Dois teatros, duas realidades

Li com curiosidade o artigo de João Luiz Sampaio no Caderno Aliás desse domingo. Pareceu-me mais uma discussão tautológica, do que uma verdadeira tentativa de entender as crises enfrentadas pelos Theatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Sinto-me um pouco deslocado quando ouço alguém perguntar para que serve a ópera. Não vejo ninguém por aí perguntando para que serve a poesia. Acho complicado reduzir a arte a uma função social, e creio que as perguntas colocadas pelo jornalista acabam levando para uma discussão reducionista acerca de um registro artístico.
A primeira impropriedade do texto, ao meu ver, é tratar os dois teatros como se fossem a mesma coisa, sendo que, o que temos em comum é a histórica dificuldade de nossas administrações públicas para enfrentar o dever de criar modelos contemporâneos e eficientes de administração dos nossos teatros; uma administração que independa das vogas políticas e que sobreviva a mandatos. Temos também em comum a cultura administrativa do país, que não permite o planejamento a longo prazo, que confunde o privado com o público, e que vê a alta cultura como apanágio de privilegiados, não merecedora sequer dos parcos recursos que recebe.
Aí terminam nossas semelhanças. Até mesmo na crise somos distintos.
Não preciso defender nem explicar o que está acontecendo na antiga Capital da República e no Estado do Rio de Janeiro, sabidamente falido. Ignoro se, como João Luiz afirma, João Guilherme Ripper empurra as dívidas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para a frente. Mas certamente não se pode acusá-lo por falta de planejamento. Ripper montou uma bela temporada e foi atropelado pela crise, que o obrigou a cancelar projetos que tinham sido garantidos por diversas fontes oficiais.
Nosso caso, em São Paulo, é bem diferente. Não fossem os malfeitos da administração passada, eu diria que passaríamos com tranquilidade por esse momento tão adverso da economia, graças ao apoio que a Prefeitura nos garantiu, desde o início da 2013. Acho que, sem o saque promovido pelos ex-diretores, nada teria que ser cancelado, exceto o projeto Alma Brasileira- não por nossa causa, mas pela paralisia burocrática do MINC.
Foram muitas as nossas conquistas nesses três anos, que João Luiz deveria considerar:
1-A celetização dos Corpos Estáveis do Theatro de São Paulo. Nossos artistas a esperavam há mais de 30 anos…
2 – A melhora sistemática e consistente na qualidade da Orquestra Sinfônica Municipal, que hoje em dia alcançou níveis semelhantes ao da OSESP, após apenas 3 anos de trabalho.
4- A criação de departamentos de criação na casa, inexistentes por décadas e a habilitação do Theatro Municipal para produzir com as próprias forças os seus espetáculos.
4- A qualidade das produções líricas dos últimos três anos e meio, durante a nossa direção artística, não pode e não deve ser ignorada. Passamos de um teatro de limitado reconhecimento a um patamar que nos permitiu ser capa da Revista Opera Internacional e que nos possibilitou trazer a São Paulo alguns dos maiores nomes da lírica mundial. Nossas produções mereceram comentários elogiosos na revista Opera News, em em vários jornais da América Latina e da Europa. Isso certamente não é pouco. Vale lembrar que sempre respeitamos rigorosamente o orçamento destinado à produção artística, modesto se comparado com o orçamento de grandes casas líricas na Europa ou mesmo ao do Teatro Colón, numa Argentina também problemática.
Dizer que o Theatro Municipal de São Paulo tem dificuldade de produzir ópera simplesmente não é verdade. Entre 2013 e 2016, o Municipal de São Paulo produziu ópera, sim, e de grande qualidade.
Para que serve a ópera? Para quem ela é feita? As perguntas que o jornalista coloca no seu blog já foram mais do que respondidas por dezenas de casas de ópera no mundo inteiro que continuam a produzir grandes espetáculos para casas lotadas . E foram também respondidas por nós mesmos, no Theatro Municipal nos últimos três anos.
Imagino que João Luiz Sampaio, ao levantar essas questões, está apenas mostrando sua perplexidade. Não vejo outra razão para tratar o problema de forma tão generalista.
Também não acho elegante da parte de João Luiz, que conhece e acompanha o meu trabalho desde a época da Osesp, igualar-me à pessoas confessadamente desonestas, e transformar os artigos que escrevo “ numa troca de acusações e insinuações ”.
É evidente que seria muito mais agradável para mim, em vez de ter que esclarecer pessoalmente questões importantes da nossa crise, vê-las esclarecidas por jornalistas inteligentes como ele, através de um trabalho investigativo, sem preconceitos ou idiossincrasias.
Se uso meu blog e o meu facebook para me defender, é porque existem profissionais que, diferentes de João Luiz, estão mais interessados em atacar do que em entender o que se passa no Theatro.
Se João Luiz Sampaio acha existe foro mais apropriado para esta discussão, só o que posso garantir é que ele terá a minha colaboração desde que me sejam dadas garantias de poder me expressar livremente sem a censura imposta por uma edição parcial ou preconceituosa.

Foto de John Neschling.
Foto de John Neschling.

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