Verdi e Respighi

Saiu pelo selo Solovoce a gravação que fizemos em Parma, no início do ano com a Orquestra do Teatro Reggio, da Traviata de Verdi, com Daniela Dessi, Fabio Armiliato e Claudio Sgura. A naturalidade com que se fala, canta e vive Verdi em Parma e adjacências é deliciosa. Chega a ser assustador para alguém de fora reger justamente a Traviata, uma das obras mais queridas do mestre de Busseto. É mais ou menos como um brasileiro chegar a Viena para reger as valsas de Johann Strauss com uma orquestra local. Ou, em termos mais brasileiros, como se um sueco fosse a uma bateria de escola de samba liderar uma batucada carnavalesca.
Durante as sessões de gravação notei que havia um senhor de barbas sentado na platéia assistindo com atenção aos trabalhos. Num dos intervalos, Fabio Armiliato o trouxe até a beira do palco e me apresentou o desconhecido: “Este é Falstaff…” Divertido com o nome do ouvinte, iniciamos uma conversa em que ele se mostrou profundo conhecedor da obra de Verdi. Pensei: será tradição de família? O pai do sujeito deve ter sido fanático pelo compositor e lhe deu esse nome da mesma forma que tantas pessoas receberam o nome Brasília, Juscelino ou Elvis na nossa terra.
No dia seguinte, espantado, fui apresentado ao Rigoletto, que também tinha vindo controlar o andamento de nossos trabalhos. Voltaram diversas vezes, e conversavam animadamente com os membros da orquestra e com Fabio. Ao final da última sessão, Fabio me convidou para um jantar “muito especial” com os dois ouvintes e o resto da turma dos “27 de Parma”. Cansado e sem saber do que tratava, pensei em recusar, mas meu agente me advertiu enfaticamente que eu deveria aceitar.
Os 27 de Parma são uma confraria de templários dedicada à adoração, à preservação da memória e da obra de Verdi. Mas de uma forma muito peculiar. Composta por 27 membros vitalícios e eleitos num conclave secreto, cada um dos membros recebe o nome de uma das óperas de Verdi, inclusive o Requiem e Gerusalemme. Fazem parte da confraria pessoas de diferentes classes sociais e distintas proveniências. Obrigatório é ser um adorador e profundo conhecedor da obra do Mestre – e do sexo masculino. Assim, nada de risos quando você for apresentado a uma Aida de barbas, a uma Luisa Miller de calças ou a uma Alzira de voz grossa. Alzira, aliás, que vive às turras com Oberto, Conte di San Bonifacio (assim mesmo, o nome completo), porque ambos se sentem membros desprivilegiados de uma turma da qual as estrelas, naturalmente, são, entre outras, Othello, Don Carlo ou Un Ballo in Maschera.
Reunem-se num amplo porão de um velho casarão de Parma histórica, preparam jantares pantagruélicos, ou melhor, Falstaffianos, e convidam, de quando em quando, figuras do mundo musical verdiano que porventura estejam passando por Parma e – condição sine qua non – cujo trabalho lhes agrade.
Sem saber direito aonde estava sendo levado, cheguei ao covil após ser recolhido no meu hotel pelo “Trovatore” . Un Giorno di Regno havia preparado uma macarronada fenomenal. Antes fomos saudados por quase todos (creio que I Lombardi alla Prima Crocciata e Attila estavam fora da cidade e não participaram da festividade) com a execução do “Va Pensiero”. A impressão que tive é que estava de fato num templo: os templários, qual monges beneditinos, dispostos na nave do mosteiro, cantavam o “hino” com adoração, sentados em seus banquinhos, e ladeados pelas estátuas representando a ópera cujo nome levavam. Luzes roxas e azuis conferiam ao estranho “concerto” uma atmosfera mística.
Em pequenas “capelas” espalhadas pelo porão pude observar as diversas “memorabilia” do grupo: objetos pessoais do velho mestre, partituras originais, a bengala, a batuta, a cartola e vai por aí. Num outro canto, fotos dos cavaleiros da “Ordem Verdiana”, condecoração concedida pelos templários a “poucos merecedores” dessa honraria durantes as últimas 6 ou 7 décadas: Pavarotti, evidentemente, Placido Domingo, Zubin Mehta (???), José Carreras, Riccardo Muti, e algumas senhoras, dentre as quais Mirella Freni. O mais adorado de todos é Franco Corelli. Carlo Bergonzi também foi agraciado. Estranhamente não encontrei Toscanini entre os galardeados, mas em compensação havia toda uma “capela” dedicada a ele. Da minha parte, saí de lá honrado com a pequena medalha de apaixonado verdiano, que guardo comigo com carinho.
À medida em que a macarronada, o presunto local e os queijos da região eram devidamente apreciados, sempre regados pelos vinhos mais apropriados – engarrafados especialmente para a confraria – a conversa e a atmosfera ficaram mais prosaicas e relaxadas, e a noite terminou em franca irmandade, entre risos, cantos, brigas e discussões figadais – sem a menor possibilidade de solução amigável. As piadas e histórias que eles relatam das “coxias” da vida verdiana, de seus súditos e sacerdotes foram impagáveis.
Os 27 de Parma estão perfeitamente a par de todas as produções verdianas pelo mundo afora. Quando não vão ao Teatro Reggio à caráter (blazer verde, calça cinza, gravata verde), mandam emissários mais ou menos secretos, às vezes convidados pelos Teatros, às vezes às próprias custas, para assistirem e relatarem as récitas e o back-stage.
Agora que estou avisado, sempre que for reger um título de Verdi por aí, cuidarei de reparar se na platéia não está um sujeito meio escondido, com olhar e ouvidos entendidos, pronto para enviar uma mensagem de fumaça diretamente para o porão de Parma, no qual espero ser recebido mais vezes.

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No dia 13 de outubro será lançado aqui na Europa o CD com a gravação da Trilogia de Respighi (Fontane di Roma, Pini di Roma, Feste Romane) que gravei com a OSESP. O CD se chama “Roman Trilogy”, e será uma prova auditiva da fantástica capacidade virtuosística que a OSESP chegou a alcançar. E que, espero, sobreviva.

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3 respostas para Verdi e Respighi

  1. Luciana disse:

    Que história genial essa dos 27 de Parma….!!!

  2. Caro maestro, interessante essa história dos 27 de Parma, conheci essa organização através de um documentário exibido no canal Film&Arts alguns anos atrás.

  3. Eduardo disse:

    Os 27 de Parma têm site: http://www.clubdei27.com

    A veneração é merecida: além de um gênio da música, Verdi foi um grande homem.

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