Diário de um Barbeiro 11

Quando eu sonhava alto com o meu projeto de Companhia de Ópera, meus amigos muitas vezes indagavam se haveria público para essa aventura inédita. A troupe do nosso Barbeiro esta semana está em João Pessoa. Hoje faremos a quadragésima récita dessa temporada. Ontem o teatro regorgitava de público, gente em pé nos corredores, nos camarotes do belíssmo teatro da cidade. Nos intervalos, o público comprava ingressos para as récitas de hoje e amanhã, assim como a récita infantil. Mais de quarenta récitas da mesma produção na metade da temporada, e ainda nem chegamos a São Paulo e Rio de Janeiro, certamente um recorde não só brasileiro. Não me canso de chamar a atenção para essa prova de que é possível melhorar enormemente a relação custo/benefício de uma produção operística. Independentemente da qualidade do nosso Barbeiro, que terá seus ferrenhos defensores e ferozes detratores, atingimos um público de quase 35.000 pessoas em sete cidades brasileiras, nesses primeiros dois meses e meio de estrada, nosso elenco vem cantando, nossos músicos tocando, nossos técnicos montando e desmontando, enfim, há vida nessa companhia lírica e há atividade na vida lírica do País.
Esta semana em João Pessoa, pela primeira vez nessa temporada, tivemos um elenco totalmente brasileiro cantando as récitas. Embora esse não seja o objetivo principal do nosso empreendimento, mas sim a qualidade do que queremos apresentar, não deixa de ser um orgulho saber que temos um grupo formado de cantores brasileiros empregados e cantando diariamente.
Conto tudo isso para responder à pergunta dos meus amigos, que citei na primeira frase desse post. Há público, sim, no nosso País, para qualquer manifestação lírica de qualidade. E projetos como o nosso também formam novas platéias e aumentam o público potencial para novas produções.
É por isso que não paro de sonhar.

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8 respostas para Diário de um Barbeiro 11

  1. Martin Muehle disse:

    Parabéns aos queridos colegas que se entregaram à esta empreitada, levantando a bandeira da ópera pelo Brasil afóra, abrindo caminhos para que a arte lírica viva e cresça neste país! Parabéns ao maestro Neschling. Os frutos do seu trabalho já estão amadurecendo!

    Martin Muehle

  2. Antônio Carlos Ferreira disse:

    Maestro, o senhor tem toda a razão. Apenas temo a continuidade da Companhia em virtude da politicagem barata que se faz neste país.

    A propósito, acabo de ler no site Movimento que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro cancelou duas óperas previstas para esse ano. De quatro programadas, agora só duas subirão à cena, sendo que uma já foi. No mesmo período, o Theatro São Pedro, bem ou mal, já fez três óperas. É uma vergonha para o Rio de Janeiro, sobretudo com o Municipal restaurado, mas sem condições de apresentar uma temporada que preste.

    O texto no site Movimento, de Leonardo Marques, sugere que o desastre só não será total exatamente por causa do seu Barbeiro, que será levado ao Rio em novembro.

    Um abraço,
    Antônio Carlos.

  3. Antônio Carlos Ferreira disse:

    Esqueci de mandar o link para o texto do site Movimento:

    http://www.movimento.com/mostraconteudo.asp?mostra=2&escolha=5&codigo=5067

  4. Almir Amarante disse:

    Há pouco mais de 21 anos comecei minha carreira profissional. Fui aprovado aos 16 anos de idade, sei lá como, em uma orquestra sinfônica. Em meu primeiro mês trabalho, encarei Pagliacci e Cavaleria Rusticana, sem saber que era comum a execução das duas óperas no mesmo programa. Então pensei:
    Será que vai ser sempre assim? Eu quero é tocar Sinfonia!!!
    Naquele tempo tínhamos duas semanas ou mais de ensaios, o que era bom, pois, com tanta repetição, tocávamos quase de cor, e na posição estratégica dos contrabaixos, acompanhávamos o espetáculo do fosso como se estivéssemos na platéia. Ali me foram apresentados Santuzza, Canio, Tonio, Turiddu, etc…
    É inesquecível aquela cortina fechada na abertura da ópera e quando se abre n’aquele palco cheirando a gelo seco (se é que tem cheiro), sentimos aquele “je ne sais quoi.” Talvez a palavra seja atmosfera…sei lá. Só um músico de fosso poderia defini-la. Quem poderia descrever o céu do cenário de ópera “onde o céu é mais azul”?
    Numa ocasião, eu estava no escritório da gerência da orquestra, esperando minha vez para resolver assuntos burocráticos, ouvi o maestro comentando o enredo da ópera “I Pagliacci” com alguém. Eu que até então, em minha adolescência ficava preso a notas, descobri um mundo novo.

  5. A apresentação do Barbeiro em várias capitais é uma lufada de alegria neste ambiente triste em que está o mundo da ópera no nosso pais.É de grande importância para as cidades que recebem esta óperas. Algumas há anos não tem qualquer outra montagem. Triste é a noticia de que fala o internauta Antonio Carlos Ferreira 😮 cancelamento das óperas no Municipa do Rio. Esperemos que a direção do Teatro São Pedro após uma bela Tosca, um aplaudido Rigoletto e um elogiado Don Pasquale, não pense em cancelar as óperas que restam do programa deste ano. O boato do cancelamento de Norma ,por falta de verba, sómente pode ser piada. Ou um ato de suprema burrice.

  6. Sebastião Teixeira disse:

    Como integrante da Cia Brasileira de Ópera, só tenho a corroborar o entusiasmo do maestro , pois nós sentimos de perto ,as manifestações do público, sempre retornando e perguntando pelas próximas montagens.
    Só uma pessoa com uma visão , como John Neschling, prá dar novo alento para os profissionais da área.
    Já fez história na OSESP e continua , agora, oferecendo este inédito espetáculo para grande parte do país.
    Bravo, Maestro !!

  7. Angélica Menezes disse:

    Bravi!!
    Eu, como cantora e profissional de música neste país , fico com olhos razos d’água por ver algo acontecendo, por ver nossa cena lírica ganhando cada vez mais público, e consequentemente, mais e mais iniciativas vão surgindo, e dando tranalho a nós músicos, tão carentes que somos de um mercado de trabalho digno. É mais do que válido todo o trabalho de formação de público que direta ou indiretamente essas montagens estão conseguindo. Vale lembrar que as montagens do teatro São Pedro, boas ou ruins, têm os ingressos esgotados muito antes da estréia. Felicito o maestro por essa brilhante iniciativa, e que ela sirva de exemplo e incentivo a muitos, seja músico, produtor, diretor, e, especialmente, público.

  8. Gesse Araujo disse:

    Acompanho cada escrita deste blog maestro. Este é um verdadeiro trabalho de educação e couch para atuantes no mercado cultural. Motivação e exemplo de quem fez, faz e continuará fazendo aqui e acolá. Verdadeira aula e visão de mundo artístico.

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