Autodafe 3

Um dos temas no qual vejo mais malentendidos e desinformação por parte dos que pensam e escrevem sobre o mundo do teatro e da ópera é o da relação agente/artista.

Qual a razão para eu trazer este assunto à baila ? Ele integra a série Autodafe que venho publicando aqui e no meu blog, uma vez que foi tema da delação premiada de José Luiz Herência, que confessadamente provocou um rombo de milhões de reais no Theatro Municipal.

A figura do agente é tão antiga quanto a mais antiga das profissões. Desde que o artista se profissionalizou, desde que passou a receber uma retribuição pelo seu trabalho, desde que foi desejado por mais de uma arena, por mais de um nobre, de uma corte, de um palco, por mais de um teatro, por mais de uma instituição, a figura do agente surgiu como seu representante – um intermediário que negocia o seu cachê, que discute com o artista a propriedade ou não de uma aparição pública, de determinado repertório, e que o defende frente a possíveis problemas com o contratante.

Houve época em que empresários poderosíssimos,  representantes dos mais importantes nomes do show business, tinham uma influência enorme na carreira dos artistas, com poder de barganhar com as instituições: um toma lá, dá cá. Saul Hurok nos Estados Unidos talvez tenha sido o maior deles. Sua vontade era lei no show business. Alguns reinaram até há poucos anos, como Ronald Wilford e Joan Holender.

Esses tempos passaram. Hoje as instituições culturais sérias  se pautam pela transparência dos contratos, consideram a opinião de seus colegas e da orquestra em relação aos artistas que contratam, pautam-se pelo mercado nacional e internacional, e os agentes importantes da atualidade tiveram que se adequar a essa realidade.

Suas empresas são verdadeiros supermercados da arte, com centenas de co-agentes e agenciados, listas intermináveis de cantores, instrumentalistas, maestros, diretores de cena e outros mais. Eles oferecem seus catálogos como produtos numa feira, que os promotores/teatros contratam ou não, de acordo com seus projetos artísticos, suas programações e os seus orçamentos.

O grande capital do agente de hoje em dia é a sua credibilidade. Muitos agentes vendem gato por lebre, exploram os produtores nos cachês. O bom agente se confirma quando pensa nas duas partes:  a do teatro, com sua proposta estética e sua realidade financeira e a do artista que deve ser bem colocado no mercado, para que possa seguir sua carreira sem percalços.

O promotor, da sua parte, precisa conhecer muito bem o mercado para que não seja enganado ou trapaceado. Nenhum promotor sério trabalha duas vezes com um agente que lhe vende má qualidade.  E todos os contratantes procuram trabalhar com agentes de confiança, que lhes apresentam artistas de qualidade por preços condizentes com o mercado.

O mercado é um regulador no meio artístico tanto quanto o é na venda de geladeiras ou automóveis. Artistas têm preços que variam de acordo com sua formação, trajetória, qualidade, fama, o país e teatro em que se apresentam e o repertório que executam. Não há o que discutir. Ou se paga ou não se paga. Quem quer contratar, por exemplo, Maurizio Pollini, sabe que pagará por ele um preço muito diferente do que pagaria a um jovem pianista, recém-ingressado no show business.

Há ainda a categoria dos agentes/empresários, que produzem espetáculos, tournées de artistas, grupos ou orquestras. Esse profissional também tem sua atividade regulada pelo mercado, pois sua credibilidade e permanência nos teatros dependem da qualidade de seus projetos, dos seus artistas, dos teatros com os quais trabalha e do preço que cobra ao contratante.

De qualquer maneira, e em todos os casos, os agentes de hoje em dia, grandes ou pequenos, mais ou menos poderosos, não têm nem de longe o poder dos grandes empresários do passado. Não constroem mais carreiras, não impõem mais artistas, não obrigam ninguém a contratar quem quer que seja. Vivem das comissões em cima do cachê dos artistas que vendem, que variam de maneira geral entre 10 e 12%, e da credibilidade que angariam na sua trajetória. Quem decide a contratação é o promotor, o teatro, a orquestra, a sociedade de concertos.

Marta Argerich, Nelson Freire, entre outros grandes nomes, não precisam de um agente que « faça » a suas carreiras – trabalham com quem quiserem e quando quiserem. E o regente de uma orquestra do interior da Brasil, a não ser que seja extraordinário, não fará carreira, por mais que bajule ou corrompa o agente mais prestigioso do mundo.

Quando um promotor/ teatro encontra um agente com quem trabalha bem, em quem pode confiar, é normal que passe a trabalhar mais intensamente com ele, respeitando as normas da casa, assim como é mais do que normal que um engenheiro escolha artesãos com quem colabora com base no histórico de bom atendimento nas suas colaborações passadas. A televisão austríaca trabalha sempre com os mesmos cameramen na transmissão dos eventos de esporte de inverno. A confiança é, sim, um fator importantíssimo numa colaboração a longo prazo, seja onde for.

O que não pode haver é falta de transparência e ilicitude nessas colaborações. E desonestos estão em qualquer lugar : na administração, na arte, no esporte, na construção civil ou na rua.

O Theatro Municipal trabalhou nos últimos três anos com quarenta e sete agentes de todo o mundo. Alguns são meus amigos, outros conheço superficialmente e muitos nunca conheci. Nenhum dos agentes estrangeiros com quem o Theatro Municipal colaborou durante a minha direção artística teve mais do que 12% de participação no total de contratados. Já agentes brasileiros tiveram uma parcela um pouco maior.

Finalmente, é preciso entender que diretores artísticos, que dirigem instituições importantes, quase sempre são artistas e também se apresentam no seu país e no exterior.  Por isso, muitas vezes colaboram com agentes que eventualmente trazem artistas para seus teatros. Esse é o meu caso. As instituições que dirigimos têm duas opções: exigir que abdiquemos completamente de nossas carreiras durante a nossa gestão, o que praticamente não ocorre no mercado internacional, ou compreender que o trabalho do diretor artístico, seu prestígio, conhecimentos e suas performances levam o nome da instituição a outros países, e contribuem decisivamente para o engrandecimento da própria instituição com seus contatos e seu prestígio. Essa é a prática das grandes instituições.

Nos meus 50 anos de carreira trabalhei com um sem número de agentes e empresários, alguns durante mais tempo, outros eventualmente. Alguns estão na lista dos agentes com quem o Theatro colaborou neste últimos três anos.

É verdade que um agente pode fazer muito por um  artista iniciante: afinal ele ainda não é conhecido no mercado, precisa de alguém que o apresente com credibilidade e que busque oportunidades.

Um regente de 70 anos, como é o meu caso, não necessita de um agente nesse sentido – meu capital é o nome que construi durante essas 5 décadas de trabalho ininterrupto em todo o mundo, meu prestígio e minha qualidade como músico. E isso, aliás, também fez com que eu tivesse poder para atrair grandes nomes para a OSESP e que o tenha para programar o Theatro Muncipal. Certamente, não foi o delator José Luiz Herência quem conseguiu trazer a São Paulo Maria José Siri, Stefano Poda, Gregory Kunde, Ambrogio Maestri, entre tantos outros.

Nenhum artista de qualidade atravessa a rua e muito menos o oceano para trabalhar numa instituição sem prestígio ou por um cachê não condizente com o seu mercado.  Quando assumi a OSESP, ela não era minimamente conhecida e respeitada nem nacional nem internacionalmente. Quando assumi a direção artística do Theatro Municpal, este estava completamente alijado da rota dos grandes teatros líricos do mundo.

É preciso considerar que o Brasil, como mercado, tem características complicadoras: um cantor de ópera ou um solista europeu se apresenta em diversas casas ao mesmo tempo, podendo ganhar muito mais dinheiro em muito menos tempo.  Aqui, ele não tem essa possibilidade. Participar de uma produção em São Paulo significa ficar de 3 a 4 semanas na cidade, o que o faz ser mais exigente quanto à qualidade da casa, caches, orquestra e repertórios. É nesse sentido  que o prestígio, a trajetória e o projeto de um diretor artístico podem ser decisivos na construção de uma casa como o Municipal. E a maneira de se fazer isso, aqui e no mundo todo, é através de bons agentes. Bons agentes que trazem bons artistas e que também passam a se interessar pelos artistas brasileiros que se apresentam no palco de São Paulo. Rodrigo Esteves, durante sua apresentação do Othelo, foi convidado, por um agente italiano, a se apresentar no festival de Ópera de Verona.

O Brasil conhece muito pouco essa realidade. Infelizmente, há poucos artistas brasileiros que se inseriram no mercado internacional. Nelson Freire, Antonio Menezes, Ricardo Castro, Eliane Coelho, Isaac Karabtchevsky, e outros ainda são a grande exceção.

Talvez seja pela ignorância dessa realidade complexa e peculiar, ou ainda por má fé e vingança, como no caso do delator com o intuito de reduzir a sua pena, que se afirme ou que se pense que é através de corrupção ou de conluio desonesto que se consiga o reconhecimento internacional.

Se assim fosse, seria fácil ser um bom artista e ter fama e prestígio. Bastava um empréstimo no Banco do Brasil.

 

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