Caprichos Italianos e um PS

O Teatro Reggio di Parma organiza todos os anos um Festival Verdiano, com produções em alguns teatros da região. As mais importantes são levadas no próprio Reggio di Parma e uma é levada no pequeno Teatro Verdiano de Busseto, perto da chácara de Sant’Agata, onde Verdi viveu tantos anos. Toda a vida dessa região e dessas pequenas vilas gira em torno da figura do velho mestre, cuja estátua domina a praça principal de Busseto, onde também se encontra o pequeno teatro de 300 lugares.
Por isso mesmo, o público dessa região da Itália é o mais difícil e temido quando se trata de Verdi e suas óperas. Esse ano, por exemplo, as duas grandes produções estreadas nas últimas semanas no Teatro Reggio foram solenemente vaiadas pelo público e destruídas pela crítica, sem compaixão pelos grandes nomes da lírica italiana como Pier Luigi Pizzi – talvez o cenógrafo e encenador mais prestigiado da Itália no momento – e Vladimir Termikanov, diretor musical do Teatro Reggio. “Vespri Siciliani” e “Il Trovatore” foram impiedosamente recebidos com apupos e expressões de desagrado. Só se salvou do desastre total Leo Nucci, mitológico barítono da cena italiana.
Já na quinta-feira passada fui a Busseto assistir à estréia da terceira produção do ano, “Attila”, uma ópera da primeira fase de Verdi. O pequeno teatro recebeu a nata da lírica italiana, críticos, diretores, agentes e empresários, além de alguns “habitués” do temido “loggione” do Teatro Reggio, aqueles que junto aos “27 di Parma” decidem, como nas velhas arenas, com seus polegares virados para cima ou para baixo, sobre a sobrevida, o sucesso ou a morte de uma produção. Depois do sucedido com as primeiras duas produções, era grande a ansiedade para saber se a terceira estréia desse Festival teria a mesma sorte das outras.
Vi a figura exótica de Paolo Isotta, um dos críticos mais respeitados da Itália e “Falstaff” e “Trovatore”, dois dos “27 di Parma” entre o público que se espremia no pequeno foyer do teatrino. A tensão era claramente sentida por todos. Parecia uma partida de futebol, em que qualquer resultado era possível.
Sentado num camarote lateral, tive uma visão privilegiada do jovem maestro de 23 anos que desde a pequena abertura impressionou-me pela segurança, conhecimento da obra, clareza técnica e domínio do espetáculo. Seu nome é Andrea Battistoni e estou seguro de que este rapaz fará uma grande carreira se mantiver a postura séria e o comportamento respeitoso que demostrou ter na estréia.
A Orquestra do Teatro Reggio, grandemente reduzida por se tratar de um fosso muito pequeno, tocou com precisão, qualidade sonora e estilo, valorizando os poucos momentos sinfônicos da partitura e acompanhando com bom gosto e vibração rítmica.
Impressionou-me a escolha perfeita do jovem elenco. Giovanni Battista Parodi (Attila), Sebastian Catana (Ezio), Susanna Branchini (Odabella) e Roberto de Biasio (Foresto) interpretaram com brilho e grande técnica a difícil partitura do jovem Verdi, que não tinha muita pena dos cantores. Exigia deles uma tessitura enorme, e um desempenho de grande dramaticidade. Um palco muito pequeno obviamente facilitou a vida dos solistas, mas enfrentar os papéis da ópera sem os cortes tradicionais, com todas as cabalettas repetidas não é para qualquer um. A Itália ainda é um celeiro impressionante de vozes, mas, e sobretudo, de grandes professores.
E de oportunidades para os cantores se exibirem nos papéis adequados, com os ensaios necessários.
A equipe de criação do espetáculo foi constituída por Pier Francesco Maestrini (direção cênica), Carlo Savi, (cenários e figurinos) e Alfredo Troisi (video e projeções). O palco pequeno não ofereceu ao trio grandes possibilidades de montagem e construção de cenários. Assim, optaram por adereços construídos, efeitos técnicos relativamente simples e por uma sofisticada criação videográfica com projeções de grande efeito, que serviam de cenário virtual ao espetáculo. Oferecidas a esses três artistas todas as condições técnicas necessárias para a execução de suas ideias, o resultado foi extraordinário e inovador. Qualidade de imagem perfeita, com uma linguagem videográfica que lembra os efeitos em 3 D obtidos pelos atuais jogos de Playstation, com profundidade e definição impossível de serem criados num cenário tradicional. Com traços hiper-realistas a la “Joe Sacco”, imagens de bosques, montanhas, riachos, praias e acampamentos de bárbaros criam uma atmosfera ao mesmo tempo selvagem e futurista. Os sofisticados figurinos criados por Savi, a maquiagem teatral geométrica, colorida e que interage com os tecidos de diferentes texturas e impressões gráficas , os apliques nas cabeças e nas perucas, tudo ajuda a criar efeitos que remetem a linguagens multi-étnicas, com referências a figuras da criação cinematográfica contemporânea como “Conan, o bárbaro” e Avatar. Embora enfatizando um gestual de expressividade moderna e teatral, Pier Francesco Maestrini sempre trabalha com uma movimentação que favorece às vozes e à acústica, sem se distanciar demasiado da movimentação lírica “tradicional”.
O resultado é um belo espetáculo, e um merecido triunfo de público. Aplausos incomumente demorados saudaram os cantores, o maestro e o trio de criação. Um sucesso incontestável, fruto de uma produção impecável, que ofereceu aos artistas todas as condições para desenvolver, criar e realizar, cada um na sua área, os seus talentos, sem limitações.
Fico feliz em ver o mesmo trio responsável pela criação gráfica e cênica do nosso Barbeiro (juntamente com o designer Joshua Held) ser festejado pelo público e pela imprensa daqui.

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Ontem, regi a primeira das três récitas da Segunda Sinfonia de Mahler, numa Gala de inauguração da temporada sinfônica do Teatro Filarmônico de Verona. O nosso trabalho foi entusiaticamente recebido por uma casa lotada e a orquestra apresentou uma prestação técnica admirável e supreendente. Os músicos, habituados mais à ópera do que ao repertório sinfônico (menos ainda ao repertório mahleriano) demonstravam obviamente a sua felicidade de poder afrontar uma obra de tal complexidade. Verona é uma das mais belas cidades da Itália, em que cada esquina e cada viela nos surpreende com vistas soberbas, e poder executar Mahler num ambiente tão inspirador faz-me ter consciência do privilégio de minha profissão.

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Li no Globo de ontem que Fernando Henrique Cardoso acusou Lula de “mesquinharia” por não reconhecer os méritos da gestão anterior que lhe ofereceu a infraestrutura para as realizações importantes de seu governo. Curioso qua a Fundação que FHC preside e que mantém a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo também não foge a essa “mesquinharia” quando ignora solenemente os méritos da gestão anterior , que deixou aos seus dirigentes atuais uma orquestra de nível internacional e um prestígio com que não poderiam sequer sonhar há alguns anos.
Falar e criticar é fácil.

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2 respostas para Caprichos Italianos e um PS

  1. Maestro

    Observando a estátua de Eleazar de Carvalho na entrada da Sala São Paulo,
    ficou-me claro de que tentam boicotar o seu período, exatamente em função de suas qualidades.
    Ali existem donos,e na verdade,não importa muito o destino da orquestra,mas sim,
    que ela não saia do poder de quem se julga ,desde sempre, seus donos e comandantes.
    Para isso,mudem-se histórias,suavisem-se acontecimentos,deturpem-se fatos….o que interessa é a versão final, só isso.

  2. Nicolle Bella disse:

    Caro Maestro
    Infelizmente nosso ex presidente nao sabe como lidar com a inveja….
    abracos, e com certeza estarei aplaudindo o seu Barbeiro!!!

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