Para inglês ver

O British Council, em parceria com o SESC e o BNDS organiza, pela terceira vez no Brasil, uma Conferência Internacional Multiorquestra, que dessa vez acontece em São Paulo. Convidado, pude participar da primeira mesa do evento, titulado música e diplomacia musical.

Fomos antecedidos por uma interessante palestra de Graham Sheffield, Diretor Geral de Artes do Conselho Britânico, em que, depois de criticar (com razão) as tentativas inócuas da Filarmônica de Nova Iorque de aproximação cultural na Coreia do Norte e da Orquestra do Marinsky com Gergiev em Palmyra na Síria (o que os sírios ou os coreanos do norte tiveram ou ganharam com isso?) falou quase que exclusivamente dos esforços empreendidos por algumas das orquestras inglesas em criar laços regulares com algumas comunidades não britânicas, Tokio, Paris, Dortmund entre outras, além de comentar também uma tentativa de levar a cultura orquestral inglesa à India, (o que a Império Britânico vem fazendo em outras áreas há séculos, com mais ou menos eficácia).

Citou ainda Aix-en-Provence e outros festivais célebres e terminou por dizer que o Brasil, país de dimensões continentais deveria ter mais circulação de suas tantas (!) orquestras. O papel da educação foi tratado lateralmente, mais como atuação paralela dos membros das orquestras quando das digressões.

Em seguida, no painel do qual fiz parte, meus colegas se estenderam mais ou menos sobre suas orquestras (Detroit), suas experiências vivenciais e subjetivas como músicos, e das interações diretas ou indiretas com o público.

Tenho algumas dúvidas sobre a eficácia de um tal encontro, por dois principais motivos:

1- Minha experiência em vários encontros dessa natureza, sejam nacionais, sejam internacionais (como exemplo o encontro anual da OLA (Opera Latino America) demonstram a impossibilidade de se colocar orquestras como a do Projeto Guri, a Neojibá da Bahia, a de Entrerios na Argentina, a OSESP, a Sinfônica Municipal, a orquestra de Detroit e a orquestra do Concertgebouw de Amsterdam debaixo de um mesmo guarda chuva. São realidades completamente diferentes, e objetivos completamente distintos.

2- Discutir assuntos tão diferentes como a função da arte (alguém perguntou a James Joyce por que escreveu ou qual a função social de “Ulysses”?, alguém pensou ou estudou Heidegger e a coisificação do ser?)) , música, orquestra e educação, engajamento com o público (quais públicos?), governança (palavra mágica), para quem estamos tocando ( !!! ) , repertório, espaços tradicionais e alternativos para a execução musical, relação músico/plateia, projetos sociais como o Projeto Guri e as necessidades da Orquestra de Mato Grosso, – tudo isso em assembleias que reúnem alunos, profissionais administrativos, diletantes, educadores, demanda uma organização segmentada do encontro, sob pena de tudo se transformar numa falação de caráter pessoal, institucional e sem sentido,

Saltou-me sobretudo aos olhos ( e ouvidos) o tom um tanto professoral e a proverbial visão da cultura e realidade europeia em nítido contraponto à realidade de nossas latitudes. Quiçá falta de vivência, quiçá falta de informação dos participantes estrangeiros, quiçá um pouco de prepotência ou falta de humildade (tanto minha quanto dos participantes/ouvintes), mas minha contribuição inicial ao painel causou certo espanto entre muitos dos participantes do encontro. É difícil explicar aos músicos europeus, egressos de uma das milhares de escolas de música e conservatórios do velho continente que ser músico no Brasil é, sim, uma condenação: tripla condenação, pela necessidade vital de seguir uma vocação que não nos deixa alternativas, pela dificuldade de formação no nosso país e pela enorme dificuldade de mera sobrevivência de nossa classe em nosso país.

Falar de orquestras no Brasil é falar de personagens diversos: dos privilegiados músicos da OSESP e do Theatro Municipal de São Paulo ou falar dos músicos da Sinfônica de Porto Alegre, do Recife ou das crianças do Neojibá na Bahia é falar de mundos tão distantes quanto falar da Filarmônica de Nova Iorque e da Filarmônica de Goiás.

O regente da Orquestra de Mato Grosso ( e Secretário Estadual da Cultura) encheu a boca ao relatar que seu estado, de uma riqueza invejável, tem a área de diversos países da Europa: Alemanha, Grã Bretanha e França juntas (se não me engano). Pois aí está a diferença de realidade de que falo: nesses três países europeus há centenas de orquestras, com milhares de postos de trabalho, orquestras boas, más, péssimas e excelentes. Em Mato Grosso há uma e ponto final. A qualidade não foi discutida, nem as razões centenárias para esse fato.

Invoca-se tanto as sábias palavras de Mário de Andrade, proferidas há quase um século- não queremos um país de gênios, mas um país de artistas. Um século depois continuamos a enfrentar os mesmos problemas endêmicos, que, ao sabor das conjunturas ou das recessões nos carregam da esperança à profunda depressão. Veja-se os problemas enfrentados pela Filarmônica de Minas Gerais – e vamos explicar isso com alguma lógica europeia para um diretor das orquestras da BBC…

Quanto à espaços, é mesmo verdade que novas salas de concerto e novos teatros têm ajudado a revalorizar áreas degradadas na Europa e nos USA. Aqui a Sala São Paulo, pensada justamente para valorizar uma área destruída, (juntamente com a Pinacoteca 1 e 2), continua a ser uma ilha no meio da cracolândia, e não fosse pelo seu estacionamento subterrâneo, teria grandes dificuldades para amealhar o seu público. O Theatro Muncipal de São Paulo é um monumento histórico no meio da mais profunda decadência social. Seu acesso é complicado, seu entorno um pátio de milagres, de prédios ocupados e homens desocupados, e ladrões de celulares.

E não adianta sociólogos e administradores artísticos virem ao Brasil nos contar das vantagens de se construir uma sala num bairro popular alemão. O Teatro ou a Sala de Concertos não terão nenhum significado de revitalização e revalorização do entorno enquanto as políticas públicas não vencerem o caos social em que nossas grandes cidades se encontram. Continuarão a servir aos 2% da sociedade que regularmente se sentam nas suas poltronas.

Certamente é louvável a iniciativa do British Council de organizar encontros como esse. Creio, porém, que o modelo desta reunião poderia ser mais eficaz e trazer mais conclusões e benefícios, produzir menos ânsia de conclusões generalistas, se as discussões fossem segmentadas em grupos menores, com mais tempo para reflexões específicas e discussões dirigidas. Um dos mais credenciados participantes estrangeiros deste encontro, ao se dirigir a mim depois do meu depoimento para dizer que concordava com muito do que eu disse, queixou-se do “spiritual bullshit” que tomou conta de alguns participantes que desconheciam por completo a nossa realidade.

Sinto-me, quando faço minhas interferências um tanto provocativas num ambiente que procura a concórdia e as generalizações, um pouco como diziam Raul Seixas/Paulo Coelho: eu sou a mosca que pousou na sua sopa, que está aqui para aperrear.

E esse papel não me deixa feliz.

Não adianta falar de democratização ao acesso, criação de novas plateias ou outros discursos generalistas, levando em consideração ao mesmo tempo a situação da centenária orquestra do Concertgebow, da Sinfônica de Mato Grosso, a OSESP e da Neojibá da Bahia. A nossa realidade não é o parlamento inglês – a presença de um parlamentar da Inglaterra no encontro é surpreendente e muito benvinda, mas acredito que se ele fosse visitar o nosso parlamento em Brasília e assistisse o circo de horrores no nosso legislativo, sairia bem mais informado do que é o Brasil.

A embaixadora da Áustria referiu-se a nosso Ministério da Cultura de forma nada lisonjeira, e eu concordo inteiramente com suas perplexidades depois de ter passado pela experiência desmotivadora do Projeto Alma Brasileira. Perplexidade que fica cada dia maior ao saber que as preocupações com a cultura do país serão encaradas como adendo ao Ministério da Educação no provável novo governo, um retrocesso sem tamanho em nossa pobre política cultural.

Vir ao Brasil emocionar-se com um concerto do Projeto Guri e depois voltar para tocar na Orquestra de Manchester é como fazer turismo na favela, ou viajar num programa de índio da FUNAI. Para inglês ver.

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