O monstrengo da Barra 2

A Cidade da Música é um complexo arquitetônico que contém uma grande sala de concertos ou de ópera, uma sala de música de câmara, e também uma série de cinemas, lojas, galerias, espaços multi-funcionais, escritórios, restaurantes, enfim, uma infinidade de equipamentos que precisariam ser acabados, postos para funcionar e administrados, de preferência com uma ideologia única, para que o espaço não vire um imenso shopping, que faça concorrência às dezenas de shopings que o circundam. Até porque os shoppings da Barra foram construídos específicamente para esse fim, enquanto a Cidade da Música, ao menos pelo que o nome indica, deveria ter sido construída para ser um conjunto que abrigue grandes eventos sinfônicos e líricos. Mas se os shoppings foram construidos por especialistas na atividade comercial, tudo indica que a construção e o planejamento da Cidade da Música não foram acompanhados por nenhum profissional experiente do ramo sinfônico ou lírico.
Comecemos pela sala principal, que me foi apresentada como uma sala polivalente, sinfônica e de ópera. Não pude constatar a acústica da sala. Certamente serve para uma orquestra sinfônica. Para a ópera, entretanto, não apresenta a menor condição. Para começar, o palco é fixo, não tem elevadores, nem disco rotatório, nem qualquer condição técnica para receber um espetáculo que apresente efeitos técnicos especiais. Para que receba um cenário (refiro-me a um cenário, não a dois ou três), será necessário o deslocamento de duas torres laterais de camarotes para o fundo do palco. Não existe ali nenhum equipamento elétrico que faça este trabalho, (terá que ser na mão mesmo…). Deslocadas as torres, bloqueia-se a saída de equipamentos do palco e e se inviabiliza a entrada de qualquer outro. Portanto, a não ser que outra solução seja encontrada, só é posível fazer espetáculos com um único cenário, que só sai no final da temporada. Mesmo os concertos terão que ser feitos dentro de um cenário. Convenhamos que para um teatro moderno, ainda nem terminado, esses problemas são um absurdo inominável. Receio que para solucionar isso, ter-se-ia que fazer uma reforma estrutural no palco de um teatro ainda não inaugurado. Mas os absurdos não param por aí.
Os camarins individuais foram locados longe, muito longe do palco. O artista terá que andar por corredores, pegar um elevador, sair ao ar livre, (espero que não chova…) num espaço em que a corrente de ar é constante, e entrar no palco pelos fundos. Tente imaginearPlácido Domingo arrastando seu figurino por essa corrida de obstáculos para entrar em cena provavelmente resfriado e esbaforido… Espaço no palco não há, as coxias são quase inexistentes.
Os camarins coletivos não tem sanitários nem duchas suficientes. Os músicos da orquestra não tem espaço para descansar no intervalo. As poltronas da platéia, antes de inaugurar, já estão velhas e desgastadas. Enfim, o grande teatro da Cidade da Música é uma sala técnicamente despreparada e ineficiente, que necessitará de urgentes reformas para poder começar a funcionar decentemente.
Em compensação a sala que deverá receber os conjuntos de câmara, uma espécie de pequeno anfiteatro tem um palco rotatório totalmente inútil (para que? para que o quarteto de cordas possa ficar de frente para a parede e de costas para o público?) mas não tem camarim nem coxias. Os músicos não têm por onde entrar ou sair, terão que ficar no foyer até o início do espetáculo e durante o intervalo, com seus instrumentos na mão, ou largados no palco. Tente imaginar o Antônio Menezes com seu valioso instrumento, no meio do público, sendo assediado para autógrafos durante o intervalo. Trocar de roupa, nem pensar. Não há back-stage.
Quem planejou essa barbaridade? Ninguém viu isso no projeto? O arquiteto não teve uma assessoria técnico-musical? Como resolver essa situação de fato? Não vejo solução a não ser interferindo profundamente no projeto, quebrando paredes e fazendo outra obra.
Lembro meus amigos que a Sala São Paulo , cuja reestruturação acompanhei de perto desde o projeto até a obra, custou, a preço de hoje, por volta de 90 milhões de reais para a reforma de todo o complexo, com sala de concerto, camarins, salão nobre, foyer, salas de ensaio, etc… E a obra levou aproximadamente 24 meses para ser entregue, contando com a praça à frente da estação Julio Prestes. Dá para engolir o absurdo que vem sendo cometido no “cebolão” da Barra?
Mas tem mais…

Anúncios
Esse post foi publicado em Texto e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para O monstrengo da Barra 2

  1. Quanto custou a Cidade da Música,aproximadamente?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s