Pílulas

As récitas do Barbeiro de Sevilha em Belo Horizonte correram bem, foram as primeiras quatro, e se por isso mesmo chegaram a apresentar uma ou outra falha, tenho certeza de que elas serão corrigidas no decorrer da longa temporada que temos pela frente. Hoje a Companhia está em Porto Alegre. À tarde, foi feito um ensaio técnico e amanhã teremos a nova estreia. Dessa vez serão 5 récitas. O maestro convidado para essa série é Yoram David, que por diversas vezes foi meu convidado na OSESP. Grande ganho para nós.

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O que me deixou muito satisfeito foi ver o nosso espetáculo infantil com Sebastião Teixeira como anfitrião fazer um sucesso enorme junto às crianças que quase lotaram o Palácio das Artes. Esse espetáculo, uma alegre e divertida introdução à lírica, criado por José Rubens Siqueira, será levado em todas as cidades que visitaremos.

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Vejam só como é difícil planejar uma tournée dessas no nosso País. Até ontem estava tudo certo para as
cinco apresentações no Teatro da Paz em Belém. Hotéis para toda a equipe reservados, passagens aéreas pagas desde Manaus até Belém, maestro convidado (Gianluca Martinenghi- do Teatro Communale de Firenze) contratado e confirmado, um bocado de dinheiro gasto. De repente, meia hora antes do jogo do Brasil contra Portugal, a bomba: não poderemos nos apresentar em Belém, a reforma do teatro não ficou pronta!!!! O teto, imaginem, ameaça cair. Descobriram isso 6 semanas antes da nossa chegada, depois que tudo estava preparado e organizado. Simples como isso: não pode haver mais Barbeiro em Belém. A Companhia que se arranje para pagar uma semana livre para 70 pessoas, que encaixe o prejuízo das passagens, que encontre uma explicação para o público. E não há nada a fazer contra esse tipo de irresponsabilidade, que põe em risco a sobrevivência de um projeto que custa caro aos cofres públicos. Vergonha, é o único que posso dizer a respeito. Dessa forma não há política cultural que sobreviva.
Nossa produção, no entanto, já está se virando. Dessa vez ainda pudemos contar com a sorte: há uma grande chance de inaugurarmos um novo Teatro em Fortaleza no período reservado para Belém. Isso nos salvará de um buraco orçamentário e de uma pecha de irresponsabilidade pelos quais éramos não só livres de culpa, mas sobretudo impotentes.

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Estive ontem num jantar de um grupo de artistas e intelectuais com a Ministra Dilma Rousseff, candidata à Presidência da República. Fiquei impressionadíssimo com ela. Puxando a brasa para a nossa sardinha, descobri que Dilma é uma amantíssima da ópera e conhecedora real do repertório lírico. Conversamos sobre “Jenufa” de Janacek, “Peter Grimes” de Benjamin Britten, “Lady Macbeth de Minsk” de Shostakovitch e sobre o Don Giovanni que estou preparando no Teatro Colón. Falamos de algumas de suas ópera preferidas, entre elas Elektra e Salomé de Strauss e Dilma recitou na hora as primeiras frases do egípcio Narraboth, do início de Salomé. Comentou a impropriedade política do libreto quando comenta a conversa dos judeus, e concordamos que hoje em dia seria impossível musicar um libreto com essas características sem o ataque imediato dos políticamente corretos. No século XIX, porém, era possível fazer um comentário como este, sem que se pensasse imediatamente nas consequências trágicas do antisemitismo político que se seguiria.
Enfim, um político que reflete sobre cultura, lê, ouve e presta atenção no cenário cultural, que percebe a ligação umbilical entre educação e cultura. Chapeau.
Hoje uma jornalista do “Globo” me perguntou em quem eu iria votar. Respondi que o meu voto é secreto. Mas no Serra é que eu não voto.

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Hoje começo também o Diário de um Conquistador. Vou contar à vocês um pouco dos bastidores de uma produção do Don Giovanni no Teatro Colón de Buenos Aires.
Recém chegado, entrei no teatro que ainda está sendo restaurado e entendi a diferença entre nossos dirigentes paulistas e os portenhos: por aqui a reforma continua, há dezenas de operários trabalhando dentro do teatro, que é, no mínimo, umas cinco vezes, maior do que o de São Paulo. Mas o palco está pronto, as salas de ensaio também, os camarins reluzentes, e a casa funciona. A obra total não será entregue antes do fim de 2011, mas há temporada de ópera, de ballet e de concertos, há planejamento e organização.
Evidentemente, uma reforma deste porte traz problemas na rotina atual do teatro. Pode até haver diversos momentos de dificuldade inesperada durante o primeiro ensaio de leitura com uma orquestra motivada e em parte renovada: perdeu-se parte do material antigo nas muitas mudanças por conta das obras e da itinerância das produções, e alguma coisa não funciona na marcação das arcadas. Mas o espírito vence. A vontade político/cultural fica demonstrada. A paixão de fazer compensa. Praticamente não há mais bilhetes à venda para os 6 espetáculos programados.
Na quinta-feira a Filarmônica do Teatro toca com Igor Pogorelich. Durante minhas récitas, além do meu concerto com a Orquestra Estável, Nelson Freire se apresenta com a outra orquestra. Já se fala em uma produção lírica no ano que vem dirigida pela “Furia del Baus”.
O que mesmo está acontecendo no Teatro paulista?
Até já.

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