Diário de um Barbeiro 7

Hora da estreia. Estamos há quatro dias no Palácio das Artes de Belo Horizonte dando os retoques finais no espetáculo desta noite. Ao chegarmos aqui, nos deparamos com uma realidade no palco completamente diferente daquela em que vínhamos ensaiando em São Paulo. Isso era, em princípio, o esperado. Essas novas condições, entretanto, acabam por colocar todos nós com os nervos à flor da pele.Os figurinos apresentam problemas inesperados. Como enfiar o jornal na calça, se falta um bolso? Ninguém pensou nisso? Não, ninguém pensou nisso. Então costure-se um bolso na calça do Fígaro nas próximas duas horas… E a corda na qual pensávamos pendurar o Don Basilio, funciona? Tenho medo que em qualquer récita dessas Don Baslio se enforque durante o espetáculo. Vamos então mudar a cena da corda. Pier Francesco Maestrini passa a noite em claro bolando a nova solução cômico/dramática que terá que ser ensaiada um hora antes do ensaio geral. Mas não vamos estressar os cantores mais do que já estão…
A luz interfere na projeção do desenho animado? Então vamos modificar o esquema de iluminação durante a noite de terça para quarta. Na quarta-feira de manhã estamos todos com olheiras, mas com um projeto de iluminação novo. E a surpresa que queremos guardar para o fim do espetáculo? Joshua Held, o desenhista genial que chegou da Itália terá que criar essa cena na última hora, além de acertar todos os detalhes que faltavam. Dará tempo? Essa pergunta não se faz. Não há alternativas.
Durante esses quatro dias fui bastante assediado pela imprensa daqui e do resto do País. Quase sempre as mesma perguntas- por que o Barbeiro de Sevilha? E essa história de desenho animado? Por que estrear em Belo Horizonte? Foi mais difícil criar essa Companhia do que foi criar a OSESP? Como se escolhem os cantores? Qual a próxima produção? Quando? Aonde? Como? Vou tentando responder da melhor maneira possível. Três perguntas porém me chamam a atenção e quero responder bem claramemte:
a) Parece que há no Brasil uma expectativa, uma vontade de ter o senhor, Maestro, de volta. O que acha disso?
Resposta: Há dois anos o sentimento era o contrário. Como se livrar de John Neschling era a pergunta que se fazia com insistência. É a roda da vida…
b) Na grande maioria do mundo lírico brasileiro a ideia da Companhia Brasileira de Ópera vem sendo muito bem recebida. Mas há os que criticam, os que dizem que o Ministério deveria distribuir essa verba pelos diversos produtores de ópera no Brasil, que mais uma vez (???) se concentram as atenções num único projeto.
Resposta: Meu projeto da Companhia Brasileira surgiu em julho do ano passado. Todos os inúmeros (???) produtores de ópera poderiam ter se qualificado para um tipo de patrocínio. Eu não apresentei o meu em detrimento de nenhum outro, e espero que de agora em diante os projetos de qualidade chovam na horta do Ministério e mereçam a devida atenção. Por outro lado, não vejo nenhum sentido para que o Ministério patrocine as produções líricas nos teatros municipais e estaduais de nossas grandes capitais. Essas têm que ser financiadas pelos Estados e Municípios. Para isso é preciso interesse, competência e vontade política.
A OSESP é um exemplo interessante: quando meu projeto foi realizado com o patrocínio do Estado, ouvi inúmeras vozes críticas que afirmavam que qualquer um com aquela verba seria capaz de construir uma orquestra. Onde estão os projetos que conseguem a verba para um projeto parecido? Onde estão as outras OSESPs ? Creio que o único projeto parecido é o da Filarmônica de Minas Gerais, de Fabio Mechetti. Isso treze anos depois da reestruturação da orquestra paulista.
c) O que você espera, afinal, dessa Companhia Brasileira de Ópera?
Resposta: Certamente não espero um coro de louvor à nossa primeira produção. Haverá os que gostam e os que a criticam, com mais ou menos isenção. Mas uma coisa queremos demonstrar: é possível criar uma relação custo/benefício muito mais generosa na produção lírica brasileira. Com nosso orçamento certamente tímido, se tomarmos como comparação uma produção média num grande teatro europeu ou americano, conseguiremos fazer mais de 70 récitas do Barbeiro em quinze cidades , algumas das quais nunca assistiram a uma produção com essa qualidade. Teremos ainda a possibilidade de fazer mais 70 no ano que vem. É, sim, possível criar um centro de produção lírica no Brasil que empregue de forma sistemática cantores e todos os demais participantes de um teatro lírico, e que faça renascer a produção continuada de ópera. Assim poderemos atender a um público sedento dessa linguagem e criar um celeiro de técnicos e especialistas, além de oferecer emprego a artistas que muito frequentemente são obrigados a ir para o exterior para excercer com dignidade a sua profissão.
Ignoro as reais possibilidades de sobrevida de nossa Companhia, mas noto o entusiasmo de nossos patrocinadores e da nossa equipe. Creio que conseguimos sim atingir o nosso primeiro objetivo. E não perco as esperanças de que possamos continuar e aprimorar nosso trabalho no futuro.

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2 respostas para Diário de um Barbeiro 7

  1. Nicolle Bella disse:

    Caro Maestro
    Desejo muito sucesso hoje a noite, e em toda a temporada. Confesso que estou com uma pontinha de inveja dos mineiros. Acredite, não é só sua equipe, e seus patrocinadores que estão entusiasmados. Existe uma platéia sedenta por bons espetáculos, e por seriedade. Continue Maestro….. reme contra a maré, contra a inveja, mesquinharia !!!!!

  2. Baby Field disse:

    Bravo,Maestro!!
    Bravissimo!

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