Uma Sinfônica Municipal revigorada

Ontem, durante o ensaio que fizemos, a Orquestra SInfônica Municipal e eu, da Segunda Sinfonia de Mahler que iremos apresentar no Theatro Municipal de São Paulo nos dias 13 e 14 de fevereiro, dei por mim mesmo espantado com a qualidade do conjunto. Acostumado a ouvir a orquestra constantemente, creio que fui me habituando ao seu extraordinário crescimento qualitativo. Mais tarde, em casa, pensei que poderíamos tranquilamente arriscar uma tournée europeia ou americana, sem temer as comparações e os preconceitos que ainda cercam as orquestras sul americanas.

Há muitos anos atrás fiz um trabalho no mesmo sentido com outra orquestra paulista, que encontrei em estado de decomposição. 12 anos mais tarde a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) era considerada uma das melhores orquestras da América Latina ( eu não conhecia outra com a mesma qualidade) e uma das orquestras em ascensão no panorama sinfônico mundial ( Revista Gramophon ). No meu livro “Música Mundana” conto, com detalhes, a construção desse projeto e as dificuldades que tivemos que enfrentar ao quebrar e estabelecer novos paradigmas de qualidade no nosso meio musical. A realidade econômica e política era outra e as circunstâncias completamente diferentes das que nos encontramos hoje em São Paulo e no Brasil.

Naquela altura foi feito um trabalho radical: testes para todos os músicos da antiga orquestra – os testes não eram obrigatórios para aqueles músicos que decidiram continuar com os mesmos salários e com os mesmos horários de trabalho, praticamente formando uma orquestra B. (Minha teoria de que uma orquestra sem qualidade, sem disciplina e sem público não teria capacidade de sobrevivência e significaria uma enorme desperdício de verba pública, foi amplamente confirmada na realidade: pouco tempo depois essa Orquestra B foi desmantelada, sem prejuízo algum para nossa sociedade) .

Uma sala, projetada para ser a sede da orquestra, foi  construida na antiga Estação Julio Prestes e transformou-se num ícone das salas sinfônicas no mundo, invejada por grande parte das orquestras por sua acústica e acomodações para os músicos. Os salários foram reajustados de forma a serem atraentes para qualquer músico europeu ou americano e a oferecer aos músicos brasileiros a possibilidade de viver exclusivamente do seu trabalho na orquestra,  sem a necessidade de apelar para bicos ou casamentos, e outras atividades paralelas. (Devo dizer que embora os salários tivessem sido aumentados, os músicos continuaram a fazer os mesmos bicos de sempre…) Uma conjuntura econômica extremamente favorável permitiu que esses gastos fossem possíveis e uma equipe competente formada ad-hoc administrou o projeto de forma que, poucos anos após o nascimento do projeto, a orquestra contasse com um público numeroso e fiel, viajasse pelo mundo com críticas espetaculares ( quem sabe até devido à surpresa de se deparar com um conjunto sinfônico de tal qualidade de onde menos se esperava), gravasse CDs por uma casa discográfica internacional com prêmios que a distinguiam, enfim, foi a criação de uma nova orquestra a partir de uma orquestra decadente e sem qualidade.

Outras tentativas foram feitas nos anos que se seguiram no sentido de dotar mais capitais brasileiras de orquestras de grande qualidade: algumas foram bem sucedidas, como a Filarmônica de Belo Horizonte (espero que se mantenha viva e pujante nesses tempos complicados politica e economicamente), que usou métodos parecidos dos que implantamos na OSESP, outras foram desastradas e mal encaminhadas, como foi o caso da OSB no Rio de Janeiro, que a pretexto de emular o trabalho que fizemos na OSESP, usaram de métodos autoritários, injustos, descabidos para acabar tendo que administrar  duas orquestras, agora sem maestro, salários defasados e sem garantias de futuro.

Na Bahia um projeto singular me chama a atenção e entusiasma sobremaneira: o Projeto NEOJIBA, cujo criador, Ricardo Castro, inspirou-se no SISTEMA Venezuelano, vem atraindo as atenções não só do Brasil, mas sobretudo do exterior, para onde o conjunto já viajou mais de uma vez, tocando em salas míticas da Europa, com solistas como Martha Argerich. É um projeto que me enche de esperança e que, sob o comando de gente competente e dedicada, e com o justo aporte governamental, seguindo uma política cultural positiva e bem enunciada, pode dotar o nosso país de uma realidade sinfônica que até hoje, mesmo com as orquestras profissionais existentes, nem sonhamos.

A grande maioria das demais orquestras brasileiras continuam sobrevivendo da forma que podem e que lhes é possível. Muito dessa situação deplorável é culpa de uma política cultural tacanha e pouco inteligente, muito é culpa  dos responsáveis pelas administrações dos conjuntos, que aceitam as limitações para manterem os seus postos e muito dos próprios músicos que não se organizam para demandar uma realidade melhor e mais digna.

O trabalho que venho fazendo com a Orquestra Sinfônica Municipal é bem distinto do que fiz com a OSESP. Há três anos, encontrei uma orquestra montada, com alguma qualidade e com muitos defeitos, com uma estrutura administrativa capenga, com salários defasados e pouco espírito de corpo, com um horizonte artístico inexistente. Evidentemente não podia nem queria tomar as mesmas medidas que havia tomado na OSESP, onde a situação era muito mais desesperadora. As decisões foram tomadas pouco a pouco, e sempre com a preocupação de envolver os próprios músicos e sua comissão nas decisões mais drásticas, como afastamento de certos integrantes e outras decisões que eram fundamentais para o progresso artístico e administrativo do grupo. Também, no início de minha atuação, uma conjuntura favorável e um governo decidido a implementar melhorias no Theatro ajudaram de forma decisiva para que o projeto avançasse. A atualização dos salários para níveis semelhantes aos da OSESP e a celetização de toda a orquestra também foram ações que injetaram ânimo e entusiasmo no conjunto. A abertura de vagas para novos integrantes e a severidade das audições de recrutamento que trouxeram ao grupo músicos de grande competência e qualidade serviram para elevar substancialmente a qualidade sonora e o virtuosismo da OSM.  E, não menos importante, uma disciplina de trabalho rígida e horários de trabalho racionais e necessários para uma produção mais fluente fizeram o resto.

Mas ainda me espanto com a qualidade da OSM. Há muito tempo não ouço a OSESP nem ao vivo nem em gravações. Quero crer e desejar que ela tenha mantido o nível de qualidade ao qual a alcei quando me retirei da sua Direção Artística. O que posso assegurar, no entanto, é que temos hoje em São Paulo uma outra orquestra com o mesmo nível da OSESP e que é certamente das melhores orquestras latinoamericanas (continuo sem conhecer outras orquestras latinoamericanas com a nossa qualidade). Por isso desejo ardentemente que a conjuntura político e econômica nos permita continuar no nosso caminho da excelência (essa palavra tão vilipendiada), e que possamos, no futuro gravar e mostrar, no exterior, o nível invejável que alcançamos em 3 anos (!!!) de trabalho árduo.

 

 

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Pílulas cinematográficas e Regina Casé

Como cinéfilo sou uma espécie de turista acidental. Minha cultura cinematográfica parece mais um queijo suíço. Passo meses, anos mesmo, sem ir ao cinema, embora me interesse sempre pelas produções novas. Estes dias, no meu retiro espiritual, resolvi pôr em dia, ao menos um pouco, minha lacuna nesse sentido e assisti a um monte de filmes,  sempre ao final de dias de intenso estudo e leitura.

Comecei por assistir a alguns indicados ao Oscar desse ano, mas confesso que a necessidade quase maníaca dos diretores de rechear os filmes de violência explícita, como se isso fosse nos trazer para mais perto da realidade, causou-me tanta repulsa que quase perdi a vontade de continuar a assistir as obras em questão. O melhor dos roteiros, a melhor das fotografias, sucumbe aos litros de sangue, intestinos expostos, rostos explodidos, membros amputados, tudo isso embrulhado por câmera excepcional, um cuidado com detalhes, que, ao fim e ao cabo, parece-me não ter outro sentido a não ser “épater le bourgeois” de forma perfeitamente bem acabada.

Assim sobrevivi a “Regresso” e ao útimo filme de Tarantino. Os momentos de prazer e de interesse foram amplamente superados pelo desejo de virar a cara ante a violência que me era servida.

Para quem se interessa por economia, finanças e mercado, aconselho um filme, “Big Short”, que conta com humor, didatismo inteligente e uma edição moderna e dinâmica,a história da grande crise de 2008 nos EEUU, da bolha imobiliária que quando explodiu levou-nos todos à situação em que nos encontramos até hoje, e como algumas pessoas inteligentes e mais ou menos honestas souberam prevê-la e lucrar com ela.

“Joy”, um filme baseado numa história real de uma senhora de classe média americana que inventa um escovão especial para limpar a cozinha e o banheiro e que, após ter que se ver com a máfia ávida em roubar-lhe a patente, se dá bem e enriquece, é, na minha opinião, por mais que se esforce em mostrar, com certo humor, o mercado americano de venda de artigos pela televisão, um passatempo agradável, e não muito mais que isso.

A partir daí fui me refestelar um pouco na latinidade e assisti um filme argentino sensacional: “Relatos Salvajes”, 6 curtas que contam com humor e surrealismo situações limítrofes a que é empurrado o cidadão comum ao enfrentar o absurdo do dia a dia. Um filme imperdível, com brilhantes atuações individuais e um roteiro criativo e bem contado.

Já quando fui ver “História Oficial”, um dos icones da produção cinematográfica argentina, acabei por ver um filme datado em todos os sentidos, inclusive na música, que se insere na película de forma conservadora, que lembra na sua estrutura o tema de “love story”: melado, feito para emocionar os incautos. Ao menos disso, tenho certeza que entendo…

“Nueve Reinas” é uma boa trama, às vezes tão complicada e sofisticada que a gente se perde (odeio esses filmes que nos levam num redemoinho de ação e de informações cifradas a um final glorioso, sem que você não tenha entendido nada…). Não é o caso de Nueve Reinas, que nem tem meios técnicos para concorrer com nenhum Matrix da vida. Mas quando nem sempre o interesse é mantido,  a boa atuação dos protagonistas vale o esforço de tentar entender a trama até o seu inesperado final.

Agora o que mais me encantou e surpreendeu nessas jornadas cinéfilas: assisti com prazer imenso o filme de Ana Muylaert, ” A que horas ela volta “. Muylaert demonstra uma delicadeza incomum ao tratar de um assunto que sempre foi tabu na nossa sociedade de classe média, a relação quase escravagista que se mantinha com as “empregadas” que dormiam “no serviço”. No meu  entender esse filme dificilmente poderá ser entendido em todas as suas sutilezas por uma sociedade que desconhece essa cultura urbana da classe média abastada brasileira, sobretudo carioca e paulista. A importação de mão de obra do norte e nordeste, sua pretensa inserção na “família”, sua prepotência disfarçada, sua “bondade liberal”, todos os disfarces usados com a maior naturalidade para manter em casa um serviçal obediente e cordato. Muylaert  cria uma situação de confronto quando uma dessas “empregadas”, a serviço dos patrões por quase 20 anos, inesperadamente recebe a visita de sua filha, que vem do nordeste prestar vestibular na FAU. Com a chegada da filha, que a princípio se hospeda na casa dos patrões, instala-se um clima de desconforto, de mal-estar, de hipocrisia, que ilustra de forma excepcional a relação “casa grande e senzala” em que nos encontramos até pouquíssimo tempo atrás se é que não nos encontramos ainda, em muitos casos, e a incipiente consciência das mudança sociais que vivemos.

Um filme muito especial, emocionante, verdadeiro, com absolutamente nada de apelativo. Não procura libelos ideológicos, não exagera nas tintas. Discreto, de bom gosto em todos os momentos em que poderia resvalar para o lugar comum, nos mantém presos, sempre com um sorriso, meio de apreciação e meio de culpa. Gostaria de falar mais dessa joia do cinema nacional, mas preciso falar de Regina Casé.No papel da empregada Val, leva o filme nas costas do princípio ao fim, sem um momento de pieguice, sem um resvalo no lugar comum, com uma verdade física e linguística admirável. Detalhes mínimos na sua atuação, um gesto, um olhar, uma respiração são frutos de um virtuosismo de atriz que raramente se encontra. Enfim, uma das grandes atuações que tenho visto nos últimos anos, seja no cinema ou no teatro, seja no Brasil ou fora. Regina Casé é a minha candidata ao Oscar de melhor atriz, e o leva ” de boa”, como ela se expressa no filme. Um presente para todos nós. Não sei o que seria do filme sem a Regina nem, sei o que seria da Casé sem esse filme para coroar a sua vida de brilhante atriz.

 

 

 

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Odoleber

Sigo aproveitando os parágrafos misteriosos do papismo para explicitar algumas questões que creio ser de interesse geral. Mas não consigo ignorar o fato de que este intelectual quase anônimo (deve estar adorando os cinco minutos, ou capítulos, de glória que lhe estou oferecendo de graça, antes que volte ao lugar que sempre ocupou na lírica internacional, especialmente a da Bulgária) pareça fascinado pelo “trabalho coletivo”… Na sua estranha forma de se comunicar, Papa diz que o Theatro Municipal (sic) é um trabalho  coletivo. Meu querido amigo, deixe-me aclarar uma coisa: o mundo é coletivo. Não sei como você define o seu trabalho na ópera grossa – ops, desculpe, curta, mas não será tampouco o bloco do eu sozinho, não é? O resto do seu parágrafo, sinto muito, mas não entendi…

O Diretor Artístico do Theatro Municipal  efetivamente não tem nada a ver com os processos de contratação dos artistas que convida para participar das temporadas lírica e sinfônica. A contratação e os pagamentos relativos competem ao Instituo Brasileiro de Gestão Cultural, OS, entidade privada que tem um contrato com a Prefeitura de São Paulo exatamente para gerir  o Theatro em todas as suas áreas e atividades. O Diretor Artístico, que jamais assina  cheques, apresenta um orçamento  e este orçamento é aceito ou não pela administração. Se for aceito, o departamento artístico tem que se ater a esse orçamento a ferro e fogo. Foi exatamente o que foi feito. Até o final da temporada de 2015 os orçamentos para a produção artística foram rigorosamente e comprovadamente respeitados  (na verdade gastou-se até um pouco menos do que se poderia nas produções realizadas). Para 2016 já está orçada a temporada, com garantias de que poderá ser realizada com o orçamento previsto.

Portanto, a Direção Artística, como bem lembra Cleber, sabe exatamente o quanto gasta, tem uma equipe competente que administra, produz, ensaia etc, e o público, as publicações e os números da bilheteria atestam se o trabalho teve êxito ou não. Não há muita discussão- o resultado está no palco e no fosso. E aí, meu caro, gosto não se discute. Mais: em 2015, a Direção Artística , ao ser informada das dificuldades de caixa, e sendo obrigada a cancelar ou adiar produções,  sem entender direito a razão da penúria, apressou-se em comunicar às instâncias superiores, chegando até o Prefeito da Cidade, que algo  estranho estava acontecendo na administração, uma vez que a realidade não batia com as contas. E foi a partir do Gabinete do Prefeito que teve início uma investigação pelo Ministério Público. O que aconteceu a partir daí, ficamos todos sabendo pelos jornais.

Nunca houve problemas de vaidade ou imposições de caprichos egóicos na direção artística do Theatro Municipal. Houve, sim, e sempre, princípios de qualidade a serem seguidos e exigências de disciplina artístico-administrativa a serem respeitadas. Quando isso não ocorreu, surgiram dificuldades que levantaram as suspeitas a que me referi.

“Aqueles que além de provocação e controvérsia criativa, atuam com austeridade e rígido controle orçamentário, em situações de crise econômica, social e politica e, produzindo como nunca, sabendo que ampliar a ação cultural é desejável e necessário quando as ameaças à sociedade são visíveis. ”  Não estará faltando um final para essa frase, Cleber? Aqueles que… o que? Você se esqueceu de terminar o pensamento, ou ficou perplexo consigo mesmo ao citar “ameaças visíveis à sociedade” quando essas ameaças não estão visíveis a não ser para você e seus companheiros carbonários?

“Temos que gritar no meio da arena: “Estamos no século 21”!”
Por que essa súbita gritaria, Cleber? Aliás esse deveria ser o seu grito de guerra quando você incendiava o Pará de modernidade !  Deve ter deixado muitos fã inconsoláveis à beira do Rio Negro…O que o século XXI tem  a ver com Theatro Muncipal, ao menos no contexto em que estamos dicutindo? Transparência e ética não são apanágio do século XXI, mas norte para pessoas sérias. Mas deixa isso para lá… Infelizmente é, sim, possível imaginar que pessoas  como o Papa “não sejam sérias ou capazes de investigar e relatar corretamente ” (sic) o que descobriram. Se o Theatro não fosse ético e sério, se fôssemos coniventes com maracutaia, você, Cleber, não estaria lendo as notícias a que se refere nos jornais.

O Ministério Público, no entanto, certamente é sério e capaz de descobrir e relatar exatamente o que aconteceu na administração da Fundação Theatro Municipal e apontar os erros e os responsáveis pelos mesmos. A verdade certamente virá à tona. O tempo da justiça, entretanto, não é o tempo dos blogueiros oportunistas que adoram ver o circo pegar fogo para vender o seu balde de água.

Tenho o irrefreável impulso de comparar o meu involuntário debatedor com um famoso personagem de uma novela muito popular, que se passava em uma cidade imaginária – Sucupira.  Não me lembro bem é do nome do personagem na novela: Odoleber Paraguapapa, não era mesmo esse o seu nome?

 

 

 

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Cultura e provincianismo

No segundo capítulo das considerações Papistas sobre o Theatro Municipal, vêm à tona dois conceitos: provincianismo e Cultura. Em meio a flores do lácio como a frase “não há prazer renitente em si mesmo” (espero viver e estudar mais uns anos para entender essa manifestação profunda sobre o hedonismo) Cleber me acusa de acusar a sociedade (!!!) de provincianismo.

Acho bom explicitar um pouco o que  considero ser provinciano: trata-se de uma percepção da realidade quase exclusivamente centrada no nosso umbigo. Quanto mais perto do nosso umbigo, melhor. Os problemas do mundo são reduzidos às questões da minha “aldeia” . Segundo o dicionário, trata-se da “devoção à própria província em detrimento da nação ( do mundo) como um todo”. Ter-se a si próprio como parâmetro, considerar-se independente do resto das manifestações culturais mundiais. Não observar o mundo que nos cerca, ou achar que este é sobretudo um perigo ao que fazemos no nosso quintal. Supervalorizar o nosso e menosprezar o outro. Ter medo ou receio da comparação com linguagens semelhantes ou alheias, e defender-se com o argumento de que “aqui é assim mesmo, não me interessa o que fazem os outros”. Uma das expressões que mais ouvi nesses anos e contra a qual mais me opus é a de que “para São Paulo está bom…”

Se não há provincianismo e isto é bom, não é mesmo o papel da Cultura, ampliar e favorecer os espaços criativos para que a arte se sobressaia?” Esta pergunta fundamental é uma das diatribes cometidas pelo escriba no seu segundo capítulo sobre o nosso Theatro. Nunca fui apresentado à Sra. Cultura nem tive a oportunidade de questioná-la sobre o seu papel ou sua função. “Se há provincianismo num determinado grupo e isto é ruim, não é exatamente o papel da Cultura fortalecer os processos de criação do próprio grupo para combate-lo?”  Dá para entender? Estamos lidando com uma “Cultura” como lidamos com os índios, Cleberson? Ela nos ajuda como uma funcionária qualificada? Quem é essa Sra. Cultura? Onde a encontramos? Estará disponível nestes momentos difíceis?

Mas Cleber Papa não para por aí: resolve fazer uma pequena digressão sobre o espetáculo, “sobre a criação coletiva da obra de arte”, aqui referindo-se naturalmente à ópera. Entendo a confusão mental do Papa – basta assistir à sua direção da ópera “Fosca” de Carlos Gomes  na Ópera da Bulgária  (disponível no Youtube) para entender seu estupor. Todo espetáculo que vai ao palco e que inclui vários profissionais é um espetáculo coletivo. Isso não faz dele, porém, uma criação coletiva de obra de arte. Verdi, Puccini, Wagner, Mozart, são criadores únicos e inimitáveis, que não necessitam de co-criadores. Basta respeitá-los,  agir com bom gosto e criatividade e cantar corretamente. Aliás é dessas “co-criações” que se tem reclamado tanto no mundo da ópera.

As denúncias de que, com “frequência indesejável” ( há uma frequência desejável,  Sr. Cleber?) houve reclamações sobre maus tratos, provém  justamente  do grupo do qual Papa é um dos vocalistas. Nenhuma delas foi comprovada. Os assuntos do Theatro Municipal interessam mais aos blogueiros e cogumelos do que os problemas das fábrica de automóveis ou de parafusos. As brigas entre artistas com egos pronunciados são mais frequentes e mais observadas  do que as entre enfermeiros no Hospital dos Servidores. Mas se houve greves de professores, greves de metroviários,  dos médicos em hospitais públicos, entre outras tantas, não houve nesses três anos nenhuma manifestação pública, nem greve dos artistas ou funcionários do TM ou da Fundação que o abriga. Houve, sim, manifestações esparsas e pessoais daqueles que, por razões artísticas ou administrativas foram justamente afastados. É o famoso “jus sperneandi”. Isso é esperado e com isso há que lidar de forma democrática e transparente.

“Esses fatos que ilustram o cenário do TMSP, em atos intermitentes, não pode ser assumida como uma sucessão de variáveis aleatórias independentes”. Com essa frase genial (deixei de fora partes da frase, que não alteram o seu sentido explícito nem melhoram o vernáculo) Cleber Papa termina o seu segundo capítulo. Sinto muito.

Citar abundantemente autores estrangeiros e escrever parágrafos que muitas vezes não fazem o menor sentido,  não transformam o  autor num cosmopolita nem num provinciano. Apenas o  transformam num pensador atordoado e confuso.  Eu nunca disse que a sociedade paulista ou brasileira é provinciana: Deus me afaste das generalizações ! Mas Cleber Papa e as pessoas que pensam como ele são, na minha visão, sim, profundamente provincianas.

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Cultura Brasileira em maus lençóis…

Resolvi tomar para mim a desagradável missão de debruçar-me sobre uma série de textos redigida pelo Sr. Cleber Papa sobre o Theatro Municipal, tanto no seu blog particular quanto em outro, denominado “opera e ballet”. Missão desagradável porque são textos mal redigidos, eivados de erros crassos de português,  e nos quais muitas vezes chega-se ao final de um parágrafo sem saber o que queria ser explicado no seu início.

Cleber Papa procura de todas formas, por meio de ensaios pseudo “eruditos”, desconstruir o que com tanto esforço e tenacidade estamos tentando construir no Theatro Muncipal de São Paulo. O meu blog me parece um espaço adequado para responder a tanta impropriedade.

O autor inicia a sua peroração falando sobre o “desprazer enorme que nos envolve” quando se fala do Theatro Municipal nos últimos três anos. Envolve a quem? Um grupo inominado que ele representa ? Ora, uma rápida verificação nos meios de comunicação nacionais e internacionais, uma descrição simples dos prêmios recebidos, seja da imprensa, seja do público, uma leitura das críticas (mais ou menos competentes) nas revistas e jornais brasileiros e estrangeiros, das matérias mais ou menos extensas publicadas nas revistas internacionais, demonstra que se há gente que sente desprazer em assistir aos nossos espetáculos (e ninguém aqui busca a unanimidade), a grande maioria do nosso público fiel (mais de 6000 assinantes em 2015) ficou satisfeita com o que viu e ouviu, demonstrando esse agrado de maneira insofismável ao final das funções. Portanto dizer que um “sombrio desprazer” envolve quem fala do nosso Theatro é no mínimo uma afirmação de quem nutre um sombrio preconceito contra os responsáveis pela administração da casa, ou almeja de todas as formas credenciar-se para ocupar o seu posto. (Como também se está credenciando, aliás, segundo me disseram, sem nenhuma expectativa de sucesso, ao cargo de Diretor Artístico do Teatro Nacional de São Carlos de Lisboa).

“Criadores foram afastados sistematicamente”. Gostaria, para minha mais completa informação, de saber quais os “criadores” que foram afastados. Como em todas as grandes empresas ( e o Theatro Municipal não deixa de ser uma grande empresa), funcionários que não se adaptam às regras de funcionamento definidas pela direção ou se afastam voluntariamente ou são afastados de forma legal. Foi isso o que se passou no Theatro, embora de nenhuma forma sistemática. Músicos, regentes, administradores, técnicos, iluminadores, ou outros empregados que não queriam seguir as regras impostas por uma direção que expôs claramente o caminho que queria seguir e a qualidade mínima que exigia de seus colaboradores, pediram afastamento, foram afastados ou aposentaram-se, quando o tempo de trabalho o permitia. Ninguém foi prejudicado por razões pessoais ou idiossincráticas. Visou-se sempre o aumento da qualidade e da produtividade.

Segundo Papa instalou-se no Theatro um “curso indesejado e perdulário”. Indesejado não ouso negar, porque os desejos do  Papa certamente não coincidem com os meus. Sobretudo no que diz respeito à qualidade artística. Mas perdulário? Qual a fonte na qual o escriba se apoia? Por acaso o Cleber conhece o orçamento da Fundação Theatro Municipal? Sabe se esse orçamento, comparado a outros  teatros internacionais (basta pensar no Teatro Colón de Buenos Aires) é exagerado? Sabe quanto desse orçamento é reservado à folha de pagamento (mais de 75%) ? Sabe quanto sobra do orçamento para a produção artística, depois de pagos os demais contratos (Praça das Artes, Escola etc)? Menos de 15%…  Estudou o Papa a relação custo/benefício da produção artística (preços dos ingressos, Municipal na Cidade etc) ? Pensou nos benefícios colaterais trazidos pela atuação do Theatro fora de sua sede? Contou os empregos diretos e indiretos ligados à nossa produção? Enfim, teremos oportunidade de voltar a discutir esses assuntos no decorrer destes posts.

O senhor Papa alega que uma “retórica inaceitável” (de quem, Cleber?) afirma que o Theatro já possui vários artistas nacionais. Isso é verdade: basta contar os músicos e coralistas para ver que o Theatro emprega muitos músicos nacionais. Mas não é só na orquestra e no coro- o é também nas produções líricas e nas produções de ballet, da direção e da criação dos espetáculos aos seus papéis principais ou menores, nos solistas e regentes da nossa temporada sinfônica  que empregamos inúmeros artistas nacionais. Até na escolha de títulos e obras a serem executadas. Onde está a “retórica inaceitável”?  Ou será que vamos nos pautar pela reserva de mercado, ou mesmo pelo sistema de cotas ?

Parece ainda que o senhor Papa se revolta por gerarmos empregos com remuneração elevada. Se os nossos músicos percebem hoje um salário parecido com os dos músicos da OSESP,  se o nosso Coral Lírico e o Coral Paulistano recebem mais do que o coro da OSESP, esta foi uma decisão tomada por essa direção. Se todos os nossos artistas já estão ou  estão em vias de serem celetizados, um sonho que os corpos estáveis e os técnicos acalentavam há décadas, essa foi uma decisão tomada por essa direção.Se os cachets pagos aos artistas, nacionais ou estrangeiros, respeitam estritamente os parâmetros do mercado nacional e internacional – afinal de contas, ninguém é obrigado a cantar no TM- essa, também, é uma decisão dessa direção. O Theatro Municipal, na nossa visão, é um teatro de chegada e não de partida. Para aqueles que  iniciam a carreira (embora tantos o tenham feito, justamente nesses últimos anos, no nosso Theatro) haverá sem dúvida uma série de outras oportunidades para lançar-se no mercado. Afinal todos, ou quase todos, começamos desse jeito.

Afirma o Sr. Papa que nossa “retórica inaceitável” “alega”  que ajustamos o presente, “como se o passado fosse desorganizado”. Pois é exatamente isso que fizemos, Cleber: encontramos um Theatro profundamente desorganizado, sem departamentos técnicos bem formados, sem uma Central Técnica, sem diretor de palco, sem produção própria, dependente técnica e economicamente de agentes externos, sem departamento de figurinos , sem iluminadores competentes, sem uma programação artística de longo prazo, sem assinaturas, com uma reforma do edifício parcial e insuficiente, sem contratos de manutenção para equipamentos de palco, com uma mentalidade de funcionários públicos que fazia com que as pessoas não rendessem o minimamente suficiente, com Corpos Estáveis que ensaiavam menos de uma vez por dia e culpavam a Prefeitura por uma relação trabalhista irregular, que os obrigava a ter 2 ou 3 empregos por fora, enfim… Eu poderia encher esse post com mais constatações dessa natureza, mas creio que o simples fato de termos posto a casa em ordem durante os três anos dessa direção contradiz frontalmente os argumentos  infundados do Sr. Papa. Declarações sem sentido como essas só o levam ao  descrédito. Podemos ( e devemos) discutir. Com conhecimento de causa e bom senso, o que parece não existir no criador da Opera Curta…

Em linguagem capenga, Cleber, finalmente afirma que jusfificam-se o desmandos no Theatro com uma propalada ascensão do Municipal a uma excelência internacional, (que ele denomina sarcasticamente de “maravilha mundial”, embora esse termo jamais tivesse sido utilizado por nós- nem pela Revista Opera inglesa, que nos trata com grande deferência em seu número de janeiro de 2015). Sempre afirmamos e continuamos a fazê-lo, que, a despeito das enormes dificuldades por que passa o país nesse momento, procuramos atingir uma excelência nas nossas produções líricas e sinfônicas comparável aos grandes teatros de grandes cidades como  São Paulo. Se não chegamos lá ainda, estamos no bom caminho. Só a excelência nos dá o direito de exigir respeito e apoio financeiro seja da Prefeitura, seja da sociedade civil.

A estética da fome, termo cunhado com propriedade por Glauber Rocha no cinema dos anos 60 e 70 não se aplica à  música de concerto e lírica. Essa linguagem é resultado de séculos de  aperfeiçoamento  cultural do mundo ocidental, do qual fazemos parte (ou queremos fazer ). Não podemos nem devemos adaptá-la a condições e características que nunca foram as suas. Podemos, sim, tentar enriquecê-la com contribuições e novidades, mas sempre respeitando a estrutura fundamental e a forma,  resultados de séculos de civilização.

Ignoro o que a confusão mental do Sr.Papa quer dizer com “viabilizar um processo cultural de dentro para fora”… Há dois parágrafos conceituais no texto do  Sr. Papa que são de tal forma tacanhos, na sua tentativa bisonha de definir o que é cultura, que prefiro me ater a fatos concretos. O Theatro Municipal não é o local adequado para experimentalismos meta-sociológicos. Para isso, o Sr. Papa deveria se dirigir a uma universidade. Duvido porém, que com seu discurso e seus erros de português, alguma o leve a sério.

Pois bem: finaliza o Sr. Cleber Papa-  e eu também as minhas considerações sobre este  capítulo obscuro e embrulhado- dizendo que o “insustentável, o descabido “(entre muitos outros adjetivos esbanjados por Cleber ) é verificar que tudo o que fizemos nestes três anos está errado, sem que se tome alguma atitude intervencionista. Que o que fizemos não interessa à Cultura Brasileira (assim mesmo, com maiúscula), como se a “Cultura Brasileira” fosse um fenômeno à parte do processo cultural geral do qual participamos voluntária ou involuntariamente.

Podemos perfeitamente discutir se está certa ou errada a forma de dirigir artisticamente o Theatro Municipal. O que não é possível, caro Papa, é expressar-se de forma tão simplória e simplista, sem conhecimento linguístico,  de detalhes do objeto em causa, com  pretensão teórica, descabida e ridícula. Assim,nesse nível ,a “Cultura Brasileira” estará em maus lençóis. Vamos acabar com uma ópera curta… e grossa.

 

 

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Delação ou Delação?

Outro dia a Presidenta  Dilma disse numa conferência de imprensa que não respeitava delatores. O mundo ( sobretudo os comentaristas da Globo e da Veja) caiu em cima dela. Todo mundo explicando que a delação premiada faz parte do nosso sistema legal, que isso não tem nada a ver com aqueles que delatavam no período negro da ditadura, enfim, só faltaram chamar Dilma de burra, inculta e despreparada. Pois eu me atrevo a defendê-la e defender a sua declaração, enfatizando os seguintes pontos: 1- Delação é delação, não importa se premiada ou não. O delator pode delatar por inúmeros motivos- covardia, medo, interesse, maldade, inveja, ciume, prazer, mau caráter, ou qualquer outro motivo que quiserem adicionar a esta lista. 2-  A premiação prevista na lei é no sentido de oferecer ao sujeito que delata uma pena mais branda do que aquela que na verdade mereceria. A delação na época da ditadura provavelmente livraria o delator da tortura e da possivel aniquilação física. É uma premiação e tanto. 3- Tanto hoje em dia quanto na época dos calabouços da ditadura houve gente que delatou e gente que se recusou a delatar, sofrendo todas as consequências de seus atos. Julgo que quem se recusou a delatar durante os anos de chumbo teve bem mais coragem e caráter do que os corruptos que sabem que não sofrerão nem uma pequena parte do que aqueles sofreram, se é que ainda estão aqui para contar… 4- A inversão de valores mais perversa é daqueles que procuram desvalorizar aqueles que, sob tortura e maus tratos, delatavam, para valorizar os sem vergonha que participaram de todas as maracutaias das operações lava jato e outras que tais, doleiros, deputados criminosos, lobistas sem vergonha, que não têm pejo algum de indiciar seus colegas de crime, para se livrar da pena que merecem. (que pena “mereciam” os que morreram ou que lutaram pela democracia nos anos 60 e 70 ?) Qual a delação mais abjeta? 5-Repito: delação é delação, por mais que essa esteja prevista nas leis. Durante a ditadura não havia leis que regulamentavam o que era delação. Havia prisão, tortura e morte. Os motivos da prisão eram outros, os crimes eram outros, e havia uma delação premiadíssima. embora não legal.. Certamente o que não havia era uma justiça regulamentada e respeitadora dos mínimos direitos humanos.  Hoje o que há são salafrários, corruptos que sem nenhum sentido de ética e caráter, delatam seus companheiros de crime, sem nenhum problema, a fim de “levar uma vantagem” na hora de prestar contas de suas maracutaias e roubos contra a nossa economia. Compreendo completamente a sua declaração, Presidenta, e acho vergonhoso a má fé ou a ignorância daqueles que a atacam porque aproveitam qualquer argumento para denegri-la.

Esclareço: não sou adversário da instituição legal da delação premiada, nem creio que Dilma Roussef o seja. Acho que essa instituição ajuda a desvendar casos que sem o auxílio destas seriam muito mais difíceis de solucionar. Não confundamos as bolas: uma coisa é o delator, qualquer que seja, o dedo duro ou ou qualquer outro e outra é a validade da delação como meio para chegar mais rápido e mais facilmente à solução de casos complicados. Creio que a Presidenta falava da figura do delator e é preciso não fazer ilações precipitadas. É difícil simpatizar com quem se aproveita de uma instituição perfeitamente legal para conferir legitimidade à sua falta de caráter.

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cadernos do ticino

Uma boa nova para quem gostar de ler e pensar literatura. Patrícia Melo acaba de inaugurar o seu blog- cadernosdoticino.wordpress.com , assim mesmo, sem espaço entre as palavras. Como conheço bem a autora, serei leitor assíduo de seus comentários…

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