Diário de um Conquistador

Ao todo foram quatro ensaios de leitura com orquestra e um ensaio à italiana (com os cantores parados na boca de cena). Apesar da grande boa vontade da orquestra e da qualidade indubitável do cantores do primeiro elenco, acho um pouco apertado. A orquestra foi bastane renovada desde que estive aqui no ano passado para reger a “Jeanne d’Arc au Bûcher” de Honegger. Muitas cordas novas, algumas madeiras que não tinha encontrado antes. Sem dúvida uma melhora desejada. Os jovens porém, compreensivelmente, nunca tocaram a ópera de Mozart e trata-se de uma das mais difíceis, longas e complicadas do mestre austríaco. Ao que me foi informado, a última vez que levaram o Don Giovanni no Colón foi há uns dez anos atrás.
Não paro de me espantar com o tamanho desse teatro e com a sua infra-estrutura. São sete andares, quatro para cima e tres no sub-solo, que avançam debaixo das grandes avenidas na qual o teatro se encontra com suas diversas oficinas, salas de coro, réplicas do palco, salas de maquiagem, de figurantes, de “kynestesia”, etc…. Grande parte da reforma ainda está em processo de acabamento. Dezenas de operários se confundem com os artistas, uma cidade em movimento, na qual as pessoas mal se conhecem.
São duas orquestras sinfônicas independentes, uma só para o repertório de concerto e uma só para a ópera e o ballet. Ambas trabalham diàriamente em dois turnos cada uma. Salas de ensaio acusticamente preparadas e confortáveis estão à disposição de cada uma delas. O Don Giovanni foi lido no fosso do teatro, que, curiosamente é pequeno para o tamanho da casa. A orquestra mozartiana cabe com sobra, mas acho que um Wagner ou um grande Strauss traria problemas de espaço. Imagino que na reforma não quisessem aumentar o “golfo místico” e mexer na acústica do teatro, conhecidamente uma das melhores do mundo. Eu a achei um pouco seca, muito boa para os cantores mas não necessariamente generosa para a orquestra.
Meu primeiro elenco, com o qual ensaiei até agora, é de grande qualidade. Nicola Ulivieri, Don Giovanni é um baixo cantante com maravilhoso metal na voz, uma voz que corre e acaricia os ouvidos. Norah Ansellem, Don’Anna é uma soprano com voz grande e dramática, que chega ao seu limite nas coloraturas mozartianas, mas que está no auge de sua qualidade. Virginia Tolla, Dona Elvira, é um cantora intensa e musical, com uma voz firme sólida e eficaz. Falarei ainda dos outros intérpretes.
Michael Hampe, o diretor de cena, é um dos “míticos” diretores alemães dos anos 80, que ensaia personagens nos seus mínimos detalhes e que, dada a sua imensa experiência, ensina os cantores desde uma postura adequada em cena até como respirar para aumentar a tensão de um recitativo. (Ex: “Nós, mortais, temos uma temperatura média de 37°. Mozart devia ter uma de 370. Essa é a sua intensidade. Somos incapazes de entender a intensidade mozartiana…”).
Todo o Don Giovanni é produzido pela casa, dos sapatos às carroças de cena, das espadas aos violinos falsos dos figurantes.
É óbvio que há problemas: sindicais, salariais, de organização e de pessoal. Há tensões mal disfarçadas em diversos setores, mas a temporada está aí , ensaia-se 10 horas por dia nas diversas localidades do teatro e a imensa platéia está praticamente esgotada para as seis récitas, quatro do primeiro elenco e as duas últimas com elenco argentino, exceto o segundo Don Giovanni, este americano.
Sinto a ansiedade de uma estréia que se aproxima e a felicidade de trabalhar numa obra, que, sem exagero, é considerada a “ópera das óperas”. Ainda temos muitas aventuras pela frente.

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