Diletantismo medíocre

Sei que corro o risco de ser chamado de incoerente. Há algumas semanas critiquei severamente Sergio Besserman por ter proposto a eliminação de orquestras do cenário carioca em prol de uma única “boa” orquestra.
Estive pensando sobre a criação de uma nova orquestra de ópera no Teatro São Pedro. A iniciativa de se criar uma nova orquestra em São Paulo deveria ser festejada. No entanto, nesse caso, não creio que se tenha feito a coisa da forma adequada. Não se cria uma orquestra, especialmente uma orquestra que teoricamente deva se especializar em um repertório lírico, desse jeito. O argumento de que se ouviu setecentos candidatos não quer dizer absolutamente nada. Pode-se ouvir 5 candidatos excelentes e contratá-los ou mil e quinhentos insuficientes e não levá-los em consideração. Há jovens iniciantes em seus instrumentos à vontade em São Paulo e no Estado para formar cinquenta más orquestras.
No início da reestruturação da OSESP, quando a qualidade exigida ainda não era conhecida por todos, ouvimos centenas de candidatos e tínhamos sorte se achássemos um com as características que desejávamos. Mais tarde o número de candidatos diminuiu muito, quando estes já conheciam os parâmetros necessários para entrarem na orquestra. Mas a relação de aprovados sempre se manteve nos 2 a 3 por cento do número de candidatos…
Mas nada contra a formação de 50 más orquestras, desde que estas sirvam para prática orquestral de seus membros e que estes continuem a estudar e se aprimorar, para algum dia poderem fazer parte de uma orquestra de qualidade, que lhes pague bem por seus serviços. Oferecer um emprego meia boca para 50 ou 60 jovens semi-formados, na maioria egressos da orquestra jovem de Guarulhos, é cultivar o vício que durante tantas décadas grassou no nosso meio sinfônico e lírico. Tirar músicos de uma orquestra jovem por definição, onde ganhavam provavelmente uma pequena bolsa de estudos para poderem continuar a estudar, para pô-los numa orquestra onde serão tratados como profissionais de segunda, tocando um repertório muito provavelmente difícil demais para ser encarado com qualidade por esses rapazes, é uma ação deletéria. Músicos em grande parte insuficientes, ganhando um salário insuficiente, tendo que se virar em outros bicos para completar o salário medíocre, e por isso mesmo não tendo tempo para se concentrarem na sua oquestra e no seu instrumento de maneira exclusiva, acabam por tocar mal o tempo todo em vez de tocar bem quando necesário. E os poucos rapazes e moças bons e talentosos que porventura possam estar nesse meio, acabam por sucumbir à má qualidade dos colegas.
Mahler dizia que a qualidade de uma produção de ópera se julga pela qualidade do último dos comprimários que entra e diz “La cena è pronta”. Eu extrapolo e digo que a qualidade de uma orquestra se mede pelo pior músico que dela faz parte. Uma última estante deficiente faz mais estragos numa orquestra do que seis estantes maravilhosas fazem bem.
A Secretaria de Cultura do Estado faz no Teatro São Pedro exatamente o contrário do que eu fiz na OSESP. É isso que chamo de política e visão cultural equivocada e demagógica. Vontade de “épater le bourgeois”, sem conhecimento de causa, dilentantismo medíocre.

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4 respostas para Diletantismo medíocre

  1. Mauricio disse:

    Caro senhor Neshling,
    A questão é realmente controversa. Como todos bem sabemos, há cerca de 13 anos o senhor trouxe a São Paulo e ao Brasil um novo paradigma em qualidade; a orquestra do Estado de São Paulo é, até hoje, exemplo e inspiração para a classe, desde jovens ambiciosos até profissionais há tempos estabelecidos no meio musical.
    É verdade que todos gostaríamos que a OSESP não seja para sempre exceção em suas virtudes, ou seja, que outras orquestras possam nos propiciar o deleite de seus programas e solistas com igual virtuosidade e paixão. E isso somente levaria a qualidade a subir, indefinidamente. Talvez sua iniciativa no âmbito da ópera seja a primeira nesse intento. Mas também é verdade que a criação de orquestras, com salários situados entre uma orquestra estudante e a OSESP, pode ser ato que beneficie e inspire gerações de musicos, fomentando o meio quanto as possibilidades de emprego e desenvolvimento pessoal.
    Estudantes sairam de suas orquestras de origem com nível insuficiente para formar essa orquestra tanto quanto outros, já de nível profissional deixaram as orquestras estudantes para dar espaço e vaga a verdadeiros estudantes. Esse processo é inevitável. Daí a crítica talvez devesse ser mais a direção musical e seleção dos candidatos do que ao organismo, em si. Por outro lado, caso seja apenas um equívoco a escalação de músicos ainda incipientes, creio que a mesma direção dará cabo de substitui-los por outros que estejam em condições, já que não se trata de concurso público e de estatutários.
    Aos diletantes mais luz que um fracasso, creio, ainda é tempo…
    Maurício

  2. Caro maestro, antes de formar uma opinião acerca desssa ou daquela orquestra , temos que ouví-la em uma ópera.
    Concordo que seu trabalho na OSESP foi louvável na seleção e preparação. Cada um pode seguir caminhos diferentes e atingir metas.
    Recentemente um membro do coro do Teatro São Pedro me escreveu reclamando dos salário dos coristas . Mas antes do coro do Teatro São Pedro exisitia o nada para esses cantores líricos e agora eles ganham , não é o salário dos sonhos, mas é um salário.

  3. Não sou músico. Só gosto de música. Na verdade ,de ópera. Acho que o alerta que o maestro aqui levanta é muito importante. Agora, a idéia de trasformar o Teatro São Pedro numa casa de ópera é muito boa. A cidade- neste campo- está abandonada . E não é de hoje. Não tivemos para a ópera uma experiência positiva como da Osesp. E para que o São Pedro não torne-se em um teatro para tudo ,mas para ópera, ele precisa ter uma orquestra. Como precisa de coro e mais espaços. Portanto montar uma orquestra é muito positivo. Não sei se isto está sendo feito de forma correta, mas já é meio caminho andado. E agora -com um seis a 8 produções de ópera por ano – veremos onde é preciso melhorar. E esperamos que melhore muito.

  4. Angélica disse:

    Caro senhor Ali Hassan,
    Não existe um “coro do teatro Sâo Pedro”. Existe menos ainda um “salário” que as quase cem pessoas aprovadas, no esquema de cachês, que serão chamadas esporadiacamente para um ou outro trabalho da temporada, recebem. Pessoas essas cantores muito bons, cantores com 1 ano de estudo, e pessoas que nem canto estudam. Pelo 1o trabalho, receberam $300, por 8 ensaios e 2 concertos. Isso não é nem salário, nem cachê, pra mim é insulto. É falta de respeito com os profissionais que foram às escuras fazer uma audição para a qual nem um edital foi publicado, com nenhuma informação que fosse, além dos horários de ensaio. É ótima a iniciativa da apaa de promover temporada lírica no TSP, a cidade precisa. Só acredito que um projeto profissional deve ser feito com profissionais em todos os níveis; do spala à camareira. E, principalmente, é preciso respeitar esses profissionais. Não sou contra dar oportunidade de experiência a jovens que estão ingressando no mercado, desde que haja continuidade em seu processo de profissionalização. Aí entra a grande responsabilidade do regente, de fazer essa orquestra boa ou ruim.

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