A Coruña 2 e outros pensamentos.

Estou, como diz a linda canção de Dominguinhos, “de volta pro meu aconchego”, depois de uma semana  frutífera em A Coruña, já me preparando para a minha próxima aventura espanhola dentro de 3 semanas.

A Orquestra Sinfônica da Gal ícia é realmente, como eu esperava,  um conjunto de grande qualidade técnica, e, sobretudo, de grande élan musical.  Tive um pequeno caso de amor com o Concerto para Guitarra de Mario Castelnovo-Tedesco,  obra deliciosa, camerística e bem escrita.   (Sinto muito, mas acho o Concerto de Aranjuez, que se toca sempre, interminável. Já o concerto de Tedesco começa e acaba e a gente nem se dá conta…)

O Palácio da Ópera de A Coruña, um templo neo-greco-romano de enormes proporções, não faz jus às novas salas espanholas, seja na arquitetura seja na acústica.  Construído há  trinta e poucos anos para ser um auditório polivalente, foi sendo adaptado para suas novas funções, e embora seja confortável, não tem as vantagens de uma sala construída a propósito para ópera e concertos.

Uma coisa, entretanto, me espantou em A Coruña: alguns músicos da orquestra da Galícia quiseram se informar comigo sobre o que estava ocorrendo na OSB, no Rio de Janeiro, e  declarar o seu apoio aos músicos cariocas. Entre um ensaio e outro, eu lia as notícias que me chegavam do Brasil e que diziam respeito à crise. Em vista da proporção tomada pela luta travada entre músicos e direção da OSB, João Luis Sampaio do Estadão, pôs a pergunta preocupante: “tem conserto”? Várias personalidades se manifestaram a respeito. Receio que a pergunta posta desta forma, tenha feito com que a preocupação de todos ficasse muito circunscrita à sobrevivência das orquestras sinfônicas. No entanto esta pergunta merece, a meu ver, uma reflexão mais abrangente.

Na semana em que a matéria do Estadão foi publicada, fomos informados que das 100 universidades “top” do mundo não consta nem um instituto de ensino superior brasileiro. Aliás, o Brasil é o único país dos chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China – os emergentes da hora) que está ausente dessa lista. É certo que Itália e Espanha também não figuram nesse ranking, mas a  China, a Rússia e a Índia estão presentes, e com mais de uma universidade.  Mais preocupante ainda, num ranking de educação da UNESCO, o Brasil aparece num humilde 88° lugar, atrás de Equador e Bolívia, entre outras vergonhas. Ignoro exatamente quais os critérios usados para o ranking, mas quaisquer que sejam, uma octagésima oitava colocação para um país que se vangloria de ter atingido a sétima posição entre as potências econômicas mundiais não é motivo de gáudio. Daí podermos concluir que os problemas das orquestras não são um fenômeno que se possa analisar independentemente. A verdade é que estamos no meio de uma profunda crise nas áreas de educação e cultura no Brasil. Um país cujo número de bilionários dobrou nos últimos tempos, segundo a revista Forbes, poderia ter, ao menos de parte desses senhores um compromisso maior com o desenvolvimento educacional e de pesquisa, a exemplo de  bilionários americanos e europeus, que aplicam parte de suas fortunas em projetos que visam alvancar o conhecimento científico e o desenvolvimento sócio-cultural. Mas  a verba destinada pelos governos federal e estaduais já nos dá a dimensão da importância que se dá à cultura na nossa terra. O Tiririca, membro da comissão de educação da Câmara dos Deputados é um retrato fiel de nossa atual situação.

A crise pela qual passou a classe dos professores paulistas durante o governo Serra, e que foi certamente um péssimo exemplo para todo o País, não é em nada diferente da crise por que passam os profissionais das orquestras, seja em São Paulo, seja no Rio de Janeiro, seja em qualquer outra cidade brasileira. Todos os países que fazem parte da lista dos que possuem universidades de ponta apresentam ao menos uma orquestra sinfônica atuante e conhecida. A sua maioria tem mais de cinco e alguns mais de cinquenta! Todos os países do mundo ocidental incluídos no ranking têm no mínimo uma grande casa de ópera que funciona com qualidade e regularidade.

O buraco é muito fundo, mas isso não significa que não devamos nos debruçar sobre a questão específica, ou seja, os problemas que  atingem atualmente o nosso mundo sinfônico.   Estamos, sim, vivendo uma crise  na história das orquestras e dos teatros líricos brasileiros. O caso da OSB  é inédito e peculiaríssimo. Fruto de uma atitude equivocada e mal administrada pela direção da OSB, essa crise extrapolou largamente o contexto carioca e, graças às redes sociais, se transformou num assunto comentado em inúmeras orquestras e blogs mundo afora. As diferenças se acirraram quando, após um protesto mais que legítimo dos músicos da orquestra, a direção –  tanto a administrativa quanto a artística – resolveu não só insistir no erro como aprofundar o fosso que separa os lados. As cartas de advertência e suspensão enviadas a músicos como Virgílio Arraes, um senhor de 78 anos, que merecia uma festa em vez de uma bronca, são de uma arbitrariedade e de uma violência inauditas, comparáveis àquelas cometidas nos períodos  negros da ditadura . Calar quanto a essa barbaridade cometida contra profissionais idôneos, que há décadas se dedicam à nossa vida musical, muitas vezes com sacrifícios, é ser conivente com o arbítrio.

A direção musical  esclarece agora que as audições não visam demissões. Então por que a falta de transparência desde o início do processo, qual a razão da temporada  ser programada com uma orquestra de alunos , para que a humilhação imposta a profissionais longamente conhecidos pelo diretor musical? Tudo isso fica nebuloso quando o diretor musical afirma que o desejo das audições partiu da “instituição” e  debita a conta da crise na resistência dos músicos de participarem de audições como essas.

Essa crise na OSB se transformou num quiprocó internacional. O maestro Kurt Masur, por exemplo pede  apoio ao seu protegido,  sem ter  noção do quadro como um todo. Ele mesmo seria incapaz de implantar um projeto semelhante em qualquer orquestra européia ou americana. Aqui no Brasil, Nelson Kunze afirma que a OSB era, antes da chegada de Minczuk, um simulacro de orquestra. Pelo jeito, há muita desinformação. Antes de Minczuk a OSB foi dirigida por monstros sagrados como Eugen Szenkar, Eleazar de Carvalho, Erich Kleiber e teve como concertinos violinistas como Ricardo Odnoposoff entre outros. Nos seus setenta anos de existência, a orquestra certamente teve altos e baixos, mas sempre foi um ícone na nossa música sinfônica. Durante as gestões de Szenkar, Carvalho e também de Karabtchevsky, das quais fui ouvinte assíduo, a OSB chegou a atingir, sim, níveis de excelência.  Minczuk não veio criar uma orquestra nova.   Foi chamado para dirigir artisticamente uma institução que tem quase o dobro de sua idade e que nunca sofreu nenhuma solução de continuidade. Uma coisa é construir uma orquestra a partir do zero, como fez Fabio Mechetti em Belo Horizonte, ou reestruturar uma orquestra em vias de extinção, como no caso da OSESP e que ainda assim contou com anuência da grande maioria dos músicos além de oferecer uma alternativa de trabalho aos que não quiseram abraçar o projeto novo. Outra completamente diferente é assumir a direção musical de uma orquestra com o lastro da OSB, com um projeto de excelência. É necessário, nesse caso,  trabalhar com os meios disponíveis em termos humanos, técnicos e musicais. Nessa circunstância, a busca de excelência é um processo de médio e longo prazo, e deve respeitar o ciclo natural da própria orquestra. Esse trabalho só pode acontecer com a parceria dos músicos, e com o apoio infraestrutural de uma administração moderna e profissional, o que não é caso na OSB.   Do jeito que as coisas caminham, temo que a ruptura se torne inevitável. Creio também que a reestruturação administrativa da orquestra seja uma condição sine qua non para um futuro digno da OSB. Enquanto isso não acontece, tudo é incerteza. O próprio anúncio da direção de que Cidade da Música será a futura sede da OSB, não vem acompanhado, que se saiba, do respaldo da Prefeitura.

A insistência na truculência e na humilhação imposta aos músicos só conseguirá destruir o que  resta de uma instituição que é uma das glórias da nossa música clássica, já tão negligenciada.

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11 respostas para A Coruña 2 e outros pensamentos.

  1. Heinz Karl Schwebel disse:

    Caro Maestro,
    gostaria de congratulá-lo pelo seu último artigo, La Coruna 2, e pela posição que o senhor adotou diante da crise da OSB. A clareza com que o senhor coloca a situação das orquestras brasileiras, e o paralelo estabelecido entre a crise nessas instituições e o estado atual da educação no Brasil nos faz valorizar e invejar, ainda mais, o que foi alcançado na OSESP.
    Um abraço,
    Heinz Karl Schwebel
    Primeiro Trompete da OSBA/Professor UFBA

  2. …. Caro Maestro …
    ….uma reflexao mais do que adequada e humana , creio eu na minha humilde opiniao que nao seja nscessario destruir para refazer do zero, mas sim ter a capacidade de fazer funcionar bem administrando com respeito a todos ! o que foi feito com o Prof. Virgilio Arraes e no minimo um enorme desrespeito ao Musico eum alerta a classe musical brasileira !!!! o fascismo , nao faz parte de uma sociedade seria e democratica !!!

    Complimenti Maestro John Neschling

  3. claudio mahle disse:

    Para gritar BRAVO e pedir bis!

  4. jussara corrêa disse:

    Bravo Maestro!!!
    Sou mulher de um músico da OSB e foi maravilhoso ler o seu esclarecimento a respeito dessa crise absurda.
    Obrigada, Maestro!
    Que Deus proteja a sua sabedoria!

  5. Ricardo Amado disse:

    Querido Maestro!
    fico muito contente pelo seu interesse em ajudar a esclarecer este grande equívoco que estamos vivendo na OSB, no Rio …
    Abs, Ricardo.

  6. Eduardo Pereira disse:

    Lucido e instigante como sempre. Realmente foi tudo muito mal planejado e executado nesta crise da OSB. Aproveito para lembrá-lo e tambem aos diretores do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, que este ano , a Orquestra Sinfonica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, completa 80 anos e é a mais antiga Orquestra em atividade no Brasil. Parece que aDireçao Arística do TM nao sabe deste fato…
    Um bom abraço do
    Eduardo Pereira

  7. Irai de Paula Souza disse:

    Querido Maestro Neschling, sua reflexão é lapidar! A lucidez de sua analise reflete a magnitude de todas as conquistas da OSESP sob a sua Direção Artística. E também, o generoso humanismo sempre presente em todas as suas palavras e ações. Na terra dos discursos vazios, e das gestões irrelevantes, sua voz e suas ações trazem luz e esperança ! Em outras palavras, com a sua liderança Maestro, sempre haverá CONCERTO ! BRAVÍSSIMO !!!!!!!!

  8. Tomaz Soares disse:

    Prezado Maestro Neschling,

    Cumprimento-lhe pela explanação a cerca desta situação da OSB. Um texto claro e objetivo sobre questões intrínsecas à atividade sinfônica no Brasil. O paralelo com a educação foi um espetáculo a parte. Como músico, deixo registrado aqui a “Moção de repúdio às ações da administração da Fundação OSB contra seus músicos e pelo restabelecimento da temporada completa da OSB”. O público também deixa seu repúdio registrado nessa petição on-line com quase três mil assinaturas.

    Cordiais saudações, Tomaz Soares.

    http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoListaSignatarios.aspx?pi=OSB2011

  9. Doride Pinheiro disse:

    Caríssimo maestro,

    Excelente suas observações. Fico pensando, afinal, quem concedeu tanto poder ao maestro Miczuk. Qual o respaldo dele para tal curso de ação? Quem é esta “instituição”? A alguém deve favorecer este posicionamento arbitrário, não concorda?

  10. Ronaldo Miranda disse:

    Carissimo Maestro

    Da maior importancia a sua interpretação sõbre o grande problema que a OSB está passando. Grandes solistas já romperam seus contratos com a orquestra. Bem feito.

    Resta agora o publico assimante perceber o ¨imbroglio ¨Em tempo: no Blog da orquestra o Sr. Eleazar de Carvalho fala como se as coisas não estivessem tão graves .Mas é assim mesmo. .

    Parabéns.

    R.Miranda..

  11. Virgílio Arraes disse:

    “Violinista há 57 anos, eu, Virgílio Arraes Filho, venho agradecer, maestro, as palavras a mim dirigidas por ocasião da inédita situação por que passa a Orquestra Sinfônica Brasileira, instituição em que tenho atuado como colaborador, desde a década de 60, e efetivo desde 1992.
    Tocaram-me seus comentários por ter vindo de profissional de envergadura, que dirigiu a melhor orquestra do país, ao levá-la e elevá-la a um patamar de excelência que até hoje desfruta ela.
    Tenho dedicado toda minha vida à música erudita. Nesse sentido, tive a honra de ser aluno de Oscar Borgerth na Escola Nacional de Música (ENM), na qual logrei ao me formar distinção máxima – recordo que ele foi spalla da Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e da própria Orquestra Sinfônica Brasileira.
    Em função da formação humanística da ENM, sempre pautei minha carreira pelo extremo profissionalismo, ao buscar disciplina, respeito, dignidade e integridade. Nesse sentido, fui spalla da Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense, antiga Orquestra Sinfônica da Rádio Ministério da Educação, instituição na qual o senhor também atuou. Estive ainda lá como componente do Quarteto da Rádio.
    Fui ainda um dos profissionais fundadores da Orquestra da TV Globo e fui o único músico a participar da efeméride do cinqüentenário e do centenário do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
    De súbito, entro para o noticiário, não por ser um dos músicos mais antigos do país em plena atividade, mas por receber uma suspensão da FOSB e eventualmente uma demissão. Em vista de tudo, maestro, desejo registrar que suas palavras foram um bálsamo para um coração ainda magoado por causa do tratamento ora recebido.
    Com os cumprimentos,
    Virgílio Arraes Filho”

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