Emoções e desgostos

Ontem estive presente no show de abertura da FLIP em Paraty. A estrela da noite era Edu Lobo, um compositor que admiro enormemente. Meus sentimentos oscilaram da profunda emoção à indignação e pena. O espetáculo teve direção artística de Arthur Nestrovsky, que ocupa o mesmo posto na OSESP. Se sua direção no espetáculo de ontem tivesse trazido algo de especial ao show, se a sua escolha de repertório tivesse sido criativa e acertada para a abertura da Festa Literária, se as músicas da primeira parte do show fossem belas e as letras sofisticadas, se a cantora fosse razoavelmente afinada e não tivesse apresentado uma afetação completamente fora de propósito, se os músicos tivessem demostrado um virtuosismo aceitável (com exceção do maravilhoso percussionista), se a sonorização do espetáculo tivesse funcionado minimamente, enfim, se o espetáculo não parecesse uma festa de fim de ano ginasial de colégio, nada contra um diretor artístico da mais importante orquestra brasileira estar na direção artística de um show dessa natureza.
O que me preocupa, e muito, é ver o diletantismo transformado em espetáculo profissional, a absoluta falta de qualidade sendo aceita como algo natural, aplaudida por um público pouco exigente e anestesiado por um som insuportável. É encontrar alguém que se vanta de ser diretor artístico desse triste espetáculo. Se a postura e a atuação de Nestrovsky frente à OSESP for parecida com a que teve na noite de ontem, durante a qual ficou sentado o tempo todo no centro do palco, tocando um violão super (mal) amplificado, (o que não permitia nem que se julgasse a sua qualidade), o futuro da orquestra paulista não é nada brilhante.
Sentado perto de mim na platéia, esperando, como eu, ansiosamente pela aparição de Edu Lobo, um famoso baterista de jazz americano, grande admirador da música brasileira, não aguentou o tédio, a falta de interesse e o barulho da primeira parte. Contrariado, foi tentar encontrar na culinária de Paraty um consolo para a mixórdia que estava ouvindo. Perdeu, coitado, o melhor da festa.
Tudo mudou da água para o vinho quando Edu entrou em cena. Simples, sem nenhuma pretensão, cantou algumas de suas antigas composições acompanhado (finalmente) por um excelente pianista (Cristóvão Bastos) e o grupo de instrumentistas que parecia encantado pela varinha de condão da sua genialidade. Não importa se a obra prima do nosso cancioneiro, “Beatriz” foi cantada ou não com a mesma técnica de Monica Salmaso. A emoção de assitir ao compositor dessa jóia nos oferecer uma leitura pessoal e inconfundível foi simplesmente demais. Tive os olhos rasos d’água do princípio ao fim de sua presença no palco. Não gosto de exagerar. Creio numa linhagem clara de gênios da música brasileira das últimas 5 ou 6 décadas. Villa-Lobos, Tom Jobim e Edu Lobo são uma glória de que poucos povos podem se orgulhar. E essa consciência tive mais uma vez ontem ao assistir ao vivo ao compositor maduro e calmo, que, sem necessidade de palavras vãs nem de trejeitos estranhos, nem poesia barata, nos deu a noção de que estávamos assitindo à história viva da música brasileira.
Quisera eu, na minha tenra infância, ter tido a mesma consciência para assistir a Villa-Lobos no Teatro Municipal do Rio. Tive, sim, essa clara noção na minha adolescência, ao ouvir e ver Stravinsky reger o seu “Beijo da Fada” nos anos 60.
Mas isso são tudo impressões pessoais. É a minha opinião , amparada em muitos anos de experiência em todas as músicas, clássica, popular e cross-over. Não é nem deve ser um julgamento inequívoco.
Há algo, porém que além de indignação me causou uma pena enorme. Foi amplamente noticiada a participação do Quarteto de Cordas da Academia da OSESP no espetáculo de abertura. Quatro jovens músicos sentaram-se num canto do palco e participaram de forma lamentável e dispensável do que se ouviu nas primeira e segunda partes. A única oportunidade que tivemos de ouvir mais ou menos o quarteto foi quando, só eles, puderam executar, no sentido literal da palavra, a curta “Cantilena” do Primeiro Quarteto de Cordas de Villa-Lobos. Sentados de forma totalmente errada para se tocar em quarteto, os pobres jovens tentaram tocar para um público completamente desinteressado uma pequena obra prima da nossa música de câmara. Falharam completamente no seu intento. Péssimamente amplificados, todos os seus defeitos técnicos vieram à tona com tal intensidade que acabou se fazendo um mal enorme a esses jovens que deveriam estar estudando em casa, ou tocando como estagiários na OSESP, em vez de estarem fazendo um backing inútil e inaudível num espetáculo de qualidade amadora. Não foi para isso que pensei e criei a Academia da OSESP. Muito pelo contrário. Foi para evitar tais absurdos, para não deixar que jovens talentosos e curiosos tivessem que sentar-se atrás de um cantor, seja ele Roberto Carlos, Edu Lobo, José Miguel Wisnick ou Nenê da Portela e perder literalmente o seu tempo numa atividade, num bico necessário para tantos outros profissionais que não tiveram as mesmas oportunidades .
Desgostoso, vi o Diretor Artístico da OSESP, e portanto o responsável último pelas atividades da Academia e de seus alunos, fazendo com que quatro bolsistas tivessem uma experiência inócua, nociva, inútil, mal ajambrada e descolada completamente dos objetivos de uma Academia séria. Tomaram o lugar de profissionais acostumados a esse tipo de “trampo”, e que o fazem quase sempre a contragosto, para “descolar uma grana”.
Isso deveria fazer soar um sinal de alarme:
ATENÇÃO !!!!!! PERIGO !!!!!!!

Anúncios
Esse post foi publicado em Texto e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

13 respostas para Emoções e desgostos

  1. Claudia Riccitelli disse:

    Caro Neschling
    Acompanho teu blog desde o primeiro dia.
    Você não pode imaginar o alívio que é, para mim, ver alguém escrever tantas observações que eu assinaria embaixo.
    Infelizmente ainda não é o meu momento de publicar certas coisas que penso, mas fico radiante com aqueles que podem e fazem.
    Um grande abraço e muito sucesso com a Cia de Ópera (pô, monta um título que eu possa cantar!!!!!rsrs)!

  2. Kelly disse:

    Circulam nas prateleiras da loja da Sala, cd´s do novo diretor artístico, com gravações próprias, de MPB.

    Há gosto para tudo. A tolerância é que tem limite…

  3. Ouvindo a Rádio Cultura,por estes dias,me deparei com a promoção do CD do sr.Nestrovsky ao violão,gravado,se não me engano,fora do Brasil.
    Pensei…”.Nossa!!Mas,a rádio Cultura não é uma rádio estatal?”
    “Isto não é um uso de um privilégio?”

  4. a cantora careca disse:

    Essas “internas musicais” revelam o maior baixo astral.
    Haja prozac…

  5. Mary-Helen TE disse:

    Capistrano de Abreu, sempre lembrado.

  6. Diogenes Clement disse:

    Ola Mto. Neschling, faco de suas bem colocadas palavras as minhas, realmente esse cidadao tem usado de seu posto para se promover artisticamente, de um tempo para ca seu CD de bossa nossa tem sido tocado bem na hora do almoco, quando muitos que por ali passam para adentrar ao restaurante, se nao bastasse isso tem tido atuacoes horriveis, desnecessarias e fora de proposito frente a essa pasta de Diretor cuja funcao deveria estar exercendo um profissional gabaritado, nao entendi ate hoje o que essa pessoa esta fazendo la, com certeza o nivel cada vez mais esta ladeira a baixo, ‘e uma vergonha, frequento a Sala SP a anos, nunca ouvi tantos comentarios negativos como a atual fase da Osesp. Um grande abraco, DC

  7. Leda Monteiro disse:

    Mto. Neschling: que bom ler isso!!!!!!! que bom q pode falar!!!!!!!!!!!!

  8. Paulo disse:

    Maestro,
    Preocupa-me muito a confusão e a falta de capacidade de julgamento que manda na vida (não só cultural) do Brasil. Colocar um artista como Nestrovski na direção de uma orquestra como a OSESP e não entender o papel da orquestra e da alta cultura na vida de um país. Nestrovski faz parte de uma geração que eu gosto de chamar de “os filhos de Caetano Veloso”, ou seja, de letristas que muitas vezes confundem (e também um público inepto) a junção de palavras formando combinações criativas com poesia. É tudo muito bonitinho, criativo, mas não têm a substância, espírito. Não sangra. Não chora. Mas satisfaz a necessidade de novidades das pessoas que compõem os formadores de opinião da classe artística brasileira. E tudo isso é ratificado pelo selo de “intelectual”, pelo certificado do phD, pela afinação com todas as modas teóricas e intelectuais que a academia adora.
    A classe artística brasileira sofre de um mal terrível. Estão sempre querendo “inovar”; e o resultado são coisas bizarras como a montagem de Bia Lessa do “Trovatore” aqui no Rio. Não sabem que a “inovação” e a perda de sentido são separadas por uma linha muito, mas muito tênue. Linha essa que você, maestro, sabe perceber. O sr. soube inovar no “Barbeiro” sem transformar a obra em outra coisa, sem destruir seu sentido.
    Nada contra a atividade criadora dessas pessoas. Mas é preciso saber diferenciar, é preciso ter senso das proporções, é preciso saber julgar.
    Parabéns pela postagem maestro! Te esperamos ansiosamente no Rio em novembro!

  9. Antônio Carlos Ferreira disse:

    Prezado Maestro,

    Está confirmado aquele concerto de Gala no TM do Rio de Janeiro agora para agosto como o senhor havia divulgado? Pesquisei no site do Municipal, mas não encontrei.

    Atenciosamente,
    Antônio Carlos Ferreira.

  10. solange disse:

    Enfim um alerta contra a nefasta mediocridade daquelas pessoas encantadas de si, cujo pedantismo narcíseo e sabujice lhes garantem lugar em cargos públicos e aplausos da mídia.

  11. semibreves disse:

    Infelizmente, por razões meramente operacionais, a gala não poderá ser organizada este ano. Mas estamos decididos a programar espetáculos desse quilate no futuro. Só será preciso estrurturar mais um pouco a Companhia de Opera, o que deve acontcer já para o ano que vem.
    JN

  12. Rodrigo Andrade disse:

    BRAVO Maestro!!!! Simplesmente BRAVO!!!! O sr. faz muita falta… nem imagina quanto…

  13. Tiago Meira disse:

    Ola Maestro!!!
    O que tenho a dizer,é que me sinto um privilegiado de ter feito parte da Academia da Osesp durante a sua gestão .
    Parabéns por mais este projeto incrível .
    Espero um dia voltar a tocar sob sua batuta.
    Abraços de Madrid.
    Tiago Meira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s