Diário de um Barbeiro 10

Com a récita de hoje à noite e a récita infantil de amanhã à tarde aqui no Teatro Amazonas, estaremos completando 29 récitas do Barbeiro de Sevilha desde a nossa estréia em Belo Horizonte. Posso estar enganado, mas creio que só isso já é um recorde e que demonstra o custo/benefício de nosso investimento. Semana que vem, em Fortaleza inauguraremos um novo teatro e faremos mais seis récitas, desta vez sob a regência de Gianluca Mantinenghi, um jovem maestro italiano que vem se destacando no mundo da ópera. Logo depois de Fortaleza, Martinenghi segue para Montreal no Canadá para um grande evento ao ar livre no qual dirigirá igualmente o Barbeiro de Sevilha.
Todos os cantores que estão envolvidos no projeto desse Barbeiro já cantaram, ou estão em vias de estrear aqui em Manaus. Estrou orgulhosíssimo de ter dado essa oportunidade a alguns jovens que nunca subiram num palco, ao lado de cantores experientes que vem emprestando seu brilho ao nosso espetáculo.
Na verdade, me sinto um privilegiado: depois de reger o Don Giovanni no Teatro Colón reaberto- símbolo da retomada da grande tradição lírica na Argentina ( e espero na América do Sul), estou regendo o nosso Barbeiro no Teatro Amazonas, símbolo também de uma grande tradição lírica no Brasil e que esperamos, com o esforço de todos, poder fazer reviver.
Ontem e anteontem, ao chegar ao Teatro para as funções, vi filas que davam a volta no Teatro. Era emocionante ver essa jóia que é o Teatro de Manaus lotado de manauaras rindo e aplaudindo nossos espetáculos. Hoje as duas representações, tanto a vespertina infantil quanto a noturna para adultos estão lotadas.
O que isso quer dizer ? Quer dizer que quando uma cidade tem uma tradição musical, ela constroi o seu público. Há anos Manaus vem investindo em orquestra e ópera, apesar de toda a dificuldade que isso possa significar para um Estado como o do Amazonas, distante horas de voo da cidade grande mais próxima. Pode-se concordar ou discordar da programação, criticar ou louvar o trabalho, mas o resultado é exatamente esse: a afirmação da linguagem na população, um público ávido e afluente, casas cheias e vibração intensa na cidade com a nossa montagem. Mais um vez me vem à cabeça o comentário que fiz em relação a Florianópolis, onde tivemos dificuldades de encher um teatro pequeno, pouco maior do que o Teatro Amazonas.
Estou convencido de que em todas as capitais e grandes cidades brasileiras seria possível ter um movimento contínuo de música de câmara ou sinfônica, um movimento de música lírica, sempre dentro de proporções. Isso não significa só um enriquecimento cultural para o Brasil, mas um mercado de trabalho imenso que se abre, um imã para artistas brasileiros e estrangeiros que querem viver bem no nosso país.
Ontem mesmo ouvi a audição de uma interessante cantora francesa, que com um pouco de trabalho poderia se transformar numa cantora de qualidade em qualquer país, que porém deseja morar no Brasil. Durante os últimos anos encontrei diversos casos parecidos, e mesmo de cantores importantes (Michelle Carniccioni, Steven Bronk) que deixaram de se estabelecer em nossa terra porque não encontraram uma vida lírica suficientemente organizada que lhes proporcionasse a possibilidade de uma sobrevivência digna.
Mas essa dignidade tem também, e sobretudo, a ver com qualidade. Nesse momento de retomada econômica é fundamental cuidar da retomada cultural com qualidade. A tentação de se fazer por fazer, montar por montar, pode facilmente nos levar à armadilha da quantidade de manifestaçoes sem cuidar da qualidade indispensável. Uma coisa não deve e não pode ser empecilho para a outra. Essa é parte mais perigosa da história.

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Uma resposta para Diário de um Barbeiro 10

  1. a cantora careca disse:

    Maestro, eu nunca estive na Amazonia e sempre sonhei com o teatro Manaus; a sua descrição do espetáculo e do público são instigantes e poéticas.
    Nunca desista dos seu sonhos! Nesse link tem uma metáfora bem incrível que eu assisti no cinema há tempos e nunca esqueci.
    Parabéns.

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