A Coruña 1

O mundo realmente dá voltas. Somos agora a sétima potência econômica mundial, e só o que ouço nas minhas viagens européias são reclamaçoes dos cidadãos preocupados com a questão econômica. Ao chegar à Galícia, noroeste da Espanha, quase fronteira com Portugal, a primeira coisa que o taxista que me leva ao hotel conta é que o crescimento do PIB nacional beira o zero por cento, o que não permite o aumento do emprego. Fico bem quietinho, com a nossa performance de sete e meio por cento ao ano. O desemprego na Espanha  se mantém em 22%, um nível desmesuradamente alto, e a luz no fim do túnel aparentemente ainda não se acendeu. Nada que se compare à pujança espanhola que pudemos verificar quando estivemos com a OSESP em tournée por estas bandas,  4 ou 5 anos atrás. Naquela época o país parecia um canteiro de obras, sentia-se a energia no ar, e o que mais me impressionou foi a quantidade de salas de concertos que se construiu no espaço de 10 a 15 anos. Certamente umas 15 salas novas, todas de arquitetura notável, algumas mais do que isso – únicas. A ópera e sala sinfônica de Tenerife, projetadas por Calatrava são um bom exemplo. Lembro-me ainda que tocamos no auditório de Zaragoza, e que a acústica me deixou entusiasmado. Pois bem, a situação econômica piorou depois da grande crise, mas as salas estão aí, e há que ocupá-las convenientemente.

As orquestras espanholas tiveram uma melhora de qualidade simplesmente impressionante na década de noventa. Como exemplo cito a orquestra de Valência, que quando eu era titular em Portugal, no início dos anos 80, (e vejam bem que as sinfônicas portuguesas não eram, naqueles tempos, nenhum exemplo de qualidade orquestral ) era considerada uma orquestra de província sem nada de especial.  Nos anos 2000 teve como titulares Zubin Mehta e Lorin Maazel-  ao mesmo tempo!!!

La Coruña sedia a Orquestra Sinfônica da Galícia, reconhecidamente umas das melhores orquestras espanholas. A OSESP pôde conferí-lo ao “comprar o passe” de dois de seus titulares, para que tocassem em São Paulo: Darson, um dos primeiros trombones e Jessica, uma das 1ª flautas da OSESP, foram ambos músicos dessa orquestra. Como todas as orquestras da nova leva de sinfônicas espanholas, a Orquestra da Galícia teve que recrutar muitos músicos estrangeiros. Só como curiosidade, cito o sobrenome dos integrantes do naipe de primeiros violinos da orquestra: Hohenthal/Prjevalski, Dürichen/Asanov, Bussi/Brilmayer, Wojtowicz/Malec, Utanu/Nicholas, Vlashi/Hauser, Smith/Antonyan e Bournaud… No resto da orquestra, em maior ou menor escala, a situação é parecida. E quero deixar bem claro que não tenho nada contra. Muito pelo contrário, que isso sirva de lição àqueles e àquelas que reclamam porque querem uma orquestra toda brasileira e que desdenham daquelas que necessitam de buscar músicos fora de suas fronteiras. Os estrangeiros que tocam na orquestra daqui já o fazem há quinze, vinte anos e estão perfeitamente integrados na vida espanhola. Falam a lingua, são cidadãos europeus com filhos radicados nessa cidade. Sem dúvida devem ter preparado um sem número de músicos espanhóis que pouco a pouco irão ocupando os lugares nas orquestras do país.

É desta forma que se constrói uma realidade musical. Foi assim nos EEUU durante o século XX e foi assim no Japão na segunda metade do século passado. O que se deve fazer é, ao recrutar músicos novos, dar preferência aos músicos do país. E respeitar aqueles que há décadas vêm mantendo a chama da vida sinfônica acesa.

Apesar da crise braba que assola a Espanha, e apesar dos cortes, às vezes pesados, que foram feitos nos orçamentos das orquestras, elas sobrevivem com dignidade e qualidade. A Sinfônica de Galícia tem uma “temporada de abonos” de outono/inverno e inverno/primavera com 20 programas diferentes. Recebe uma série de maestros convidados, solistas de renome e executa um repertório muito interessante. Além das grandes obras do repertório tradicional ( Sinfonias de Schumann, Tchaikowky, Berlioz, Mahler etc) traz algumas peças difíceis de se ouvir no dia a dia dos conjuntos. Por exemplo: o Quarteto com piano de Brahms, na versão orquestrada de Schoenberg, o concerto para violino de Malipiero, a sinfonia n° 4 de Scriabin e o poema sinfônico “Von der Wiege bis zum Grabe” de Liszt. Sem falar na versão em concerto do “Crepúsculo dos Deuses” de Wagner, sonho que não consegui realizar na OSESP.

Mas o que me impressionou de verdade é o comprometimento da orquestra com a música contemporânea espanhola. Alguém conhece Eligio Vila (1958), Eduardo Soutullo (1968), Fernando Buide (1980), Manuel Balboa (1958-2004) ou Octavio Vásquez (1968)? Pois então venham a La Coruña para ter a oportunidade de ouví-los. Quem me dera se as orquestras brasileiras tivessem um empenho parecido em relação aos compositores nacionais!

Na sexta-feira e no sábado terei o privilégio de reger dois concertos com essa bela orquestra, e sobretudo o prazer de contribuir um pouco para o esforço em relação à música espanhola, incluindo no programa  a obra “Saturnal”, de Manuel Balboa, nascido em La Coruña. Conto mais num próximo post.

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6 respostas para A Coruña 1

  1. Eduardo disse:

    Maestro,

    Parabéns. O importante é seguir trabalhando. Os cães ladram e a caravana passa.

  2. irai disse:

    Querido Maestro,
    Apesar do PIB, o Brasil não superou ser “província”.
    Maravilhoso poder compartilhar neste blog todas as suas experiências profissionais tão bem vividas pelo mundo civilizado.
    Bravo Maestro !

  3. Alessandra disse:

    Houve uma orquestra,no Brasil, que se preocupou com música brasileira contemporânea.
    A OSESP,durante a gestão John Neschling!
    No momento atual…..nada.

  4. Carlos Alberto Araujo Netto disse:

    Maestro,

    Encontrei hoje o blog e fiquei feliz por ter notícias suas. Faço doutorado em Psicologia Organizacional na USP e tenho recomendado a leitura do seu livro “Música Mundana”. Há trechos que merecem olhar atento sobre como a arte e cultura são tratadas no Brasil, como enfrentar o corporativismo e os desafios da administração pública, principalmente pelas relações com o estado em suas mais diversas esferas. Enfim, até no processo de recrutamento e seleção, estruturação de projetos e sentido\significado do trabalho encontramos no seu relato uma experiência muito rica. Todo profissional deveria realmente compreender que não há “mais ou menos” quando nos propomos a fazer algo. Abraço, Carlos Netto

  5. Marino Galvão disse:

    Prezado Maestro,
    cheguei até aqui conduzido desde o blog colunalombarda.blogspot.com, em que meu querido filho transcreveu diálogos trocados com sua pessoa, inclusive ali registrando link para este maravilhoso post A Coruña 1.
    Confesso, com a necessária humildade, que o que sabia a seu respeito eram todas aquelas intrigas e futricas que vinham à tona pelos jornais e revistas, sendo a última publicação pela IstoÉ de 31 de janeiro, onde comecei a entender melhor o grande imbroglio que gestaram em seu desfavor, fruto da mais pura inveja de desqualificados, ao que agora me parece evidente.
    Lendo alguns dos seus posts, especialmente “A deselegância de Alex Klein” e este sobre a belíssima região da Galícia, posso ter certeza acerca do seu caráter e da sua competência ímpar, a despeito de ter-se dedicado, por um bom tempo, a construir uma orquestra brilhante, missão esta que lhe exigia impor qualidade, técnica, rigor, disciplina, competência, metas etc., o que, convenhamos, nem sempre pode ser compreendido aqui no Brasil.
    Especialmente por seu caráter, só me resta dizer: Bravíssimo!!!!

  6. Mary-Helen TE disse:

    Caro Maestro,

    Grande sucesso na Europa. Conte sempre de seus próximos concertos pois quem sabe alguns de seus leitores possam ir visitá-lo e aplaudi-lo.

    A coluna de Norman Lebrecht e OSB está cada vez mais interessante.

    http://www.artsjournal.com/slippeddisc/2011/03/brazil_in_a_nutshell_-_so_what.html#comments

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