Perguntas e contrastes

Acompanho, consternado, o desenrolar da crise na OSB. Tenho lido inúmeras reações ao triste momento por que passa a orquestra, e observo que algumas perguntas não foram feitas,   cujas respostas me parecem fundamentais para conhecer melhor o fundo desse imbroglio, que caminha cada vez mais inexoravelmente para um beco sem saída. Gostaria muito que a imprensa procurasse as respostas para as seguintes indagações:

1- O Conselho de Administração tem legimitidade  para atuar plenamente?                          2- Todos os membros do  Conselho de Administração estão ao par dos acontecimentos e participam das tratativas com os músicos?                                                                                  3- Por que o Conselho de Administração não se manifesta como um todo?                                                                                                                                                   4- Como é composta a administração da OSB e quais as pessoas que são empregadas pela Fundação?                                                                                                                                          5- Qual o verdadeiro salário a ser pago aos músicos profissionais a partir de junho, em cada categoria?                                                                                                                                              6- Qual o plano de cargos e salários do corpo administrativo da Fundação OSB?                  7-  Qual o real orçamento anual da OSB e como ele é composto?                                                 8- Quais as garantias de orçamento para os (quatro, cinco) anos vindouros, que assegurem os novos salários dos músicos?                                                                                                        9- Qual o real salário do Maestro?                                                                                                  10-Quem foram os jurados das primeiras audições?                                                                      11- Quem serão os julgadores das audições no exterior e que legitimidade terão?                   12- Qual a posição dos principais patrocinadores (institucionais e privados) da orquestra em relação às questões social e artística que essa crise envolve?

Se essas questões, entre outras, fossem esclarecidas, e a falta de transparência nas informações não impedisse uma visão mais clara da realidade, se as declarações dos dirigentes da Fundação não fossem tão genéricas, talvez entendêssemos as verdadeiras razões para que dois conselheiros e um maestro, sem o respaldo inequívoco do resto da instituição, insistam tanto em manter um modelo que evidentemente vai contra o desejo de toda uma comunidade no Brasil e no exterior.

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Já tive a oportunidade, por diversas vezes, de trabalhar com a excelente flautista israelense Sharon Bezaly.  Ela foi solista de diversos concertos que regi com a OSESP e com ela gravamos dois discos. Por uma feliz coincidência, Sharon foi a solista do concerto que regi na semana passada em Bilbao, com a Orquestra Sinfônica da cidade. O programa incluía ainda a terceira sinfonia de Saint-Saens, na qual a moderníssima  sala de  concertos do Palácio Eskaulduna pode exibir o órgão que tem papel preponderante na obra, e a jóia  “Le Tombeau de Couperin”, homenagem que Ravel fez ao grande compositor compositor do passado, e que de fúnebre não tem nada. Bilbao é uma cidade na medida do homem, que se revalorizou impressionantemente nas últimas décadas através da arquitetura e da cultura, que conseguiram remodelar a  cidade e a colocaram em posição invejável dentre os centros turísticos, industriais e financeiros da Espanha.  Mais um concerto que me deixa felizes lembranças, tanto pela música quanto pelas pessoas com que tive oportunidade de conviver durante a semana.



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A música eletrônica tem tido um papel importante na cultura contemporânea. Desenvolvendo a linguagem jazzística e do rock, aliada ao poder da eletroacústica e da criatividade sonora, músicos de diversas nacionalidades têm se dedicado a  um trabalho que atinge milhões de ouvintes em todo o mundo.  Os meios que a técnica e a informática puseram à disposição de artistas que pesquisam sonoridades, ritmos e sons de diversas culturas, permitem que o resultado dessas pesquisas, embalados pela música ao vivo e pela manipulação eletrônica produzam espetáculos que têm reunido milhares de admiradores na Europa, Estados Unidos e Japão. Um dos expoentes dessa nova linguagem é um brasileiro, que já foi integrante de uma das bandas de rock mais importantes dos últimos anos, o Sepultura. Separado da banda, Iggor Cavalera e sua mulher Laima seguiram um caminho  de pesquisa e criação musical e tecnológica, que os transformou num fenômeno “cult” nesse mundo especial e sofisticado, o “Mixhell”. Iggor tem ainda trabalhado com seu irmão Max num projeto intitulado Cavalera Conspiracy. Ambas as vertentes encontram pouco mercado no Brasil, que em termos de música contemporânea está mais para Shakira do que para a pesquisa sofisticada. Aqui por estas bandas, no entanto, seus espetáculos enchem clubes especializados. Ligados por laços “tortos” de família, Iggor e Laima são meus sobrinhos e vieram  me visitar em minha casa na Suíça, entre um espetáculo em Paris e outro em Roma, parte de uma excursão praticamente contínua, que os leva aos mais importantes centros do mundo (Berlim é a Meca dos praticantes dessa linguagem específica) . O Brasil, como em tantos outros casos de ineficiência cultural, não lhes oferece condições de trabalho que lhes permita passar em casa mais de dois ou três dias de vez em quando.  E assim se produziu um encontro dos mais insólitos entre dois músicos de linguagens profundamente diferentes, mas ligados pela seriedade do trabalho e pela necessidade de um exílio involuntário.

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9 respostas para Perguntas e contrastes

  1. Musicien inconnu disse:

    Maestro: imprensa procurando respostas?
    Orçamento?
    Manifestação?
    A parte mais alta dos muros sofre de um trânsito pior que o de São Paulo em horário de rush…

  2. Ana Dantas disse:

    Essas perguntas, que vão revelar anos e anos de mistério, só poderão ser respondidas por um CPI ou por uma investigação policial… Infelizmente acabaram com a OSB.

  3. El placer fue todo nuestro. En lo musical y en lo personal. Aquí estamos, deseando que nos vuelva a visitar.

  4. Marcia disse:

    Quem gostaria de contratar RM e ECF?
    Não sabem avaliar uma situação, não sabem antever uma crise, não sabem evitá-la e muito menos gerenciá-la. Tratam os colaboradores como inimigos, os clientes como idiotas, desprezam a opinião especializada e a do grande público, mas se deleitam nos elogios que fazem de si mesmos. E ainda, como brinde, arrastam para a lama o nome daqueles que apoiam financeiramente a instituição para a qual trabalham. Além de serem sobretudo, soberbos. Completamente errados, mas soberbos!!!!!!!!!!!!!
    Quem gostaria de contratar RM e ECF?

  5. Roberta disse:

    Realmente a falta de transparência da FOSB é um fato!!! Aproveitemos o momento para elucidar tudo que for preciso….

  6. Julio Guerra Duarte disse:

    Maestro,
    Algumas poucas informações públicas do Ministério da Cultura trazem uma emergencia rubra para suas perguntas certeiras:
    a) A Fosb captou 61 milhoes de reais de 2007 pra cá nos pronacs 07-0502 (12,3milhoes) / 07-9657 (14,3 milhoes) / 08-3839 (9,7 milhoes) / 09-2225 (20,7 milhoes) / 10-5504 (4,6 milhoes) . Média superior a 15 milhoes/ano. Não me parece menos que 50% do seu orçamento anual?
    b) Nos ultimos projetos a devolução de recursos só foi feita após solicitação do MinC. Ou seja não gastaram, mas ao invés de devolver os recursos só o fizeram quando instados pelo poder público. Eficiencia? Fizeram o mesmo corpo mole com a inauguração da Cidade da Música. Talvez nem tenham devolvido todos os recursos, mesmo depois da cobrança do RioCentro.
    c) O estatuto da Fundação, de 1967, certamente sofreu algumas alterações nestas décadas. Mas é ele que consta no MinC sem nenhuma alteração estatutária. É de fato muito pertinente perguntar se existe legitimidade naquela instituição.

    O que me traz alegria é vê-lo bem na foto e com a mente afiada de sempre!!!
    Um forte abraço

  7. Ronaldo Miranda disse:

    O Maestro John Neschling acertou em cheio quando formulou
    algumas perguntas sôbre a atual e patética situação da OSB.
    Se as negociações seguirem o ritmo que estão seguindo a coisa
    ficará mais dificil ainda. Uma pena , uma Orquestra esfacelada.
    A teimosia tem o seu preço e mais uma vez, parabens J.N.

  8. Roger M. Soares disse:

    Caro Maestro,
    Sempre fui seu admirador, e viajei algumas vezes à São Paulo para assistir a Osesp, na sua fase de ouro, sob sua direção. Muitas vezes, me indignei com os ataques do qual o senhor foi vítima.
    Eu lembro que a revista Bravo fez um barulho danado quando o Minzuk veio para o Rio de Janeiro, falavam dele como sendo o “maestro do futuro”. E agora como é que fica? Um outro jornalista do Estadão, um que escreve de tudo e sabe de tudo, vivia atacando o senhor, acusou o senhor ser o “tiranete da batuta”, dizendo que os músicos preferiam o Minzuk. Nenhum deles agora defende o Minzuk? É…
    Parabéns pelo blog!

  9. Ronaldo Miranda disse:

    O ano avança, maio se aproxima e os problemas da OSB se avolumam. É assim mesmo ?O Rio perde as audições da O.S.B , os dirigentes querem uma coisa e os musicos outra. Só quero ver como isso vai acabar e não estou dizendo nada de novo ou original…Ressentimentos por todos os lados e musicos fortificando posições. Com razão.O Maestro deu um tiro no pé. Mau atirador mas bom Maestro. Muita explicação, páginas elaboradissimas e o cáos instalado.

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