OSESP sem celebridades

Sempre reluto em me manifestar sobre a OSESP. Porém, quando meu nome é citado em reportagens ou em pronunciamentos da própria Fundação e de seus dirigentes, sinto-me na obrigação de fazê-lo. Como Othelo de Shakespeare, sei que a honradez não é visível como a cor de nossos belos olhos azuis. Sei também, como o Doge de Veneza, que sou o único guardião de minha própria honra. É só por isso que este assunto volta à baila.

Na matéria publicada hoje na Folha de São Paulo e intitulada “OSESP encerra período de celebridades”, o atual diretor artístico da orquestra,  jornalista Arthur Nestrovsky, afirma, referindo-se ao próprio salário e ainda ao salário da nova regente titular Marin Alsop, que a Fundação “está gastando menos do que já gastou para funções equivalentes no passado, para o elenco de pessoas da maior distinção que a gente já teve à frente da orquestra.” É por isso que Silas Martí, autor da matéria escreveu que somados os salários de Nestrovsky e da maestrina, que dividem as funções que antes eram minhas,  são menos do que os  cem mil pagos ao maestro demitido em 2009. A única verdade que vejo nessa afirmação é de que fui demitido em 2009.  Façamos as contas: a OSESP, embora fosse a sua obrigação, jamais me deu o benefício da CLT, apesar de eu ter sido o grande incentivador da contratação de todos os outros funcionários por essa lei. Portanto, eu não gozava  de férias,  de 13° salário, nem demais direitos trabalhistas. Eu permanecia em São Paulo, morando na  minha própria casa,  e trabalhava na OSESP  durante o ano inteiro, de manhã até a noite. Assumi durante todo o período em que fui diretor artístico, 15 programas anuais, além das gravações, turnés e administração artística. Imagino que Fundação OSESP não tenha com o jornalista Arthur ou com a a maestrina Marin Alsop a mesma relação de trabalho precária que manteve comigo. Até porque creio que  não deseje ser vítima de mais processos trabalhistas. Portanto a maestrina deve receber por dez semanas de trabalho 14 salários e demais direitos trabalhistas.  A isso, somam-se as passagens aéreas, que serão muitas, mais a estadia em hotel da qualidade que a maestrina merece. Os mesmos direitos trabalhistas e 14 salários serão sem dúvida pagos, e com toda a razão, ao jornalista Arthur. Mas, há que se pagar ainda os cachês, passagens e hotéis dos maestros ou maestrinas que virão completar as cinco semanas  que Alsop não regerá, mas que eu regia. Se esses artistas são “do elenco de pessoas da maior distinção que a gente já teve à frente da orquestra”, como afirma o jornalista Arthur, os cachês certamente não serão baixos. Não esqueçamos ainda que há na distinta equipe, a figura do Maestro Associado, que, de acordo com a lei, deve receber os seus 14 salários acrescidos dos direitos trabalhistas que lhe cabem. Como o Maestro Associado rege um coro na Holanda,  imagino que também terá as suas passagens e hospedagens pagas. Tortelier, o Maestro de Honra, também não deve sair barato. E finalmente, mas não menos importante,  uma invenção da nova governança que não onerava o orçamento da OSESP nos meus tempos: as figuras dos conselheiros internacionais Henry Fogel e Timothy Walker, que recebem o que lhes é de direito pelo seu trabalho acrescido de passagens aéreas e hospedagens. Ignoro se todas as distintas figuras gozam do privilégio de carro e motorista.  Porém, tudo isso somado na ponta do lápis certamente ultrapassa, e muito, o que a OSESP gastava comigo. Mas, como afirma o jornalista Arthur na matéria, estes”são dados confidenciais”.  Fica difícil para os simples mortais ter acesso aos valores reais.

Fernando Henrique Cardoso, ao comentar a contratação de Marin Alsop, que permanecerá dez semanas por ano com a OSESP, afirma que “nossa orquestra chegou ao ponto dar um salto, de não ficarmos satisfeitos com o que fizemos”. Acho formidável. Foi com ideologia semelhante que a Filarmônica de Nova Iorque fez história. Lembro que na época das negociações para contratação de Riccardo Muti para seu titular, quando o maestro ofereceu à orquestra doze semanas de permanência anual (fora as turnés) a Orquestra recusou a proposta. Achou que era pouco para um projeto ambicioso como o que acalentava.

Desejo boa sorte à OSESP nessa sua nova fase “que encerra seu período de celebridades”, e que paga mais caro por isso.

 

 

 

 

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14 respostas para OSESP sem celebridades

  1. maria josé disse:

    Fico impressionada.
    Este pessoal que dirige a OSESP,atualmente,atua em reação,nunca em ação!
    Eles vivem em função de tentar denegrir e desmerecer o Maestro Neschling e sua obra.Cada hora é uma coisa!
    Não vejo propostas que não sejam tentativas de desmerecimento,como se ali não estivesse algo,realmente maravilhoso!Uma orquestra maravilhosa!
    Desde que se apossaram da orquestra, que tentam provar que sabem dirigí-la.
    E aí,toca procurar argumentos pífios e vazios e tolos e infelizes para colocar nos jornais e convencer gente boba daquilo que eles mesmos não acreditam.
    Na verdade,quanto mais eles fazem isso,mais o público silenciosamente toma tento e
    se convence da verdade…..quão grande Maestro e Organizador e Administrador foi
    em São Paulo,John Neschling!!
    E que mesquinharia total da parte do Governo do Estado quando o dispensou ,da forma como o fez!!
    Mesquinharia essa,que ao inves de arrefecer,parece que continua cada vez pior!

  2. irai disse:

    Querido Maestro, bom mesmo é saber do seu SUCESSO em Bologna e, seguir suas lúcidas, cultas e elegantes reflexões neste blog.

    Atualmente, vivemos no Brasil uma pífia crise do significado de tudo e todos. A quantidade de burocratas incompetentes em cargos de relevância é enorme. Não há pudor ! A única força que os move é a posição social, os favores políticos e os “contra-cheques ” generosos. Competência e qualidade não são prioridade nesse indiscutível “novo período de mediocridades “.

    Eu pergunto : na atual “gestão” da Osesp/SSP há alguém que saiba o significado de “Regente de Honra” de uma Instituição Sinfônica ? Será que o “batalhão” de burocratas que o substituiu em 2009 seria capaz de criar e materializar uma parcela ínfima que fosse do projeto Neschling para OSESP/SSP ? Respondo indignada o óbvio ululante : Não e Não !

    Maestro, a sua obra está viva ! Houve um tempo em que os governadores Covas, Alkmin e Lembo foram os parceiros/interlocutores ideais que compreenderam a magnitude do seu projeto para a cultura brasileira . Os prêmios internacionais para as suas gravações continuam florecendo ! E todos nós, sabemos que há muito repertório gravado na sua gestão artística esperando ainda para ser lançado. Além do fato de sua atual discografia com a Osesp, nos sêlos BIS / Biscoito Fino Clássicos, já é legendária e imortal .

    Por fim, hoje, talvez a questão na Fundação Osesp seja mesmo de “Honra Perdida”.

  3. Mary-Helen TE disse:

    Irai,
    Faço minhas as suas palavras.

  4. Eduardo disse:

    Realmente, há que se considerar essas ressalvas, quando se fala de custo, até porque ele é apenas umas das variáveis. Aliás, não deixa de ser um pouco estranho tocar nesse assunto e dar as informações pela metade, alegando sigilo contratual (sigilo que certamente não pode ser absoluto, considerando que a fundação é mantida com dinheiro público). Mais preocupante foi o anúncio do fim da era do maestro “prima dona” (segundo o que foi publicado pela imprensa no fim-de-semana). Como retórica é ótimo, mas, concretamente, o que quer dizer? Que o regente titular sequer escolhe o que irá tocar? Que não pode maltratar os músicos? (isso é problema musical ou de RH?). Acho curiosa essa teoria que defende um enfraquecimento dos poderes do maestro. Eu já li que alguns regentes fazem os músicos tocar bem por respeito, outros por temor e alguns poucos por amor. Como público, sinceramente, pouco me importa, desde que se obtenha o resultado, que haja resultado para mostrar. No caso do maestro Neschling, quaisquer que fossem os defeitos, e talvez não fossem poucos (afinal não estamos falando de Madre Teresa ou São Francisco de Assis), inegavelmente foi apresentado um resultado (vejam as resenhas da classics today, gramophone, BBC music). Esperemos que Marin Alsop, com (ou apesar de) as atuais condições também consiga fazê-lo.

  5. Rafael disse:

    Para que estas afirmações foram postas à imprensa? Usando a expressão do Calil, por que o “banho de sangue” está sendo rememorado por eles? Olha, sejamos práticos…não sei como anda a situação interna dentro da Osesp, mas para o público a situação não está muito confortável. Aumentaram o preço das assinaturas por motivos que só eles compreendem, diminuindo o número de concertos em cada série. Os ingressos avulsos também aumentaram. Querem que acreditemos que todo o pessoal dos novos quadros da Osesp custa menos que 100.000 reais? Ora! Nestro+Alsop+Tortelier+Antunes+consultores+convidados das 5 semanas de Neschling custam menos que 100.000 reais por mês? Isso somados salários, passagens, estadias, benefícios? Precisa tratar o contribuinte como palhaço? Fazem um monte de estripulias, e mais esta ainda?

  6. Odair disse:

    Gostei do Mahler que Marin Alsop regeu no ano passado. Mas tenho dúvidas se ela conseguirá desenvolver um trabalho de lapidação e envolvimento com a orquestra e com a comunidade como conseguiu fazer em Baltmore (pelo que foi divulgado, um belo trabalho). Não ficará em tempo integral por aqui, o que já dificulta bastante. Temo ser um talento desperdiçado pela fogueira das vaidades que arde na Sala São Paulo.
    E Tortelier como “convidado de honra” ou algo que o valha é mais uma das piadas que só a OSESP poderia nos proporcionar.

  7. Elcio disse:

    Gostaria muito de saber qual foi a reação dos músicos, como se faz valer a opinião da orquestra, quais pontos são considerados para a escolha de um regente. Nada disso ficou claro para o público.A Marin Alsop pode ter regido um ótimo concerto, mas está preparada para lidar com uma orquestra brasileira? Por qual razão Kristijan Jarvi não foi o escolhido, ao contrário do que chegou a ser anunciado no ano passado?Quem afinal manda e desmanda nesse negócio chamado Sinfônica do Estado de São Paulo, pra onde vai parte do nosso dinheiro? Tudo o que sai na mídia acusa a falta de transparência nos processos de escolha dessa orquestra e no que é feito na sala São Paulo. A impressão que tenho é que os músicos devem sentar, tocar e ganhar o polpudo salário, isso basta, o contribuinte tem que se estapear para conseguir um ingresso.

  8. Mary-Helen TE disse:

    Elcio,

    Atualmente não é mais preciso se estapear para conseguir um ingresso. Basta ir ao concerto e ficar esperando que no último minuto entra quem estiver lá, para ocupar as cadeiras vazias. Bobo de quem está assinando e comprando ingressos. Não se pode mais assistir a um único concerto sem ser importunado pelos “sem ingressos” que entram após o primeiro movimento e, no escuro, ficam procurando lugar sem contar o assinante “sem lugar” por ter chegado atrasado. Já que a Osesp está na campanha de apagar o nome de Neschling, deveria ter a coragem de acabar com o sistema de assinaturas. Assim todos poderiam comprar ingressos e não haveria mais os “sem ingressos” mas, teria a Osesp essa coragem e enfrentar concertos com pouco público, como acontece em todas as grandes salas de concertos pelo mundo, quando a música não faz parte dos “war horses” clássicos? Claro que não. Teria a coragem de abrir mão do dinheiro que recebe antecipadamente? Obviamente não.
    Quanto aos músicos da Osesp, meia dúzia não pode fazer nada, mas uma orquestra INTEIRA, que está recebendo os louros do trabalho de Neschling, poderia e deveria se manifestar. Para mim são também cúmplices da atual situação.

  9. Dinilson disse:

    Sinceramente, não sei se M.A. é uma grande regente, a ponto de fazer grandes trabalhos com orquestras medianas. Presumo que sim, a julgar pelos bons discos que gravou pelo selo Naxos. Uma coisa é certa: se a OSESP tem condições hoje recebê-la e apresentar uma musicalidade que a agrade, sabemos a quem agradecer por isso. De minha parte, se fosse o ordenador de despesas da OSESP jamais aceitaria um acordo como esse dez semanas, ainda mais considerando o comentário do Maestro John Neshling (cujos cds são tão bons e elogiados como os dela, com u’a diferença, se só essa existisse, é brasileiro – ah sim, seus CDs são melhores, afinal é Guarnieri e não a enésima gravação de Dvorak). O tal ordenador de despesa está seguro da escolha, afinal tem prestar contas a órgãos de controle, tais como o TCE ou CGU. De minha parte, só posso dizer-me surpreso com a lógica a justificar a opção tão comentada pela imprensa. Dez semanas talvez funcione para a grande New York …(Ops, não funcionou!). Isso me lembra um comentário feito certa vez por Ariano Suassuna em uma de suas palestras sobre esse tipo de escolha, mas que não ouso externá-lo aqui para não ferir suscetibilidades (algo a ver com provincianismo).

  10. Eduardo disse:

    Dinilson,

    O número de gravações não tem nenhuma relação com a qualidade de cada uma delas. A Sinfonia Manfred, por exemplo, já foi muito gravada, e nem por isso a gravação de Neschling com a Osesp pode deixar de ser considerada ótima (é a minha preferida). Aliás, se isso fosse critério, desde os anos 50 ninguém gravaria mais Beethoven, Brahms, Schubert, Schumann, etc. etc., e a orquestra não teria os excelentes cartões de visita que tem (para a maioria dos estrangeiros é difícil avaliar a Osesp apenas com base nas execuções de Villa-Lobos e dos demais compositores brasileiros).

  11. Maestro.

    Não o vejo como repetitivo cada vez que fala da OSESP. Principalmente porque – como menciona – só há o senhor para defendê-lo. Se não o fizer, quem o fará? Sei que de nada, absolutamente nada, adianta solidarizarmo-nos. Mas, mesmo assim, solidarizo-me e lamento, mas lamento muito o caminho que tudo tomou e os rumos futuros de “nossa” OSESP.
    Nunca vou esquecer de uma execução da 10ª Sinfonia de Shostakovich, com o maestro à frente da OSESP. Eu assisti do coro e fui testemunha da “recriação” de uma obra-prima, pois, para mim, regência é paixão, envolvimento e o resultado, quando maravilhoso, funciona como uma “recriação”.
    Maestro, tive o privilégio de apertar-lhe a mão uma vez. Um privilégio.
    Abraços, de um fervoroso, porém impotente admirador.
    Fernando Colpas

  12. Arthur Alvin disse:

    Nesse País Quem Trabalha, Não Merece Respeito…Infelismente!!! “Viava ao Brasil.”
    Parabens ao Maestro Pelos Anos de Muito Trabalho.

  13. José Silva disse:

    Mesmo levando em conta a elogiada carreira de Marin Alsop, acho que a eleição de Dilma Rousseff pesou bastante na escolha dela para ser regente da Osesp. O Brasil gravita em torno do Estado e tenho visto, pelo país afora, várias instituições colocando mulheres no seu comando apenas para imitar o que ocorreu no governo federal.

  14. Ligia Amadio disse:

    Querido John, como vai você?
    De minha parte, muitas saudades de você, de sua inteligência, de seu idealismo, de sua sana loucura, de sua gestão brilhante à frente da OSESP, de sua criativa programação!
    Não conhecia seu blog. Encontrei-o casualmente, buscando uma informação.
    Lí sua matéria, muito bem-escrita, como sempre, em que você expressa, com toda a razão, o que acontece na OSESP atual. Cifras não me interessam muito, já que sempre vivi longe desses valores, já que o destino fez-me mulher e brasileira… Mas certas afirmações como: “para o elenco de pessoas da maior distinção que a gente já teve à frente da orquestra”, me deixam totalmente indignada. Tenho vivido chocada com o que tem sido feito em nossas orquestras e com os artistas brasileiros. No ano passado, quando fui reger um concerto na Sala São Paulo, me deparo com um banner gigantesco com os artistas que se apresentariam durante um período (não sei se anual ou semestral), e não havia um único nome de artista brasileiro. Eu penso que nunca os artistas brasileiros foram tão desvalorizados. Em um país com uma tradição pianística tão forte como o nosso, nenhum pianista (exceção feita a Nelson Freire até segunda ordem, claro) tem sido convidado para atuar com as orquestras de mais recursos do Brasil. Nem falemos de solistas de outros instrumentos…. Nenhum regente também está à altura dessas orquestras, fora um ou dois nomes. Parece que os músicos atuais, que são exatamente os mesmos de antes, deslumbraram-se com o up-grade de seus salários e com o budget de suas orquestras, e agora desprezam todos os que trabalharam com eles e que até muito os ensinaram. Essa nova moda de diretores artísticos que jamais estiveram à frente de uma orquestra é uma moda que está deixando sérias consequências. Mas com toda a propaganda que fazem, pois têm mídia nas mãos (já que pagam por isso), pode estar seguro, querido John, que nem com esse “elenco de pessoas da maior distinção que a gente já teve à frente da orquestra”, jamais se recuperou o brilho que havia quando você estava à frente da orquestra. É realmente lamentável que no Brasil, regentes que amam suas orquestras, e que dão a vida por elas, não sejam valorizados. Creio que pecamos por ser apaixonados por nossas orquestras.

    Beijos e muitas felicidades!

    Com muita admiração e respeito,

    Ligia

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