Cultura Brasileira em maus lençóis…

Resolvi tomar para mim a desagradável missão de debruçar-me sobre uma série de textos redigida pelo Sr. Cleber Papa sobre o Theatro Municipal, tanto no seu blog particular quanto em outro, denominado “opera e ballet”. Missão desagradável porque são textos mal redigidos, eivados de erros crassos de português,  e nos quais muitas vezes chega-se ao final de um parágrafo sem saber o que queria ser explicado no seu início.

Cleber Papa procura de todas formas, por meio de ensaios pseudo “eruditos”, desconstruir o que com tanto esforço e tenacidade estamos tentando construir no Theatro Muncipal de São Paulo. O meu blog me parece um espaço adequado para responder a tanta impropriedade.

O autor inicia a sua peroração falando sobre o “desprazer enorme que nos envolve” quando se fala do Theatro Municipal nos últimos três anos. Envolve a quem? Um grupo inominado que ele representa ? Ora, uma rápida verificação nos meios de comunicação nacionais e internacionais, uma descrição simples dos prêmios recebidos, seja da imprensa, seja do público, uma leitura das críticas (mais ou menos competentes) nas revistas e jornais brasileiros e estrangeiros, das matérias mais ou menos extensas publicadas nas revistas internacionais, demonstra que se há gente que sente desprazer em assistir aos nossos espetáculos (e ninguém aqui busca a unanimidade), a grande maioria do nosso público fiel (mais de 6000 assinantes em 2015) ficou satisfeita com o que viu e ouviu, demonstrando esse agrado de maneira insofismável ao final das funções. Portanto dizer que um “sombrio desprazer” envolve quem fala do nosso Theatro é no mínimo uma afirmação de quem nutre um sombrio preconceito contra os responsáveis pela administração da casa, ou almeja de todas as formas credenciar-se para ocupar o seu posto. (Como também se está credenciando, aliás, segundo me disseram, sem nenhuma expectativa de sucesso, ao cargo de Diretor Artístico do Teatro Nacional de São Carlos de Lisboa).

“Criadores foram afastados sistematicamente”. Gostaria, para minha mais completa informação, de saber quais os “criadores” que foram afastados. Como em todas as grandes empresas ( e o Theatro Municipal não deixa de ser uma grande empresa), funcionários que não se adaptam às regras de funcionamento definidas pela direção ou se afastam voluntariamente ou são afastados de forma legal. Foi isso o que se passou no Theatro, embora de nenhuma forma sistemática. Músicos, regentes, administradores, técnicos, iluminadores, ou outros empregados que não queriam seguir as regras impostas por uma direção que expôs claramente o caminho que queria seguir e a qualidade mínima que exigia de seus colaboradores, pediram afastamento, foram afastados ou aposentaram-se, quando o tempo de trabalho o permitia. Ninguém foi prejudicado por razões pessoais ou idiossincráticas. Visou-se sempre o aumento da qualidade e da produtividade.

Segundo Papa instalou-se no Theatro um “curso indesejado e perdulário”. Indesejado não ouso negar, porque os desejos do  Papa certamente não coincidem com os meus. Sobretudo no que diz respeito à qualidade artística. Mas perdulário? Qual a fonte na qual o escriba se apoia? Por acaso o Cleber conhece o orçamento da Fundação Theatro Municipal? Sabe se esse orçamento, comparado a outros  teatros internacionais (basta pensar no Teatro Colón de Buenos Aires) é exagerado? Sabe quanto desse orçamento é reservado à folha de pagamento (mais de 75%) ? Sabe quanto sobra do orçamento para a produção artística, depois de pagos os demais contratos (Praça das Artes, Escola etc)? Menos de 15%…  Estudou o Papa a relação custo/benefício da produção artística (preços dos ingressos, Municipal na Cidade etc) ? Pensou nos benefícios colaterais trazidos pela atuação do Theatro fora de sua sede? Contou os empregos diretos e indiretos ligados à nossa produção? Enfim, teremos oportunidade de voltar a discutir esses assuntos no decorrer destes posts.

O senhor Papa alega que uma “retórica inaceitável” (de quem, Cleber?) afirma que o Theatro já possui vários artistas nacionais. Isso é verdade: basta contar os músicos e coralistas para ver que o Theatro emprega muitos músicos nacionais. Mas não é só na orquestra e no coro- o é também nas produções líricas e nas produções de ballet, da direção e da criação dos espetáculos aos seus papéis principais ou menores, nos solistas e regentes da nossa temporada sinfônica  que empregamos inúmeros artistas nacionais. Até na escolha de títulos e obras a serem executadas. Onde está a “retórica inaceitável”?  Ou será que vamos nos pautar pela reserva de mercado, ou mesmo pelo sistema de cotas ?

Parece ainda que o senhor Papa se revolta por gerarmos empregos com remuneração elevada. Se os nossos músicos percebem hoje um salário parecido com os dos músicos da OSESP,  se o nosso Coral Lírico e o Coral Paulistano recebem mais do que o coro da OSESP, esta foi uma decisão tomada por essa direção. Se todos os nossos artistas já estão ou  estão em vias de serem celetizados, um sonho que os corpos estáveis e os técnicos acalentavam há décadas, essa foi uma decisão tomada por essa direção.Se os cachets pagos aos artistas, nacionais ou estrangeiros, respeitam estritamente os parâmetros do mercado nacional e internacional – afinal de contas, ninguém é obrigado a cantar no TM- essa, também, é uma decisão dessa direção. O Theatro Municipal, na nossa visão, é um teatro de chegada e não de partida. Para aqueles que  iniciam a carreira (embora tantos o tenham feito, justamente nesses últimos anos, no nosso Theatro) haverá sem dúvida uma série de outras oportunidades para lançar-se no mercado. Afinal todos, ou quase todos, começamos desse jeito.

Afirma o Sr. Papa que nossa “retórica inaceitável” “alega”  que ajustamos o presente, “como se o passado fosse desorganizado”. Pois é exatamente isso que fizemos, Cleber: encontramos um Theatro profundamente desorganizado, sem departamentos técnicos bem formados, sem uma Central Técnica, sem diretor de palco, sem produção própria, dependente técnica e economicamente de agentes externos, sem departamento de figurinos , sem iluminadores competentes, sem uma programação artística de longo prazo, sem assinaturas, com uma reforma do edifício parcial e insuficiente, sem contratos de manutenção para equipamentos de palco, com uma mentalidade de funcionários públicos que fazia com que as pessoas não rendessem o minimamente suficiente, com Corpos Estáveis que ensaiavam menos de uma vez por dia e culpavam a Prefeitura por uma relação trabalhista irregular, que os obrigava a ter 2 ou 3 empregos por fora, enfim… Eu poderia encher esse post com mais constatações dessa natureza, mas creio que o simples fato de termos posto a casa em ordem durante os três anos dessa direção contradiz frontalmente os argumentos  infundados do Sr. Papa. Declarações sem sentido como essas só o levam ao  descrédito. Podemos ( e devemos) discutir. Com conhecimento de causa e bom senso, o que parece não existir no criador da Opera Curta…

Em linguagem capenga, Cleber, finalmente afirma que jusfificam-se o desmandos no Theatro com uma propalada ascensão do Municipal a uma excelência internacional, (que ele denomina sarcasticamente de “maravilha mundial”, embora esse termo jamais tivesse sido utilizado por nós- nem pela Revista Opera inglesa, que nos trata com grande deferência em seu número de janeiro de 2015). Sempre afirmamos e continuamos a fazê-lo, que, a despeito das enormes dificuldades por que passa o país nesse momento, procuramos atingir uma excelência nas nossas produções líricas e sinfônicas comparável aos grandes teatros de grandes cidades como  São Paulo. Se não chegamos lá ainda, estamos no bom caminho. Só a excelência nos dá o direito de exigir respeito e apoio financeiro seja da Prefeitura, seja da sociedade civil.

A estética da fome, termo cunhado com propriedade por Glauber Rocha no cinema dos anos 60 e 70 não se aplica à  música de concerto e lírica. Essa linguagem é resultado de séculos de  aperfeiçoamento  cultural do mundo ocidental, do qual fazemos parte (ou queremos fazer ). Não podemos nem devemos adaptá-la a condições e características que nunca foram as suas. Podemos, sim, tentar enriquecê-la com contribuições e novidades, mas sempre respeitando a estrutura fundamental e a forma,  resultados de séculos de civilização.

Ignoro o que a confusão mental do Sr.Papa quer dizer com “viabilizar um processo cultural de dentro para fora”… Há dois parágrafos conceituais no texto do  Sr. Papa que são de tal forma tacanhos, na sua tentativa bisonha de definir o que é cultura, que prefiro me ater a fatos concretos. O Theatro Municipal não é o local adequado para experimentalismos meta-sociológicos. Para isso, o Sr. Papa deveria se dirigir a uma universidade. Duvido porém, que com seu discurso e seus erros de português, alguma o leve a sério.

Pois bem: finaliza o Sr. Cleber Papa-  e eu também as minhas considerações sobre este  capítulo obscuro e embrulhado- dizendo que o “insustentável, o descabido “(entre muitos outros adjetivos esbanjados por Cleber ) é verificar que tudo o que fizemos nestes três anos está errado, sem que se tome alguma atitude intervencionista. Que o que fizemos não interessa à Cultura Brasileira (assim mesmo, com maiúscula), como se a “Cultura Brasileira” fosse um fenômeno à parte do processo cultural geral do qual participamos voluntária ou involuntariamente.

Podemos perfeitamente discutir se está certa ou errada a forma de dirigir artisticamente o Theatro Municipal. O que não é possível, caro Papa, é expressar-se de forma tão simplória e simplista, sem conhecimento linguístico,  de detalhes do objeto em causa, com  pretensão teórica, descabida e ridícula. Assim,nesse nível ,a “Cultura Brasileira” estará em maus lençóis. Vamos acabar com uma ópera curta… e grossa.

 

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Cultura Brasileira em maus lençóis…

  1. João Pereira disse:

    Estimado maestro Neschling,
    Não conheço este blog citado, mas obviamente deve ser algo medonho. As melhoras no Municipal são conhecidas aqui e até na China. Assisti concertos memoráveis em 2015! Contudo, devo dizer que a Oer de uns anos atrás soava melhor. Posso estar ofendendo o trabalho sério que muitos músicos arduamente construíram, mas realmente achei que a Oer de 2015 não foi tão brilhante quanto em 2011.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s