrocada à qual Roberto está condenando a OSB e a si próprio, parece mais que reducionismo: é ignorância e má fé, resultado de fofoca dos mesmos Iagos de sempre.
Desde a criação desse blog, decidi jamais deixar sem resposta esse tipo de acusação. Afinal, uma mentira contada reiteradas vezes, acaba valendo como verdade.

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Uma festa em Bilbao

CRÍTICA clásica
Una fiesta francesa

Mikel CHAMIZO

John Neschling, sobrino de Arnold Schoenberg, es un director que ha desarrollado gran parte de su carrera en Brasil. Quizá ese alejamiento de los principales circuitos clásicos le haya evitado alcanzar mayor fama, porque lo cierto es que es un director magnífico o, por lo menos, se le da muy bien el repertorio francés, que fue el que dirigió el jueves y el viernes a la Bilbao Orkestra Sinfonikoa. A la escucha “La tombeau de Couperin” puede parecer una obra que sale con facilidad, dada la claridad y fluidez de la orquestación de Ravel, pero esconde un gran trabajo equilibrando las dinámicas de los diferentes instrumentos, problema que Neschling resolvió a la perfección. Y además de eso supo darle a la música un carácter danzante, planteando acentuaciones y fraseos asertivos sin faltar a la elegancia intrínseca de la obra. La BOS respondió a sus exigencias como un reloj suizo, y el oboísta Nicolas Carpentier superó con nota el papelón solista que le depara Ravel aquí.

Al Ravel le siguió el “Concierto para flauta” de Ibert, con la solista Sharon Bezaly y sus bien conocidas cualidades: un sonido melífluo y flexible, aunque no excesivamente oscuro. Quizá esto último repercutió algo negativamente en el evocador segundo movimiento, pero el primero y el ‘Rondo’ fueron una fiesta de brillantez. En cuanto a la “Sinfonía para órgano” de Saint-Saëns, Neschling supo construir unos climax efectivos y poderosos, aportando a la ya de por sí imponente música de Saint-Saëns un extra de excitación y emoción. Sobresaliente velada en lo musical.

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Perguntas e contrastes

Acompanho, consternado, o desenrolar da crise na OSB. Tenho lido inúmeras reações ao triste momento por que passa a orquestra, e observo que algumas perguntas não foram feitas,   cujas respostas me parecem fundamentais para conhecer melhor o fundo desse imbroglio, que caminha cada vez mais inexoravelmente para um beco sem saída. Gostaria muito que a imprensa procurasse as respostas para as seguintes indagações:

1- O Conselho de Administração tem legimitidade  para atuar plenamente?                          2- Todos os membros do  Conselho de Administração estão ao par dos acontecimentos e participam das tratativas com os músicos?                                                                                  3- Por que o Conselho de Administração não se manifesta como um todo?                                                                                                                                                   4- Como é composta a administração da OSB e quais as pessoas que são empregadas pela Fundação?                                                                                                                                          5- Qual o verdadeiro salário a ser pago aos músicos profissionais a partir de junho, em cada categoria?                                                                                                                                              6- Qual o plano de cargos e salários do corpo administrativo da Fundação OSB?                  7-  Qual o real orçamento anual da OSB e como ele é composto?                                                 8- Quais as garantias de orçamento para os (quatro, cinco) anos vindouros, que assegurem os novos salários dos músicos?                                                                                                        9- Qual o real salário do Maestro?                                                                                                  10-Quem foram os jurados das primeiras audições?                                                                      11- Quem serão os julgadores das audições no exterior e que legitimidade terão?                   12- Qual a posição dos principais patrocinadores (institucionais e privados) da orquestra em relação às questões social e artística que essa crise envolve?

Se essas questões, entre outras, fossem esclarecidas, e a falta de transparência nas informações não impedisse uma visão mais clara da realidade, se as declarações dos dirigentes da Fundação não fossem tão genéricas, talvez entendêssemos as verdadeiras razões para que dois conselheiros e um maestro, sem o respaldo inequívoco do resto da instituição, insistam tanto em manter um modelo que evidentemente vai contra o desejo de toda uma comunidade no Brasil e no exterior.

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Já tive a oportunidade, por diversas vezes, de trabalhar com a excelente flautista israelense Sharon Bezaly.  Ela foi solista de diversos concertos que regi com a OSESP e com ela gravamos dois discos. Por uma feliz coincidência, Sharon foi a solista do concerto que regi na semana passada em Bilbao, com a Orquestra Sinfônica da cidade. O programa incluía ainda a terceira sinfonia de Saint-Saens, na qual a moderníssima  sala de  concertos do Palácio Eskaulduna pode exibir o órgão que tem papel preponderante na obra, e a jóia  “Le Tombeau de Couperin”, homenagem que Ravel fez ao grande compositor compositor do passado, e que de fúnebre não tem nada. Bilbao é uma cidade na medida do homem, que se revalorizou impressionantemente nas últimas décadas através da arquitetura e da cultura, que conseguiram remodelar a  cidade e a colocaram em posição invejável dentre os centros turísticos, industriais e financeiros da Espanha.  Mais um concerto que me deixa felizes lembranças, tanto pela música quanto pelas pessoas com que tive oportunidade de conviver durante a semana.



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A música eletrônica tem tido um papel importante na cultura contemporânea. Desenvolvendo a linguagem jazzística e do rock, aliada ao poder da eletroacústica e da criatividade sonora, músicos de diversas nacionalidades têm se dedicado a  um trabalho que atinge milhões de ouvintes em todo o mundo.  Os meios que a técnica e a informática puseram à disposição de artistas que pesquisam sonoridades, ritmos e sons de diversas culturas, permitem que o resultado dessas pesquisas, embalados pela música ao vivo e pela manipulação eletrônica produzam espetáculos que têm reunido milhares de admiradores na Europa, Estados Unidos e Japão. Um dos expoentes dessa nova linguagem é um brasileiro, que já foi integrante de uma das bandas de rock mais importantes dos últimos anos, o Sepultura. Separado da banda, Iggor Cavalera e sua mulher Laima seguiram um caminho  de pesquisa e criação musical e tecnológica, que os transformou num fenômeno “cult” nesse mundo especial e sofisticado, o “Mixhell”. Iggor tem ainda trabalhado com seu irmão Max num projeto intitulado Cavalera Conspiracy. Ambas as vertentes encontram pouco mercado no Brasil, que em termos de música contemporânea está mais para Shakira do que para a pesquisa sofisticada. Aqui por estas bandas, no entanto, seus espetáculos enchem clubes especializados. Ligados por laços “tortos” de família, Iggor e Laima são meus sobrinhos e vieram  me visitar em minha casa na Suíça, entre um espetáculo em Paris e outro em Roma, parte de uma excursão praticamente contínua, que os leva aos mais importantes centros do mundo (Berlim é a Meca dos praticantes dessa linguagem específica) . O Brasil, como em tantos outros casos de ineficiência cultural, não lhes oferece condições de trabalho que lhes permita passar em casa mais de dois ou três dias de vez em quando.  E assim se produziu um encontro dos mais insólitos entre dois músicos de linguagens profundamente diferentes, mas ligados pela seriedade do trabalho e pela necessidade de um exílio involuntário.

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e agora, OSB ?

Parece que o impasse em que se encontravam os músicos e a direção artística e administrativa da Orquestra Sinfônica Brasileira chegou ao seu ápice: mais de quarenta músicos do grupo estão sendo demitidos, alegada a justa causa pela administração, por não terem se apresentado às audições de avaliação programadas por seu diretor artístico. Não há dúvida de que a forma com que a direção da orquestra lidou com todo o processo foi truculenta, arbitrária e socialmente injusta. Não há como camuflar a má fé embutida em audições anunciadas durante as férias dos músicos. Não há como esconder a intenção de demitir, quando se adverte que o não comparecimento às provas será encarado como indisciplina grave, e as audições e os métodos de  avaliação não foram objeto de discussão com os músicos e sua comissão. Não há como justificar humanamente a demissão sumária de músicos que fazem parte da orquestra há 20 ou 30 anos e que evidentemente não estão no auge de suas formas. Enfim, o processo revestiu-se de injustiça, prepotência e falta de habilidade desde o seu início até o seu desfecho lamentável. Já escrevi, em vários posts desse blog, a minha opinião sobre a forma com que se encaminhou todo esse imbroglio. Também já refutei energicamente, embora se insista em fazê-lo, a exemplo do que afirmou Roberto Minczuk no jornal “O Globo”,  a comparação entre o processo de reavaliação pelo qual passou a OSESP, quando de minha chegada para reestruturá-la e as audições organizadas pela OSB.  Não posso aceitar que se use o processo pelo qual passou a OSESP em 1997 como desculpa ou justificativa para o trauma e o desarme que se se está fazendo agora na OSB.

Porque é disso que estamos falando: de um desarme, da destruição consciente e voluntária de uma orquestra que existe há 70 anos, que sobreviveu a tempos de vacas magras e que brilhou em tempos de glória, mas que jamais foi apunhalada da forma como a estão apunhalando. A OSB como a conhecemos todos os cariocas e brasileiros há décadas, acabou, foi desmantelada, não existe mais. Nunca imaginei que o “bon mot” que cunhei em outro post ao dizer que em vez de trocar de regente a administração resolveu trocar de orquestra pudesse corresponder exatamente à realidade. Seria cômico se não fosse trágico, pois quem perpetra tal desgoverno é justamente o filho de um dos músicos que criou a aura dessa orquestra. A imprensa, no afã de tentar entender ou explicar o ineditismo da situação, procura paralelos seja em orquestras brasileiras (todas elas vítimas de nossa extrema precariedade ou grupos criados a partir do zero nos últimos anos), seja em grandes orquestras mundiais. Essas, devido às suas estruturas centenárias e às suas qualidades intrínsecas indiscutíveis não servem para comparação com qualquer orquestra brasileira, da OSESP  à Lira São Joanense. No Brasil, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais está engatinhando, a OSESP acabou de entrar na sua adolescência. As Filarmônicas de Berlim, Nova Iorque e Israel certamente não necessitam de qualquer exame de reavaliação, que, estrutrado de forma diferente e organizado de forma mais respeitosa, poderia, sim, ajudar a OSB a dar um salto de qualidade ao qual, em sã consciência, nenhum músico se oporia.

A Orquestra Sinfônica Brasileira é uma instituição privada, cujos empregados são regidos pelo regime da CLT. Esse regime prevê a possibilidade de demissão, seja por justa causa, seja indenizando-se os demitidos com o pagamento de todos os direitos previstos na lei. O programa de demissão voluntária, embora me pareça perverso no âmbito humano da OSB, é uma alternativa prevista em lei e se não foi levado em consideração pelos músicos da orquestra, é porque toda a situação lhes parecia injusta e mal encaminhada. Aos músicos demitidos cabe a partir de agora a briga na justiça,  que decidirá se as demissões são justas ou não e a administração da orquestra terá que respeitar a sentença que o juiz proferir. As consequências poderão ou não pesar muito no orçamento da orquestra.

O que não está no âmbito das decisões judiciais é o prejuízo dificilmente mensurável que tal crise trará para o futuro da orquestra. Um dos principais patrocinadores da OSB é o BNDES. A letra S no nome do banco significa a preocupação social  da empresa. Terá o banco interesse em continuar a patrocinar uma orquestra que vilipendia de tal forma seus empregados? Que demite de forma tão violenta metade de seu corpo artístico? Qual a empresa, privada ou estatal, que deseja unir seu nome a uma instituição que passa uma imagem de truculência, violência e maus tratos? Será que esse comportamento discutível, para sermos modestos, foi debatido com antecedência com a Prefeitura, um dos grandes mantenedores da orquestra? Essas questões cruciais para a sobrevivência da instituição terão de ter passado pela cabeça de seus administradores, todos versados em economia e nas regras do mercado, sob o risco de serem julgados como irresponsáveis e incompetentes. Uma orquestra não é um banco de investimentos, não é uma fábrica nem uma empresa comercial. Certamente não será necessário que se explique aqui outra vez as peculiaridades e as sensibilidades especiais de uma orquestra sinfônica. O risco que se incorreu ao deixar que essa situação de extrema tensão transbordasse e viesse a público com a violência com que veio, com sua exposição internacional gravíssima e inédita, coloca todos os responsáveis pela instituição, aí incluido o seu diretor musical, na berlinda e os obriga a explicações  claras e transparentes. A culpa que lhes pesará nos ombros, caso sobrevenha a destruição de um dos ícones de nossa cultura não é coisa fácil de expiar.

Cabe, no entanto, uma reflexão sobre o futuro da orquestra, caso se consiga, mal ou bem, ultrapassar o trauma gravíssimo que se inflingiu ao seu corpo musical. Do ponto de vista meramente artístico é de se duvidar da possibilidade do maestro continuar a liderar, por ora, um grupo composto de músicos em sua maioria amedrontados, humilhados, indignados e na defensiva. Que muito provavelmente, com ou sem razão, se sentirão culpados pela situação precária na qual se encontrarão seus colegas demitidos e que serão condenados, por parte destes, a um isolamento destrutivo para sua auto estima. Um maestro que se verá na contingência de apresentar resultados qualitativos a curto prazo a um público desconfiado. Um maestro que terá de lutar pela sua reabilitação no conceito de toda uma classe profissional,  que se opôs frontalmente à sua atitude, não só no Brasil como no exterior. Inúmeros músicos, sindicatos e orquestras do exterior se manifestaram, de forma clara e incisiva, contra o processo instaurado na orquestra carioca. Sua carreira está em risco. Seu nome está em jogo. Não será fácil trabalhar nessas circunstâncias. Terá à sua frente uma orquestra em pedaços e incompleta. Será necessário completar, e com urgência, os quadros do conjunto. Quais os músicos brasileiros de qualidade que se apresentarão aos concursos de admissão após os acontecimentos do passado recente? Qual a garantia que receberão de respeito e segurança no trabalho? Onde encontrar os músicos estrangeiros com a qualidade necessária para preencher as dezenas de vagas abertas pelas demissões? Não se admite que se tragam ao Brasil músicos de qualidade mediana após o escândalo do afastamento de tantos músicos competentes. Estes são  alguns dos problemas que terão de ser enfrentados, e com urgência, pelo diretor artístico da OSB.

Há, no entanto, e não menos grave, o problema econômico a ser enfrentado pela Fundação OSB. Foi dito reiteradas vezes tanto pelo presidente do Conselho quanto pelo diretor artístico que os salários a serem oferecidos àqueles que passarem pelas audições, e naturalmente aos novos músicos da orquestra, serão comparáveis ou mesmo superiores àqueles que são pagos atualmente pela OSESP.  Não estou mais informado extamente dos salários da orquestra paulista mas imagino que estes, devidamente reajustados, devem estar beirando os 10.000 reais para um músico de fila. Um contrato de 10.000 reais pela CLT custa ao empregador por volta de 17.000 reais por mês. Mas não esqueçamos que os “spallas” (e são dois) da orquestra ganham por volta de 18.000 (o que para o empregador não sai por menos de 30.000 mensais) e que os solistas dos diversos naipes recebem por volta de 12 a 13.000 reais mensais (não menos de 20.000 reais mensais para o empregador). Qual a garantia que a OSB tem de que terá à disposição um orçamento anual que cubra esses enormes custos de pessoal? Nunca houve transparência nas informações do “status” financeiro da Fundação. Nunca foi publicado um relatório de atividades econômicas da OSB. Nunca se soube ao certo quanto dinheiro foi arrecadado pelo seu departamento de marketing, nem como esse dinheiro foi utilizado ou em que foi aplicado. Todas as informações que circularam e circulam até hoje sobre o orçamento, a verba arrecadada e a administração financeira da Fundação são obscuras e aproximadas. Quem garante que a OSB terá os meios suficientes para a sobrevivência a longo ou ao menos a médio prazo das suas atividades?  De onde virão esses recursos? Como se arriscar a trazer 40 músicos novos nessa realidade nebulosa? É urgentemente necessário que o Conselho da Fundação venha a público com essas informações de forma clara e transparente para que o processo traumático a que obrigam a orquestra a passar tenha um mínimo de credibilidade. Como será a estrutura administrativa da orquestra num futuro como o que está sendo anunciado? Continuaremos a ter uma OSB com sua estrutura administrativa antiquada e desconhecida do público? Será que essa grande renovação que se proclama ficará restrita aos músicos? Isso faria com que as  injustiças cometidas contra os profissionais da orquestra fossem ainda mais graves.

Enfim, perguntas e mais perguntas, dúvidas em cima de dúvidas. Há, finalmente, uma outra perspectiva de análise para essa questão: e se tudo for  pelo melhor? Nossa realidade econômica, como já comentei diversas vezes, é favorável a investimentos a longo prazo. Não houve, há décadas, momento mais propício do que esse para a criação de outra OSESP, dessa vez no Rio de Janeiro. E se a OSB se transformasse, num passe de mágica administrativa e artística, numa segunda grande orquestra internacional no Brasil?  Isso  viria confirmar o momento de euforia que vivemos no País e nos colocaria de vez no mapa dos países sinfônicamente importantes. No quadro atual, é difícil ter esperança. Se essa hipótese se confirmar, viveremos o luto do processo traumático, continuaremos a pugnar pelo respeito e pela dignidade de nossos músicos, mas algum resultado positivo terá advindo desse tsunami que assolou nossa orquestra.

Caso contrário, o crime terá sido capital, e não terá perdão.

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