O Monstrengo da Barra 3

A minha visita a Cidade da Música deixou-me perplexo ao constatar que a obra, ao menos quando a visitei, estava ainda no osso, e que faltava em quase todos os espaços o acabamento mínimo para que pudessem funcionar. Fios à vista pelo chão, lajes enferrujando, ferro apodrecendo, paredes sem reboco, enfim, estava claro que se a obra não fosse reiniciada e acabada logo, o prejuízo seria imenso, porque além de acabar seria necessário refazer grande parte do que já havia sido feito devido aos estragos da erosão marítima e aos efeitos do tempo, da chuva etc…
Além da grande sala, que evidentemente tinha sido aprontada às pressas para uma inauguração extemporânea, e que apresentava portanto todos os defeitos de uma solução precária, nada estava pronto. Creio que há no complexo três cinemas, dois menores e um um pouco maior, nenhum deles com mais de 300 lugares. Todos eles estavam em estado lastimável. Quem assumir as salas terá que investir muito dinheiro para equipá-los convenientemente. Pergunto-me desde já quem assumirá esse “abacaxi” e o fardo que ele impõe, se a Barra da Tijuca, nos seus inúmeros shopping centers oferece dezenas de salas de cinema modernas, bem equipadas, de fácil acesso, com estacionamento, restaurantes e lojas ao seu redor. A solução talvez seja transformar as salas de exibição da Cidade da Música em cineclubes, com mostras especiais e dirigidas, mas isso dificilmente trará lucro para quem assumir a empreitada. Deverá, portanto fazer parte de um projeto cultural global, e nãor mais um projeto deficitário que terá que ser absorvido num hipotético “business-plan”.
O restaurante, ou melhor, o espaço previsto para ser transformado em restaurante é interessante, mas está igualmente inacabado. Quem estará disposto a investir no espaço para pô-lo em condições de funcionar adequadamente? Um restaurante que sirva à Cidade da Música terá que servir, a meu ver, prioritariamente aos frequentadores dos eventos das salas grande e de música de câmara, e às pessoas que durante o dia, eventualmente, se aventurem pelos seus corredores e seus vendavais, talvez ainda às pessoas que trabalhem ali dentro. Não me sinto capacitado para prever a viabilidade econômica de um tal projeto, mas tenho minhas dúvidas quanto à sua ocupação.
Os espaços restantes são escritórios de administração da própria Cidade da Música, da(s) orquestra(s) residente(s) e dos outros corpos estáveis que porventura forem ali alocados, salas de ensaio espaçosas e agradáveis e outros espaços que poderão ter destinações diversas, desde galerias até ateliers. Tudo, no entanto, longe de estar pronto para funcionar. A sensação de estranhamento só aumenta quando realizamos que tudo está plantado no meio de um deserto, a impressão que se tem é de imensos corredores que não levam a lugar nenhum.
Cada um dos ocupantes terá que investir muito para deixar os espaços preparados para as suas funções. Sei da necessidade de preparar acusticamente as salas de ensaio e, dada a precariedade de tudo, duvido muito que isto tenha sido contemplado. Ignoro se os equipamentos de ar condicionado, e outros equipamentos importantes estejam instalados. Pareceu-me que alguns estavam guardados, não sei se apropriadamente. De todas maneiras, estando lá ou não, a longa inatividade e exposição às intempéries deve ter prejudicado tudo o que tiver sido instalado ou não. E caso não esteja lá este material, incluindo todo o material de iluminação e técnica de palco nas duas salas de música, o dispêndio para colocá-las em condições será imenso.
Enfim, me pareceu que a Cidade da Música em fevereiro de 2009 era um assutador esqueleto mal acabado e em vias de deterioração.
Saí da Barra num dia de calor, estafado, suado e assustado com o absurdo que me tinha sido mostrado. Friso, porém, que não sou jornalista e muito menos investigador. Tudo o que aqui relato são impressões de um profissional da música e da vida cultural, um curioso. O que me espanta é que até hoje não tenha havido um esforço real da mídia e da imprensa para descobrir o real estado do monstrengo da Barra. Afinal as centenas de milhões de reais que foram gastas até agora e o que terá que ser gasto daqui para a frente para acabar a obra de forma aceitável são dinheiro público, que saiu e sairá do bolso de cada um de nós.
E assusta-me o fato de não se ter conhecimento de um projeto para a ocupação global de um equipamento tão exagerado. Não adianta só dizer que será a sede da OSB. A OSB nem qualquer outra orquestra terá a menor condição de trabalhar na Cidade da Música enquanto problemas como transporte, salas de ensaio, escritórios, camarins, estacionamento, toilettes, e acesso não forem convenientemente resolvidos. Se a Sala Grande servir para a ópera ou musical, uma transformação radical do palco será necessária. Caso não servir para esse fim, estamos diante de um desperdício de dinheiro criminoso.
O Poder Público tem nas mãos uma das maiores “batatas quentes” que encontrei em minha vida. A não ser que se enfrente esse problema com a maior seriedade, profissionalismo e profundidade, apoiando-se em pensadores urbanos e especialistas tanto artísticos quanto administrativos, a Cidade da Música será mais um exemplo dos mais graves e inglórios de demagogia e incúria, de inépcia e da falta de política cultural que assola nosso dia a dia.

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3 respostas para O Monstrengo da Barra 3

  1. Mary-Helen TE disse:

    É de estarrecer. Não fossem seus 3 blogs, ninguém ficaria sabendo e a Cidade da Música continuaria a ser o sonho dourado do público da OSB. Acho que todos pensavam que seria uma Sala São Paulo do Rio.

    Realmente, onde estão os jornalistas que tão sofregamente procuram pêlos em cascas de ovos para atacar alguém ou alguma instituição?

    Pelas fotos que conheço, o projeto é de um mau gosto incrível.

  2. a cantora careca disse:

    troféu abacaxi!

  3. Onde estão os reporteres e jornalistas que não faziam outra coisa,se não exibir e questionar o seu salário,maestro?
    Quem sabe,agora,comparando custo/benefício,eles possam perceber quão pouco,na verdade,o senhor ganhou!
    E quanto a cidade de São Paulo ganhou com o seu trabalho!!

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