Diário de um Conquistador 3

Don Giovanni, ensaio geral. Não é possível, de acordo com o regulamento, fazer mais de 10 minutos de correção na ópera inteira, que deve ser tocada do começo ao fim, sem interrupção. Caso sejam necessários esses 10 minutos, só no final do ensaio. Não foram necessários.
Havia bastante gente no teatro, e os aplausos desse pequeno público soavam como se estivéssemos num teatro cheio. Impressionante a acústica da casa. Impressionante também ver o teatro com as meias luzes. Nunca regi uma produção no Scala de Milão, mas imagino que a sensação deve ser parecida. Quando tocamos no Colón com a OSESP não me lembro de ter tido essa impressão extaordinária.
Como pré-estreia creio que fomos bem, a reação do público foi de entusiasmo. É bom um ensaio geral que nos dê uma noção da reação do público. O tenor, John Tessier, para mim é uma grande surpresa. Um tenor mozartiano típico (como me gostaria tê-lo tido também como Almaviva no nosso Barbeiro), uma voz que parece pequena mas que corre marvilhosamente na sala. Amigos meus presentes ao ensaio me dizem que ouve-se sua voz perfeitamente no fundo da imensa platéia. Aliás, a acústica do teatro nos propõe enigmas interessantes: a mandolina que acompanha Don Giovanni em sua cavatina do segundo ato, de dentro do fosso, não necessita de nenhuma amplificação. O cravo, na verdade uma espineta, ouve-se malíssimo, embora esteja quase no mesmo lugar da mandolina. A orquestra que toca atrás de cena precisa ser amplificada, assim como o coro do final do segundo ato, quando canta da coxia. Coisas que no passado, antes da reforma, aparentemente, não eram necessárias. As reformas, queira-se ou não, mexem com a acústica. Daí a importância de cuidar-se especialmente dela. Pergunto-me se nos nossos teatros reformados isso foi levado em consideração.
Como não tivemos o coro durante os ensaios, e ontem, durante o pré-geral sua atuação foi inaudível, tivemos que enfrentar esse dilema acústico com amplificação durante o ensaio geral, sem possibilidade de ensaio prévio nem posterior. Teve que ser durante a récita mesmo. Risco enorme, que porém, graças aos deuses da lírica pôde ser resolvido sem maiores complicações.
Afinal de contas a “régie” de Michael Hampe funciona bem no seu tradicionalismo, com boa solução para o final, quando Don Giovanni deveria ser tragado para os infernos. A aparição da estátua do comendador ao final, numa iluminação sepulcral, com muita fumaça (parece que estamos em Campos de Jordão num inverso nebuloso, não consigo ver os cantores a 10 metros…) e cercada por uma projeção que parece a de um planetário, oferece um contorno irreal e estranho a essa música impressionante.
Enfim, grandes esforços de todo o elenco e das centenas de pessoas que ocupam praticamente todos os espaços do imenso palco e dos corredores da casa. Às vezes me pergunto o que esse exército de pessoas está fazendo, se todos estão realmente ocupados na produção. Mas não há que se negar que o clima é de ansiedade e felicidade de ver o Colón funcionando.
Sinto-me verdadeiramente privilegiado de estar à frente dessa belíssima aventura.
“In boca al lupo” a todos para terça-feira.

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4 respostas para Diário de um Conquistador 3

  1. Baby Field disse:

    Sucesso,Maestro!!

  2. a cantora careca disse:

    Maravilhoso o seu entusiasmo, contagiante! Brilho nos olhos e platéia acesa!
    S-u-c-e-s-s-o !!!!

  3. In bocca al lupo, Maestro!

  4. a cantora careca disse:

    “In bocca al lupo è un augurio scherzoso di buona fortuna che si rivolge a chi sta per sottoporsi ad una prova difficile.

    L’espressione ha un valore scaramantico: per scongiurare l’eventualità di un avvenimento indesiderato lo si esprime qui sotto forma di augurio. Andare nella bocca del lupo è infatti una palese metafora per cacciarsi nei guai.

    Una consuetudine più recente del modo di dire in sé vuole che si risponda con «crepi il lupo» a chi formula l’augurio.”

    Maestro: juro que eu não sabia o significado dessa expressão até pq não “ablo” italiano.
    Estou aprendendo muito a cada visita ao blog, estou encantada com o mundo da ópera!
    Da s-u-a ópera principalmente.

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