A crise na Europa e a fartura no Brasil

Tenho observado a preocupação de amigos diretores dos teatros italianos, diretores de cena, cantores, regentes com a nova difícil realidade lírica na Itália. A situação está mesmo complicada. O governo atual aplicou um corte significativo no “Fondo Unitario dello Spetacolo”, que é a prinicipal fonte de entrada financeira dos teatros de ópera do país. É importante saber que 85% do orçamento das casas de ópera na Itália servem para cobrir os custos fixos de manuntenção (sobretudo salários) e só 15% vão para a produção artística. Como os funcionários dos entes líricos têm empregos fixos e protegidos, não é possível um corte de pessoal, de forma que o enxugamento das despesas recai na produção artística.
A crítica alega que o governo atual tem demostrado pouco apreço pela ópera, a cultura e o patrimônio histórico em geral. Grande parte dos monumentos da civilização ocidental encontra-se na Itália. Em tempos normais manter esse acervo já é uma tarefa hercúlea. Na crise tudo se agrava.
Há alguns meses parte das fantásticas ruínas de Pompeia desabou por falta de manutenção adequada. A reação da classe cultural italiana foi de fúria. Houve uma moção de desconfiança no parlamento contra Biondi, Ministro da Cultura, e esta história acabou em pizza napolitana.
Há uma consciência crescente da população de que o ambiente cultural do país vem se degradando sistematicamente assim como a compostura de seus líderes políticos. Os sindicatos dos trabalhadores das artes pedem a urgente volta do “Fondo” ao nível de antes. Argumentam que se a atual situação for mantida, os teatros líricos terão que fechar as suas portas. Greves têm afetado produções em alguns dos maiores e mais importantes teatros: récitas da “Cavalleria Rusticana” no Teatro alla Scala foram canceladas; esta semana anuncia-se uma greve na Ópera de Roma que produz um novo “Elisir d’Amore”; o Teatro de Genova cancelou a sua temporada este ano e mandou seus empregados para a “Cassa Integrazione”, uma espécie de INPS italiano, por não saber como cobrir os seus gastos fixos.
Enfim, a Europa ainda não se recuperou da grande crise financeira que assolou o mundo desenvolvido em 2009, e alguns países estão tendo mais dificuldades do que outros para superar as dificuldades. O mesmo não aconteceu no Brasil, que sofreu muito menos do que os EUA ou a Europa, e cresce a níveis asiáticos. O ufanismo histérico com que encaramos a maré do nosso crescimento é inversamente proporcional ao pessimismo que paira sobre o velho continente, que vai tentando se reeguer às duras penas.
E aqui vai a razão desse post. Com todas as dificuldades narradas nessas linhas, Verona apresenta em 2011 a seguinte temporada: no Festival de verão, Traviata, Aida, Barbeiro de Sevilha, Bohéme, Romeu e Julieta e Nabucco. No Teatro Filarmônico, durante a temporada normal, Manon Lescaut, Rigoletto, Pescadores de Pérolas, a Viúva Alegre, além de três produções de ballet.
O Teatro Reggio de Torino, por sua vez, programou Boris Godunov, Madame Butterfly, Parsifal, Vespri Siciliani, Rigoletto, Traviata e Lucia di Lamermoor, além de quatro produções de Ballet.
O Teatro Comunale de Bologna traz Tannhäuser, Don Giovanni, Risorgimento / Il Prigioniero, Ernani, La Cenerentola, e três produções de ballet.
Já no La Fenice de Veneza poder-se-á assistir a Rigoletto, Elisir d’Amore, l’Intoleranza (Luigi Nono), La Bohème, Lucia di Lamermoor e Rheingold, além das produções de ballet.
O Teatro Massimo de Palermo produz La Gioconda, Cenerentola, Lucia di Lamermoor, Turandot, Tosca, Il Trovatore, Carmen e diversas produções de ballet.

Abstenho-me de declinar as temporadas de outros teatros como Opera di Roma, Petruzzeli di Bari, Comunale di Firenze e evidentemente La Scala, cada qual com suas seis ou sete produções de ópera e ballet, e todos eles com suas temporadas sinfônicas e concertos camerísticos. Tampouco quero maçá-los citando nomes de artistas, cantores, solistas instrumentais e regentes, porque cobriria de vergonha nossas pobres orquestras e teatros.

É isso justamente que quero frisar: o Teatro Municipal de São Paulo anuncia que fica fechado até junho. Nada nos garante que não venha outro adiamento por aí. Afinal respeitar datas é que seria exceção naquela casa. A Orquestra Sinfônica Brasileira ainda não anunciou a sua temporada. O Teatro Municipal do Rio de Janeiro, depois de longa e cara reestruturação e de ver o seu teto cair de novo, ainda não nos revelou seus planos para 2011. Falar das outras praças importantes do Brasil, todas bem mais ricas e populosas do que Bolonha, Turim ou Veneza, é simplesmente covardia. Há décadas que as orquestras das demais capitais (à honrosa exceção de BH) continuam mendigando público, verba e muitas vezes espaços. Mas a euforia econômica brasileira é impressionante.
Tenho a impressão de que o que nos falta não é dinheiro. É consciência, política cultural, vontade política e sobretudo, vergonha na cara.

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14 respostas para A crise na Europa e a fartura no Brasil

  1. Mary-Helen TE disse:

    Capistrano de Abreu: Constituição brasileira: Artigo 1º Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Artigo 2º Ficam revogadas todas as disposições em contrário.

    Simplesmente mais uma lei que “não pegou”.

  2. Liliane disse:

    O povo não sabe que existe orquestra,não liga para isso.
    Alguns ficaram sabendo o que era uma boa orquestra quando a OSESP foi reformulada,
    Mas não é nada dificil isso ir para o brejo já já…Não foi ainda,porque existem muitas testemunhas oculares, que vão cair na alma de alguns.
    Mas,com o tempo….

    Já com o futebol,é totalmente diferente!
    Então,Maestro,não se preocupe,dinheiro aqui,tem outros endereços…orquestra,temporada lírica,cultura musical ,será o último a ser editado,pode ter certeza.

  3. Odair disse:

    O problema no nosso país, creio eu, é o espírito “casagrande e senzala” que até os dias atuais impregnam a sociedade brasileira: música clássica é coisa de rico, burguês, elite, patrões, etc….logo não é compatível com uma sociedade que busca justiça social nos novos tempos políticos (leia-se governo lula e sua continuidade). Como se um menos abastado fosse incapaz de gostar de Mozart e tendo que obrigatoriamente gostar de rap. Que o rap o funk e tudo isso tenha espaço sim, e a música clássica, a maravilhosa ópera, também!Cultura, toda a cultura, é para todos.

  4. Regina Elena Mesquita disse:

    Maestro,
    parabéns pelo artigo. É verdade o que disse a Liliane: dinheiro não falta, só vai para onde traz mais prestígio aos políticos. O povo sofre com isso? Sim, sofre, mas não tanto quanto nós, artistas, chamados corriqueiramente de “eruditos”. Vidas inteiras dedicadas à arte, gastos com estudos, famílias a quem muitas vezes deixamos de dar mais atenção, para podermos elevar nosso país, pelo menos culturalmente, a Primeiro Mundo. Só que nós, que deveríamos ser a cigarras, somos as formiguinhas. Vão dizer – Ah, mas nosso país é jovem comparado ao Continente Europeu! E dai? Enquanto quem manda não pensar quão importante é um povo culto, que administraria muito melhor os seus problemas, não teremos evolução em nada. Mas quem dos mandantes se importa? Ninguém… Para eles Viva o Carnaval, Viva o Futebol, que iludem a população e nos deixam, cada vez mais, em último lugar no rank cultural.

  5. Mary-Helen TE disse:

    O ano passado durante os maravilhosos concertos de verão dos Proms de Londres, estava na lojinha do Albert Hall e no caixa uma jovem muito simpática. Conversa vai, conversa vem, era uma violinista que toca em alguns grupos de câmera mas estava trabalhando durante os Proms para ganhar algum dinheiro já que ainda não tem uma estabilidade profissional e não deseja tocar em orquestra. Estávamos comentando sobre o estudo da música e ela me disse o quão importante para crianças é aprender música pois além de desenvolver a sensibilidade, aprendem disciplina, perseverança e concentração que são tão importantes para a vida de qualquer indivíduo. Portanto, não é só aprender do, ré, mi, fá, sol, lá, si, como a maioria pensa, inclusive e principalmente os ignorantes governantes brasileiros.

  6. Rafael Queres disse:

    Prezados, boa tarde.

    Peço licença para comunicar algo que talvez interesse a alguns de vocês. Trata-se da ópera “Nixon da China”, que estará ao vivo nos cinemas do Brasil (por enquanto no Rio de Janeiro, Maringá, São José dos Campos, Campinas e Porto Alegre). É uma excelente oportunidade para assistir a esse trabalho ousado e transgressor, transmitido direto do MetOpera!

    O espetáculo será exibido no dia 12 de Fevereiro, às 16 horas.

    Caso queiram entrar em contato, meu e-mail é socialmedia@mobz.com.br

    Um abraço a todos,
    Rafael Queres – LiveMobz

  7. RBdC disse:

    Pra começar, uma pergunta ao Odair: desde quando a política cultural em São Paulo depende tanto daquilo que emana do governo federal? Sabe há quantos anos o Estado é governado pelos caciques do PSDB? Alho e bugalho são água e óleo, bobagem misturar. Frequente-se um concerto daqueles organizados para os privilegiados mantenedores do Mozarteum, dá uma ótima lição a quem pensa que os que têm capacidade de fazer alguma coisa nesse nível o fazem à altura das expectativas. Enfim, sobre o assunto, recomendo a leitura do trabalho da doutora Maria Aparecida Alves sobre ‘As implicações das leis de incentivo à cultura sobre o processo de produção dos espetáculos’, endereço – http://www.anpocs.org.br/portal/component/option,com_docman/Itemid,85/ – GT 10.

  8. O quadro apresentado pelo dois principais teatros do pais é de chorar. Em São Paulo, o Municipal prometeu uma temporada ” como a do Met” . Santa Maria ! Não sabem quando reabrem e nada mais falam sobre a programação. Estamos em fevereiro/11 e nada da programação do Rio . Os dois teatros – onde gastam dinheiro para reforma-lo- caminham prá um ano melancólico. O Teatro São Pedro de São Paulo, que apresentava 8 óperas por ano anuncia que – este ano- diminuirá o número de recitas (quando deveria aumentar). As quatro novas produções terão 5 récitas cada mas as quatros produções das temporadas passadas terão – vejam – 2 récitas. Quem foi o cretino que decidiu montar uma ópera com apenas 2 récitas num Teatro de 600 lugares ?

  9. Odair disse:

    RBDC , há tempos a política cultural em São Paulo também é vergonhosa, aliás só teria críticas a tecer ao PSDB e seu elitismo. Comentei sobre o que acho desde que foi anunciado o novo ministério da cultura. De toda forma agradeço por compartilhar o artigo.

  10. indiginado disse:

    Mais uma de Voldemort Calil e Bellatrix Amaral: Alex Klein pede demissão!
    Depois de uma carreira fulminante passando de musico para diretor da OSM e logo depois diretor artisico do TMSP, Klein joga a toalha, não deu para conviver com os vilões que querem acabar com o que resta do nosso Hogwarts/Teatro Municipal. Depois de ejetar os diretores de todos corpos estaveis substituindo por outros Death Eaters, Bellatrix desprestigia o recem nomeado diretor artístico, alterando datas e programas sem consultá-lo. Klein que sabe que os Kassabs passam mas que a reputação permanece, nao quis ser mais um marionete nas mãos de Bellatrix pediu as contas. Sai sem realizar nada mas com a cabeça erguida. Quem achava que a programação do centenário seria a ária da soprana doida, agora corre o risco de nao ter programação nenhuma. So Bellatrix mesmo para, do alto de sua sala em Azkaban, achar que uma opera pode ser montada sem regente. Quem sabe o Felipe Hirsch, não inaugura a dry-opera no TMSP?

  11. MARINO GALVÃO JR disse:

    Maestro, parabéns pelo texto realistico sobre o que vem acontecendo na Itália. Há dois meses estou aqui estudando “Manager dello Spettacolo” na Accademia dello Scala di Milano. Não falamos de outra coisa por aqui. Temos visto muitos ensaios das óperas mas se percebe claramente um ritmo de economia. E isto é uma coisa que o público por aqui não está acostumado absolutamente. Em outros aspectos a realidade é ainda muito distante de nosso país. Não é possível mais admitor que teatros como Municipal de SP e Rio, o Guaira em Curitiba ou Palácio das Artes em BH, passem por este tipo de penúria lirico-sinfônica. Mas necessitamos de novas leis. De pressão política. De gente competente no governo. Somente assim poderemos abrir os olhos sobre estes novos-velhos desafios. Deixo aqui um link, onde estou contando um pouco deste minha experiência. http://colunalombarda.blogspot.com/ Agradeço a todos pela atenção.

  12. Marília disse:

    a cultura fica nas mãos dos políticos e as gestões, via de regra, transitam entre um e outro favorecido pelo governo da vez, em troca dos interesses políticos convencionais. Enquanto não houver uma população que cobre seus direitos de viverem num estado governado não por pessoas, mas por políticas públicas que se sustentem para além de uma ou outra gestão não haverá reforma duradoura. Mobilização, posicionamento, voz e cobrança popular e dos artistas. Esse tipo de mobilização funciona sim. É possível sim. Pelo menos mostra o que se quer. O duro é encontrarmos aqueles que queiram ser lideranças legítimas e que não tenham medo de dar a cara para bater…

  13. Simona Akemi Carpanini disse:

    Eu estava navegando na net para saber como se encontra realmente a situação da Italia e me deparei com esse comentário.A principio o que me interessava era realmente sobre a crise economica e não cultural.Boa parte do que foi dito é verdade,os jovens na Italia não se interessam mais por musica classica ou artes,não existe tanto emprego para mdo especializada,os jovens estão com dificuldade para ingressar no mercado,meus amigos ostentam o luxo,mas na realidade praticamente estão falidos,eu ainda não entendo o por que de tudo isso,gastos excessivos como nos USA,investimentos pesados na bolsa de New York.Eu estou com certo receio de me mudar definitivamente para a Italia,por isso estou tentando pesquisar sobre a real situação,uns dizem que está tudo bem,outros me dizem que estao quebrados financeiramente;
    Não existe nada comparavel ao festival de opera em Verona,mas nao é todos os italianos que podem ir aos concertos,porque são caros como aqui,os grandes concertos e operas com maestros e orquestras renomadas sao direcionada a elite de Sao Paulo,na Italia é a mesma coisa,isso não significa que os pobres não gostem de musica erudita,mas não existe democratização desse estilo musical.Prova sou eu,quando pobre estudei musica classica em uma orquestra de igreja evangelica,depois consegui com esforço estudar em um conservatorio,apaixonada por canto lirico e mozartiana compulsiva,fiz aulas,sou uma soprano lirico decepcionada com a falta de oportunidade no Brasil e me especializei em comunicação empresarial para adequar ao modo capitalista de ganhar dinheiro.
    Acho que chegou a bola da vez no Brasil,fazendo estudos de mercado,nunca vi tantos estrangeiros querendo ficar no Brasil e abrir suas empresas aqui,quem sabe isso venha acontecer com artes em geral,a musica sinfonica em si enche os olhos de quem escuta ao vivo e a cores,nunca vi tanta gente simples lotando o ibirapuera para escutar a Osesp nesses concertos ao ar livre e gratuitos ou lotar o Museu do Ipiranga como aconteceu com Pavarotti,a grandiosidade de uma musica sinfonica chama atenção de quem for,muito mais do quem uma orquestra de camara ao ar livre.
    Adoro o Brasil,mas infelizmente,há coisas que serão uma evolução gradativa, lenta.

  14. Simona Akemi Carpanini disse:

    Ah me esqueci,vamos nos orgulhar ao menos da Sala São Paulo,fiquei feliz com os elogios do meu namorado que é italiano acostumado a ir em teatros maravilhosos na Europa para ouvir concertos,mais ainda quando ele ficou de boca aberta com o coral do Teatro Municipal cantando a Missa de Puccini,maravilhado ao ouvir a soprano Keiko Senda cantando Wagner,ela mora no Brasil,para quem ouviu Maria Callas,como ele,o Brasil tem coisa boa sim,eu tenho apenas 26 anos e fico bestificada com tudo isso

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