Meus dois Mestres

Coincidência ou não, destes próximos dois programas que vou fazer com a Orquestra Sinfônica Municipal no Theatro Municipal constam obras de dois de meus compositores favoritos: Gustav Mahler e Richard Strauss. Praticamente contemporâneos (Mahler teve uma vida mais curta que Strauss e faleceu em 1911 enquanto Strauss sobreviveu pouco à segunda grande guerra, morreu em 1949), a música que compuseram, genial em ambos os casos, me parece extremamente diferente. Tão diferente, para começar, quanto as personalidades dos dois criadores.

Strauss foi durante toda sua vida um homem aparentemente muito ligado a uma burguesia de classe média, ciente das aparências, um pouco chegado ao álcool, aficionado pelo jogo de “skat, que assinava “Dr. Richard Strauss”, como que querendo afirmar o seu pertencimento a uma burguesia orgulhosa de seus títulos acadêmicos. Casado com um cantora lírica, sua vida matrimonial sempre aparentou uma tranquilidade que não era bem a verdade. Ambivalente por sua adesão formal ao Terceiro Reich, (foi presidente da Câmara Musical do Reich durante anos), deixou a Alemanha antes do final da guerra para se fixar na Suíça e enfrentou um processo de “desnazificação”, que foi, no seu caso, bastante simplificado. A proteção que ofereceu à sua nora, judia (seus netos são judeus, embora nunca tivesse assumido essa condição) durante todos os anos do nazismo talvez tenha sido importante no processo. Inicialmente um compositor arrojado e até por vezes atacado por seu “modernismo”, escreveu obras desbravadoras como Salome e Elektra, para depois voltar-se definitivamente a uma linguagem tonal pós-romântica extremamente sofisticada. Sua colaboração com alguns dos os maiores escritores da época (Hoffmannsthal, Oscar Wilde, Stefan Zweig), além de iluminar a sua aguda percepção estética e sua cultura literária, rendeu óperas em que o texto literário é celebrado com uma naturalidade nunca antes vista na lírica. O casamento de seus libretos com a sua música é um fenômeno particular que mereceu e ainda merece estudo especial.

 

Já Gustav Mahler foi, ao menos na aparência, uma figura muito mais dilacerada psicologicamente que seu contemporâneo. Não fazia parte da grande burguesia vienense, nem sua família tinha ligação com o meio musical da cidade. Enquanto o pai de Strauss tinha sido trompista na orquestra da Ópera de Munique, Mahler provém de uma família judia da Boêmia, então parte do império austro-húngaro. A primeira língua que aprendeu a falar foi o ídiche, chegou a Viena praticamente maduro, sofreu (sim, esta é a palavra certa) um casamento conturbado com Alma Schindler, a jovem mais cobiçada da Viena da época, afilhada de um pintor importante do naturalismo pós romântico austríaco, perdeu uma filha, converteu-se ao cristianismo, por um lado para ser aceito pela “burguesia” vienense e poder assumir a direção da Ópera de Viena, por outro por uma propensão ao misticismo grandioso típico do final do século “vitoriano”, teve problemas sexuais e criativos explícitos, que chegou a discutir numa longa sessão de análise que teve durante um passeio de horas com Freud (a única sessão que Freud lhe concedeu), adoeceu cedo, sofreu com a doença, a infidelidade e o antissemitismo da própria mulher (estranhamente infiel com outros judeus !). Caráter autoritário e amante do isolamento na natureza para compor, foi o típico artista extravagante do “fin-de-siècle” , ao contrário de Strauss, que compunha onde pudesse e evitava qualquer extravagância.

O que os aproximava é que ambos eram grandes regentes, admirados e paparicados durante toda a sua vida. Entretanto, enquanto Strauss já era admirado pelas suas composições, Mahler teve que amargar profundas críticas e distanciamento da classe musical, e só veio realmente a ser reconhecido como gênio da composição mais para o fim da primeira metade do século XX, especialmente a partir dos anos 60, embora tivesse tido grandes apoiadores que executavam regularmente suas obras, como foi o caso de Bruno Walter. Leonard Bernstein foi o maestro que o recolocou no lugar que merece no panteão dos maiores sinfonistas da história, o que Strauss nunca chegou a ser.

 

Ambos, porém, eram frutos da tradição musical da Alemanha e Áustria, e portanto “filhos espirituais” de Mozart e Haydn, sem dúvida os marcos mais importantes da evolução do estilo da música da Europa Central nos séculos XVII e XVIII. Na obra dos dois encontra-se facilmente a influência desses antecessores, seja na linguagem dos concertos de Strauss e nas suas óperas, como na música sinfônica de Mahler (pensem no segundo movimento da sua Segunda Sinfonia, que executamos esse fim de semana). Toscanini costumava fazer o gesto de levantar o chapéu quando percebia a presença de um outro compositor numa obra que estivesse regendo. Aqui seria o caso de cumprimentar Haydn com um grande aceno de saudade.

 

Preciso esclarecer que as considerações sobra a música desses dois grandes mestres são fruto exclusivo de minha experiência como maestro e de décadas de contato com a criação destas excepcionais figuras da história da música. Sinto-me parte de suas famílias espirituais a ponto de às vezes, numa prepotência involuntária, achar que fiz parte de suas criações. Tenho muito mais facilidade para compreender e aprofundar-me numa ópera ou peça sinfônica de Strauss e uma sinfonia de Mahler do que com uma obra de Prokofief, Berlioz ou Debussy. Talvez por minhas raízes austríacas, talvez por meu DNA familiar que tanto me liga à cultura centro-européia do fim século XIX e da música do século XX, minha intimidade com suas linguagens tem algo de extra-musical, uma irmandade de alma difícil de compreender. E no entanto, seus discurso sonoros são tão diferentes…

 

Richard Strauss é um mestre da pureza e do essencial. Mahler é o mestre do exagero e da expressão aumentada, como se vista por uma lupa. Strauss é de uma clareza absoluta, de uma limpeza brilhante como uma taça de prata lustrada ao máximo. Mahler não se importa com essa clareza, importa-lhe mais a sensação do melodramático, a grandiloquência. Se Strauss procura o homem comum nas suas obras, o herói anônimo, a descrição de cenas familiares banais e transforma essa busca em obras perfeitas na sua forma e concisão, Mahler procura o personagem de Nietzsche, na sua febre de misticismo procura o homem transcendental. Os textos na música de Strauss são sofisticados ao extremo, mas claros e diretos como peças independentes de literatura, quando não o são verdadeiramente (Hesse e Eichendorff, nas suas quatro últimas canções ou Stefan Zweig/Kraus em Capriccio), enquanto os textos de Mahler quase sempre são herméticos, esotéricos, ou mesmo baseados na poesia chinesa de antigas dinastias (Das Lied von der Erde), um exercício de poetizar a linguagem de forma a transcender a literatura e dotar a sua música de uma metafísca inexistente em Strauss. Para os que conhecem bem a poesia da época, se Strauss é, entre outras, a expressão musical de Hesse e Hoffmannsthal, Mahler, por sua vez, é a expressão de Stefan George, e de seu misticismo, seu simbolismo extremado.

 

A polifonia de Strauss é o resultado de séculos de evolução do contraponto na Europa, uma técnica admirável e perfeita, a realização final do grande artesanato que começa com Bach e tem um de seus ápices com ele mesmo. Em Mahler a polifonia é a natureza que nos cerca, são os pássaros, as bandas de música que soam ao longe, é o Klezmer que invade a orquestra, são os “Posthorn” criando uma nostalgia quase cinematográfica, tudo soando concomitantemente, numa polifonia divina e sobre humana. Em Mahler, é o “ländler” ou o scherzo maníaco. Strauss privilegia a valsa dos salões com todo o seu bom comportamento burguês.

 

Se o mestre de Munique se aproxima da morte (Morte e Transfiguração, Metamorfoses, 4 últimas canções) com uma singeleza de quem viveu e sabe que um mundo foi destruído pelo próprio homem, mas que conserva o humor, o sorriso e a esperança, Mahler celebra a morte como mais uma missa, mais um passo metafísico em direção a uma transcendência desconhecida mas constantemente pressentida. Strauss encara a proximidade da morte como um projeto de vida, Mahler encara a morte como uma passagem para a ressurreição.

 

 

 

 

 

 

 

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Uma resposta para Meus dois Mestres

  1. Renato Coimbra Schmidt disse:

    É sempre bom poder ler um texto com esta qualidade e emoção. Porque não li comentários dos músicos, aí vai um.

    Strauss pode ter ido para a Câmara Musical do Reich também por conta de sua preocupação com a questão dos direitos autorais, os quais ele defendia desde muitos anos antes e porque as coisas poderiam ser ainda piores sem ele. Strauss seria apenas tolerado por Goebels, enquanto não nascesse uma nova música alemã. O regime queria mais a fama do que a música do compositor. A questão de Strauss e o Reich não é preto no branco, e não livrou a sua família de perseguições, tendo o compositor para que sua nora não fosse presa dependido do favor de dois admiradores que eram nazistas, um deles condenado a 20 anos de prisão e outro, à morte no tribunal de Nuremberg.

    Neste ponto financeiro parece existir mais um contraste (e semelhança com o passar do temo entre Strauss e Mahler. Mahler deixou de receber parte de direitos autorais em uma renovação de contrato, cedendo-os à sua editora para que ela realizasse uma edição das sinfonias de Bruckner, compositor respeitado por Mahler. Por outro lado Strauss era, com razão, bastante cioso do aspecto financeiro devido pelo trabalho autoral. Mas não a ponto de, mesmo quando necessitando recursos em 1945 (ele chegou a vender manuscritos de sua obra para se sustentar) recusou 20 mil libras pelos direitos de filmagem de Salome ou Rosenkavalier oferecidos pelo diretor de cinema Alexander Korda, que não garantiu que as obras permanecessem sem cortes ou inalteradas (Tim Ashley, livro Richard Strauss).
    Assim com esta recusa apesar de sua necessidade, nos anos finais da vida, pode ser que Strauss lembrasse, como em Morte e Transfiguração, “as horas finais de um homem que lutou pelos objetivos idealistas mais altos, talvez sem dúvida aqueles do artista” . Já no finalzinho da vida ele disse para sua nora “Coisa engraçada Alice morrre é do jeito que eu compus em Morte e Transfiguração.

    Como há autores que falam do Schopenhauer que está oculto no poema sinfônico, cabe um trecho de Schopenhauer em A Metafísica da morte:
    “Com a razão apareceu, necessariamente entre os homens, a certeza
    assustadora da morte. Mas, como na natureza, a todo mal sempre é dado um
    remédio ou, ao menos, uma compensação, então a mesma reflexão, que
    originou o conhecimento da morte, ajuda também nas concepções metafísicas
    consoladoras, das quais o animal não necessita, nem é capaz. Sobretudo para
    esse fim estão orientadas todas as religiões e sistemas filosóficos, que são,
    portanto, antes de tudo, o antídoto da certeza da morte, produzido pela razão
    reflexionante a partir de meios próprios.”

    Mas voltando à relação eles, Strauss e Mahler se conheceram em Leipzig em 1887. Em carta ao maestro Hans Von Bulow, Strauss disse haver conhecido um músico de alta inteligência. Do livro de T. Ashley: “Os dois homens tinham entre eles a fascinação de alter egos. Cada um se tornou o intérprete regular da música do outro com intersecções de temas Ambos criaram a partir de Nietzsche (Zaratustra e Terceira Sinfonia). A suntuosidade da orquestração de Strauss com a sua maneira transparente de manejar forças Wagnerianas claramente intrigaram Mahler, enquanto que a determinação deste último em expandir as estruturas sinfônicas tradicionais para além de seus limites deixaram uma impressão não apagável nas composições orquestrais de Strauss depois da virada do século – a Sinfonia Doméstica e a Sinfonia Alpina, os dois trabalhos mais Mahlerianos foram os últimos trabalhos a serem designados sinfonias. Eles se conheceram na casa de seus 20 anos, vieram a ser os dois maiores compositores-regentes de sua época e é possível que posteriormente tivesse existido uma certa rivalidade entre eles ( alguém sugeriu que a decisão de Strauss de se concentrar em música para ser encenada teria surgido de sua inveja da preeminência de Mahler no campo sinfônico, mas não existe evidência disto nos diários ou cartas de Strauss”…

    Sobre um ponto menor dentro do texto tão bem escrito pelo maestro, Strauss pode não haver se mudado para a Suíça antes do final da guerra, pois em 30 de abril de 1945 sua casa em Garmisch foi requisitada com uma ordem de evacuação a ser cumprida em 15 minutos. O fato de o líder das tropas ser um major de origem holandesa e amante da música, permitiu que a residência fosse colocada fora do alcance da requisição (off limits). Depois disso houve visitas a Strauss de músicos servindo o exército americano e foi o encontro com um deles, o oboísta da Sinfônica Pittsburg que deu origem ao concerto de oboé, como um de seus “exercícios para meus punhos”.

    A ida do compositor para a Suiça se deu em outubro (A esposa de Strauss estava doente,faltava comida, carvão para aquecimento, etc.) havendo Strauss para cruzar a fronteira dado 2 de seus manuscritos ao comandante francês local, sendo a Sinfonia Alpina destinada para a Biblioteca Nacional em Paris, isto porque os documentos da família não estariam em ordem. Em 11 de outubro os Strauss chegam a Bregenz, e o bem de maior valor financeiro, a pasta com originais manuscritos de suas obras, dada em garantia ao hotel onde se hospedaram.

    Mahler vem a marcar ainda Schostakovisch, o que é outro assunto, mas que também vale um estudo e uma escuta conjunta de algumas obras.

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