uma bela surpresa

Ando muito interessado, por razões óbvias, em descobrir novas vozes no panorama lírico brasileiro. Por isso fui ontem ao Teatro São Pedro assistir a uma récita do “Don Pasquale”. Fiquei contente em ver a casa praticamente cheia, e triste porque esse público sedento de ópera não tem outros lugares onde ususfruí-la, uma vez que o maior teatro lírico da cidade continua fechado, sem que nós, o público sedento, tenhamos a menor idéia do que acontece lá dentro. Em que pé está a reforma? Quais os planos para o ano que vem? Qual o programa da orquestra e do coro para os próximos meses? Não canso de espantar-me com a naturalidade com que estas informações são escondidas dos pagantes de impostos que sustentam o teatro, aberto ou fechado.
Mas voltemos ao “Don Pasquale” de ontem. A bela surpresa que tive foi ouvir uma jovem soprano de 22 anos, Laryssa Alvarazi, que me impressionou pelo domínio técnico e pela facilidade com que cantou a perigosa parte de Norina. Sua presença cênica é convincente, e os excessos cometidos são mais consequência de uma encenação cheia de vícios do passado e a uma direção musical frouxa e antiquada. Os super agudos que fez questão de demonstrar que possui parecem uma informação à parte, não tem nada a ver nem com o estilo nem com a música de Donizetti. Mas o que me impressionou foi o cerne de sua interpretação, não os exageros. É uma cantora lírica de enormes possibilidades, e espero que se respeite os limites decorrentes de sua juventude e se tome os cuidados necessários não a expondo desde já aos perigos de um repertório pouco adequado, ao desgaste excessivo, e à sanha dos empresários que certamente quererão usufruir de tal potencial. Farei o possível para acompanhar a sua carreira e se puder ser de alguma ajuda, sem dúvida o farei.
O tenor Marco Antonio Jordão possui um belíssimo material, mas corre sérios riscos se continuar a cantar com a técnica que apresentou ontem à noite. Cantar “sulla voce”, como dizem os italianos é um erro que desgasta a voz rapidamente. É necessário aprender a cantar “sul fiatto”, sem um desgaste desnecessário do capital. O grande Carlo Bergonzi costumava dizer que o importante era cantar sobre os juros e não sobre o capital, para não ficar pobre rapidamente.
De resto, apesar de tudo, louvo o esforço de se manter viva a chama da lírica em São Paulo. Sempre é possível fazer melhor. Mas também seria fácil viver na lamúria e não fazer nada.

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