O monstrengo da Barra 1

Vamos deixar de lado, por enquanto, o longevo pesadelo do Municipal de São Paulo e pensar nas outras estruturas fechadas ou inacabadas que vicejam em nosso País. A Cidade da Música no Rio de Janeiro, por exemplo. Alguém se lembra dela? Alguém ainda pensa nas muitas centenas de milhões de reais que foram gastas para por de pé um palácio arquitetônico na confluência entre duas importantes avenidas que vivem engarrafadas? Vizinho de um shopping center cujo atributo maior é uma cópia vagabunda da Estátua da Liberdade, ideal estético de uma sociedade de consumo inveterado? Fico pensando na razão pela qual os idealizadores desse monumento não optaram por construir um palácio da música em outro lugar do Rio de Janeiro, que fosse mais acessível a toda a população, sobretudo à população interessada em música clássica e ópera. Não seria natural seguir o exemplo das grandes capitais que constroem equipamentos como esses em lugares centrais ou estratégicos para a recuperação de áreas degradadas? Não seria de se esperar que seguíssemos o exemplo exitoso de Sydney e construíssemos a nossa grande sala de música de frente para o mar, com tantos lugares dignos de cartões postais disponíveis na Cidade Maravilhosa? Houve algum estudo específico que embasasse a esdrúxula decisão de construir a Cidade da Música na Barra da Tijuca?
Bom, a Cidade da Música está lá, na contramão dos atuais projetos culturais do Rio de Janeiro, que se preocupam com a recuperação do centro da Cidade. Algo terá que ser feito dela. Não se pode jogar fora a fortuna incalculável que se gastou naquele monstro. O crime contra a economia popular seria ainda mais grave. E não nos esqueçamos da boa centena de milhões de reais que será necessária para terminar uma obra que nasceu cheia de defeitos e incongruências. Que quanto mais tempo fica parada, mais cara fica.
A Cidade da Música foi inauguada de forma descaradamente irresponsável. Uma plaquinha de bronze em algum lugar será a eterna marca da demagogia política e da falta de respeito com a população que paga seus impostos em dia.
Em fevereiro do ano passado fui convidado pelo Prefeito Eduardo Paes a visitar o monumento inacabado, cujas obras estavam interrompidas para que uma comissão criada para a finalidade pudesse avaliar o estado do imóvel e das contas da obra e para que uma empresa de consultoria pudesse estudar a melhor forma de viabilizar o imenso projeto e propor um possível “business plan” . Um ano e meio depois, não conheço o resultado de nenhum desses estudos, espero que as obras tenham sido retomadas, mas temo que até hoje não se saiba o que fazer com o monstrengo da Barra.
Pude passar algumas horas visitando a Cidade da Música, não o bastante para avaliar toda a dimensão do que foi bem feito, mal feito ou o que se deixou (ou esqueceu) de fazer.
O projeto de Christian de Potzamparc seria de fato bonito, se não estivesse plantado ali perto de uma estação de ônibus. A localização literalmente estraga um projeto que se inspira na arquitetura moderna brasileira (lembra um pouco as linhas belíssimas de Reidy). Uma espécie de mini Brasília que contrasta com a arquiteura anódina dos condomínios e Shopping Centers de Miami que ladeiam a Avenida das Américas.
Comecemos pelo básico: o estacionamento. Não é que deixaram de construir um estacionamento subterrâneo? Informaram-me que havia no subsolo lugar para 60(!!!) carros, o suficiente para a administração. Demonstração cabal da mentalidade burocrática de quem planejou essa barbaridade. O resto dos automóveis ficará longe do lugar, as pessoas terão que andar um bocado num Rio de Janeiro ensolarado, chuvoso ou perigoso, atravessar um túnel para chegar às escadas que levam ao nível onde se encontram alguns dos equipamentos mais importantes como a sala de concertos e a sala de músicade câmara. Imagino as senhoras que assistem aos concertos e às óperas, que não forem de ônibus numa viagem que levará horas da Zona Sul à Barra, mas sim com seus carros particulares numa viagem que também levará horas para chegar à Cidade da Música, e que tenham que largar os seus carros num longíquo estacionamento e caminhar um bocado nos seus saltos elegantes até chegar à entrada: essa merece um capítulo à parte. Trata-se de uma escada de acentuada inclinação, com degraus excessivamente altos considerada a nossa dimensão humana, mais um obstáculo do que uma via de acesso. Porque, pasmem, os elevadores são pequenos e poucos, insuficientes para receber uma multidão que se espera frequente o complexo cultural.
Mas a nossa aventura está só começando…

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2 respostas para O monstrengo da Barra 1

  1. Tales Umberto Bieszczad disse:

    Maestro: concordo em gênero, número e gráu com seu artigo. Apesar de paulista, estou agora em Floripa e fui assistir o “Barbeiro de Sevilha”. Que bela montagem, e que profissionalismo na encenação! Não é hora de apontar as pequenas falhas – sempre as há, mas ressaltar a enorme originalidade do espetáculo – sem dúvida uma das divertidas e inteligentes que já vi. Parabéns, maestro, e que sua Cia. Brasileira de Ópera possa levar mais espetáculos de grande nível ao nosso país.

  2. a cantora careca disse:

    Esse monstrengo foi colocado em baixo do tapete da Barra, como tantas outras coisas:
    Avenida das Américas, “Estátua da Liberdade”, nem o manifesto antropofágico daria conta de recyclar tanto lixo. Estou mandando umas fotos dos monstrengos para Glauber Rocha lá no outro mundo fazer “Terra em Transe II”.

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