Ein Deutsches Requiem

Estamos nos preparando para apresentar o Requiem Alemão de Brahms no próximo fim de semana no Palco de São Paulo. Espanto-me sempre ao encontrar nesta obra um compositor tão clássico, um romântico tão incipiente… Trata-se de um requiem nada litúrgico, embora baseado em texto da bíblia luterana (Brahms dizia que era um requiem EM alemão, e não um requiem da nacionalidade…), composto quando Brahms tinha entre 33 e 35 anos- portanto não tinha atingido a maturidade sinfônico-romântica de suas obras mais tardias. Tinha acabado de perder a sua mãe, a quem era muito ligado, e Schumann, mentor e amigo, também faleceu por esta época. Espanta-me sobretudo porque não sendo um requiem litúrgico, sua estrutura seja tão tradicional, polifônica e contrapontística – fugas extraordinárias, nos lugares esperados dentro da peça e que mais raramente encontraremos no resto de sua obra. Ao mesmo tempo já podemos ouvir as largas melodias que tanto o caracterizarão mais tarde. É um Brahms sério, mais hamburguês do que vienense, mais alemão do que austríaco. Penso que se fosse composto na sua maturidade, Brahms poderia ter criado uma obra mais diferenciada nos seus movimentos. Mas quem somos nós para falar do gênio? O Requiem tem uma calma interior e, por isso mesmo, uma profundidade que talvez seja resultado exatamente da uniformidade com que o compositor fez questão de construir a obra.

Brahms com mais ou menos a idade com que escreveu o seu Requiem

Foto de John Neschling.

O coro é o protagonista do Requiem Alemão de Brahms. A obra tem um pouco mais de uma hora de duração e desta o coro canta bem uns 50 minutos! Além do coro há um barítono e uma soprano solistas ( no fim de semana ouviremos Albert Dohmen e Lina Mendes) com contribuições de muita expressividade, mas o coro é sem dúvida a grande estrela da obra.
A escrita de Brahms é contrapontística como nas grandes composições para coro de J.S. Bach, mas há momentos de grande lirismo que prenunciam sua veia melódica que virá à tona nas suas sinfonias e nas obras para piano. Brahms não era um homem religioso, a os textos que escolheu para o seu Requiem sublinham a humildade necessária para que o homem possa transcender a sua curta passagem por esta terra. O início da obra fala que abençoados são o que sofrem, pois eles serão consolados, fala dos que semeam lágrimas e que colherão alegrias. Já no último movimento do Requiem, quando volta ao tema do início (assim como Verdi no seu Requiem litúrgico), Brahms diz que abençoados são aqueles que morrem no Senhor, porque suas obras permanecerão. Enfim, uma visão humana do texto de Lutero, que pede ao Senhor quer nos ensine que nossa vida tem que ter uma finalidade, e que deveremos partir depois de entendê-la e persegui-la.
Um obra, como de resto quase toda a criação de Johannes Brahms, com mais lusco fusco, mais crepúsculo do que aurora, mais noite do que dia, mais frio invernal do que calor meridional, mais névoa do que sol brilhante.
Um desafio e tanto para o nosso grande Coro Lírico.

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João Batista, o apóstolo rubicundo, rides again !!!

João Batista, o apóstolo rubicundo, rides again !!!
Depois de receber uma portada na cara de Giancarlo del Monaco, o vejiático repórter não se deu por vencido: para gáudio de todos nós espectadores, mandou um segundo email a Giancarlo, naquele inglês que caracteriza sua fecunda cultura gaulesa, insistindo em conhecer o meu “modus operandi” (sic). Sua curiosidade não tem limites: sua santidade, sem obter sucesso no front investigativo do “mismanagement” quer saber se Giancarlo foi pago, se foi desrespeitado como artista e, curiosidade das curiosidades, se minha mulher, a escritora Patrícia Melo, uma das mais respeitadas romancistas do Brasil, se imiscuiu na sua direção. É mesmo preciso ser um gênio do jornalismo para achar que uma escritora premiada, traduzida em mais de 15 línguas, tem saco e sobretudo tempo para perder com a direção de alguém numa produção do TM. Mais ainda: o Sherlock da Abril tem o brilhante espírito dedutivo para concluir que eu, com meu proverbial temperamento de carneirinho, aceitaria a interferência de uma pessoa de fora no TM nos assuntos artísticos do Theatro. Mas, como disse, João Batista é mesmo genial e não se furta a esse acesso de fuçação (olha aí outro neologismo), característica da revista que com tanto garbo representa.
Coisa boa mesmo é que tenho muitos amigos por aí e esses emails não param de chegar…

Patrícia Melo na FLIP, discursando sobre como interferir na direção de Giancarlo del Monaco

Foto de John Neschling.
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João Batista e a IN-VEJA

Todos conhecem a minha proverbial simpatia pela Revista VEJA e pelo seu insigne jornalista João Batista, que já me deu muitas alegrias no passado. Pois é, nem bem me recupero do pequeno mal estar de que fui acometido ontem durante um concerto ( muitíssimo obrigado pelas inúmeras manifestações de carinho e apoio ), e já me divirto com o fantástico e super ético modo investigativo deste vejiano de carteirinha. Pensando que Gian Carlo del Monaco é meu inimigo “in secula seculorum”, o brilhante vejiático (hoje estou atacado pelos neologismos) escreve-lhe um email confidenciando que está escrevendo uma matéria sobre mim e suspeitas sobre minha “desgovernaça” (mismanagement), no Theatro Municipal.
Gian Carlo mais do que celeremente, e talvez conhecendo a reputação do vejômetro, mandou-nos cópia do e-mail que recebeu de João Batista com essas acusações mentirosas e a sua resposta – Gian Carlo nada mais, nada menos que fechou a porta na cara do apóstolo da VEJA.
Não satisfeito com essa santa cruzada na Itália, João Batista enviou o mesmo email para a Austrália, para minha ex-esposa, que prontamente reenviou o email para mim, indignada. Essa noite vai ser engraçada: quantos supostos inimigos vão me informar dessa santa investida, cujos e-mails só mudam o nome do destinatário? “Ma che barbaro appetito” como diria Leporello…
O que me diverte mais são esses truques do apóstolo. Está em curso toda uma investigação do Ministério Público sobre a administração do TM, e que indicará, sem sombra de dúvida os malfeitos cometidos por quem quer que seja. Como se não tivesse sido eu mesmo quem advertiu o Prefeito de que alguma coisa andava podre no reino da Praça Ramos, já no ano passado – sem se dar ao trabalho de verificar que a administração artística respeitou estritamente o orçamento que nos foi concedido.
Judas, (ops) João Batista da nova e reformulada (para que?) Igreja Vejiana, vai atrás de meus supostos inimigos, sem estar nem um pouco atualizado. Eu poderia facilitar muito o seu trabalho: nossa lista de inimigos é proporcional à nossa competência e nossa capacidade de trabalho. Mas confesso que é muito mais divertido assistir como essa gente se arranja sozinha.

Foto de John Neschling.
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Meus dois Mestres

Coincidência ou não, destes próximos dois programas que vou fazer com a Orquestra Sinfônica Municipal no Theatro Municipal constam obras de dois de meus compositores favoritos: Gustav Mahler e Richard Strauss. Praticamente contemporâneos (Mahler teve uma vida mais curta que Strauss e faleceu em 1911 enquanto Strauss sobreviveu pouco à segunda grande guerra, morreu em 1949), a música que compuseram, genial em ambos os casos, me parece extremamente diferente. Tão diferente, para começar, quanto as personalidades dos dois criadores.

Strauss foi durante toda sua vida um homem aparentemente muito ligado a uma burguesia de classe média, ciente das aparências, um pouco chegado ao álcool, aficionado pelo jogo de “skat, que assinava “Dr. Richard Strauss”, como que querendo afirmar o seu pertencimento a uma burguesia orgulhosa de seus títulos acadêmicos. Casado com um cantora lírica, sua vida matrimonial sempre aparentou uma tranquilidade que não era bem a verdade. Ambivalente por sua adesão formal ao Terceiro Reich, (foi presidente da Câmara Musical do Reich durante anos), deixou a Alemanha antes do final da guerra para se fixar na Suíça e enfrentou um processo de “desnazificação”, que foi, no seu caso, bastante simplificado. A proteção que ofereceu à sua nora, judia (seus netos são judeus, embora nunca tivesse assumido essa condição) durante todos os anos do nazismo talvez tenha sido importante no processo. Inicialmente um compositor arrojado e até por vezes atacado por seu “modernismo”, escreveu obras desbravadoras como Salome e Elektra, para depois voltar-se definitivamente a uma linguagem tonal pós-romântica extremamente sofisticada. Sua colaboração com alguns dos os maiores escritores da época (Hoffmannsthal, Oscar Wilde, Stefan Zweig), além de iluminar a sua aguda percepção estética e sua cultura literária, rendeu óperas em que o texto literário é celebrado com uma naturalidade nunca antes vista na lírica. O casamento de seus libretos com a sua música é um fenômeno particular que mereceu e ainda merece estudo especial.

 

Já Gustav Mahler foi, ao menos na aparência, uma figura muito mais dilacerada psicologicamente que seu contemporâneo. Não fazia parte da grande burguesia vienense, nem sua família tinha ligação com o meio musical da cidade. Enquanto o pai de Strauss tinha sido trompista na orquestra da Ópera de Munique, Mahler provém de uma família judia da Boêmia, então parte do império austro-húngaro. A primeira língua que aprendeu a falar foi o ídiche, chegou a Viena praticamente maduro, sofreu (sim, esta é a palavra certa) um casamento conturbado com Alma Schindler, a jovem mais cobiçada da Viena da época, afilhada de um pintor importante do naturalismo pós romântico austríaco, perdeu uma filha, converteu-se ao cristianismo, por um lado para ser aceito pela “burguesia” vienense e poder assumir a direção da Ópera de Viena, por outro por uma propensão ao misticismo grandioso típico do final do século “vitoriano”, teve problemas sexuais e criativos explícitos, que chegou a discutir numa longa sessão de análise que teve durante um passeio de horas com Freud (a única sessão que Freud lhe concedeu), adoeceu cedo, sofreu com a doença, a infidelidade e o antissemitismo da própria mulher (estranhamente infiel com outros judeus !). Caráter autoritário e amante do isolamento na natureza para compor, foi o típico artista extravagante do “fin-de-siècle” , ao contrário de Strauss, que compunha onde pudesse e evitava qualquer extravagância.

O que os aproximava é que ambos eram grandes regentes, admirados e paparicados durante toda a sua vida. Entretanto, enquanto Strauss já era admirado pelas suas composições, Mahler teve que amargar profundas críticas e distanciamento da classe musical, e só veio realmente a ser reconhecido como gênio da composição mais para o fim da primeira metade do século XX, especialmente a partir dos anos 60, embora tivesse tido grandes apoiadores que executavam regularmente suas obras, como foi o caso de Bruno Walter. Leonard Bernstein foi o maestro que o recolocou no lugar que merece no panteão dos maiores sinfonistas da história, o que Strauss nunca chegou a ser.

 

Ambos, porém, eram frutos da tradição musical da Alemanha e Áustria, e portanto “filhos espirituais” de Mozart e Haydn, sem dúvida os marcos mais importantes da evolução do estilo da música da Europa Central nos séculos XVII e XVIII. Na obra dos dois encontra-se facilmente a influência desses antecessores, seja na linguagem dos concertos de Strauss e nas suas óperas, como na música sinfônica de Mahler (pensem no segundo movimento da sua Segunda Sinfonia, que executamos esse fim de semana). Toscanini costumava fazer o gesto de levantar o chapéu quando percebia a presença de um outro compositor numa obra que estivesse regendo. Aqui seria o caso de cumprimentar Haydn com um grande aceno de saudade.

 

Preciso esclarecer que as considerações sobra a música desses dois grandes mestres são fruto exclusivo de minha experiência como maestro e de décadas de contato com a criação destas excepcionais figuras da história da música. Sinto-me parte de suas famílias espirituais a ponto de às vezes, numa prepotência involuntária, achar que fiz parte de suas criações. Tenho muito mais facilidade para compreender e aprofundar-me numa ópera ou peça sinfônica de Strauss e uma sinfonia de Mahler do que com uma obra de Prokofief, Berlioz ou Debussy. Talvez por minhas raízes austríacas, talvez por meu DNA familiar que tanto me liga à cultura centro-européia do fim século XIX e da música do século XX, minha intimidade com suas linguagens tem algo de extra-musical, uma irmandade de alma difícil de compreender. E no entanto, seus discurso sonoros são tão diferentes…

 

Richard Strauss é um mestre da pureza e do essencial. Mahler é o mestre do exagero e da expressão aumentada, como se vista por uma lupa. Strauss é de uma clareza absoluta, de uma limpeza brilhante como uma taça de prata lustrada ao máximo. Mahler não se importa com essa clareza, importa-lhe mais a sensação do melodramático, a grandiloquência. Se Strauss procura o homem comum nas suas obras, o herói anônimo, a descrição de cenas familiares banais e transforma essa busca em obras perfeitas na sua forma e concisão, Mahler procura o personagem de Nietzsche, na sua febre de misticismo procura o homem transcendental. Os textos na música de Strauss são sofisticados ao extremo, mas claros e diretos como peças independentes de literatura, quando não o são verdadeiramente (Hesse e Eichendorff, nas suas quatro últimas canções ou Stefan Zweig/Kraus em Capriccio), enquanto os textos de Mahler quase sempre são herméticos, esotéricos, ou mesmo baseados na poesia chinesa de antigas dinastias (Das Lied von der Erde), um exercício de poetizar a linguagem de forma a transcender a literatura e dotar a sua música de uma metafísca inexistente em Strauss. Para os que conhecem bem a poesia da época, se Strauss é, entre outras, a expressão musical de Hesse e Hoffmannsthal, Mahler, por sua vez, é a expressão de Stefan George, e de seu misticismo, seu simbolismo extremado.

 

A polifonia de Strauss é o resultado de séculos de evolução do contraponto na Europa, uma técnica admirável e perfeita, a realização final do grande artesanato que começa com Bach e tem um de seus ápices com ele mesmo. Em Mahler a polifonia é a natureza que nos cerca, são os pássaros, as bandas de música que soam ao longe, é o Klezmer que invade a orquestra, são os “Posthorn” criando uma nostalgia quase cinematográfica, tudo soando concomitantemente, numa polifonia divina e sobre humana. Em Mahler, é o “ländler” ou o scherzo maníaco. Strauss privilegia a valsa dos salões com todo o seu bom comportamento burguês.

 

Se o mestre de Munique se aproxima da morte (Morte e Transfiguração, Metamorfoses, 4 últimas canções) com uma singeleza de quem viveu e sabe que um mundo foi destruído pelo próprio homem, mas que conserva o humor, o sorriso e a esperança, Mahler celebra a morte como mais uma missa, mais um passo metafísico em direção a uma transcendência desconhecida mas constantemente pressentida. Strauss encara a proximidade da morte como um projeto de vida, Mahler encara a morte como uma passagem para a ressurreição.

 

 

 

 

 

 

 

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Uma Sinfônica Municipal revigorada

Ontem, durante o ensaio que fizemos, a Orquestra SInfônica Municipal e eu, da Segunda Sinfonia de Mahler que iremos apresentar no Theatro Municipal de São Paulo nos dias 13 e 14 de fevereiro, dei por mim mesmo espantado com a qualidade do conjunto. Acostumado a ouvir a orquestra constantemente, creio que fui me habituando ao seu extraordinário crescimento qualitativo. Mais tarde, em casa, pensei que poderíamos tranquilamente arriscar uma tournée europeia ou americana, sem temer as comparações e os preconceitos que ainda cercam as orquestras sul americanas.

Há muitos anos atrás fiz um trabalho no mesmo sentido com outra orquestra paulista, que encontrei em estado de decomposição. 12 anos mais tarde a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) era considerada uma das melhores orquestras da América Latina ( eu não conhecia outra com a mesma qualidade) e uma das orquestras em ascensão no panorama sinfônico mundial ( Revista Gramophon ). No meu livro “Música Mundana” conto, com detalhes, a construção desse projeto e as dificuldades que tivemos que enfrentar ao quebrar e estabelecer novos paradigmas de qualidade no nosso meio musical. A realidade econômica e política era outra e as circunstâncias completamente diferentes das que nos encontramos hoje em São Paulo e no Brasil.

Naquela altura foi feito um trabalho radical: testes para todos os músicos da antiga orquestra – os testes não eram obrigatórios para aqueles músicos que decidiram continuar com os mesmos salários e com os mesmos horários de trabalho, praticamente formando uma orquestra B. (Minha teoria de que uma orquestra sem qualidade, sem disciplina e sem público não teria capacidade de sobrevivência e significaria uma enorme desperdício de verba pública, foi amplamente confirmada na realidade: pouco tempo depois essa Orquestra B foi desmantelada, sem prejuízo algum para nossa sociedade) .

Uma sala, projetada para ser a sede da orquestra, foi  construida na antiga Estação Julio Prestes e transformou-se num ícone das salas sinfônicas no mundo, invejada por grande parte das orquestras por sua acústica e acomodações para os músicos. Os salários foram reajustados de forma a serem atraentes para qualquer músico europeu ou americano e a oferecer aos músicos brasileiros a possibilidade de viver exclusivamente do seu trabalho na orquestra,  sem a necessidade de apelar para bicos ou casamentos, e outras atividades paralelas. (Devo dizer que embora os salários tivessem sido aumentados, os músicos continuaram a fazer os mesmos bicos de sempre…) Uma conjuntura econômica extremamente favorável permitiu que esses gastos fossem possíveis e uma equipe competente formada ad-hoc administrou o projeto de forma que, poucos anos após o nascimento do projeto, a orquestra contasse com um público numeroso e fiel, viajasse pelo mundo com críticas espetaculares ( quem sabe até devido à surpresa de se deparar com um conjunto sinfônico de tal qualidade de onde menos se esperava), gravasse CDs por uma casa discográfica internacional com prêmios que a distinguiam, enfim, foi a criação de uma nova orquestra a partir de uma orquestra decadente e sem qualidade.

Outras tentativas foram feitas nos anos que se seguiram no sentido de dotar mais capitais brasileiras de orquestras de grande qualidade: algumas foram bem sucedidas, como a Filarmônica de Belo Horizonte (espero que se mantenha viva e pujante nesses tempos complicados politica e economicamente), que usou métodos parecidos dos que implantamos na OSESP, outras foram desastradas e mal encaminhadas, como foi o caso da OSB no Rio de Janeiro, que a pretexto de emular o trabalho que fizemos na OSESP, usaram de métodos autoritários, injustos, descabidos para acabar tendo que administrar  duas orquestras, agora sem maestro, salários defasados e sem garantias de futuro.

Na Bahia um projeto singular me chama a atenção e entusiasma sobremaneira: o Projeto NEOJIBA, cujo criador, Ricardo Castro, inspirou-se no SISTEMA Venezuelano, vem atraindo as atenções não só do Brasil, mas sobretudo do exterior, para onde o conjunto já viajou mais de uma vez, tocando em salas míticas da Europa, com solistas como Martha Argerich. É um projeto que me enche de esperança e que, sob o comando de gente competente e dedicada, e com o justo aporte governamental, seguindo uma política cultural positiva e bem enunciada, pode dotar o nosso país de uma realidade sinfônica que até hoje, mesmo com as orquestras profissionais existentes, nem sonhamos.

A grande maioria das demais orquestras brasileiras continuam sobrevivendo da forma que podem e que lhes é possível. Muito dessa situação deplorável é culpa de uma política cultural tacanha e pouco inteligente, muito é culpa  dos responsáveis pelas administrações dos conjuntos, que aceitam as limitações para manterem os seus postos e muito dos próprios músicos que não se organizam para demandar uma realidade melhor e mais digna.

O trabalho que venho fazendo com a Orquestra Sinfônica Municipal é bem distinto do que fiz com a OSESP. Há três anos, encontrei uma orquestra montada, com alguma qualidade e com muitos defeitos, com uma estrutura administrativa capenga, com salários defasados e pouco espírito de corpo, com um horizonte artístico inexistente. Evidentemente não podia nem queria tomar as mesmas medidas que havia tomado na OSESP, onde a situação era muito mais desesperadora. As decisões foram tomadas pouco a pouco, e sempre com a preocupação de envolver os próprios músicos e sua comissão nas decisões mais drásticas, como afastamento de certos integrantes e outras decisões que eram fundamentais para o progresso artístico e administrativo do grupo. Também, no início de minha atuação, uma conjuntura favorável e um governo decidido a implementar melhorias no Theatro ajudaram de forma decisiva para que o projeto avançasse. A atualização dos salários para níveis semelhantes aos da OSESP e a celetização de toda a orquestra também foram ações que injetaram ânimo e entusiasmo no conjunto. A abertura de vagas para novos integrantes e a severidade das audições de recrutamento que trouxeram ao grupo músicos de grande competência e qualidade serviram para elevar substancialmente a qualidade sonora e o virtuosismo da OSM.  E, não menos importante, uma disciplina de trabalho rígida e horários de trabalho racionais e necessários para uma produção mais fluente fizeram o resto.

Mas ainda me espanto com a qualidade da OSM. Há muito tempo não ouço a OSESP nem ao vivo nem em gravações. Quero crer e desejar que ela tenha mantido o nível de qualidade ao qual a alcei quando me retirei da sua Direção Artística. O que posso assegurar, no entanto, é que temos hoje em São Paulo uma outra orquestra com o mesmo nível da OSESP e que é certamente das melhores orquestras latinoamericanas (continuo sem conhecer outras orquestras latinoamericanas com a nossa qualidade). Por isso desejo ardentemente que a conjuntura político e econômica nos permita continuar no nosso caminho da excelência (essa palavra tão vilipendiada), e que possamos, no futuro gravar e mostrar, no exterior, o nível invejável que alcançamos em 3 anos (!!!) de trabalho árduo.

 

 

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Pílulas cinematográficas e Regina Casé

Como cinéfilo sou uma espécie de turista acidental. Minha cultura cinematográfica parece mais um queijo suíço. Passo meses, anos mesmo, sem ir ao cinema, embora me interesse sempre pelas produções novas. Estes dias, no meu retiro espiritual, resolvi pôr em dia, ao menos um pouco, minha lacuna nesse sentido e assisti a um monte de filmes,  sempre ao final de dias de intenso estudo e leitura.

Comecei por assistir a alguns indicados ao Oscar desse ano, mas confesso que a necessidade quase maníaca dos diretores de rechear os filmes de violência explícita, como se isso fosse nos trazer para mais perto da realidade, causou-me tanta repulsa que quase perdi a vontade de continuar a assistir as obras em questão. O melhor dos roteiros, a melhor das fotografias, sucumbe aos litros de sangue, intestinos expostos, rostos explodidos, membros amputados, tudo isso embrulhado por câmera excepcional, um cuidado com detalhes, que, ao fim e ao cabo, parece-me não ter outro sentido a não ser “épater le bourgeois” de forma perfeitamente bem acabada.

Assim sobrevivi a “Regresso” e ao útimo filme de Tarantino. Os momentos de prazer e de interesse foram amplamente superados pelo desejo de virar a cara ante a violência que me era servida.

Para quem se interessa por economia, finanças e mercado, aconselho um filme, “Big Short”, que conta com humor, didatismo inteligente e uma edição moderna e dinâmica,a história da grande crise de 2008 nos EEUU, da bolha imobiliária que quando explodiu levou-nos todos à situação em que nos encontramos até hoje, e como algumas pessoas inteligentes e mais ou menos honestas souberam prevê-la e lucrar com ela.

“Joy”, um filme baseado numa história real de uma senhora de classe média americana que inventa um escovão especial para limpar a cozinha e o banheiro e que, após ter que se ver com a máfia ávida em roubar-lhe a patente, se dá bem e enriquece, é, na minha opinião, por mais que se esforce em mostrar, com certo humor, o mercado americano de venda de artigos pela televisão, um passatempo agradável, e não muito mais que isso.

A partir daí fui me refestelar um pouco na latinidade e assisti um filme argentino sensacional: “Relatos Salvajes”, 6 curtas que contam com humor e surrealismo situações limítrofes a que é empurrado o cidadão comum ao enfrentar o absurdo do dia a dia. Um filme imperdível, com brilhantes atuações individuais e um roteiro criativo e bem contado.

Já quando fui ver “História Oficial”, um dos icones da produção cinematográfica argentina, acabei por ver um filme datado em todos os sentidos, inclusive na música, que se insere na película de forma conservadora, que lembra na sua estrutura o tema de “love story”: melado, feito para emocionar os incautos. Ao menos disso, tenho certeza que entendo…

“Nueve Reinas” é uma boa trama, às vezes tão complicada e sofisticada que a gente se perde (odeio esses filmes que nos levam num redemoinho de ação e de informações cifradas a um final glorioso, sem que você não tenha entendido nada…). Não é o caso de Nueve Reinas, que nem tem meios técnicos para concorrer com nenhum Matrix da vida. Mas quando nem sempre o interesse é mantido,  a boa atuação dos protagonistas vale o esforço de tentar entender a trama até o seu inesperado final.

Agora o que mais me encantou e surpreendeu nessas jornadas cinéfilas: assisti com prazer imenso o filme de Ana Muylaert, ” A que horas ela volta “. Muylaert demonstra uma delicadeza incomum ao tratar de um assunto que sempre foi tabu na nossa sociedade de classe média, a relação quase escravagista que se mantinha com as “empregadas” que dormiam “no serviço”. No meu  entender esse filme dificilmente poderá ser entendido em todas as suas sutilezas por uma sociedade que desconhece essa cultura urbana da classe média abastada brasileira, sobretudo carioca e paulista. A importação de mão de obra do norte e nordeste, sua pretensa inserção na “família”, sua prepotência disfarçada, sua “bondade liberal”, todos os disfarces usados com a maior naturalidade para manter em casa um serviçal obediente e cordato. Muylaert  cria uma situação de confronto quando uma dessas “empregadas”, a serviço dos patrões por quase 20 anos, inesperadamente recebe a visita de sua filha, que vem do nordeste prestar vestibular na FAU. Com a chegada da filha, que a princípio se hospeda na casa dos patrões, instala-se um clima de desconforto, de mal-estar, de hipocrisia, que ilustra de forma excepcional a relação “casa grande e senzala” em que nos encontramos até pouquíssimo tempo atrás se é que não nos encontramos ainda, em muitos casos, e a incipiente consciência das mudança sociais que vivemos.

Um filme muito especial, emocionante, verdadeiro, com absolutamente nada de apelativo. Não procura libelos ideológicos, não exagera nas tintas. Discreto, de bom gosto em todos os momentos em que poderia resvalar para o lugar comum, nos mantém presos, sempre com um sorriso, meio de apreciação e meio de culpa. Gostaria de falar mais dessa joia do cinema nacional, mas preciso falar de Regina Casé.No papel da empregada Val, leva o filme nas costas do princípio ao fim, sem um momento de pieguice, sem um resvalo no lugar comum, com uma verdade física e linguística admirável. Detalhes mínimos na sua atuação, um gesto, um olhar, uma respiração são frutos de um virtuosismo de atriz que raramente se encontra. Enfim, uma das grandes atuações que tenho visto nos últimos anos, seja no cinema ou no teatro, seja no Brasil ou fora. Regina Casé é a minha candidata ao Oscar de melhor atriz, e o leva ” de boa”, como ela se expressa no filme. Um presente para todos nós. Não sei o que seria do filme sem a Regina nem, sei o que seria da Casé sem esse filme para coroar a sua vida de brilhante atriz.

 

 

 

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Odoleber

Sigo aproveitando os parágrafos misteriosos do papismo para explicitar algumas questões que creio ser de interesse geral. Mas não consigo ignorar o fato de que este intelectual quase anônimo (deve estar adorando os cinco minutos, ou capítulos, de glória que lhe estou oferecendo de graça, antes que volte ao lugar que sempre ocupou na lírica internacional, especialmente a da Bulgária) pareça fascinado pelo “trabalho coletivo”… Na sua estranha forma de se comunicar, Papa diz que o Theatro Municipal (sic) é um trabalho  coletivo. Meu querido amigo, deixe-me aclarar uma coisa: o mundo é coletivo. Não sei como você define o seu trabalho na ópera grossa – ops, desculpe, curta, mas não será tampouco o bloco do eu sozinho, não é? O resto do seu parágrafo, sinto muito, mas não entendi…

O Diretor Artístico do Theatro Municipal  efetivamente não tem nada a ver com os processos de contratação dos artistas que convida para participar das temporadas lírica e sinfônica. A contratação e os pagamentos relativos competem ao Instituo Brasileiro de Gestão Cultural, OS, entidade privada que tem um contrato com a Prefeitura de São Paulo exatamente para gerir  o Theatro em todas as suas áreas e atividades. O Diretor Artístico, que jamais assina  cheques, apresenta um orçamento  e este orçamento é aceito ou não pela administração. Se for aceito, o departamento artístico tem que se ater a esse orçamento a ferro e fogo. Foi exatamente o que foi feito. Até o final da temporada de 2015 os orçamentos para a produção artística foram rigorosamente e comprovadamente respeitados  (na verdade gastou-se até um pouco menos do que se poderia nas produções realizadas). Para 2016 já está orçada a temporada, com garantias de que poderá ser realizada com o orçamento previsto.

Portanto, a Direção Artística, como bem lembra Cleber, sabe exatamente o quanto gasta, tem uma equipe competente que administra, produz, ensaia etc, e o público, as publicações e os números da bilheteria atestam se o trabalho teve êxito ou não. Não há muita discussão- o resultado está no palco e no fosso. E aí, meu caro, gosto não se discute. Mais: em 2015, a Direção Artística , ao ser informada das dificuldades de caixa, e sendo obrigada a cancelar ou adiar produções,  sem entender direito a razão da penúria, apressou-se em comunicar às instâncias superiores, chegando até o Prefeito da Cidade, que algo  estranho estava acontecendo na administração, uma vez que a realidade não batia com as contas. E foi a partir do Gabinete do Prefeito que teve início uma investigação pelo Ministério Público. O que aconteceu a partir daí, ficamos todos sabendo pelos jornais.

Nunca houve problemas de vaidade ou imposições de caprichos egóicos na direção artística do Theatro Municipal. Houve, sim, e sempre, princípios de qualidade a serem seguidos e exigências de disciplina artístico-administrativa a serem respeitadas. Quando isso não ocorreu, surgiram dificuldades que levantaram as suspeitas a que me referi.

“Aqueles que além de provocação e controvérsia criativa, atuam com austeridade e rígido controle orçamentário, em situações de crise econômica, social e politica e, produzindo como nunca, sabendo que ampliar a ação cultural é desejável e necessário quando as ameaças à sociedade são visíveis. ”  Não estará faltando um final para essa frase, Cleber? Aqueles que… o que? Você se esqueceu de terminar o pensamento, ou ficou perplexo consigo mesmo ao citar “ameaças visíveis à sociedade” quando essas ameaças não estão visíveis a não ser para você e seus companheiros carbonários?

“Temos que gritar no meio da arena: “Estamos no século 21”!”
Por que essa súbita gritaria, Cleber? Aliás esse deveria ser o seu grito de guerra quando você incendiava o Pará de modernidade !  Deve ter deixado muitos fã inconsoláveis à beira do Rio Negro…O que o século XXI tem  a ver com Theatro Muncipal, ao menos no contexto em que estamos dicutindo? Transparência e ética não são apanágio do século XXI, mas norte para pessoas sérias. Mas deixa isso para lá… Infelizmente é, sim, possível imaginar que pessoas  como o Papa “não sejam sérias ou capazes de investigar e relatar corretamente ” (sic) o que descobriram. Se o Theatro não fosse ético e sério, se fôssemos coniventes com maracutaia, você, Cleber, não estaria lendo as notícias a que se refere nos jornais.

O Ministério Público, no entanto, certamente é sério e capaz de descobrir e relatar exatamente o que aconteceu na administração da Fundação Theatro Municipal e apontar os erros e os responsáveis pelos mesmos. A verdade certamente virá à tona. O tempo da justiça, entretanto, não é o tempo dos blogueiros oportunistas que adoram ver o circo pegar fogo para vender o seu balde de água.

Tenho o irrefreável impulso de comparar o meu involuntário debatedor com um famoso personagem de uma novela muito popular, que se passava em uma cidade imaginária – Sucupira.  Não me lembro bem é do nome do personagem na novela: Odoleber Paraguapapa, não era mesmo esse o seu nome?

 

 

 

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