A invasão dos jovens maestros (1)

 

Um fato notável no caso de maestros é que até os anos 50 do século passado praticamente não existiam cursos sistemáticos de direção de orquestra nas escolas de música e nos conservatórios. A carreira era um longa vivência na profissão de correpetidor de ópera nas casas líricas, até que se recebesse a oportunidade de reger récitas ( geralmente sem ensaios). A carreira de regente sinfônico era paralela à de regente lírico, ou acontecia quando os compositores regiam as suas próprias obras, como nos casos paradigmáticos de Mahler e Richard Strauss. A partir dessas oportunidades os aspirantes a regente se afirmavam ou não, continuavam,  progrediam e eventualmente se transformavam em grandes estrelas no mercado musical. Wolfgang Sawallich, Bruno Walter, Georg Solti, Leonard Bernstein etc eram, como sabemos, grandes pianistas e grandes acompanhadores, quase sempre  como consequência de sua atuação prévia como correpetidores. Riccardo Muti, Michael Tilson-Thomas e muitos outros maestros da atualidade também são exímios pianistas, na tradição dos maestros do passado.

A partir da segunda metade do século XX as grandes academias de música e os conservatórios europeus e logo em seguida os conservatórios e universidades americanas instituiram a cadeira de regência, empreendimento logo estendido às centenas de escolas de música menores no continente europeu e americano. Surgiram os primeiros grandes professores de regência mundo afora : Hans Swarowsky em Viena, Franco Ferrara em Roma e em Siena foram os primeiros grandes professores. Swarowsky fez surgir Zubin Mehta, Claudio Abbado, Sinopoli entre outros e Franco Ferrara revelou Riccardo Muti, Myung-wung Chung, Riccardo Chailly e muitos mais.

Grandes concursos de regência como o Concurso Mitropoulos de Nova Iorque, o Concurso Karajan em Berlim e o Concurso Cantelli no Scala de Milão ajudavam a lançar no mercado nomes de jovens talentosos, que porém nem sempre correspondiam às expectativas no decorrer de suas carreiras.

Hoje em dia há mais professores de regência no mundo do que concursos, embora esses ainda sobrevivam, sem os efeitos de outrora. A cada ano as escolas de música no mundo despejam centenas de jovens Furtwänglers no mercado, todos absolutamente convencidos de sua genialidade e seu futuro estelar. E todos brigando desesperadamente pela sua chance de provar o seu talento e seu carisma especial. Não há orquestras em número suficiente no mundo para contratar esses milhares de jovens maestros, ávidos por sua primeira oportunidade. Porque o maestro não é como o instrumentista : o pianista precisa de um piano para demonstrar cabalmente a sua arte, o violinista de um violino, que carrega consigo, e mesmo o tubista, que geralmente é tão grande quanto o seu instrumento, é capaz de por à prova o seu virtuosismo com certa facilidade. O maestro, entretanto necessita de… uma orquestra, ou ao menos de um grupo razoável de músicos para tentar provar, (se estes o permitirem) a sua capacidade.

E este pequeno comentário é fundamental : se estes o permitirem. Porque o maestro não produz som algum. Depende daqueles que o produzem, de sua boa vontade e, sobretudo, de sua capacidade de produzi-lo com alguma qualidade. E como os jovens maestros carecem de experiência, nem sempre a equação dá certo.

E justamente porque os maestros não produzem som algum é que outros atributos vão determinar o seu futuro. Quais seriam essas qualidades ?

Não percam o próximo episódio desta empolgante história.

Mas porque resolvi me estender sobre esse assunto ? Porque essa semana receberemos no Theatro Municipal o jovem regente Piero Lombardi, 26 anos de talento e energia. Piero é uma fascinante mistura de nacionalidades : sueco, italiano, espanhol, suiço e otras que desconheço. Sei, no entanto da sua capacidade de fazer música com entusiasmo e qualidade.  Vale a pena conferir . Além de uma terceira sinfonia de Brahms, Piero acompanhará um grande nome de nossa música : Nicolau Figueiredo, cravista de renome, num concerto pouquíssimo executado nos noss palcos. Trata-se do concerto para cravo e orquestra de Francis Poulenc, um joia denominada  « Concerto Campestre ». E ainda tem mais…

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para A invasão dos jovens maestros (1)

  1. Renato Coimbra Schmidt disse:

    “Hoje, existe uma mania para a modernização de casas de ópera, mas um fator muito mais preocupante do que instalações inadequadas é o sempre menor número de maestros que cresceram na ópera e que são capazes de conseguir excelentes performances por completo (all-around). E uma das razões para a influência crescente dos diretores de palco é o talento decrescente dos diretores musicais. Os maestros de ópera de verdade de minha geração Karajan, Giulini, Kempe, Keilberth, Krips, Fricsay, Leinsdorf e mais alguns, eu inclusive – ou desapareceram ou estão com mais de 80 anos. Carlos Kleiber, Lorin Maazel, Colin davis, Charles Mackerras, Claudio Abbado, Zubin Mehta e Bernard Haitink estão em seus 60 e setenta anos; James Levine, Daniel Barenboim e Ricardo Mutti estão pelos 50 anos, e Ricardo Chailly em 40 e poucos. Eu dou boas vindas com grande alívio a chegada de Valery Gergiev, que cresceu dentro da tradição de ópera no Teatro de Ópera Mariinsky (Kirov) de São Petersburgo e meu assistente anterior em Salzburg, Philippe Augin, que agora é diretor musical em Braunschweig, e logo em Nuremberg, onde esperançosamente se tornará um “Meisterconductor”. Há também Franz Welser-Möst e Danielle Gatti, assim sou bastante positivo sobre a continuidade da tradição operística”.

    “Um bom diretor de uma grande companhia de ópera precisa de muito mais qualificações do que talento musical, e a mais importante delas é a capacidade organizacional, porque mesmo a tarefa básica de planejar uma temporada engloba elementos bastante complicados. A escassez de cantores internacionais, por exemplo”, dificulta a manutenção de padrões. Com menos cantores o planejamento é mais essencial para conseguir os melhores cantores que tem suas agendas concorridas……Nenhum diretor musical deveria ter medo de escalar um jovem cantor em um papel maior. Um bom exemplo foi o meu casting de Angela Georghiu como Violetta em minha produção de La traviata em 1995….Em um grande conjunto, um segundo elenco e dois ou três in house conductors devem estar à mão para quaisquer emergências. Idealmente, os cantores jovens que ficam na reserva deveriam poder cantar algumas das apresentações subsequentes…

    “No início do Século XX, os diretores de palco e de cenário eram completamente subordinados aos maestros como Mahler e Toscanini, que tinham a palavra final em tudo. A situação mudou após a Segunda Guerra, quando os grandes maestros de ópera se concentraram no repertório sinfônico, se aposentaram ou morreram: Toscanini, Walter, Klemperer, KLeiber e Victor de Sabata todos eles desapareceram gradualmente do poço da orquestra. Embora isto tenha dado oportunidades maravilhosas aos novo, nós não tínhamos a autoridade da antiga geração. Os diretores de palco rapidamente ocuparam o que foi o território dos grandes regentes”…..O aspecto visual da ópera foi revitalizado. Mas a revitalização logo virou provocação. Algumas das abominações que vão ao palco hoje me entristecem….A solução não está em um retorno às produções naturalistas, as quais não são mais aceitáveis; o que nós precisamos são de produções que tenham imaginação e que estejam no espírito da música. Nos últimos dez anos eu tenho visto algumas novas produções nas quais o diretor parecia envergonhado com da música e pensava que ele podia melhorá-la.”
    [em Geog Solti, Memórias. A. A. Knopf, Nova Iorque, 1997, página 151].

    Mahler e Strauss tiveram suas carreiras de regentes de província, também e não eram regentes apenas de suas obras como o maestro deixou claro em todo o seu texto. Se a memória não me falha, para poderem assistir ensaios na Ópera de Viena, que eram fechados, Mehta e Abbado fizeram prova para ingressar no Coral da Ópera (e entraram) para poder aprender com os grandes regentes dentro da grande tradição, como foi escrito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s