Novas pílulas

Foram seis récitas do Don Giovanni. Cada uma teve a sua personalidade. A exiguidade dos ensaios fez com que a orquestra fosse rendendo cada vez mais durante a temporada. As últimas três récitas foram, em termos meramente orquestrais, certamente as melhores. Os cantores, que tiveram poucas oportunidades de ensaiar com cena e orquestra, foram se soltando com o passar das récitas. Interessante notar a diferença entre os cantores que se apresentaram no papel título. Nicola Ulivieri, certamente a voz maior, fez um Giovanni italiano tradicional, brilhante, sem se importar demasiado com as sutilezas interpretativas do personagem. Daniel Okulic, canadense, por seu lado, imaginou um Giovanni mais sutil, com invenções interpretativas mais modernas. Preocupado com o estilo, cantou a segunda estrofe da sua cavatina acompanhada da mandolina com floreados barrocos, suprindo perfeitamente a diferença de volume vocal com uma presença mais sofisticada em cena. Virginia Tolla (Elvira) – que com Eduardo Chamma no papel de Leporello foram os únicos a cantar as seis récitas – foi me impressionando cada vez mais no decorrer do mês. Uma figura atraente e tensa em cena, resolveu com grande arte os problemas vocais que o papel oferece. Um jovem Masetto argentino, Fernando Radó, chamou especialmente a minha atenção. Desse rapaz ouviremos falar muito mais no futuro.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Entre as últimas duas récitas da ópera pude dirigir um concerto sinfônico com a Orquesta Estable num programa todo dedicado ao mar: a abertura “Meeresstille und Glückliche Fahrt” (Mar calmo e feliz viagem) de Mendelssohn, os Quatro Interlúdios Marítimos da ópera “Peter Grimes” de Benjamin Britten (sobre os quais me estendi num dos meus posts anteriores), a estréia mundial de uma obra do compositor siciliano Marco Betta, “Mari Notturni”, que me foi gentilmente dedicada, e “La Mer” de Debussy. Um programa difícil e diferenciado, que a orquestra afrontou com grande dignidade e esforço. Muitíssimos aplausos num Colón cheio e entusiasta. Aliás esse fato é digno de nota: durante a minha estadia em Buenos Aires as seis récitas de ópera estiveram completamente esgotadas, assim como o meu concerto e os três concertos sinfônicos da Orquestra Filarmônica. Num destes, Nelson Freire foi literalmente ovacionado depois de uma bela interpretação do 2° Concerto para Piano e Orquestra de Brahms, um de seus cavalos de batalha.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Enquanto isso o nosso Barbeiro de Sevilha rodou o sul do País, com 5 récitas em Porto Alegre, 5 em Florianópolis e 5 em Curitiba. Infelizmente não as assiti, mas soube que correram bem. As críticas foram todas elogiosas e os cantores novos se saíram muito a contento, apesar dos poucos ensaios. Andre Vidal vem se transformando num excelente Lindoro, Saulo Javan e Manuel Alvarez se adaptaram perfeitamente aos Bartolos. Espantou-me um pouco o fato de termos tido relativamnete pouco público em Santa Catarina. Isso só vem confirmar a necessidade de uma vida musical sofisticada nas cidades, para que o público se acostume a ir aos espetáculos e tenha interesse em assistir a algo novo. Florianópolis é talvez a única capital do sul que não possui uma vida sinfônica regrada e constante, não tem um teatro apropriado e nem teve governos que se dedicaram de forma clara à política cultural, sobretudo a musical. O resultado é esse: uma população pouco afeita à ópera e aos concertos, um desinteresse já arraigado por essas manifestações. Os próximos governantes de Santa Catarina e de Florianópolis ficam devendo à população um cuidado maior com a música em seu Estado e em sua Capital. Leva gerações para que se construa um público afluente e entusiasta.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

E sairam as primeiras críticas do CD que gravei com a OSESP para a BIS, da “Floresta Amazônica” de Villa-Lobos. Tanto a Classic Today quanto a Klassik Heute nos deram notas máximas e críticas extraordinárias. Ainda há uns CDs a serem lançados pela BIS com a OSESP sob a minha regência, entre eles as três grandes obras de Respighi (Pini e Fontane de Roma e Feste Romane) e um CD dedicado à obra sinfônica de Paul Hindemith. São ainda os resquícios de um trabalho de anos que fiz à frente do conjunto. A OSESP fica devendo, no futuro próximo, trabalhos tão significativos e tão premiados quanto os que logrei apresentar durante a minha época como Diretor Artístico. O resultado que obtivemos para a orquestra, o Estado e o País, tanto artístico quanto promocional, dificilmente pode ser avaliado em termos numéricos. Espero que a minha deselegante e extemporânea demissão da orquestra não interrompa um trabalho que foi, sem dúvida, um dos mais importantes que se fez em prol da música e das sinfônicas brasileiras. Palavras e promessas não bastam.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Foi lançado ainda, pela Biscoito Fino, mais um volume dedicado às Sinfonias de Tchaikowsky que tive a oportunidade de gravar com a OSESP. Dessa vez foi a Sinfonia n°6, a Patética, uma das interpretações mais caras na minha memória dos anos frente à orquestra paulista. Essas sinfonias vinham sempre acopladas com outra obra do gênio russo que gravei justamente com o propósito de completar o CD. Num gesto pouco elegante para comigo, o que aliás tem sido regra na OSESP, a direção da orquestra acoplou minha gravação da Sinfonia Patética com a Abertura 1812, regida por Ian Pacal Tortelier. Não tenho nada contra esse músico, que aliás veio ao Brasil pela primeira vez a meu convite, para substituir seu compatriota Michel Plasson. Mas aproveitar-se da minha Patética para lançar uma obra sob a regência de um outro maestro é feio e insultante. Havia outras peças que serviriam para completar o CD e essa atitude só vem confirmar a falta de modos da atual direção da OSESP, o desprezo que tem por meu trabalho árduo frente ao conjunto, e a vontade de menosprezar meu significado na história dessa instituição.
Tanto a história, tenho certeza, quanto a justiça, espero, corrigirão esses desmandos.

Anúncios
Esse post foi publicado em Texto e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Novas pílulas

  1. Mary-Helen TE disse:

    Meus parabens por suas apresentações em Buenos Aires.

    Quanto à Osesp e o CD com Tortelier, só posso dizer-lhe que perdi completamente o prazer de ir à Sala São Paulo. Vou menos e por que gosto de música, encontro os amigos que lá fiz e em Sao Paulo não temos opções. Somente. Quando vejo em todos os programas das grandes orquestras no exterior a lista de ex-diretores musicais sempre homenageados, fico pasma com o permanente e constante trabalho da Diretoria da Osesp em apagar seu nome. Mais perplexa ainda fico quando não vejo nem um único música da orquestra tentar reverter a situação. A Nova-Osesp foi geração espontânea? Lamentável.

  2. Maris Stella F. Mendes disse:

    A inteligência é imperdoável onde grassa a “indigência mental”. Assim, a demissão é um dos recursos de que se valem os que não têm luz própria.
    Neschling – o maestro – já o admirava há tempo; Neschling – o palestrante – passei a admirá-lo na Casa do Saber. Atenta esta eu, na 2a. fila, ouvindo a sua exposição: é Neschling, sua inteligência incomoda… e muito. Como lidar com isso? Sem falsa modéstia, eu aprendi no “tranco”, na carreira acadêmica.

  3. a cantora careca disse:

    Maestro parabéns! Quanto a se aproveitarem da sua “Patética”, é patético. Aliás, a gratidão nunca foi o forte das insituições brasileiras. Quem sabe você seja bom demais para este país? Não seria a primeira vez, nem o primeiro caso.

  4. Otávio disse:

    ei Maestro,

    Essa de misturarem regentes no CD…Parece coisa de JECA!
    abraços e sucesso na turnê!

  5. Kelly disse:

    Não entendo várias atitudes.

    Se de um lado usar o nome do novo maestro junto ao seu destaca a transição (formal) que tanto se esforçam em nos convencer de ter se aperfeiçoado, de outro, destacam a diferença gritante de qualidade e estilo.

    Essa colcha de retalhos da “nova” Osesp é o que parece: um conjunto de fragmentos , que não consegue formar uma composição coesa.

    By the way, a sua gravação está fenomenal, como era de se esperar, no tempo em que tínhamos o luxo de expectativa positiva.

    Parabéns!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s