De barbeiros e conquistadores

A noite de estreia do Teatro Colón é um evento social de primeira grandeza aqui em Buenos Aires. Mais ou menos como uma estreia no Scala em Milão, ou o que era a abertura da temporada de bailes de Petersburgo. Disseram-me que há gente que quer que o “black-tie”seja obrigatório, mas isso não vai acontecer. Ainda assim, grande parte dos cavalheiros estava vestida de gala e as senhoras por vezes me pareciam mais luxuosamente trajadas do que as cantoras em cena. Vi uma quantas Turandots imóveis em seus camarotes. Isso, porém, significa que se trata de um público contido e discreto nos aplausos. Durante o segundo ato do nosso Don Giovanni, a temperatura se elevou um pouco e tímidos aplausos interrompiam as árias e os “concertati”, mas a explosão mesmo só aconteceu ao final do espetáculo. Minha decisão de juntar os recitativos ao início das árias e “ensembles” e o final destes aos recitativos seguintes, para conseguir uma continuidade durante a obra, não ajuda aos famosos aplausos após as árias. Considero a ópera de Mozart uma obra tão fechada e perfeita na sua construção que os constantes aplausos ao final de cada número me parecem uma interferência nefasta no fluir da interpretação. Imagino que uma decisão semelhante numa ópera da primeira fase de Verdi seria prejudicial para o espetáculo, que vive justamente dessas explosões de entusiasmo, (ou morre com a indiferença do público), mas no nosso Don Giovanni era exatamente o contrário que eu desejava.
Ainda quanto ao teatro, o Colón é uma casa típica do período em que a elite queria e fazia questão de se separar da plebe ignara. A entrada para as galerias e balcões é diferente da entrada para a platéia e os camarotes. Não há contato entre os smokings e as malhas coloridas. De todas maneiras estou curioso para ver a reação do público nas próximas récitas, nas quais os preços são mais acessíveis e o público outro. Não que eu tenha restrições às grandes estreias de gala. Pelo contrário, acho que elas fazem parte da vida sócio-cultural das cidades, e dão glamour a esses espetáculos. Afinal o grande público adora ler a revista Caras e quer saber da vida das estrelas. Não há nada de diferente nesses eventos sociais, cuja crônica depois faz a delícia dos salões de cabeleireiro e salas de espera dos dentistas.
A récita de estreia correu melhor do que os ensaios, estavam todos concentrados e o resultado foi um espetáculo de grande qualidade musical e vocal. Como acontece sempre, as próximas noites serão mais relaxadas, o que às vezes melhora, às vezes tira a tensão da récita. E depois há a paulatina troca de elenco, o que também confere graça e diversidade ao trabalho.

Enquanto isso em Florianópolis estreou a terceita semana do nosso Barbeiro de Sevilha. A Companhia teve uma semana de pausa, mas logo em seguida houve uma série de ensaios de orquestra em São Paulo, com o Maestro Yoram David à frente de uma grupo parcialmente modificado.Houve ainda ensaios com orquestra e cena no pequeno teatro de Florianópolis, que não recebe mais de 700 pessoas. O elenco também mudou em parte, entraram o tenor André Vidal como Almaviva e o barítono Manoel Alvarez como Bartolo, e nosso próximo Basílio já está em Santa Catarina preparando-se para estrear em Curitiba. Isso tudo confere uma dinâmica ao espetáculo que só lhe beneficia. Mais de 70 récitas com a mesma orquestra e o mesmo elenco, embora pudessem certamente conferir unidade ao espetáculo, trariam também um certo enfado consigo.
Noto que em certas cidades o público reage diferente às piadas e “gags” do desenho animado. E de maneira geral, à ópera como espetáculo. Só o tempo e a oportunidade de assistir a bons espetáculos ano após ano vai criar o hábito de ir à ópera e a de julgar com parâmetros claros aquilo que se apresenta.
Certamente o Barbeiro marcará muita gente em Florianópolis, e a deixará com água na boca à espera do que vem no próximo ano.

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