Pílulas cinematográficas e Regina Casé

Como cinéfilo sou uma espécie de turista acidental. Minha cultura cinematográfica parece mais um queijo suíço. Passo meses, anos mesmo, sem ir ao cinema, embora me interesse sempre pelas produções novas. Estes dias, no meu retiro espiritual, resolvi pôr em dia, ao menos um pouco, minha lacuna nesse sentido e assisti a um monte de filmes,  sempre ao final de dias de intenso estudo e leitura.

Comecei por assistir a alguns indicados ao Oscar desse ano, mas confesso que a necessidade quase maníaca dos diretores de rechear os filmes de violência explícita, como se isso fosse nos trazer para mais perto da realidade, causou-me tanta repulsa que quase perdi a vontade de continuar a assistir as obras em questão. O melhor dos roteiros, a melhor das fotografias, sucumbe aos litros de sangue, intestinos expostos, rostos explodidos, membros amputados, tudo isso embrulhado por câmera excepcional, um cuidado com detalhes, que, ao fim e ao cabo, parece-me não ter outro sentido a não ser “épater le bourgeois” de forma perfeitamente bem acabada.

Assim sobrevivi a “Regresso” e ao útimo filme de Tarantino. Os momentos de prazer e de interesse foram amplamente superados pelo desejo de virar a cara ante a violência que me era servida.

Para quem se interessa por economia, finanças e mercado, aconselho um filme, “Big Short”, que conta com humor, didatismo inteligente e uma edição moderna e dinâmica,a história da grande crise de 2008 nos EEUU, da bolha imobiliária que quando explodiu levou-nos todos à situação em que nos encontramos até hoje, e como algumas pessoas inteligentes e mais ou menos honestas souberam prevê-la e lucrar com ela.

“Joy”, um filme baseado numa história real de uma senhora de classe média americana que inventa um escovão especial para limpar a cozinha e o banheiro e que, após ter que se ver com a máfia ávida em roubar-lhe a patente, se dá bem e enriquece, é, na minha opinião, por mais que se esforce em mostrar, com certo humor, o mercado americano de venda de artigos pela televisão, um passatempo agradável, e não muito mais que isso.

A partir daí fui me refestelar um pouco na latinidade e assisti um filme argentino sensacional: “Relatos Salvajes”, 6 curtas que contam com humor e surrealismo situações limítrofes a que é empurrado o cidadão comum ao enfrentar o absurdo do dia a dia. Um filme imperdível, com brilhantes atuações individuais e um roteiro criativo e bem contado.

Já quando fui ver “História Oficial”, um dos icones da produção cinematográfica argentina, acabei por ver um filme datado em todos os sentidos, inclusive na música, que se insere na película de forma conservadora, que lembra na sua estrutura o tema de “love story”: melado, feito para emocionar os incautos. Ao menos disso, tenho certeza que entendo…

“Nueve Reinas” é uma boa trama, às vezes tão complicada e sofisticada que a gente se perde (odeio esses filmes que nos levam num redemoinho de ação e de informações cifradas a um final glorioso, sem que você não tenha entendido nada…). Não é o caso de Nueve Reinas, que nem tem meios técnicos para concorrer com nenhum Matrix da vida. Mas quando nem sempre o interesse é mantido,  a boa atuação dos protagonistas vale o esforço de tentar entender a trama até o seu inesperado final.

Agora o que mais me encantou e surpreendeu nessas jornadas cinéfilas: assisti com prazer imenso o filme de Ana Muylaert, ” A que horas ela volta “. Muylaert demonstra uma delicadeza incomum ao tratar de um assunto que sempre foi tabu na nossa sociedade de classe média, a relação quase escravagista que se mantinha com as “empregadas” que dormiam “no serviço”. No meu  entender esse filme dificilmente poderá ser entendido em todas as suas sutilezas por uma sociedade que desconhece essa cultura urbana da classe média abastada brasileira, sobretudo carioca e paulista. A importação de mão de obra do norte e nordeste, sua pretensa inserção na “família”, sua prepotência disfarçada, sua “bondade liberal”, todos os disfarces usados com a maior naturalidade para manter em casa um serviçal obediente e cordato. Muylaert  cria uma situação de confronto quando uma dessas “empregadas”, a serviço dos patrões por quase 20 anos, inesperadamente recebe a visita de sua filha, que vem do nordeste prestar vestibular na FAU. Com a chegada da filha, que a princípio se hospeda na casa dos patrões, instala-se um clima de desconforto, de mal-estar, de hipocrisia, que ilustra de forma excepcional a relação “casa grande e senzala” em que nos encontramos até pouquíssimo tempo atrás se é que não nos encontramos ainda, em muitos casos, e a incipiente consciência das mudança sociais que vivemos.

Um filme muito especial, emocionante, verdadeiro, com absolutamente nada de apelativo. Não procura libelos ideológicos, não exagera nas tintas. Discreto, de bom gosto em todos os momentos em que poderia resvalar para o lugar comum, nos mantém presos, sempre com um sorriso, meio de apreciação e meio de culpa. Gostaria de falar mais dessa joia do cinema nacional, mas preciso falar de Regina Casé.No papel da empregada Val, leva o filme nas costas do princípio ao fim, sem um momento de pieguice, sem um resvalo no lugar comum, com uma verdade física e linguística admirável. Detalhes mínimos na sua atuação, um gesto, um olhar, uma respiração são frutos de um virtuosismo de atriz que raramente se encontra. Enfim, uma das grandes atuações que tenho visto nos últimos anos, seja no cinema ou no teatro, seja no Brasil ou fora. Regina Casé é a minha candidata ao Oscar de melhor atriz, e o leva ” de boa”, como ela se expressa no filme. Um presente para todos nós. Não sei o que seria do filme sem a Regina nem, sei o que seria da Casé sem esse filme para coroar a sua vida de brilhante atriz.

 

 

 

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