Ressurreição em Liège

É verdadeiramente curioso: em mais de 40 anos de carreira, nunca me aconteceu reger a mesma obra duas semanas seguidas com duas orquestras diferentes. E isso se deu logo com a segunda Sinfonia de Mahler, um dos compositores com quem tenho uma ligação mais profunda, por todas as razões – minha formação cultural judaico/centro-européia, meu interesse especial no período histórico que vai da metade do século XIX à Segunda Grande Guerra, fase que engloba o expressionismo e o “Jugendstiel” ou Arte Nova viensense, e a minha proveniência familiar que sempre manteve estreitos contatos com os pensadores e criadores de Viena da época Mahleriana.
O conteúdo “místico” da “Resurreição”, condizente com a personalidade Mahleriana dividida entre sua origem judaica e sua busca pessoal e por uma aceitação social a partir de sua conversão à mística cristã, faz com que a execução de sua Segunda Sinfonia se revista sempre de uma aura especial, como se cada uma de suas execuções fosse uma celebração da vida, uma afirmação de esperança e fé, de confiança num destino de renovação e glória.
Foi sempre em contextos inaugurais, inclusive no plano pessoal, que regi essa obra de Mahler. A primeira vez foi em Genova, quando fui chamado para substituir um maestro que adoecera, o que me obrigou a estudar e preparar a obra gigantesca em 48 horas. O concerto no Teatro Carlo Felice inaugurou uma fase que me levou diversas vezes àquela cidade, para reger concertos e óperas e que abriu inúmeras portas para minhas atividades na Itália.
Em Palermo, com essa mesma sinfonia, tive a oportunidade de reabrir o Teatro Massimo, que estava fechado havia mais de 20 anos para reformas intermináveis, e cuja reinauguração transformou-se numa celebração a nível europeu.
Anos mais tarde – num dos momentos mais marcantes da minha vida – inaugurei com a “Ressurreição” a Sala São Paulo, o que veio a solidificar o processo de renascimento da OSESP e da música sinfônica de alto nível no Brasil. Dez anos mais tarde, repeti a dose na comemoração de dez anos da OSESP reestruturada.
Agora, há duas semanas, pude inaugurar a temporada da Fundação Arena di Verona com uma belíssima execução da “Ressurreição”. E hoje à noite comemoro junto com a Orquestra Filarmônica de Liège a sua transformação em “Real Orquestra Filarmônica de Liége” assim como os 50 anos de vida dessa bela orquestra. Um momento que vem sendo muito esperado e que será muito celebrado na Bélgica.
No plano pessoal, marca minha estreia frente a este conjunto. Vale lembrar que a renovação e reforma física de sua bela Sala de Concertos foi comemorada com essa Sinfonia há 10 anos atrás e que Liège foi uma das poucas cidades em que Mahler regeu pessoalmente a sua obra.
Enfim, a oportunidade de comparar a forma de abordar a sinfonia por duas orquestras muito diferentes, tanto em termos de personalidade quanto em termos de técnica, e conseguir com as duas um resultado positivo e impactante está sendo um desafio que pude enfrentar graças à minha ligação histórica com essa obra, e meu amor e admiração pelo compositor que explodiu todas as fronteiras da criação sinfônica, um dos inventores do moderno.


A sala da Orquestra Filarmônica de Liège

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Uma resposta para Ressurreição em Liège

  1. maria amaral disse:

    Pois é,maestro!
    Enquanto isto,eu, uma aposentada,apaixonada pela orquestra,vejo cada vez mais
    diminuirem as minhas oportunidades de frequentá-la,devido aos preços.
    Subiram,outra vez.
    No seu tempo,eu ia a tudo…

    Agora,cada vez mais dificil…!

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