Barba, cabelo e bigode

Ontem, 28 de novembro, fizemos a 89ª récita do Barbeiro de Sevilha, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e terminamos a primeira temporada da Companhia Brasileira der Ópera. Foi um esforço sem precedentes na história da lírica no Brasil e, ousaria dizer, na história da lírica internacional, digno de figurar no Guiness, se observarmos as características desse projeto específico.

Fomos recebidos com interesse e surpresa. Quase sempre ovacionados por um público que se divertiu à balda conosco, fomos alvos de muitas críticas entusiastas, mas também de algumas mais ácidas e irônicas. Isso faz parte da nossa vida de artista e é normal quando nos expomos como intérpretes que ousam ir um pouco além do meramente esperado e do tradicional.

Mas é hora de um balanço um pouco mais detalhado. Fomos inteiramente patrocinados pelo Governo Federal, seja diretamente pelo Fundo de Cultura do Ministério da Cultura, seja através da utilização da Lei Rounet, com dotações significativas da Petrobrás e do Banco do Brasil, ambas empresas estatais. No total, recebemos um pouco mais do que 10 milhões de reais, o que, à primeira vista pode parecer uma fortuna.

Se observarmos, porém, o que foi realizado e se dividirmos essa soma pelo número de récitas apresentadas, veremos que a Companhia Brasileira de Ópera pôde apresentar uma relação custo / benefício inédita na história de nossa produção lírica.
A simples divisão da soma total do patrocínio pelo número de récitas indica que cada uma delas custou por volta de 114.000 reais. E cada récita envolvia diretamente o trabalho de mais ou menos 70 a 80 pessoas, se contarmos orquestra, solistas, coro, técnicos, produtores, assessores de imprensa, maquiadores, camareiras, iluminadores, maestros, pianistas, além do pessoal terceirizado em cada teatro. Indiretamente, o número de pessoas envolvidas passa de cem a cada récita.

O patrocínio cobriu todos os gastos de produção: a criação e desenvolvimento de um desenho animado de longa metragem, os custos de direção de cena, cenografia, figurinista e material para a confecção de figurinos (inclusive sapatos, chapéus, perucas etc.), construção e confecção do cenário e adereços, iluminador e aluguel do material de iluminação, aluguel dos projetores e dos computadores, compra de um instrumento que fizesse as vezes do cravo, da guitarra e que produzisse todos os efeitos sonoros especiais necessários, confecção das canoplas para a orquestra e compra das estantes de música, aluguel do material de orquestra e da revisão musicológica para uma orquestra reduzida a 27 músicos, material gráfico, publicidade, e outras dezenas de detalhes que seriam impossíveis de enumerar.

Mais do que isso, o patrocínio pagou as passagens internacionais e nacionais, aéreas e terrestres dos 72 integrantes da troupe durante toda a tournée, assim como o transporte de duas toneladas e meia de carga, os hotéis e per-diems de todos os integrantes da Companhia durante mais de 5 meses, em 15 cidades brasileiras, de Porto Alegre a Manaus, num total percorrido de 16.000 quilômetros. Pagou ainda os cachês dos cantores e maestros e os salários de todos os integrantes da equipe artística e técnica por períodos que variaram de 7 a 10 meses. Alugou os teatros onde era necessário, e cuidou de uma logística infernal.

Das 89 récitas apresentadas, 20 foram récitas infantis. Para os 7 papéis solistas da obra foram utilizados 21 cantores, sendo que todos ensaiaram, viajaram e tiveram figurinos feitos. Se contarmos com os coros que ensaiamos e utilizamos durante a temporada, mais de 120 cantores brasileiros foram empregados durante a nossa excursão.

5 Maestros dirigiram as récitas: eu mesmo dirigi 32 delas, Victor Hugo Toro dirigiu 27, Abel Rocha dirigiu 15, Yoram David dirigiu 10 e Gianluca Martinenghi 5.

O software, operado por um maestro treinado para a função, utilizado no espetáculo para cuidar da interação, tinha 544 deixas de sincronização ( só durante a ária da “Aula de Música” do segundo ato, que dura mais ou menos 5 minutos, eram 62 deixas, uma a cada 5 segundos…).

Nossa orquestra de câmara empregou mais de 80 musicistas durante a temporada, e estes tocaram durante 14.685 minutos, ou seja, quase 245 horas, fora os ensaios.

Foi a primeira vez na história de Aracaju que se assistiu a uma ópera encenada; inauguramos um teatro novo em Fortaleza; fizemos parte das comemorações dos 160 anos do Teatro Santa Izabel no Recife e tocamos em Brasília nas comemorações do 7 de Setembro e do cinquentenário da Capital.

Enfim, foi uma aventura e tanto que contou com a grande dedicação de cada um dos participantes do projeto. Não sei o que o futuro nos trará. Uma coisa, porém, ficou clara: é possível fazer ópera no Brasil sem custos exagerados. Se o trabalho for sitemático e em condições adequadas, é perfeitamente viável estabelecer-se uma vida lírica constante e saudável no Brasil, à altura de nossa grande tradição. O Barbeiro foi só uma amostra.

Obama cunhou o “yes, we can”. Aqui, acho que a grande questão é o “yes, we want”…

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

11 respostas para Barba, cabelo e bigode

  1. Telmo disse:

    Sempre fico extremamente feliz ao presenciar realizações. Tantas récitas de ópera no Brasil então me trazem alegria imensa. Produzidas por meu amigo querido e companheiro de aventuras Vienenses acrescentam ainda as lembranças de ótimos momentos, vividos e desfrutados no aprendizado do que hoje proporciona poder realizar com conhecimento. Parabéns! Sorte e grande futuro…..

  2. Diogo Fernandes disse:

    Prezado Maestro,

    Assisti à récita de sexta-feira, dia 26/11, no Municipal, e gostei bastante no geral. A montagem é bem divertida. O site Movimento traz uma crítica bem equilibrada, escrita por Leonardo Marques, que aponta os pontos positivos e negativos da montagem, e no final faz elogios ao senhor. Adorei também os elogios à Luisa Francesconi. Envio-lhe o link, caso ainda não a tenha lido:
    http://www.movimento.com/mostraconteudo.asp?mostra=2&escolha=4&codigo=5171
    Atenciosamente,
    Diogo Fernandes.

  3. Otávio disse:

    Bravo Maestro!!!

  4. Martha Corazza disse:

    Que o futuro nos traga novamente a Companhia Brasileira de Ópera em outras realizações, cada vez melhores, e que seja cumprida em grande estilo sua expectativa, maestro, de uma vida lírica constante e saudável para honrar a tradição brasileira. Sim, nós queremos!

  5. Laura disse:

    Maestro, por que a Companhia não vem a Ouro Preto? O A Casa da Ópera da cidade, mais antigo prédio teatral da America do Sul, foi totalmente restaurada e seria o cenário perfeito para O Barbeiro. Além disso, a cidade tem um público universitário que nunca tem acesso a ópera. Seria perfeito! Veja o site: http://casadaoperaop.wordpress.com/historia/

  6. semibreves disse:

    Laura,
    a casa de ópera de Ouro Preto não tem palco com altura nem largura suficientes para receber o Barbeiro. Pensamos em Ouro Preto, mas tivemos que desistir por esses motivos. Pena…

  7. Carlos Eduardo Marcos disse:

    Caríssimo Maestro Neschling, foi uma grande honra para mim ter participado desta primeira temporada da Cia. Brasileira de Ópera, pois graças à sua liderança, seu empreendorismo e seu inegável carisma musical pudemos todos nós, artistas e público, desfrutar de um espetáculo completamente equilibrado, com seus momentos de hilariante comédia, sua encenação ousada, seu visual atraente e seu virtuosismo musical. Oxalá venham mais e mais temporadas tão bem sucedidas como a que tivemos, é o desejo da classe lírica brasileira e também do público brasileiro espalhado pelos quatro cantos do país, ávido por belos momentos da melhor arte lírica.

    Parabéns, Maestro, e meu afetuoso abraço,

  8. Sebastião Teixeira disse:

    Caro Maestro, compartilho da mesma opinião do Carlos Eduardo e, com certeza, só um gênio do seu quilate, para proporcionar tamanha oportunidade de crescimento a todos nós, público e artistas.
    Obrigado !

  9. Bravo Maestro!
    Que projeto maravilhoso – desejo vida longa à Companhia Brasileira de Ópera. Aqui em Vitória estamos construindo um teatro – o Cais das Artes (http://www.secult.es.gov.br/?id=/espacos_culturais/cais_artes), que certamente oferecerá as condições necessárias para recebermos as futuras montagens. Parabéns e um excelente 2011!

  10. Lucas disse:

    Olá, Maestro!
    E quanto ao teatro de Paulínia? Creio ser este suficientemente capaz para receber o Barbeiro, não?
    Abraços!

  11. semibreves disse:

    Lucas,
    o teatro de Paulínia certamente tem as condições técnicas necessárias para receber o Barbeiro. No entanto esse ano tivemos que escolher as 15 cidades que receberam o Barbeiro e Paulínia ficou para uma segunda etapa, que espero possa vir a acontecer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s