A Religião do Outro

Não é a primeira vez que a colunista social Mônica Bergamo é – para dizer o mínimo – indelicada em relação a mim. Ela, pessoalmente, já agachou-se atrás da porta do meu camarim na Sala São Paulo para ouvir minhas conversas íntimas com amigos, ligou para o celular do meu advogado e publicou informações não autorizadas por ele sobre o meu processo contra a OSESP, enviou fotógrafos clandestinos para espiar a marca do vinho que eu servia aos convidados na festa do meu casamento, foi uma competente divulgadora do episódio nefasto e criminoso de uma gravação clandestina que foi postada anonimamente no youtube para me prejudicar e se prestou ao papel de porta-voz de meus desafetos, divulgando na sua coluna boatos e fatos distorcidos ou tendenciosos. (Não seria errado dizer que ela teve sua quota de responsabilidade na minha demissão da OSESP.) Ossos do ofício de colunista social, diria ela. Pobre ofício, eu responderia, que no Brasil, ainda bem, tem literalmente belas exceções.

Nunca me dei ao trabalho de responder às suas provocações e grosserias. Confesso que seu mundo não me interessa para nada.
Mas dessa vez Mônica Bergamo foi longe demais e tocou num ponto estrutural da minha vida: o judaísmo. Na sua coluna de ontem, 3 de dezembro, na Folha de São Paulo, diz a colunista social que, no meu encontro casual com Fernanda Young num restaurante, a escritora, depois de mostrar uma tatuagem recente da palavra “shalom” que fez em Israel, recebeu de mim a proposta de ser apresentada a um rabino que poderia convertê-la ao judaísmo imediatamente.

Nós, os judeus, aprendemos com a história, que não se deve suportar sequer pequenos comentários depreciativos (mesmo os ingênuos) sobre o judaísmo porque foi assim que historicamente começaram movimentos aniquiladores da nossa cultura. Espero que tenha sido apenas por desinformação que Mônica Bergamo tenha se equivocado ao descrever a minha proposta para a Fernanda. Eu jamais poderia fazer tal oferta para a colega de minha mulher Patrícia, que só conheci naquela ocasião. Não existe conversão imediata no judaísmo, muito menos rabino sério que se preste a esse papel.

O que eu disse à amiga da Patrícia, e ela mesma pode confirmar – se for séria como penso que é – é que a conversão ao judaísmo é complexa e que Patrícia se entregou completamente a esse processo.

No judaísmo, quando alguém decide se converter, o rabino tem que ser convencido da seriedade do desejo da conversão. Os mais ortodoxos se recusam de todo a promovê-la. Mas quando ela é aceita, inicia-se um longo processo de aprendizado da cultura judaica, sobretudo nos seus aspectos históricos e religiosos. No nosso caso , além de ter sido um movimento que mudou a vida da minha mulher, seu processo de conversão acabou por promover um mergulho ainda mais profundo na minha espiritualidade judaica.

Ajudados por rabinos e estudiosos, iniciamos a leitura hermenêutica da Torah, Patrícia começou a aprender hebraico, e juntos passamos a ler filósofos importantes do movimento da renovação do judaísmo.

O que Patrícia disse a Fernanda é que no judaísmo a questão mais estrutural é a crença no homem e na bondade humana, já que homem é a extensão divina do Criador, ou nas palavras de Heschel, “os braços” do Criador. Razão pela qual não adianta apenas pedir perdão a Deus pelos pecados cometidos contra alguém. É preciso também ter o perdão do homem contra quem se pecou.

A verdade é que eu jamais faria ou fiz uma proposta indecente como essa a qualquer pessoa. Mônica errou ao publicar essa informação. Fez isso por falta de conhecimento, espero. (Ou ainda quem lhe passou a informação escuta mal). No meu entender, quando se fala da religião do outro, é preciso ter cuidado dobrado. Um comentário ingênuo como esse (espero) pode parecer intolerância ou pior, preconceito.

Shalom (שָׁלוֹם) a todos.

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9 respostas para A Religião do Outro

  1. Monica Bergamo- aff !!
    Tem horas que dá vergonha de ser nascido nestas plagas.

  2. Fernanda Young disse:

    John, não sei como essa história saiu assim. Contei para uma ou duas pessoas sobre o nosso encontro, quando estive no Centro Cultural Judáico. Mas jamais contei daquela maneira, muito pelo contrário. Tenho o maior respeito pelo judaísmo, e lamento que as notícias sejam narradas sempre dessa maneira, banalizando-se o assunto, e as emoções envolvidas. Beijos e shalon, Fernanda

  3. João p. disse:

    hahaha. Esse comentário da monica revela desconhecimento até mesmo do senso comum sobre judaísmo. Acredito que uma das qualidades do judaísmo é que, dentre as religiões de abrangência mundial, é uma das poucas que não fica tentando converter os outros a todo momento, ou provar a todo custo que é a única correta. Um judeu jamais tentaria converter alguém assim – o contrário, os judeus que conheço costumam ser muito reservados com assuntos religiosos.

  4. Fernanda Young disse:

    Shalom, quero dizer.

  5. Eduardo disse:

    Prezado Maestro,

    Até acho que essa pisada na bola é menor do que as outras relatadas no início do post (considerada a dicotomia culpa-dolo), mas como bem diz o título, por se tratar da religião alheia a colunista deveria ter mais cuidado, inclusive porque, como observado acima, a versão era completamente inverossímil para quem já teve algum contato com o judaísmo (ou mesmo leu um pouco que seja sobre o assunto). Diante da sua manifestação resta aguardar algum desmentido/correção quanto à inexistência de conversão “drive thru” (que aliás é uma desmoralização para qualquer religião).

    Aproveito a oportunidade para lhe fazer uma pergunta que tem a ver com religião (em geral) e música. O Sr. acredita que a religião do regente possa influir de forma relevante na interpretação de uma obra musical de fundo religioso? Faço essa pergunta porque li em um site que Celibidache, que era budista, teria relutado em executar o Requiem de Verdi e que afinal quando o fez abordou a obra de modo totalmente diferente. Karajan (que não sei se era religioso), normalmente fleumático ao extremo, aparece em uma gravação da mesma obra com surpreendentes arroubos dramáticos (no Dies Irae). Será que existe algo ou é só encenação?

    Abraço,

    Eduardo

  6. semibreves disse:

    Eduardo,
    não acredito que, em se tratando de músicos preparados e conscientes, haja uma influência da crença do regente sobre a sua interpretação de uma obra religiosa. Evidentemente o conhecimento mais profundo do conteudo de um texto religioso pode traer insights mais sofisticados a uma abordagem, que porém deve ser sobretudo técnica e musical. Mas há casos e casos: alguns compositres, embora profundamente crentes e religiosos, trataram as formas canônicas muito mais como desculpas para suas obras (muitas das missas de Haydn), outros mais céticos compuseram obras de uma profunda religiosidade (Schoenberg, por exemplo).
    O Dies Irae de Verdi é tão operístico, que Karajan (desconheço se era ou não crente e religioso) fez muito mais uso de seu imenso amor pela ópera do que da espiritualidade, creio.
    Eu, judeu consciente, me emociono profundamente cada vez que rejo o Requiem Alemão de Brahms…

  7. walter neiva disse:

    Karajan era praticante de Yoga e Zen Budismo
    Foi Fiorenza Cossoto que quando esteve aqui em São Paulo para uma Master Class
    me deu esta informação, ela propria cantou esta obra sob a regencia de Karajan
    versão que gravada e disponivel.
    não sabia que Celibidache tb era budista.

    Fiquei curioso em conhecer sua citada versão do Requiem de Verdi.
    Obra que admiro muito e que apesar de julgada “operistica” não exclui
    a devoção, o temor e a adoração Deus.

  8. a cantora careca disse:

    Moro no Rio de Janeiro e não sei quem é Monica Bergamo. Nem me darei ao trabalho de olhar no Google. Oyvalium, manda ela para Bergasse 19 ( Bergamo tem a ver com Bergasse ). Só não creio que o meu querido Freud tenha saco de receber uma pessoa tão imbecil. Aliás Maestro, chega de malas na sua vida !!! O senhor que pertence a uma família especial e possui uma história tão singular, inclusive judaica , não deveria se aborrecer com esses invejosos e ciumentos de plantão.
    Shabat Shalom

  9. Whale Francis disse:

    (Não é para publicar)Não sei se você já leu, mas eis aqui algumas verdades sobre o imbecil que provocou a sua saída da OSESP.

    Os que mudam com o poder
    Por Luís Nassif:

    Já vi pessoas se deslumbrando com 20 anos, com 30, até com 40. O deslumbramento de José Serra com o governo do Estado foi a primeira que vi em pessoas com mais de 60 anos. Foi um deslumbramento completo, visceral, não apenas nas atitudes autoritárias (sempre foi um tanto autoritário), na falta de educação (sempre foi maleducado), mas até na maneira de andar e falar. Comportava-se como um imperador vistoso, onipotente e ridículo.

    Certa vez, perguntado por amigo sobre a diferença entre trabalhar com Alckmin e Serra, o falecido ex-Secretário da Sáude Barradas explicou: o Alckmin fala bom dia.

    As demonstrações de poder se davam nos menores detalhes. Nas companhias que levava nas inaugurações fechadas (como a do Metrô da Praça da República), nos desafios de derrubar jornalistas, na absoluta cegueira em relação à caricatura em que tinha se transformado – dois amigos íntimos chegaram a procurá-lo e a taxá-lo de “politicamente burro”, quando passou a se valer dos seus esquemas na imprensa (particularmente no jornalismo de esgoto) para atacar indiscriminadamente adversários e aliados do mesmo partido.

    Cheguei a conjeturar com conhecidos dele se havia algum componente de senilidade em suas atitudes, tal a mudança operada.

    O pefil abaixo explica com maestria parte do que ocorreu com o ex-Serra.

    Por Aldo Cardoso

    Repassando,

    Chegada ao “Pudê”

    O psicólogo Ricardo Vieira, da UERJ, levanta os quatro(*) primeiros indicadores de mudanças que ocorrem com as pessoas que chegam ao poder:

    1) no modo de vestir: o terno, a gravata, o blazer e o tailleur que, antes eram utilizados em circunstâncias especiais, passam a ser usados cotidianamente, mesmo quando não é necessário utilizá-los. Alguns demonstram certo constrangimento em trocar a surrada camiseta e passar a usar um blazer ou uma camisa de linho, pelo menos nas ocasiões especiais. Se antes usava um cabelo comprido, despenteado, logo é orientado a cortá-lo, penteá-lo, dar um trato. Na última eleição para prefeito de Maringá, um candidato foi orientado pelo seu marketeiro para mudar o cabelo enrolado por um penteado de brilhantina. Perdeu a eleição.

    2) mudam as relações pessoais: os antigos companheiros poderão ser substituídos por novos, que o leva a sentir-se menos ameaçado. O sentimento persecutório de “ser mal visto”, precisa ser evitado a qualquer preço por quem ocupa o poder.

    3) altera o tratamento com o outro, que torna-se autoritário com seus subordinados; gritos e ameaças passam a ser seu estilo. Certa vez, perguntaram a Maquiavel se era melhor ser amado que temido? O autor de O príncipe respondeu que “os dois mas se houver necessidade de escolha, é melhor ser temido do que amado”.

    4) mudam os antigos apoios e alianças. Aqueles que o apoiaram a chegar ao poder, transformam-se em arquivos vivos dos seus defeitos. O poder leva a desidentificação com os antigos colegas de profissão. É o caso do presidente FHC e do seu Ministro da Educação Paulo Renato Souza, depois de executivos, ambos não se vêem mais professores.

    5) Resistência em fazer auto-crítica. Antes, vivia criticando tudo que era governo ou tudo que constituía como efeito de governo. Mas, logo que passa a ocupar o poder, revela “sua outra face”, não suportando a mínima crítica. O poder os torna cegos e surdos a crítica. Uma pesquisa de Pedro Demo, da Universidade de Brasília, constata que os profissionais de academias apreciam criticar a tudo e a todos, mas são pouco eficazes na crítica para consigo mesmos. Enquanto só teorizavam, nada resolviam, mas quando passam a ocupar um cargo que exige ação prática, terá que testar a teoria; agora é que “a prática se torna o critério da verdade” [5] . Por falta de referencial e por excesso de idealismo, é freqüente ocorrerem bobagens e repetições dos antigos adversários, tais como: fazer aumentos abusivos de impostos, aplicar multas injustas, discursos cínicos para justificar um ato imoral de abuso de poder, etc. Há um provérbio oriental que diz: “quem vence dragões, também vira dragão”.

    Os sujeitos quando no poder protege-se da crítica reforçando pactos de auto-engano com seus colegas de partido. Reforçam a crença de que representam o Bem contra o Mal, recusam escutar o outro que lhe faz crítica e que poderia norteá-lo para corrigir seus erros e ajudar a superar suas contradições. Se entrincheirarem no grupo narcísico, o discurso político tornar-se-á dogmático, duro, tapado, e podemos até prever qual será o seu futuro se tomar o caminho de também eliminar os divergentes internos e fazer mais ações de governo contra o povo, “em nome do povo”.

    Léo Mendes

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