Ein Deutsches Requiem

Estamos nos preparando para apresentar o Requiem Alemão de Brahms no próximo fim de semana no Palco de São Paulo. Espanto-me sempre ao encontrar nesta obra um compositor tão clássico, um romântico tão incipiente… Trata-se de um requiem nada litúrgico, embora baseado em texto da bíblia luterana (Brahms dizia que era um requiem EM alemão, e não um requiem da nacionalidade…), composto quando Brahms tinha entre 33 e 35 anos- portanto não tinha atingido a maturidade sinfônico-romântica de suas obras mais tardias. Tinha acabado de perder a sua mãe, a quem era muito ligado, e Schumann, mentor e amigo, também faleceu por esta época. Espanta-me sobretudo porque não sendo um requiem litúrgico, sua estrutura seja tão tradicional, polifônica e contrapontística – fugas extraordinárias, nos lugares esperados dentro da peça e que mais raramente encontraremos no resto de sua obra. Ao mesmo tempo já podemos ouvir as largas melodias que tanto o caracterizarão mais tarde. É um Brahms sério, mais hamburguês do que vienense, mais alemão do que austríaco. Penso que se fosse composto na sua maturidade, Brahms poderia ter criado uma obra mais diferenciada nos seus movimentos. Mas quem somos nós para falar do gênio? O Requiem tem uma calma interior e, por isso mesmo, uma profundidade que talvez seja resultado exatamente da uniformidade com que o compositor fez questão de construir a obra.

Brahms com mais ou menos a idade com que escreveu o seu Requiem

Foto de John Neschling.

O coro é o protagonista do Requiem Alemão de Brahms. A obra tem um pouco mais de uma hora de duração e desta o coro canta bem uns 50 minutos! Além do coro há um barítono e uma soprano solistas ( no fim de semana ouviremos Albert Dohmen e Lina Mendes) com contribuições de muita expressividade, mas o coro é sem dúvida a grande estrela da obra.
A escrita de Brahms é contrapontística como nas grandes composições para coro de J.S. Bach, mas há momentos de grande lirismo que prenunciam sua veia melódica que virá à tona nas suas sinfonias e nas obras para piano. Brahms não era um homem religioso, a os textos que escolheu para o seu Requiem sublinham a humildade necessária para que o homem possa transcender a sua curta passagem por esta terra. O início da obra fala que abençoados são o que sofrem, pois eles serão consolados, fala dos que semeam lágrimas e que colherão alegrias. Já no último movimento do Requiem, quando volta ao tema do início (assim como Verdi no seu Requiem litúrgico), Brahms diz que abençoados são aqueles que morrem no Senhor, porque suas obras permanecerão. Enfim, uma visão humana do texto de Lutero, que pede ao Senhor quer nos ensine que nossa vida tem que ter uma finalidade, e que deveremos partir depois de entendê-la e persegui-la.
Um obra, como de resto quase toda a criação de Johannes Brahms, com mais lusco fusco, mais crepúsculo do que aurora, mais noite do que dia, mais frio invernal do que calor meridional, mais névoa do que sol brilhante.
Um desafio e tanto para o nosso grande Coro Lírico.

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