Bonitinho mas ordinário

Toda a minha vida profissional foi marcada por viagens pelo mundo.  Voluntária ou involuntariamente acabei sendo, como qualquer artista na minha posição, uma espécie de representante do meu  país. Como “regente brasileiro”  tive a possibilidade de “representar” muitos Brasís. Já fui o orgulhoso campeão mundial de futebol,  já me cobraram por vir de um país cuja violência produzia manchetes,  vez por outra esperavam de mim uma postura carnavalesca ou me invejaram  pelas belas mulatas de traseiros gloriosos.  Perguntavam, curiosos, pelas belezas naturais da minha terra, pelas praias, pelas florestas tropicais mais ou menos devastadas. Amiúde fui criticado pela corrupção explícita da qual o público se inteirava pelos jornais e televisão.

Sempre soube, de alguma forma, corresponder à curiosidade das pessoas. Podia relatar sobre a imensidão das águas do Amazonas, declinar o time do Flamengo, contar sobre as festas na casa da Dinda, e espantar as pessoas com histórias de São Paulo fechada por causa do Comando Vermelho.

De forma geral e estereotipada, o Brasil era isso: belezas naturais, samba, futebol, carnaval e violência.

Hoje, porém, a história é outra. Já não se olha para o Brasil como antigamente, como um estranho paraíso tropical, no qual as pessoas transitam do luxo ao lixo. Já não se encara um regente brasileiro como sendo um “unicum” . Pelo contrário, meus interlocutores começam sempre com um “Oh!” de admiração por um país pujante, cujas taxas de crescimento fazem babar de inveja os europeus, e cujos presidentes, seja um operário transformado em estadista “cult” ou uma Margareth Tatcher da esquerda, são objetos de desejo de quem está acostumado com Berlusconis e que tais. Esperam de mim um relato sobre um país com  cara moderna, multicultural, um país criativo e onde  as oportunidades de expressão  sejam maiores do que as de uma Europa ou as de uma América do Norte aflitas com a crise econômica e suas consequências. E é nessa hora que, perplexo, não sei como falar desse novo Brasil. Sim, é verdade que sentimos  um salto inédito na nossa condição econômico-financeira.  Sei que a venda de geladeiras, freezers e televisões, carros e bens de consumo aumentou vertiginosamente. Sei que os bancos tiveram lucros inauditos nos últimos anos. Que os governos  conseguiram domar a nossa dívida externa, a nossa inflação e garantir o país com uma reserva fabulosa de divisas. Mas como é esse Brasil? me perguntam sempre. Qual a cara desse novo Brasil?

É verdade que sempre reclamamos dos clichês que os estrangeiros usavam para cristalizar nossa imagem de país do terceiro mundo. Mas agora, que podemos ter uma imagem real para representar nossa nova identidade,  ela não existe, sequer em clichê.

Sabemos que o que plasma a identidade de um país é a sua cultura. Ela é que diz o que somos e a que viemos.  O que nos representa, culturamente aqui na Europa e no mundo?

Temo que o Brasil rico e pujante seja só um conceito, uma expectativa, ou no máximo índices e números espantosos.

Às vezes tenho a impressão de que o Brasil é um homem rico, bonito e forte, na flor da idade,  que porém não sabe falar, não sabe se expressar com consciência . Bonitinho mas ordinário.

Vejo a Alemanha, praticamente destruída até as fundações após a Segunda Guerra Mundial e que hoje é um país que conseguiu reconstruir sua economia e refazer sua imagem.  Berlim, que sempre tinha sido a grande capital das artes plásticas, da crítica, da música,  e do pensamento, é hoje, mais uma vez, uma das capitais da inovação cultural européia. É tarefa difícil dar conta da agenda cultural da cidade, tudo acontece ao mesmo tempo, seja na vertente cult ou na clássica. Nas ruas,   prédios dos nomes mais vanguardistas da arquitetura. Não há uma Berlim, mas várias, porque é esse o projeto da nova capital: uma cidade poderosa e multicultural.

Se hoje se reclama das dificuldades políticas e institucionais por que passa a Itália, é sobretudo no setor cultural que se concentram as críticas ao governo Berlusconi. No seu comportamento, na desestruturação de seus teatros, na miséria de suas verbas destinadas à criação intelectual e à pesquisa.

Para mim, junto à gratificação de observar a pujança de nossa economia, vem a frustração de verificar a inexistência de um esforço paralelo de nossos dirigentes pela nossa alta cultura. Frustração pela face inexpressiva que passamos a ostentar. Pela minha necessidade pessoal de viver em exílio, pela  falta de equipamentos de ponta na música clássica e de ópera. Pela dificuldade que o Brasil tem de participar da Bienal de Veneza de artes plásticas (o MINC, que encontra formas de permitir  a criação de um blog para Maria Bethânia pela módica soma de mais de 1 milhão de reais, não dispõe de meios para apoiar essa participação).  Porque enquanto  nossos jornais enchem suas páginas com as notícias do sucesso de Shakira em todas as capitais, inexiste uma única universidade brasileira de ponta no setor da pesquisa.

Evidentemente que cultura não é só pesquisa de ponta ou teatros de ópera de excelência internacional. Mas é necessário investir, e muito, nessas  e noutras linguagens  da alta cultura se quisermos  ter uma identidade rica como se espera de uma potência que se vangloria de ser a sétima economia da mundo.

Certamente não teremos do que nos orgulhar se no futuro formos os campeões mundiais de consumo de geladeiras, ou o celeiro de deputados como Tiririca, representando nossa população em comissões de educação. É necessário pensar e mostrar esse Brasil novo que podemos ser para um mundo cada vez mais sofisticado nos seus meios de expressão do pensamento e da identidade.

Por maior que seja o nosso potencial , é preciso organizar e investir nas diversas linguagens culturais.  Nosso talento só, não basta. Se não houver investimento maciço nas formas mais sofisticadas de expressão, seremos um gigante acordado,  mas analfabeto.

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5 respostas para Bonitinho mas ordinário

  1. Luis Carlos Justi disse:

    Há uma coisa que me dá um prazer indescritível além de uma boa música bem interpretada: um texto bem escrito! O gigante pode estar acordando mas continua deitado em berco explendido! A universidade brasileira está no final do caminho tortuoso da educacao, cheio de pedras, que comeca desprestigiado lá na educacao básica, passa pela corredeira do ensino médio e, quando nao transborda no caminho, desemboca na baía poluida do ensino superior, tao desvalorizado quase, como quando se inicia. E aqui, no templo das “cabecas pensantes” (!!??) do país tentamos recuperar as falhas acumuladas no longo trajeto dos sobreviventes que nao desistiram pelo meio, fazendo-os crer, primeiro, que eles sao importantes e nao devem desistir, segundo que, apesar da ignorancia fazer parte das comissoes de cultura nos palácios, pode-se, sim, vencer e exterminar a tiririca que daninha as boas plantas. Fazer o que, quando o intelectual universitário que chegou a presidente nao aproveitou a chance?

  2. Para um artista que já morou no exterior não há como não se identificar com este texto. Por muitas vezes perguntei-me: sou mesmo brasileiro? Não estaria eu negando minhas raízes? Afinal esperam de um brasileiro coisas pelas quais eu nunca dei atenção. Costumava dizer aqui na Itália que eu como brasileiro, deveria ser considerado “desertor”. Nunca soube falar de futebol ou samba. Sempre senti medo da vilolência. E claro muita vergonha da política. Ou seja, do ponto de vista moral não posso nem ser considerado italiano, que é minha origem afinal. Pra ratificar o texto do maestro, outro dia eu li a seguinte frase sobre o brasil: “o cinema brasileiro virou uma indústria, o problema é que nunca teve uma escola”. Pensei e concordei. E assim é todo o resto da cultura nacional. Este rapaz, este homem crescido, que parece ter tomado jeito na vida, na verdade é um rapaz ordinário. Que nunca foi à escola, que está acomodado curtindo sua vida de playboy e gastando o dinheiro da mulher viúva com quem se casou.

  3. Flávio Mendes disse:

    Premissa nº 1: O Brasil já é a sétima maior economia do mundo.
    Premissa nº 2: O Brasil ocupa uma das últimas colocações no ranking mundial da educação.

    Que conclusões se pode tirar a partir dessas duas premissas? Que crescimento não é sinônimo de desenvolvimento. Que os brasileiros ricos (tanto pessoas físicas como jurídicas) não revertem parte de suas fortunas para educação ou iniciativas sociais no setor. Só a título de exemplo, a doação da vasta biblioteca pessoal do falecido intelectual José Mindlin para a USP foi um verdadeiro imbróglio burocrático. Nos Estados Unidos e na Europa, milionários fazem doações para bibliotecas, galerias, museus etc sem maiores burocracias, com direito a abatimentos no Imposto de Renda.

    Na China e na Índia, o desenvolvimento veio a reboque de altos investimentos em educação. Ou seja, é a educação que gera o desenvolvimento; educação é causa e desenvolvimento, consequência. No Brasil, pensa-se de maneira inversa. Achamos que o desenvolvimento depende de balança comercial, superávit, PIB, controle de inflação etc etc etc, para depois investirmos em educação. Tudo isso é consequência do “economês” regendo nosso País. Quando se fala em educação no Brasil, no máximo fala-se em construir escolas (como se a oferta de mais espaço físico fosse a solução dos problemas educacionais), mas esquece-se da qualidade do produto que é oferecido lá dentro (o ensino), da péssima remuneração dos professores etc.
    A propósito de futebol e cultura (ou educação, como queira): outro dia, acompanhei pela TV a um jogo entre dois times europeus pela Liga dos Campeões. Antes do início da partida, foi feito um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da tragédia no Japão. Durante esse minuto de silêncio, tudo o que se ouviu foi…o mais absoluto silêncio! Vá fazer um minuto de silêncio aqui, antes de um Fla x Flu. Se bobear, xingam as vítimas – que estão atrasando o início do jogo.

  4. Ademar de Paula disse:

    Bom, acho que o Brasil, hoje, é (ou caminha para ser) um imenso curral de classe média. Temos exércitos de pessoas medianas, com educação sofrível, pouca visão de mundo e preparo limitado aos desafios do dia-a-dia; desafios profissionais, diga-se, pois qualquer coisa que se afaste da necessidade de se ganhar a vida sequer é considerado. O brasileiro é hoje, com efeito, um “Homer Simpson”, um sujeito que quer ganhar para poder gastar com cerveja e TV a cabo. Mais nada. Porém, não culpo as autoridades por isso; ou os políticos. Eles são reflexo da sociedade que representam e dirigem. Não poderiam ser diferentes do que são, portanto.

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