As cidades e seus teatros

Estou acompanhando, preocupado, os acontecimentos que vêm atormentando o Teatro Colón e seus funcionários ultimamente. Tenho lido os cotidianos argentinos e fico impressionado com a repercussão nacional dos problemas que tanto o Diretor Geral do Teatro, Pedro Pablo Garcia Caffi, quanto os funcionários vêm enfrentando.

Todos sabem que o Colón foi reaberto em maio deste ano, depois de anos em que esteve fechado para obras de renovação e recuperação. A reabertura foi festejada nacional e internacionalmente como um fato cultural de grande relevância. Uma temporada ambiciosa foi anunciada e eu tive a oportunidade de dirigir uma das produções, que comentei em diversos posts desse blog. Neles, eu falava da importância do teatro estar funcionando com casas lotadas, mas informava ainda dos problemas que havia que resolver para que, a longo prazo, não se tivesse que enfrentar crises como esta que agora se vive.

Discute-se neste momento tudo o que é possível discutir, desde o estado em que estão os documentos que tiveram que ser guardados em containers inadequados até o piso do palco, duro demais para que os bailarinos possam trabalhar sem perigo de lesões. Mas o problema fundamental que aflige a maior casa lírica da América Latina é o salarial.

Efetivamente o que ganha um músico das duas orquestras do Teatro não lhe permite chegar ao fim do mês com dinheiro para o supermercado, quanto mais para manter uma família com dignidade. Imagino que este problema aflija também os cantores do coro, os ascensoristas, os técnicos de maquiagem e de carpintaria, enfim, toda a imensa quantidade de funcionários da instituição, (quase mil empregados), do mais humilde ao Diretor Geral – que, aliás, já anunciou também que considera o seu salário insuficiente.

Acontece que por uma perversa tradição argentina, um aumento concedido a um músico da orquestra deve ser estendido a todos os demais funcionários do teatro. Lá, todos ganham praticamente o mesmo, o que gera um descontentamento geral. O incremento que um aumento desses traria ao orçamento do Teatro seria insustentável para qualquer governo municipal, que é quem basicamente sustenta a casa de ópera. Esta situação não é de hoje, e aflige os corações e mentes dos portenhos há anos, sem solução.

Todos tem razões e argumentos que são incontestáveis. Uma coisa, no entanto, me parece um erro fundamental: quando se fecha um teatro, um ícone nacional como o Colón, e se consegue o consentimento da população e do governo para uma obra de longa duração de infraestrutura física, este é o momento para se dar início igualmente a uma renovação e reestruturação do contrato de trabalho dos funcionários (se estes contratos estão defasados) e da qualidade e forma artística de funcionar o teatro.

No decorrer das negociações transparentes que o tempo que estas reformas físicas permite, há possibilidade de resolver todos os problemas que agora fazem do Colón uma instituição praticamemnte inadministrável.

A realidade é que os políticos, tanto lá como cá, estão mais interessados no brilhareco da reinauguração física do que na reestruturação efetiva do seu interior laboral e artístico. Resultado: em Buenos Aires, além de uma função de Katia Kabanova que teve que ser cancelada e uma temporada de ballet que foi simplesmente anulada, nestas semanas três funções de quatro da ópera Falstaff saltaram devido a reuniões sindicais mantidas no palco do teatro durante o horário das récitas; um concerto e vários ensaios da Filarmônica, assim como um concerto de música de câmara foram cancelados. Os trabalhadores estão em pé de guerra contra o Diretor Geral e o Governo Municipal, setenta funcionários estão ameaçados de suspensão sem poder entrar nas instalações do Teatro. Todo o conflito tomou uma proporção política evidente (Macri versus Kirchner) e não vejo solução à vista para a guerra cada dia mais acirrada entre direção e funcionários.

Quem perde com isso? A cidade, o público pagante (caro, para a realidade portenha), o prestígio internacional do Teatro Colón, os artistas convidados que ficam a ver navios depois de semanas e semanas de ensaios finalmente inúteis, os funcionários que enfrentam e enfrentarão dificuldades nos próximos anos, enfim, todos.

E o que podemos aprender nós, aqui no Brasil, que tivemos até há pouco, nossos dois maiores teatros líricos fechados e que continuamos com um deles de portas e janelas (tanto literal como metaforicamente) fechadas? Em primeiro lugar há que observar que um conflito como o que está acontecendo na Argentina, por mais desgastante e trágico que seja, mobiliza intensamente a sociedade de Buenos Aires e do país inteiro. Há semanas os jornais reportam com detalhes as querelas e discussões que travam governo e sindicatos, colunistas analisam o presente, o passado e o futuro do Teatro em detalhes que me espantam. Uma consciência social dessa natureza é impensável no Brasil.

Venho há muito tempo batendo nessa tecla nesse meu limitado blog. “Onde está a nossa indignação?”, pergunto há meses. A culpa desse descaso não pode ser debitada só à sociedade civil que não cobra (apesar de pagar caro) e da imprensa que não investiga. A questão é a falta de importância que os teatros têm na vida das cidades. Abertos ou fechados, significam pouca coisa no nosso dia a dia. Quem se interessa pelo descaso que cerca a Cidade da Música no Rio de Janeiro, fortunas gastas na construção de um elefante branco sem perspectiva, a menos que haja um estudo e uma discussão profunda e transparente quanto a seu destino? Onde está a curiosidade sobre o futuro do Teatro Nacional de Brasília, caindo aos pedaços, e sem programação séria e de qualidade? Enfim, enquanto não se discutir abertamente no nosso País a importância sócio-cultural de nossos Teatros e grandes casas de espetáculo, estaremos vivendo uma grande mentira.

Teatros abrem e fecham sem reformas estruturais em todos os sentidos. Após as obras, não permitem o funcionamento perfeito de seus corpos estáveis e sua infraestrutura técnica, não têm uma linha de atividades competentemente programada, não respeitam a dignidade dos artistas e funcionários nem do público que os assiste. São, sim, um insulto à economia popular e à sociedade. Refletem a ignorância e a incapacidade da nossa classe política e sua inconsequência no trato do bem público.

Estamos entrando num novo ciclo, novos governos federais e estaduais, numa fase em que queremos afirmar a nossa nacionalidade e nossa maturidade político-econômica. Por que não aproveitamos para avançar igualmente no terreno da política cultural?

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2 respostas para As cidades e seus teatros

  1. Eduardo disse:

    Concordo plenamente. E é realmente uma pena. Espero que os argentinos se lembrem da história do Colón (em que regeram gigantes como Toscanini e Erich Kleiber) e percebam o que ele representa. Estive em buenos Aires em outubro e infelizmente não consegui assistir a nenhum concerto.

  2. Alberto disse:

    Preocupações mais que justificadas! Aqui em Brasília, o Tetro Nacional precisa de uma enorme intervenção na sua estrutura física (goteiras, baratas nos camarins, assentos de poltronas com problemas, a lista é enorme), a acústica é um problema à parte, isso sem falar nos corpos estáveis, que se resumem a um: a orquestra… não temos coro nem corpo de baile estáveis, e para falar a verdade, nem uma programação consistente que justifique o emprego desses profissionais. Bom, mas como foi dito, governos estão mudando, vamos aguardar que haja uma política cultural equilibrada, continuada, e consistente.

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