Ainda sobre o Teatro Muncipal de São Paulo

Acabo de dar uma olhada no site do Teatro Municipal de São Paulo. Eu já tinha ouvido falar que Alex Klein havia sido contratado para o Teatro, embora não soubesse qual a função exata que exerceria dentro dos Corpos Artísticos do Municipal.

Conheço Alex Klein há muito tempo. É sem dúvida um dos grandes músicos brasileiros da atualidade, assim como Washington Barella, Isaac Duarte, Joel Gisiger, Arcádio Minczuk, entre outros, todos oboistas de primeira linha.Ou como Antonio Menezes e Nelson Freire, virtuoses nos seus instrumentos. É sabido que Daniel Baremboim tinha por Alex grande apreço, enquanto primeiro oboé da Orquestra Sinfônica de Chicago, um dos postos mais cobiçados do mundo.

No site do Teatro Municipal puder ler que Alex assume a partir de agora a regência Titular da Orquestra Sinfônica do Teatro. Fica, portanto ainda no ar a pergunta: quem será o responsável pela programação e direção artística do Teatro Municipal de São Paulo?

Não há no site nenhuma informação sobre os planos artísticos do teatro, não se fala nas obras de reforma, na data de reinauguração, e a atual temporada publicada é de uma pobreza que insulta os contribuintes que mantém o teatro… fechado.

Para que não haja nenhuma leitura equivocada deste post, é bom lembrar: não sou candidato e nem me interessa assumir qualquer função no Teatro Municipal. No entanto, como músico profissional e pensador cultural é claro que o destino da maior casa lírica de São Paulo me interessa, e muito.

Não tenho nenhuma razão para não acreditar que Alex possa fazer um belíssimo trabalho frente à Orquestra Sinfônica Municipal. Pelo contrário, sua posição como músico de grande qualidade só o credencia.

O que me surpreende e me deixa curioso é a razão pela qual o Secretário de Cultura da cidade e a direção do teatro resolvem chamar um artista com o perfil de Alex Klein, notável na sua área, porém sem qualquer experiência lírica e com pouquíssima experiência na regência sinfônica para ocupar um cargo que demanda tanto know-how técnico e vivência. Parece normal os nossos dirigentes encararem as duas instituições musicais mais importantes do Estado, talvez do País, como lugares de aprendizado.

Venho afirmando há tempos que o Teatro Municipal necessita de um Diretor Artístico que traga uma contribuição importante para vida lírica de São Paulo e do Brasil. Que tenha capacidade de administração, que conheça o panorama lírico internacional, as grandes produções e os grandes cantores, os cantores jovens e os promissores, os cantores brasileiros atuantes e aqueles com potencial, que entenda de vozes, que conheça o repertório – tanto o corriqueiro quanto o menos conhecido, que tenha experiência na condução da equipe técnica, fundamental para o bom funcionamento de uma casa de ópera. Estas entre outras tantas características que demandam especificidades difíceis de encontrar numa só pessoa. Não pululam por aí os grandes diretores artísticos, à espera de convites de última hora.

Não haveria desdouro nenhum, na falta de alguém com essas características no Brasil (não estou afirmando seja este o caso), que se convide uma personalidade estrangeira para construir uma realidade que já não existe mais no Brasil há anos, e que desejamos ardentemente que volte a existir. A Ópera de Zurique foi alçada a patamares internacionais por um austríaco, a Ópera de Viena vem sendo dirigida há mais de uma década por um romeno, e a Ópera de Genebra por um alemão. O importante é que essas casas produzam um resultado artístico de qualidade e que dignifiquem as suas cidades e o seu público. Xenofobia e chauvinismo são mortais para a qualidade artística de qualquer projeto.

Gostaria de saber quais serão, exatamente, as funções de Alex Klein dentro do Teatro, uma vez que nenhum músico da casa com quem tive a oportunidade de conversar sabia ao certo o que esperar. A falta de transparência no trato com o público do Teatro Municipal já é proverbial, e já é tempo de mudar essa prática autoritária. Está mais do que na hora de conhecer a data de reabertura da Casa, e, com minúcias, a temporada de 2011. O desrespeito pela população contribuinte parece não ter limites. É de fato um absurdo ter o Teatro Municipal fechado sem nenhuma comunicação a respeito dos planos futuros, seja da parte da Secretaria, seja da Direção do Teatro.

De qualquer maneira, desejo a Alex Klein sucesso nessa sua nova empreitada. Oxalá ele consiga me demonstrar que todas as minhas preocupações são infundadas.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

16 respostas para Ainda sobre o Teatro Muncipal de São Paulo

  1. Maestro

    O sr.protesta do descaso da administração em relação ao Municipal,eles não ligam.

    Protesta em relação a OSESP,eles tambem,não ligam.
    Nós,os frequentadores,protestamos,eles ainda assim não ligam…

    Somos cães ladrando,apenas!
    Eles são os donos,os vencedores,as autoridades!!
    Pouco importa a grande, a imensa injustiça que perpetraram e perpetram com relação
    ao senhor,ao público,aos músicos…A única coisa que interessa é a politicagem e os interesses mais imediatos de alguns.
    Ah! essa nossa democracia!!

  2. Eduardo disse:

    Concordo com a opiniao sobre a falta de informação (e, em certo sentido, de transparência) quanto ao futuro do Municipal e sua orquestra.

    No que diz respeito ao Alex Klein, só o futuro poderá dizer se ele conseguirá fazer um bom trabalho, porque isso não depende só dele. Posso dizer, no entanto, que fiquei muito bem impressionado com a apresentação dele com a Osesp no Festival de Inverno desse ano, regendo a Sinfonia n. 2 de Rachmaninov.

  3. Mary-Helen TE disse:

    O romeno que foi por 18 anos Intendant da Opera de Viena foi este ano substituido por um frances. Uma australiana comanda a Opera de Hamburgo, acumulando as funções de diretora executiva e diretora musical. O austríaco que transformou a Opera de Zurich este ano foi para Viena, fazendo dupla com o frances, não por ser austríaco mas por sua experiência e levando um cabedal de 50 títulos de óperas e tendo regido mais de 500 récitas de óperas nos 13 anos que ficou em Zurich. Covent Garden tem um ingles/americano/italiano também de enorme capacidade e conhecimento.

    Enfim, o que se quer são profissionais competentes na suas áreas de atuação. Menos no Brasil onde todos aceitam cargos para, então, aprender.

    Por que só no Brasil profissionais de outras áreas são contratados para chefiar cargos fora de suas respectivas especialidades e, pior ainda, aceitam?

  4. Martha Corazza disse:

    Compartilho sua esperança de que o Teatro Municipal de São Paulo volte a fazer jus às expectativas do público que o mantém. Mas as dúvidas são muitas. No passado, o Municipal cumpriu papel relevante no cenário cultural da cidade e do país, inspirado em grande parte nas iniciativas ali desenvolvidas por Mário de Andrade. Mas ao longo do tempo o papel do Teatro foi esquecido, negligenciado e maltratado, assim como o público. Aliás, o que fazem os tais patronos do Municipal? Ainda existirá essa associação de patronos? para que servem eles? por que não cuidam de aumentar a transparência sobre suas atividades e sobre o que está acontecendo ao Teatro? Há quanto tempo não vemos uma programação lírica meramente decente! seremos obrigados a continuar invejando os argentinos, com o seu Colón, e suspirar por temporadas líricas internacionais que são financeiramente inatingíveis para a grande maioria dos bolsos? como esperar ainda assistir a uma montagem de ópera de qualidade no Municipal? Haverá de fato esperanças?

  5. Maestro,

    Apenas uma dúvida.

    Alex Klein não tem experiência de ópera da época que era assistente de Jamil Maluf na Orq. Experimental, antes de ir estudar no Canadá?

    Em todo caso, creio que a programação está fechada para o ano de 2011, centenário do TMSP. Há obras encomendadas para a temporada e maestros convidados para reger os concertos especiais.

    A gestão plena de Alex Klein à frente do conjunto entraria em vigor apenas em 2012.

    Abs,

  6. semibreves disse:

    Não conheço a experiência que Alex Klein teve em ópera como assistente de Maluf na Experimental. Com todo o respeito, por maior que esta tenha podido ser, não creio que seja suficiente para dar lastro ao posto que ora ocupa (qual é este posto?…)
    Quanto à temporada do ano que vem, se está toda fechada, porque não é comunicada ao público de maneira eficiente?

  7. Realmente, a experiência como regente de ópera dele é tema para avaliação.

    Quanto a programação, até hoje não entendo a forma de divulgação dos programas no TMSP. Como diria o velho ditado popular “é tudo feitos nas coxas”.

    Não respeitam o público e muito menos a própria instituição. Um dos piores exemplos de descaso com o tesouro nacional.

    Abs,

  8. Otávio disse:

    Pois é mestre!
    Agora está pegando moda no Brasil de instrumentista se tornar Regente de uma hora para outra.
    Pelo jeito não se precisa mais estudar regência, mas, ser amigo de alguém para alcançar esse cargo tão precioso para nós.
    Isso tudo é um adeus as armas.
    E todos nós Regentes, sabemos muito bem como é árdua a caminhada.
    Estudos, e por aí vai…
    Em Brasília não é diferente. Já soube que um violinista da Orquestra de lá foi aclamado pela própria Orquestra como seu futuro Regente.
    Este sim sem nenhuma experiência em regência.
    As coisas aqui estão muito Jecas mesmo!!!

  9. músico de Brasília disse:

    Por conta de perseguições internas tenho que ficar no anonimato e espero a compreensão dos leitores deste blog. Procuro meios para protestar contra o recente lobby feito na Orquestra do Teatro Nacional Claudio Santoro de Brasília para indicar um regente titular que sequer é regente, e nunca enfrentou nenhum tipo de treinamento para tal, e portanto, sem repertório e sem a mínima técnica necessária para a função.
    A história é prova de que músicos não sabem escolher seus maestros. Na votação pela orquestra em Brasília, este senhor obteve 30 votos, contra 20(!) para Karl Martin, seguidos por Oswaldo Ferreira, Marcelo Ramos e Elena Herrera.
    Que este senhor tivesse obtido algum apoio era de se esperar. Mas que alguém que NUNCA regeu uma orquestra brasileira (sem mencionar internacionais) seja disparado em primeiro lugar soa como afronta a todos os cidadãos de bem!
    Brasília está de luto!!!!!!

  10. Mary-Helen TE disse:

    Aos jovens regentes que leem este blog. Em entrevista Welser-Möst disse que como GMD da Opera de Viena quer ver se consegue que jovens regentes se interessem pela regência de ópera, principalmente do repertório italiano, pela falta de regentes especializados nesse reportório. Como chegar lá não tenho a menor idéia mas, para quem é do ramo, não deve ser impossível. Está dada a dica. Acho que se referia a regentes de carreira e formados em regência.

  11. Gecilene disse:

    Maestro,

    Peço desculpas por mudar completamente de assunto em relação ao que é discutido neste tópico, mas o senhor poderia divulgar o elenco das apresentações do Barbeiro no Rio de Janeiro, informando quem canta em que dia? Pergunto porque vi o elenco em três lugares diferentes, e há divergência entre os três! Desde já agradeço pela gentileza.

    A propósito, será o senhor que regerá aqui no Rio?

    Gecilene Bresiani

  12. semibreves disse:

    Os elencos que cantarão no Rio são os seguintes:
    Figaro- Frederico Sanguinetti / Homero Velho
    Rosina- Luiza Francesconi / Anna Pennisi
    Almaviva- Federico Lepre / Gilberto Chaves
    Bartolo- Pepes do Vale / Savio Spreandio
    Basilio- Gianluca Breda / Carlos Eduardo Bastos Marcos
    Berta- Luiza Kurz
    Fiorello e Oficial- Guilherme Rosa

    Regência- John Neschling

  13. Nelson Kunze disse:

    Olá Maestro Neschling, tudo bem? Na mesma edição da Revista CONCERTO que traz a matéria sobre a Osesp que o senhor comentou, há também uma entrevista do Alex Klein (página 8). Ali, em resposta à pergunta “quais exatamente serão as suas funções no Teatro Municipal?”, Alex responde: “Meu cargo é de diretor artístico, responsável pela programação, e de maestro principal da OSM”. E segue tecendo comentários sobre a programação e funcionamento da casa. Alex diz que a temporada do Teatro será divulgada na primeira semana de dezembro. Um abraço!

  14. Dinilson disse:

    Enquanto isso…
    Numa das Gramophone de Novembro (duas são lançadas neste mês, a do mês propriamente dito e outra chamada de “Awards”), é dito o seguinte sobre o disco Floresta do Amazonas, lançado no mercado internacinal pelo selo BIS:
    “This new realease features even better – o disco é comparado com outras versões – sound, and a dramatic, immaculately prepared performance under John Neschling, who did so much to raise the São Paulo orchestra’s profile (…) This is different matter entirely. Very warmly recommended”. A crítica é de Ivan Moody, Gramophone, Awards. Só coloquei trechos.

  15. Maestro.

    Compartilho com você o absurdo do amadorismo – para dizer o mínimo – do poder público em relação ao Teatro Municipal.
    O “site” da instituição e a programação estão dispostos de modo desrespeitosamente negligente.
    Por fim, não sabemos sequer quando nosso patrimônio da cidade volta à ativa. Ninguém dá uma satisfação e continuamos às escuras.

    Obrigado pelo espaço.
    Abraços e cada vez mais sucesso em sua empreitada.

    Fernando.

  16. boca do inferno disse:

    Maestro,

    Alex Klein acumulará as funções de diretor artístico do Teatro Municipal de São Paulo e de regente titular da OSM. Só mesmo no Brasil alguém sem a menor experiência em ópera é convidado para dirigir uma casa de ópera. Veja bem: não estou pondo em discussão a qualidade (inegável) do Alex como músico, mas questionando a sua experiência na área que vai comandar (ópera). É mais uma prova de que virou moda, por aqui, utilizar os equipamentos públicos como espaços de aprendizagem, laboratórios de experimentação. Deve ser a filosofia da tal “new fashion” a que o Sr. se refere, tomando o lugar da “old fashion”, na qual cargos eram confiados a especialistas.

    E já é como novo diretor do TM que Alex está adotando algumas medidas, como reprovar previamente 70% dos cantores do Coral Paulistano em recente audição, com a anuência de seu regente titular, Tiago Pinheiro. Como prova de magnanimidade e benevolência, porém, será dada uma segunda chance aos reprovados no final de março, quando então terão a última oportunidade de adequar suas emissões vocais líricas (que um dia caracterizaram a outrora robusta sonoridade do grupo fundado por Mário de Andrade) ao gosto declarado de seu regente titular pela emissão quase branca e lisa das músicas antiga e barroca, com vistas à criação de um Les Arts Florissants dos trópicos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s