Bologna 2 e outros pensamentos

Não pude deixar de observar como a tendência mundial de melhora das orquestras também se aplica à Itália. A orquestra de Bolonha é excelente. Sempre foi das melhores do país,  e lembro-me do último concerto que dirigi por lá, muitos anos atrás, em que tive como solista Ricardo Castro. O resultado tinha sido bom,  mas dessa vez fiquei realmente surpreso com o resultado final, e sobretudo com o trabalho nos ensaios.  Em épocas de mais fartura na Itália, quando os Teatros ainda não navegavam em mares tão revoltos como atualmente, as orquestras estavam acostumadas a um número grande de ensaios para cada concerto. A consequência disso é que 0s músicos chegavam pouco preparados para o primeiro ensaio, e a melhora era gradativa.  De acordo com a qualidade intrínseca do grupo chegava-se a um resultado final mais ou menos satisfatório, mas o processo de ensaios era bastante desgastante. O concerto dessa semana em Bolonha teve só 4 ensaios em dois dias, e o programa, pelo menos o da primeira parte, não era conhecido da orquestra. De notar, ainda, que no dia anterior ao primeiro ensaio, a orquestra tinha tocado a última récita de “Tannhäuser”, o que não é para qualquer um. Desde o início, notei que os músicos estavam preparados e o resultado final foi mesmo muito satisfatório. Fiquei sobretudo feliz com a música do nosso mestre Villa-Lobos. Senti que a peça caiu imediatamente no agrado dos músicos, que não a conheciam, e foi notável o gosto com que executaram as Canções da Floresta Amazônica. Rocio Ignacio, soprano solista e belíssima sevilhana, cantou com alma latina e linda voz, apesar de algumas dificuldades iniciais com nosso idioma. Como cantar Villa: com a pronúncia literal, pouco coloquial , ou com uma pronúncia mais chegada àquela da nossa música popular? Bidu Sayão optou, talvez pela época, pela primeira forma, enquanto  eu, na época atual,  prefira a segunda, mais chegada a nossa língua cotidiana. E tenho certeza de que Villa, hoje em dia, estaria de acordo comigo, embora sempre tivesse ouvido a forma castiça. Na segunda parte fui fundo na minha atual interpretação da Quinta Sinfonia de Tchaikowsy, marcada por tempos bem diferenciados e sem pausa entre os movimentos. Gostei do resultado e o público reagiu com entusiasmo.

Senti, porém, durante todo o trabalho, um ambiente bastante tenso tanto no comportamento dos músicos quanto dos trabalhadores do Teatro Comunale. O seu futuro está realmente incerto e pesa no seu dia a dia a possibilidade dos teatros italianos serem obrigados a  reduzirem drasticamente a sua atividade ainda esse ano ou mesmo, em caso mais graves,  a fecharem as suas portas. A simples sobrevivência desses trabalhadores está posta em questão. Estuda-se permanentemente  as decisões financeiras e político-culturais discutidas diariamente em comissões especializadas. Eu mesmo fui procurado por mais de uma pessoa do teatro para saber se havia a possibilidade de trabalho no Brasil, uma espécie de eldorado que brilha indefinidamente na imaginação européia. O caso de Emmanuele Baldini fez jurisprudência e muitos desejam trilhar a mesma estrada.  Não sabem da missa a metade, a julgar pelo que ouço dizer da tragédia anunciada no Teatro Municipal de São Paulo. Mas isso será assunto de um post específico que espero publicar em breve.

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Na OSESP anuncia-se a contratação de Marin Alsop como regente titular por cinco anos, a partir de 2012.  Trata-se de uma maestrina interessante, que está sendo chamada  depois de uma única semana de trabalho com a orquestra, o que não deixa de ser um certo risco. Espero que a nova governança da OSESP deixe com que ela trabalhe e desenvolva as suas idéias livremente,  sem grandes interferências. A  nomeação do Maestro Associado não me convence nem vejo a razão para a mesma, a não ser pela necessidade política de ter um brasileiro na “nomenklatura” artística da orquestra. O que, porém, me chama a atenção foi a nomeação de Tortelier para Regente de Honra da orquestra. Tortelier deve ter feito mesmo muito pela estruturação e pela qualidade da OSESP e da Sala São Paulo, deve ter trazido muitas glórias internacionais para o conjunto, prêmios e menções honrosas, para merecer tal recompensa, já que ninguém antes dele foi galardeado com tal honraria. Talvez por não ter havido ninguém importante antes dele na história da orquestra…

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9 respostas para Bologna 2 e outros pensamentos

  1. Querido Maestro

    Estou profundamente indignada,com esta história de regente de honra!
    Imaginando mesmo um movimento popular!

    Basta de nos curvarmos a todos os caprichos desta Fundação desrespeitosa!
    Desrespeita ao senhor,ao seu trabalho,e a nós,que o admiramos!

    Estou muito indignada e não estou só!!

    Maria José

  2. Músico Indignado disse:

    Maestro, é uma vergonha o que fizeram, ou melhor, NÃo fizeram com o sr….!!!!! Essa orquestra está virada numa grande palhaçada!!! Arthur Nestrovsky e Cia. Ltda. ainda vão conseguir acabar com todo um trabalho de anos. O dito cujo só se importa com o que diz respeito a “perfumaria” da orquestra. Ele e seus cúmplices ignorantes não fazem a menor idéia do que uma orquestra precisa para evoluir. O sr. foi extremamente educado e político ao mencionar que Marin Alsop é uma maestrina “interessante”, mas a verdade é que ela é PÉSSIMA! Esse tal comitê de busca é uma grande piada! Um bando de executivos que vem ganhando dinheiro por dois ou três anos e para quê? Para escolher regentes que a orquestra “supostamente” avaliou como “preferidos”… ridículo!!! Tenho vontade de vomitar!!! Sabe o que essa gestão está fazendo? Está tirando o prazer dos músicos da orquestra de fazer música!!! Só isso!!! Ou seja, a essência de tudo. O motivo pelo qual uma orquestra existe. Sinceramente, me sinto atado, pois minha vontade é simplesmente de pedir demissão. Infelizmente, tenho contas a pagar… Desejo muito sucesso no Velho Mundo!

  3. Mr. Fagoteiro disse:

    É triste, mais somos reféns de uma pedagogia criminosa, onde a cultura vem na base da piramide, e na verdade deveria estar no topo. Eu ainda acredito naqueles que fazem da música não uma forma de se manifestar mas sim um “lifestyle”.

  4. Renê disse:

    Bom Domingo

    Sou um expectador e fã do Maestro

    Não conheço o trabalho de Marin Alsop, confesso que fiquei feliz pois achava que poderiam colocar um Brasileiro ,por algum interesse particular qualquer ,na frente da orquestra,nada contra, só não sei se existe algum a altura, pois eu estava na platéia em 2oo5 no concurso para maestro substituto quando o Minczuk saiu , onde os candidatos eram da A. Latina , nenhum foi aprovado. Só posso rezar para que seja um ótimo trabalho, pois aos meus olhos que observam à distancia não existe competência da administração para reconhecer um maestro talentoso, isso ficou evidente com o “Torteloni”, com gafes e certa ingenuidade – que reflete na minha opinião falta de compromisso – durante as entrevistas se mostrou um maestro prestes a se aposentar, que aproveitou um convite casual para uma aventura tropical.

    O que causa insegurança quanto ao futuro é a postura/mentalidade da direção da orquestra na expulsão do Maestro. Quem se arriscaria a assinar um contrato com tal postura tomada anteriormente pela contratante?Ou desconhece os fatos ou é ingênuo ou não tem personalidade forte, sangue correndo nas veias, (o que é na minha opinião historicamente indispensável para o bom maestro). Acredito que os próprios músicos necessitem a essa altura do campeonato de liderança, de um objetivo forte e impetuoso para o futuro da orquestra e, infelizmente, essa seqüencia de descaso com a OSESP será refletida nas salas de concerto.

    A programação 2011 não está no mesmo nivel, inclusive algo me assustou! em 2005 ouvi a 9 de Malher com o Maestro , excelente, chegou bem perto do meu ideal de regência Mahleriana que é Heitink com a Concertgebouw. Em 2011 temos a 9 com Karabishevski, deveriam os músicos entrar em greve!
    E uma insistência excessiva em Arvo Part(5 apresentações) , que não vejo necessidade. Só um Wagner, 1 Shoenberg, 2 Messiaen 1 Ligeti , nenhumzinho Berg, Weber, Berio, não custava…Claro que essa é só minha opinião.

    Quanto a nomeação Tortelier Regente de Honra, devemos ignorar pois se trata de uma afronta , alem do mais esse titulo nao tem peso, pois vem de uma administração desprestigiada e pouco profissional.
    Todos que conhecem a historia , sabem que a OSESP teve o renascimento(e pq não nascimento) com Neschling e os novos músicos, a eles caberão as merecidas honras, mesmo que sejam tácitas por enquanto.

    Abs.

  5. Assinante OSESP disse:

    Dispensar um maestro não me parece problema. A forma como se faz essa dispensa, isso sim pode ser um problema. Sua dispensa, maestro, foi um imenso problema para nós assiantes, um grave problema para o senhor – que mereceria ao menos o respeito básico – mas foi um problema GIGANTESCO que a direção da OSESP criou para si. Esses burocratas que se arvoram entender de música e que dirigem a Fundação OSESP serão eternamente lembrados pela injustiça que cometeram. Eu preferia etar na sua pele do que na deles.
    Fiquei surpreso com a nomeação de Marin Alsop. Achei bom ter uma mulher à frente dessa orquestra. E uma mulher guerreira, talentosa, de fibra e fama. Só espero que ela não se submeta aos “especialistas em música” da direção da fundação OSESP.
    O Serra já teve sua parte: foi humilhado nas eleições pelo PT e por uma mulher. Dessa vez o “menino” não recebu mimo…

  6. Mary-Helen TE disse:

    Tortelier “Regente de Honra”!!!!!! Um insulto. O que fez ele a não ser se privilegiar de um estado de emergência criado pela aFundação Osesp por causa da demissão intempestiva de Neschling? Durante 3 anos trocou a Provence por São Paulo por polpudo salário que os jornalistas, tão ciosos das despesas do Estado de S Paulo, jamais mencionaram.

    Onde estão os músicos da Osesp que permitem tal afronta e que estão completamente calados quanto à intensa e permanente campanha para apagar o nome de Neschling da história da Osesp? Onde estariam se o Maestro não tivesse transformado a Osesp e feito as gravações reconhecidas internacionalmente? Têm tanto medo de perder seus empregos que acabam perdendo credibilidade e respeito.

    Quanto à contratação de Celso Antunes, teria algo a ver com uma possível mudança na direção do Coro da Osesp?

  7. Mary-Helen TE disse:

    Ao Músico Indignado.

    Sua frase “Está tirando o prazer dos músicos da orquestra de fazer música.” Acrescento: “e também tirou o prazer por parte dos assinantes cativos e que acompanharam a tragetória da orquestra desde os tempos do Teatro São Pedro, de apreciar e se encantar com os concertos da Nova-Osesp”. O público continua indo por pura falta de uma orquestra de qualidade alternativa. O famigerado telão de marketing antes dos concertos é um absurdo. Já pensou num telão semelhante no Royal Festival Hall, Musikverein, Concertgebouw, KKK Lucerne etc…. Marin Alsop provavelmente vem treinar repertório para o primeiro mundo.

  8. músico disse:

    Olá Maestro.
    É Incrível de acreditar nessas palhaçadas feitas e faladas por esse despreparado diretor artístico. O público sente falta de uma Orquestra bem administrada e bem moldada. Esse tal novo diretor artístico não sabe nem administrar um quarteto de cordas, imagine uma orquestra, dizendo barbaridades sobre salários, cachês etc. Se ele ganha menos que você ganhava está certo, ele merece ganhar igual a um faxineiro. Um dia gostaria que você voltasse e desse o cargo dele de faxineiro a esse artur aí.

    um abraço e sucesso para você.

  9. Jayme Portugal disse:

    O Maestro Neschling foi literalmente serrado pelo ex governador. E o citado ex-governador foi derrotado de maneira vexaminosa, deixando os que acreditavam nele na mão. Ainda bem que não renovei minhas assinaturas de recitais da OSESP nos últimos dois anos. Agora nomear Tortelier como regente de honra, é uma afronta, não só aos frequentadores da Sala São Paulo, mas a todo povo. Lembremos que a OSESP hoje é a única orquestra que possui grande renome internacional, provando que carnaval e futebol não são os úncos representantes da cultura brasileira.

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