Três pílulas e uma carta

Do Teatro Colón vem a boa notícia de que foi anunciada a temporada de 2011. Sete produções líricas estão programadas para este ano. Chama a minha atenção  “Le Grand Macabre” de Ligeti, que será, se não me engano, a estreia sulamericana da obra, num espetáculo concebido pela Fura del Baus, de Barcelona e trazendo no elenco o mítico Chris Merritt. Recentemente assisti ao espetáculo “Boris Godunov” criado pelo grupo catalão. A montagem era sensacional com os artistas simulando um sofisticado ataque terrorista ao teatro e criando na platéia a atmosfera de pavor que um ataque dessa natureza geraria. Houve um momento em que pensei em ir ao toilette, mas um terrorista de plantão, com uma arma de plástico apontada para mim, me deixou bem sentato. A “Fura” é sempre inovador e inconoclasta.

O “Trittico” de Puccini será uma rara oportunidade de ouvir as três óperas juntas, estrelando Juan Pons e Amararilli Nizza. Geralmente ouve-se só o “Tabarro” e o “Gianni Schicci” na mesma noite. Intercalar “Suor Angelica”, com o seu libretto à beira do kitch e sua música pós-romântica levada ao desespero, faz a noite tornar-se longa, mas muito provavelmente, inesquecível.

A obra-prima de Debussy “Pelléas et Mélisande” terá Markus Werba e Kurt Rydl no elenco. Essa obra, um contraponto congenial ao Tristão de Wagner, raramente é levada aos palcos por ser considerada pouco dramática e maçante. Eu a vejo como uma das obras primas da lírica, e nunca esquecerei uma produção que regi com direção do artista italiano Béni Montrésor, que trouxe à tona todo o caráter onírico e simbolista da história de Materlinck e deixou-me o espaço necessário para que se valorizasse a partitura genial.

Alegra-me, sobretudo, ver que Ira Levin participa da temporada regendo o “Lohengrin” de Wagner.

Cinco produções de ballet e uma produção de Ballet infantil completam os espetáculos apresentados. Além disso as duas orquestras oferecerão  extensas temporadas de concertos, sem falar nas apresentações de  música de câmera . Esperemos que a crise por que o teatro passou esteja superada e que esses planos se realizem sem contratempos. Quem sabe os brasileiros, na falta de programação semelhante por aqui, possam assistir a essas jóias na bela capital portenha.

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Leio, preocupado, matéria no Estado de São Paulo que reporta a enésima crise que explode no Teatro Municipal de São Paulo, durante concerto da Orquestra no SESC Pompéia. Esse problema  vem se arrastando há anos, entra diretor e sai diretor, numa prova de que não se trata de algo circunstancial, mas sim estrutural. O que quer dizer que o buraco é bem mais em cima…

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No front da OSB, tenho lido diversas cartas de apoio aos músicos da orquestra no blog da Comissão dos Músicos, e aconselho a todos que leiam essas manifestações, assim como os comentários aos posts anteriores no meu blog. Embora não concorde necessariamente com tudo o que vem sendo dito, tem sido um debate interessante . De qualquer maneira está sendo louvável o trabalho dos representantes dos artistas da OSB no sentido de preservarem a sua dignidade e o seu emprego.

Recebi, entretanto, uma carta escrita pelo Professor Luis Carlos Justi, oboísta do Quinteto Villa-Lobos e professor da UNIRIO, que faço questão de copiar nesse post, uma vez que com esta, sim, concordo ipsis-literis.

A OSBJ – Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem

Criada na época do maestro Yeruham Scharovsky a Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem já nasceu num berço cheio de conflitos. Época de vacas magras, quando os salários dos músicos da orquestra adulta atrasavam por meses, não foram, no entanto, somente estes os conflitos que marcaram o parto da então jovem orquestra jovem.

Antes, a determinação dos objetivos de uma orquestra jovem no cenário musical carioca e brasileiro foi motivo de apaixonadas discussões. Bons tempos quando, pelo menos, se discutiam assuntos relevantes. Uma corrente, da qual eu era um dos poucos defensores, via uma orquestra jovem como uma “escola” onde os jovens se apresentariam com um repertório condizente com o nível médio de desenvolvimento técnico-musical, trabalhados e liderados por um maestro com idade e experiência suficientes para ensiná-los (e não para aprender com eles). A outra corrente defendia uma “seleção” entre os melhores jovens músicos para fazer deles uma orquestra de “elite”. Mesmo durante o período em que atuei como coordenador da OSBJ fui voto vencido quanto a todos os quesitos que privilegiavam o aspecto pedagógico do trabalho com os jovens, aqui incluído a questão de não se pagar a bolsa em dinheiro, mas em cursos de especialização em música, línguas, materiais didáticos e técnicos (cordas, palhetas, partituras, livros), de tal forma que tudo o que fosse entregue aos jovens revertesse única e exclusivamente para eles. Voto vencido, instaurou-se uma orquestra jovem onde uma bolsa de estudos era disputada para pagar pequenas despesas para uns, para ajudar no orçamento familiar para outros e, do lado da orquestra, como uma moeda em troca da dedicação e aceitação sem discussões das determinações superiores.

Por muitos outros motivos acabei me afastando definitivamente da orquestra e lá se vão muitos anos. No entanto, reiteradas manifestações da atual direção artística vem me incomodando pela ausência de critérios e pela generalização de falácias quanto, especialmente, à qualidade do ensino de música no Rio de Janeiro e no Brasil. Professores de música de um modo geral não tem se posicionado, talvez por ignorância dos fatos ou medo de uma indisposição junto à OSB e seus diretores.

Temos professores excelentes de piano, violino, violoncelo, viola, trompete, enfim de todos os instrumentos que fazem uma orquestra sinfônica. A Direção Artística da OSB reduz em poucas e mal ditas palavras um problema muito sério. Tive e tenho alunos de oboé que ocupam lugares marcantes em orquestras tanto no Brasil como no exterior. Todos os oboístas da atual OSBJ são meus alunos (embora a OSB insista em dizer nos jornais que todos os músicos da OSBJ são alunos dos músicos da OSB – mentira!). Creio que a direção artística da OSB não conhece as escolas de música do Brasil todo, não sabe o trabalho que é desenvolvido em muitas cidades e mesmo assim se põe a desconsiderar este trabalho do alto de seu desconhecimento. Informar-se é bom e honesto.

Uma primeira pergunta, por exemplo, é o porquê os bons músicos brasileiros deveriam obrigatoriamente vir até a OSB? Por que razão eles fariam isso? Pelos altíssimos salários que nunca foram pagos lá? Talvez pelo irresistível carisma de seu diretor artístico?

Voltando à OSBJ, qual a preocupação pedagógica com os jovens músicos? Talvez um repertório que pode levá-los a um estresse precoce, ou a uma tendinite? Ou uma sequência de provas e concursos fora de prazo, chamadas de “audições internas” onde jovens são sumariamente “demitidos” no meio do período para que outros “melhores” ocupem seus lugares, não se dando aos excluídos sequer a chance de melhorar? Seria este processo porventura parte da citada “pedagogia”? Os jovens fazem provas pelo menos duas vezes ao ano, e alguns são chamados no meio do semestre para “provas internas”.

Agora temos a nova noticia de que a OSBJ vai substituir a OSB em todo o primeiro semestre do ano sob a alegação de que eles terão solistas e regentes renomados? Como ficam os alunos que estão ainda em período de estudos e agora se veem constrangidos a assumir um papel profissional prematuro com uma remuneração de bolsa de estudos? Quanto tempo eles terão para o estudo de seus instrumentos e da música de um modo geral, quando assumirem a obrigação de concertos – que caberiam à orquestra adulta – numa agenda que conta, além dos ensaios normais, alguns “extras” para dar conta do recado? E como fica o aspecto simplesmente trabalhista desta relação? Que espécie de ética a direção da OSB esta ensinando a esses jovens? Alguém está considerando isso? Infelizmente esta atuação lamentável da direção da OSBJ conta com a colaboração de um ou outro instrumentista míope, daqueles que manipulam os jovens com promessas futuras de lugar na orquestra adulta se eles se adequarem e não discutirem a política imposta. São os mesmos míopes que servem de “solistas” da OSBJ em concertos menores – os quais deveriam ter os jovens como tal – como “cala boca” (um “solinho” e um “cachezinho”) para que se sintam como solistas de sua orquestra, embora não o suficientemente bons para os concertos de série da OSB adulta.

Será que a OSBJ não deveria estar tocando com solistas da própria orquestra num processo de incentivo ao estudo em vez de substituir de forma barata a orquestra adulta que, tudo prevê, vai ser implodida pelo seu maestro a título de “avaliação de desempenho”?

A OSB que fugiu de sua vocação original, criada por um músico brasileiro que compunha e fazia tocar música brasileira, viu justamente alguns de seus diretores artísticos, ignorantes da história da orquestra, pouco a pouco dirigirem o repertório quase que exclusivamente para a música internacional – que deve sem dúvida fazer parte do repertório de qualquer orquestra decente – todavia se esquecendo da nossa própria cultura, de nossa música de concerto.

Como se pretende advogar a existência de boas escolas entre nós se nós próprios não reconhecemos o valor nem de nossos compositores, se não tocamos nossos criadores de música?

Pior que isso tudo, agora levam a OSBJ para um caminho que, sob a falsa alegação de lhe conferir qualidade, simplesmente explora o potencial dos jovens para tapar um buraco enquanto se reformula a orquestra adulta.

Onde estão os educadores musicais do Rio de Janeiro, os professores universitários, os pedagogos, aqueles que ensinam os jovens que tocam na OSBJ? Todos concordam com esse cenário, ou é simplesmente mais fácil não se indispor com a Direção Musical que domina a mídia e a cabeça dos outros senhores do Conselho Curador da OSB? E quanto a estes, também é mais fácil simplesmente financiar e não discutir? Será que todos eles já se informaram suficientemente sobre quem e o que eles estão provendo? E os patrocinadores, assinam, sem discutir, essa “pedagogia” aplicada aos jovens? E quanto ao dinheiro público?

São muitas as questões é verdade, mas respostas devem fazer parte das questões. E onde estão as respostas?

Luis Carlos Justi – foi oboísta da OSB durante 20 anos; coordenador da OSBJ por dois anos; é Doutor em Música, professor de oboé e música de câmara da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, oboísta do Quinteto Villa-Lobos há 26 anos.

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4 respostas para Três pílulas e uma carta

  1. Marcos P.B. disse:

    Gostei da carta do Professor Justi. Muito sensata e lúcida.
    • • •
    “Chama a minha atenção “Le Grand Macabre” de Ligeti, que será, se não me engano, a estreia sulamericana da obra”

    Houve uma montagem (?) do “Le Grand Macabre” no SESC Ipiranga em São Paulo há cerca de 10 anos, não lembro exatamente o ano, tampouco que fez a montagem. Tinha muito de macabro e quase nada de Ligeti. Portanto, se depender desta, pode considerar a argentina como a estreia sulamericana.

  2. Gilberto disse:

    A apresentação a que se refere o comentarista Marcos P.B. aconteceu na virada do ano de 1999 para o ano 2000, aproveitando-se o clima de “fim de mundo” supostamente anunciado pela profecia de Nostradamus. Não por acaso, a montagem recebeu o título de “Ópera do Fim do Mundo” e fez parte do extinto projeto Pocket Opera, do SESC Ipiranga. Na verdade, tratava-se de uma livre adaptação de “O Grande Macabro”, com texto cantado em português. A direção foi de Solange Farkas e a regência, de Marcelinho de Jesus. O acompanhamento dos cantores ficou a cargo do famoso grupo Uakti, de Minas Gerais, que utilizou instrumentos criados por seus próprios integrantes, sobre uma base eletrônica pré-gravada. A proposta da série Pocket Opera era convidar diretores de outras áreas (cinema, video, teatro etc) para lançar um novo olhar sobre a ópera e tratá-la sob uma linguagem diferente. Nesse sentido, o intuito foi plenamente alcançado. Gostos estéticos à parte, o “Grande Macabro” não deixou de se fazer presente na ocasião – e, consequentemente, Ligeti também, já que a partitura dele foi a base utilizada para a montagem.

  3. André Egg disse:

    Eu também concordo com tudo na carta do Justi, menos uma informação histórica, que não julgo irrelevante. Não sei se o criador da OSB ao qual ele se refere é o José Siqueira, mas é fato que o primeiro regente foi o Szenkar, e ele não tocava nada de música brasileira. Nem o Villa-Lobos não era tocado pela orquestra nos primeiros anos, só a Abertura do Guarani estava no repertório.

    As coisas mudaram um pouco com Baldi e Eleazar de Carvalho na década de 1950, mas em geral a elite carioca que manteve a orquestra e dominou seu conselho (rede Globo inclusa no pacote), sempre preferiu pagar tributo à tradição oitocentista européia.

  4. Tomaz Soares disse:

    Apenas utilizo o espaço do blog do maestro John Neschling para fazer luz a uma petição on line, intitulada: “Moção de repúdio às ações da administração da Fundação OSB contra seus músicos e pelo restabelecimento da temporada completa da OSB” no sítio: http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=OSB2011
    Bravissimo ao maestro Neschling por postar aqui suas opiniões à respeito dessa crise que assola a orquestra mais tradicional do Brasil. Cordialmente, Tomaz Soares.

    PS. Bravo ao prof. Justi pelas suas colocações.

    Here is the text of this petition in english:

    OSB managers, stop harassing OSB musicians and immediately reinstate the full professional orchestra in the first half of the 2011 season!

    This is a public petition to be submitted to the OSB Foundation Board of Trustees and OSB sponsors: BNDES (National Bank for Social and Economic Development), Companhia Vale do Rio Doce (Vale do Rio Doce Corporation) and Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (Government of the City of Rio de Janeiro).

    We, the undersigned, regular audience and subscribers of the Brazilian Symphony Orchestra (OSB), one of the most important and highly respected musical institutions in the country, hereby vehemently protest against the actions perpetrated by the Executive Management of the OSB Foundation and its Artistic Director, Mr. Roberto Minczuk against its orchestral body: all members of the ensemble have been required to take part in reauditions for the same orchestral positions they currently hold, as if they were first time job applicants at the OSB. According to both conductor and administration, this procedure was devised as part of a restructuring project of the orchestra they intend to implement (cf. http://vejabrasil.abril.com.br/rio-de-janeiro/editorial/m2337/roberto-minczuk and http://www.artsjournal.com/slippeddisc/2011/03/brazilian_facebook_protest_-_t.html). This plan, however, has been highly criticized and condemned by most professionals in the field, many of whom among the most highly respected both in the national and international musical arena, as one can see in numerous texts published on the internet, such as the ones found in the links below:

    http://www.cmusicososb.blogspot.com/

    http://www.artsjournal.com/slippeddisc/2011/03/message_to_brazil_from_the_ger.html

    http://www.artsjournal.com/slippeddisc/2011/03/brazil_-_un_cri_de_couer_aux_m.html

    http://www.artsjournal.com/slippeddisc/2011/03/brazil_facebook_protest_-_the.html

    A series of unacceptable consequences can already be felt as the result of this restructuring project; they are facts that we, OSB audience and subscribers, must speak out against:

    1- The removal of the professional orchestra from half the season’s concerts and the abusive, unethical and unpedagogic situation the OSB Youth Orchestra has been compelled to face since its young musicians have been scheduled to replace the major orchestra in the series traditionally performed by OSB, including the opening concert of the season.

    2- The lack of professional respect for both novice and tenured musicians, who have already been punished with suspensions from the job, without pay, for refusing to participate in the so-called “performance evaluation” process, and the threat of dismissal due to gross misconduct if they are absent again from the reauditions.

    3- The clearly unilateral and despotic attitude on the part of the FOSB managers when, three days into the musicians’ collective vacation, the Foundation sent them a letter informing all musicians that an evaluation process would be held: this was done without any input from the musicians or their representatives. The refusal, on the part of the administration of the orchestra, to engage in dialogue and negotiation, preconditions for a sound professional relationship in any free and democratic society, is further evidenced by recent events: not a single representative of the OSB Foundation attended a scheduled meeting with the OSB musicians’ representatives and the Musicians’ Union at the Brazilian Labor Ministry on March 10.

    4- The plans for hiring musicians for the positions already open and for the ones that will be created after the mass dismissal of tenured musicians: auditions are planned to be held abroad (i.e. in London and New York) before residents in Brazil are given the opportunity to audition, as published in the OSB official site. It is very sad to see that this plan reveals a disdainful attitude towards musicians who currently live and work in Brazil. That is how the FOSB administration and Mr Minczuk plan to transform OSB into a “truly” international orchestra.

    We, therefore, demand an immediate reversal of the situation presented in this document by requesting that both parties (musicians on one hand and FOSB and Mr Minczuk on the other) sit down and start a dialogue before our beloved OSB is fully disintegrated. The country cannot do without a traditional institution such as this, which has always been in the forefront of the battle towards the promotion and enhancement of classical music in Brazil and which has been source of so many moments of sheer beauty, art and joy for the last seventy years.

    We, the undersigned, forward this public petition to the Board of Trustees of the OSB Foundation and the orchestra’s main partners and sponsors (BNDES, Vale do Rio Doce and Prefeitura do Rio de Janeiro) in high hopes that they intervene to help promote understanding between both parties involved so that a harmonious and fair outcome may be reached.

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