Fogueira das verdades

esse texto foi devidamente completado depois da coluna de hoje – “Direto da Fonte”, de Sonia Racy. (19.04.2011)

A saída de Roberto Minczuk da Osesp foi bastante polêmica, e por anos carreguei a “pecha” de ter sido injusto com ele. Ainda ontem, um leitor deste blog lembrou-me de uma matéria que saiu no Estadão em que um jornalista me chamava de “tiranete da batuta”, como se eu estivesse prejudicando o desenvolvimento artístico e profissional do meu regente assistente.
No entanto, sua saída teve razões muito claras e objetivas: naquela época Roberto sofria, por parte dos músicos da OSESP, muita resistência à sua atuação como regente e tinha uma agenda no exterior que o impedia de me ajudar no dia a dia da orquestra. Além disso, ele havia assumido a direção do Festival de Inverno de Campos de Jordão, o que lhe consumiria ainda mais tempo, nos períodos em que passava no Brasil.
Quando um membro da comissâo dos músicos da OSESP me chamou para contar que a então Secretária de Estado de Cultura, Cláudia Costin (atual membro do conselho de administraçâo da OSB), durante uma de minhas viagens, havia convocado a comissão de músicos da OSESP para dizer que meu contrato estava expirando e abrindo espaço à dicussão de uma sucessão, as coisas começaram a ficar preocupantes. Soube logo depois, por fonte idônea, que Cláudia Costin e Roberto já haviam inclusive acertado o salário para que ele me substituísse.
Não havia mais sentido em trabalhar com uma pessoa em que eu não confiasse.
Roberto deixou o emprego numa situação muito confortável: já no seu último concerto frente à OSESP, ele estava contratado pela OSB. Em seguida, sofri uma intensa campanha de difamação, alimentada por amigos e familiares de Roberto.
Antes ainda, eu já havia pago um preço alto pela demissão de sete músicos da OSESP, cuja responsabilidade artística era minha, mas cuja causa foi a briga desses mesmos músicos com Roberto, incapaz de resolver o problema sozinho.
Acho curioso que um jornalista sério como Ancelmo Góes ( ou uma jornalista séria como Sonia Racy) coloque na sua coluna de hoje do Globo que “…John Neschling estaria atuando contra Roberto Minczuk”.
Vivo na Europa, onde trabalho, e tenho meus projetos. Estou longe dos lamentáveis acontecimentos na OSB, que são de inteira responsabilidade do maestro e do conselho de administração da orquestra.
Há centenas, se não milhares de vozes no Brasil e no mundo, aí incluindo políticos eleitos como Jandira Feghali, críticos como Norman Lebrecht, sindicatos de músicos canadenses, americanos e de outros países além do Brasil, grande solistas e compositores brasileiros tomando posições inequívocas neste imbróglio.
Escolher a mim, por conta de análises que faço no meu blog, não apenas sobre a OSB, mas sobre diversos assuntos musicais referentes ao Brasil e à América Latina, como um dos arquitetos da derrocada à qual Roberto está condenando a OSB e a si próprio, parece mais que reducionismo: é ignorância e má fé, resultado de fofoca dos mesmos Iagos de sempre.
Desde a criação desse blog, decidi jamais deixar sem resposta esse tipo de acusação. Afinal, uma mentira contada reiteradas vezes, acaba valendo como verdade.

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8 respostas para Fogueira das verdades

  1. josely disse:

    já dizia minha avó : cesteiro que faz um cesto faz cem…

  2. Luciana disse:

    Maestro, claro e direto como sempre, o senhor colocou o dedo na ferida.

  3. Caríssimo maestro,

    Infelizmente alguns jornalistas sérios tem entre suas fontes, pessoas com interesses diretamente envolvidos na questão e que plantam notas e matérias inescrupulosamente. O objetivo é a evidente desqualificação e desvalorização de toda e qualquer voz crítica e lúcida sobre o lamentável episódio que vive a OSB.

    Se fôssem publicadas as palavras proferidas por essas fontes sobre os solistas que cancelaram seus concertos com a orquestra e fôsse adotado o sistema do “apito” muito comum em filmes que censuram o vocabulário inapropriado, teríamos um ensurdecedor festival de apitos por todo lado.

    Felizmente o tempo é mestre da razão. Ao lado de matérias infundadas que pipocaram maliciosamente em vários setores da imprensa surgiram também manifestações bem fundamentadas, como as colunas de Luiz Paulo Horta e a de Cora Rónai além de outras, que demostram que o grande jornalismo há de prevalecer.

    Mais uma vez o felicito pela sua coerência, coragem e lucidez.

    Um abraço

    Bernardo Bessler

  4. Arlindo da Silva Jr. disse:

    Maestro John Neschling
    esse comentário sobre a saída de Roberto Minczuck da Osesp está bem de acordo com um comentário que postei no blog do Luis Nassif, baseado em conversas que tive há algum tempo e também recentemente com alguns músicos dessa orquestra. Lembro-me bem da expressão utilizada por um deles, “puxar o tapete do Neschling”. Foi assim que eles se referiram à ação de Minczuck. Isso foi na conversa mais antiga. Na mais recente, mais de um músico comentou que a crise das demissões de sete músicos em 2001 havia sido causada por Roberto Minczuck e que este havia se “escondido” atrás da sombra do maestro Neschling, que acabou ficando, na mídia, como o grande vilão desse episódio. Faço questão de reforçar esse comentário aqui feito pelo maestro Neschling para que a verdade não seja distorcida por falsas fontes.

  5. jussara corrêa disse:

    Prezado Maestro,
    Hoje, na ALERJ, a Deputada Jandira Feghali abriu o contrato do maestro Minczuk e revelou que, entre outros valores, ele recebe 5% de todos os valores captados pela FOSB, incluindo-se aí, bilheteria, doações, patrocínios públicos e privados etc.
    Falou-se em exoneração do maestro do Theatro Municipal, mas a notícia do pedido dele próprio de exoneração foi divulgado no blog do Ancelmo… A Globo News está noticiando o episódio da ALERJ.

  6. jussara corrêa disse:

    Prezado Maestro,
    Hoje no comunicado da FOSB. Eles insistem na avaliação dos músicos, motivo que deflagrou o imbloglio; afirmam que o maestro pediu exoneração do Theatro Municipal para se dedicar à OSB, entre outros pontos. Com relação ao pedido de exoneração do maestro, nada mais oportuno para eles. O maestro seria exonerado – isso ficou claro na audiência pública da ALERJ – então, por que não usar e ganhar pontos da opinião pública. Mas, acontece que, o texto do contrato lido pela Deputada Jandira Feghali, foi ‘xerocado’ e distribuído para muitos presentes à audiência. Algukm jornal imparcial, com certeza, vai divulgá-lo.

  7. Guilherme Mannis disse:

    Bravo maestro, seus comentários são sempre lúcidos e esclarecedores. Creio que neste imbroglio inteligência e bom senso sejam sempre relevantes, e isso você tem sempre trazido pelos posts de seu brilhante blog. Vida longa a você e a tudo de bom que fez por esse país. Que as pessoas realmente possam pensar além do óbvio e compreender as situações devidamente embasados em experiências internacionais bem sucedidas e, principalmente, em bom senso, justiça, diálogo e responsabilidade pelo bem comum. É isso que nosso Brasil, que cresce a olhos vistos e vem sendo cada vez mais respeitado, dignamente merece.

  8. Rosana Martins disse:

    Você criou a OSESP através de anos de dedicação, amor e quase exclusividade. A mera idéia que John Neschling estaria envolvido na destruição da OSB é absurda!

    Durante os anos que em trabalhei na OSESP, lembro os vários convites que você recusou, incluindo a Opera de Viena, porque já estava comprometido com a sua orquestra. John Neschling constrói.

    Meu respeito, admiração e um grande abraço,
    Rosana

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