Cultura e provincianismo

No segundo capítulo das considerações Papistas sobre o Theatro Municipal, vêm à tona dois conceitos: provincianismo e Cultura. Em meio a flores do lácio como a frase “não há prazer renitente em si mesmo” (espero viver e estudar mais uns anos para entender essa manifestação profunda sobre o hedonismo) Cleber me acusa de acusar a sociedade (!!!) de provincianismo.

Acho bom explicitar um pouco o que  considero ser provinciano: trata-se de uma percepção da realidade quase exclusivamente centrada no nosso umbigo. Quanto mais perto do nosso umbigo, melhor. Os problemas do mundo são reduzidos às questões da minha “aldeia” . Segundo o dicionário, trata-se da “devoção à própria província em detrimento da nação ( do mundo) como um todo”. Ter-se a si próprio como parâmetro, considerar-se independente do resto das manifestações culturais mundiais. Não observar o mundo que nos cerca, ou achar que este é sobretudo um perigo ao que fazemos no nosso quintal. Supervalorizar o nosso e menosprezar o outro. Ter medo ou receio da comparação com linguagens semelhantes ou alheias, e defender-se com o argumento de que “aqui é assim mesmo, não me interessa o que fazem os outros”. Uma das expressões que mais ouvi nesses anos e contra a qual mais me opus é a de que “para São Paulo está bom…”

Se não há provincianismo e isto é bom, não é mesmo o papel da Cultura, ampliar e favorecer os espaços criativos para que a arte se sobressaia?” Esta pergunta fundamental é uma das diatribes cometidas pelo escriba no seu segundo capítulo sobre o nosso Theatro. Nunca fui apresentado à Sra. Cultura nem tive a oportunidade de questioná-la sobre o seu papel ou sua função. “Se há provincianismo num determinado grupo e isto é ruim, não é exatamente o papel da Cultura fortalecer os processos de criação do próprio grupo para combate-lo?”  Dá para entender? Estamos lidando com uma “Cultura” como lidamos com os índios, Cleberson? Ela nos ajuda como uma funcionária qualificada? Quem é essa Sra. Cultura? Onde a encontramos? Estará disponível nestes momentos difíceis?

Mas Cleber Papa não para por aí: resolve fazer uma pequena digressão sobre o espetáculo, “sobre a criação coletiva da obra de arte”, aqui referindo-se naturalmente à ópera. Entendo a confusão mental do Papa – basta assistir à sua direção da ópera “Fosca” de Carlos Gomes  na Ópera da Bulgária  (disponível no Youtube) para entender seu estupor. Todo espetáculo que vai ao palco e que inclui vários profissionais é um espetáculo coletivo. Isso não faz dele, porém, uma criação coletiva de obra de arte. Verdi, Puccini, Wagner, Mozart, são criadores únicos e inimitáveis, que não necessitam de co-criadores. Basta respeitá-los,  agir com bom gosto e criatividade e cantar corretamente. Aliás é dessas “co-criações” que se tem reclamado tanto no mundo da ópera.

As denúncias de que, com “frequência indesejável” ( há uma frequência desejável,  Sr. Cleber?) houve reclamações sobre maus tratos, provém  justamente  do grupo do qual Papa é um dos vocalistas. Nenhuma delas foi comprovada. Os assuntos do Theatro Municipal interessam mais aos blogueiros e cogumelos do que os problemas das fábrica de automóveis ou de parafusos. As brigas entre artistas com egos pronunciados são mais frequentes e mais observadas  do que as entre enfermeiros no Hospital dos Servidores. Mas se houve greves de professores, greves de metroviários,  dos médicos em hospitais públicos, entre outras tantas, não houve nesses três anos nenhuma manifestação pública, nem greve dos artistas ou funcionários do TM ou da Fundação que o abriga. Houve, sim, manifestações esparsas e pessoais daqueles que, por razões artísticas ou administrativas foram justamente afastados. É o famoso “jus sperneandi”. Isso é esperado e com isso há que lidar de forma democrática e transparente.

“Esses fatos que ilustram o cenário do TMSP, em atos intermitentes, não pode ser assumida como uma sucessão de variáveis aleatórias independentes”. Com essa frase genial (deixei de fora partes da frase, que não alteram o seu sentido explícito nem melhoram o vernáculo) Cleber Papa termina o seu segundo capítulo. Sinto muito.

Citar abundantemente autores estrangeiros e escrever parágrafos que muitas vezes não fazem o menor sentido,  não transformam o  autor num cosmopolita nem num provinciano. Apenas o  transformam num pensador atordoado e confuso.  Eu nunca disse que a sociedade paulista ou brasileira é provinciana: Deus me afaste das generalizações ! Mas Cleber Papa e as pessoas que pensam como ele são, na minha visão, sim, profundamente provincianas.

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Uma resposta para Cultura e provincianismo

  1. Anônimo disse:

    Caro Maestro,
    O sr. Papa deve estar radiante no seu papel de antagonista. Tirou-o do anonimato.
    Se o sr. Papa é tão crítico em relação ao TMSP, porque não fez autocrítica quando era diretor do Festival de Ópera de Belém PA?
    Ali foi política de terra arrasada. Depois de anos realizando o Festival, não deixou legado algum, não fomentou coisa alguma e usou “personalísticamente” dinheiro público .
    Se quiserem saber mais sobre esse senhor, consultem os secretários de cultura do PA e do AM. Vão descobrir verdades absurdas…

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