Uma Sinfônica Municipal revigorada

Ontem, durante o ensaio que fizemos, a Orquestra SInfônica Municipal e eu, da Segunda Sinfonia de Mahler que iremos apresentar no Theatro Municipal de São Paulo nos dias 13 e 14 de fevereiro, dei por mim mesmo espantado com a qualidade do conjunto. Acostumado a ouvir a orquestra constantemente, creio que fui me habituando ao seu extraordinário crescimento qualitativo. Mais tarde, em casa, pensei que poderíamos tranquilamente arriscar uma tournée europeia ou americana, sem temer as comparações e os preconceitos que ainda cercam as orquestras sul americanas.

Há muitos anos atrás fiz um trabalho no mesmo sentido com outra orquestra paulista, que encontrei em estado de decomposição. 12 anos mais tarde a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) era considerada uma das melhores orquestras da América Latina ( eu não conhecia outra com a mesma qualidade) e uma das orquestras em ascensão no panorama sinfônico mundial ( Revista Gramophon ). No meu livro “Música Mundana” conto, com detalhes, a construção desse projeto e as dificuldades que tivemos que enfrentar ao quebrar e estabelecer novos paradigmas de qualidade no nosso meio musical. A realidade econômica e política era outra e as circunstâncias completamente diferentes das que nos encontramos hoje em São Paulo e no Brasil.

Naquela altura foi feito um trabalho radical: testes para todos os músicos da antiga orquestra – os testes não eram obrigatórios para aqueles músicos que decidiram continuar com os mesmos salários e com os mesmos horários de trabalho, praticamente formando uma orquestra B. (Minha teoria de que uma orquestra sem qualidade, sem disciplina e sem público não teria capacidade de sobrevivência e significaria uma enorme desperdício de verba pública, foi amplamente confirmada na realidade: pouco tempo depois essa Orquestra B foi desmantelada, sem prejuízo algum para nossa sociedade) .

Uma sala, projetada para ser a sede da orquestra, foi  construida na antiga Estação Julio Prestes e transformou-se num ícone das salas sinfônicas no mundo, invejada por grande parte das orquestras por sua acústica e acomodações para os músicos. Os salários foram reajustados de forma a serem atraentes para qualquer músico europeu ou americano e a oferecer aos músicos brasileiros a possibilidade de viver exclusivamente do seu trabalho na orquestra,  sem a necessidade de apelar para bicos ou casamentos, e outras atividades paralelas. (Devo dizer que embora os salários tivessem sido aumentados, os músicos continuaram a fazer os mesmos bicos de sempre…) Uma conjuntura econômica extremamente favorável permitiu que esses gastos fossem possíveis e uma equipe competente formada ad-hoc administrou o projeto de forma que, poucos anos após o nascimento do projeto, a orquestra contasse com um público numeroso e fiel, viajasse pelo mundo com críticas espetaculares ( quem sabe até devido à surpresa de se deparar com um conjunto sinfônico de tal qualidade de onde menos se esperava), gravasse CDs por uma casa discográfica internacional com prêmios que a distinguiam, enfim, foi a criação de uma nova orquestra a partir de uma orquestra decadente e sem qualidade.

Outras tentativas foram feitas nos anos que se seguiram no sentido de dotar mais capitais brasileiras de orquestras de grande qualidade: algumas foram bem sucedidas, como a Filarmônica de Belo Horizonte (espero que se mantenha viva e pujante nesses tempos complicados politica e economicamente), que usou métodos parecidos dos que implantamos na OSESP, outras foram desastradas e mal encaminhadas, como foi o caso da OSB no Rio de Janeiro, que a pretexto de emular o trabalho que fizemos na OSESP, usaram de métodos autoritários, injustos, descabidos para acabar tendo que administrar  duas orquestras, agora sem maestro, salários defasados e sem garantias de futuro.

Na Bahia um projeto singular me chama a atenção e entusiasma sobremaneira: o Projeto NEOJIBA, cujo criador, Ricardo Castro, inspirou-se no SISTEMA Venezuelano, vem atraindo as atenções não só do Brasil, mas sobretudo do exterior, para onde o conjunto já viajou mais de uma vez, tocando em salas míticas da Europa, com solistas como Martha Argerich. É um projeto que me enche de esperança e que, sob o comando de gente competente e dedicada, e com o justo aporte governamental, seguindo uma política cultural positiva e bem enunciada, pode dotar o nosso país de uma realidade sinfônica que até hoje, mesmo com as orquestras profissionais existentes, nem sonhamos.

A grande maioria das demais orquestras brasileiras continuam sobrevivendo da forma que podem e que lhes é possível. Muito dessa situação deplorável é culpa de uma política cultural tacanha e pouco inteligente, muito é culpa  dos responsáveis pelas administrações dos conjuntos, que aceitam as limitações para manterem os seus postos e muito dos próprios músicos que não se organizam para demandar uma realidade melhor e mais digna.

O trabalho que venho fazendo com a Orquestra Sinfônica Municipal é bem distinto do que fiz com a OSESP. Há três anos, encontrei uma orquestra montada, com alguma qualidade e com muitos defeitos, com uma estrutura administrativa capenga, com salários defasados e pouco espírito de corpo, com um horizonte artístico inexistente. Evidentemente não podia nem queria tomar as mesmas medidas que havia tomado na OSESP, onde a situação era muito mais desesperadora. As decisões foram tomadas pouco a pouco, e sempre com a preocupação de envolver os próprios músicos e sua comissão nas decisões mais drásticas, como afastamento de certos integrantes e outras decisões que eram fundamentais para o progresso artístico e administrativo do grupo. Também, no início de minha atuação, uma conjuntura favorável e um governo decidido a implementar melhorias no Theatro ajudaram de forma decisiva para que o projeto avançasse. A atualização dos salários para níveis semelhantes aos da OSESP e a celetização de toda a orquestra também foram ações que injetaram ânimo e entusiasmo no conjunto. A abertura de vagas para novos integrantes e a severidade das audições de recrutamento que trouxeram ao grupo músicos de grande competência e qualidade serviram para elevar substancialmente a qualidade sonora e o virtuosismo da OSM.  E, não menos importante, uma disciplina de trabalho rígida e horários de trabalho racionais e necessários para uma produção mais fluente fizeram o resto.

Mas ainda me espanto com a qualidade da OSM. Há muito tempo não ouço a OSESP nem ao vivo nem em gravações. Quero crer e desejar que ela tenha mantido o nível de qualidade ao qual a alcei quando me retirei da sua Direção Artística. O que posso assegurar, no entanto, é que temos hoje em São Paulo uma outra orquestra com o mesmo nível da OSESP e que é certamente das melhores orquestras latinoamericanas (continuo sem conhecer outras orquestras latinoamericanas com a nossa qualidade). Por isso desejo ardentemente que a conjuntura político e econômica nos permita continuar no nosso caminho da excelência (essa palavra tão vilipendiada), e que possamos, no futuro gravar e mostrar, no exterior, o nível invejável que alcançamos em 3 anos (!!!) de trabalho árduo.

 

 

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4 respostas para Uma Sinfônica Municipal revigorada

  1. Bianca Ribeiro Manfrini disse:

    Ótima noticia a Segunda Sinfonia de Mahler. Já reservei meus ingressos. Fui assistir a Quinta Sinfonia no final do ano e me impressionei com a qualidade da orquestra. Sou fã de Malher. Trabalho no Metrô de São Paulo e, acredite, concertos como os que o Sr. e a Orquestra tem proporcionado são um bálsamo em minha rotina. Parabéns pela militância incansável em prol da cultura. Obrigada, virei fã, e que brilhante ideia executar Malher! Fico no aguardo da Nona Sinfonia… Um abraço!

  2. Fico muito feliz com o andamento das apresentações do Municipal.Só não me iludo com a continuidade desse projeto.O futuro me preocupa…e muito!

  3. Marcos Nascimento disse:

    Um texto que mantém a esperança, nesses tempos de retrocesso artístico nacional!

  4. Eduardo Noda disse:

    Foi por meio desta publicação que soube do livro “Música Mundana”, logo em seguida comprei o meu e já terminei sua leitura. Pessoalmente, só achei que o 3º movimento do livro foi escrito num andamento Presto e, talvez, pela riqueza dos detalhes, fosse adequado um Andante, ou melhor, uma continuação da obra.
    Mas agora que tenho o embasamento do livro, tenho um discernimento um pouco mais amplo após a leitura dessas reflexões do blog. Fica aqui registrada minha admiração por todos os esforços em prol da música sinfônica no Brasil.

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