As verdades e a meia cultura

O Teatro Municipal de São Paulo que ser “pop”. Esta é a chamada de capa da revista da Folha de São Paulo desta semana. Fui ler a matéria assustadíssimo, esperando o pior. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que o “pop” anunciado seria uma produção da ópera “Lulu” de Alban Berg na temporada de 2011. Respirei aliviado, mas preocupam-me essas novidades.
A falta de uma direção artística no nosso teatro lírico acaba por permitir erros desse quilate: uma orquestra há muito tempo sem projeto e com concertos esparsos aqui e ali, terá como primeiro desafio do ano que vem (esse ano o Teatro permanece fechado) tocar uma partitura dificílima, só enfrentada habitualmente por orquestras com muitos anos de trabalho constante e profundo, que já vem tocando sistematicamente todo o repertório clássico, romântico e pós-romântico.
Por outro lado, a um público sedento de grandes produções líricas, como o público de São Paulo, falta a oportunidade de ouvir o grande repertório italiano, alemão e francês. Seria muito mais coerente em termos de programação, oferecer um título como “Lulu” como complemento de uma temporada tradicional. Eu me pergunto então, o porquê de se querer montar Alban Berg quando mal se faz o bêabá da ópera? Desejo personalista de um diretor? Uma direção de teatro despreparada para essa função?
O Teatro Municipal precisa ser reestruturado artística e administrativamente para se transformar num centro de prática lírica constante e cotidiano. Para isso é necesário um planejamento a longo prazo, com metas específicas bem definidas e enunciadas. Uma equipe preparada, que saiba a diferença entre teatro de repertório e de temporada.
Um teatro de repertório (como os teatros alemães, a Ópera de Viena e tantas outras casas) possui um elenco fixo de cantores, dramaturgos, diretores, cenógrafos, técnicos etc… e com eles desenvolve um amplo repertório, apresentado diariamente, alternando os títulos. Com o correr dos anos o repertório de um desses teatros pode abranger uma centena de títulos que são remontados regularmente, com poucos ensaios. Nesse contexto, sim, é que seria natural montar não só a “Lulu” de Alban Berg, mas também outras criações contemporâneas como “Nixon em China” ou “Os Diabos de Loudon”.
O teatro de temporada, (como os teatros italianos e alguns americanos) programa uma série de produções anuais, com um número fixo de récitas, para as quais contrata cantores e diretores estelares, com anos de antecedência, e, se possível, intercambia essas produções com outros teatros. Possue porém uma estrutura fixa de técnicos, pianistas, contra-regras etc… ,que serve a todas as produções.
Ambos esses métodos de trabalho são possíveis, mas demandam uma direção artística e administrativa especializada e competente.
Nesses teatros as orquestras trabalham em tempo integral, com dois ou até mais serviços por dia, ganham salários compatíveis com essa carga horária, e a relação custo benefício do orçamento do teatro se torna muito mais eficiente do que num teatro como o nosso, em que a orquestra e o coro só trabalham uma vez por dia. O tempo gasto para a montagem de uma produção aqui é mais do que dobro de um teatro bem estruturado, e a possibilidade de mais de uma ópera por vez é inexistente por aqui.
É sabido no meio musical que se deseja que o Teatro Municipal seja dirigido por uma Comissão Artística. Não conheço nenhum teatro no mundo que seja dirigido artisticamente por uma comissão. No Brasil, onde até políticos e editores se metem a programar temporadas musicais, uma solução como essa não é novidade. Na minha opinião, trata-se de uma guerra anunciada e de um desastre com hora marcada. Se isso virar lei, o Teatro Municipal estará condenado a uma mediocridade eterna ( mediocridade no sentido literal de qualidade da média), até que essa lei seja revogada, o que sabemos pode levar décadas.
Uma direção de teatro que anuncia como grande novidade uma série de grandes pianistas com Nelson Freire e Maria João Pires (dois artistas magníficos que têm se apresentado regularmente em São Paulo), já mostra que o que vai faltar é novidade. Pelos vistos, falta também conhecimento do mercado nessa programação: anunciar Martha Argerich uma das artistas mais difíceis de serem engajadas por teatros de primeira grandeza, só mesmo não sendo do ramo. A direção declara ainda, orgulhosa do seu projeto, que uma série dessas não deixa nada a desejar ao Metropolitan de Nova Iorque. Isso é verdade: O Metropolitan de Nova Iorque, uma casa exclusivamente lírica, jamais programou uma série de pianistas.
Temo pelo futuro da vida cultural paulista. Não bastasse o desmonte sistemático dos nossos equipamentos culturais nos últimos quatro anos, vamos sendo surpreendidos por um diletantismo que quer “reestruturar” tudo- a OSESP, o Festival de Campos de Jordão, a ULM, o Conservatório de Tatui, a Banda Sinfônica e agora o Teatro Municipal.
Nada é mais nocivo para a vida cultural de um país e de uma cidade do que esse dilentatismo, esse falso verniz, essa meia cultura.
O que ficou das atuais gestões ? Onde está o prometido Museu do Detran? Onde ficou a reurbanização da cracolândia? Onde está o novo teatro para uma Companhia Estadual de Dança? O que será da ULM e do Festival de Campos, ambos na mão de uma Faculdade privada, que demitiu quase todos os professores?
Para que desmontar estruturas que tinham mais qualidades do que problemas? Foi preciso o Governo Federal investir pesado na Bienal para que essa não se inviabilizasse.
O ex-governador de São Paulo afirmou ontem que o Brasil não precisa de um Luis XIV, aquele do “l’État c’est moi…”. Eu acho que igualmente não necessitamos de um José II, aquele modelo de déspota esclarecido, que acha que a verdade e a sapiência emanam de suas próprias idéias e idiosincrasias.

Anúncios
Esse post foi publicado em Texto e marcado , , . Guardar link permanente.

12 respostas para As verdades e a meia cultura

  1. pedrita disse:

    eu não vejo a hora do theatro municipal de são paulo voltar as suas atividades. beijos, pedrita

  2. Ana disse:

    Maestro, deve ser tenso trabalhar com você, deve ter músico com gastrite nervosa hehehe.
    Gostei do blog , apesar de ser ignorante em música clássica e ópera acho que vou aprender muito por aqui, além do mais, gosto de pessoas que falam o que pensam.

  3. Preocupado com o Teatro Municipal disse:

    Beatriz Faz Mal afundou o Municipal: a programação sem pé nem cabeça é a ponta do iceberg do processo de desmantelamento do Teatro Municipal. A diretora, que não sabe a diferença entre um violoncelo e um violino está aos poucos afastando todos os diretores, músicos e bailarinos dos Corpos Estáveis. Usando técnicas de coerção dignas da Gestapo, como caluniosos processos administrativos, corte de honorários e outros, a pupila do secretário Calil (professor de cinema que nunca dirigiu um filme) segue uma tática ditada não só pela incompetência, mas pelo projeto de seu mentor de entronizar-se presidente vitalício da Fundação TMSP. Para isso ela troca uma artista por uma diretora que nem passou na audição de elenco, pune uma orquestra por reclamar do regente, cala a voz do coral… O que fazer? Quem nos impôs esta dupla que acha que cultura só deve acontecer uma vez por ano durante 24 horas? O ex-prefeito e ex-governador merece nosso voto?

  4. Adriano disse:

    Poxa maestro, concordo em genero, numero e grau !

    Espero um dia ter no Brasil companhias maravilhosas como as americas e europeias, e administradores visionarios como eles também.

    Enquanto isso, contamos com os serviços do sr, porque se dependermos dos nossos genias “politicos administradores”, estamos fadados a em brece assistirmos um show do Belo ou do Calypso no Municipal !

  5. Angelino Bozzini disse:

    Bravo pela lucidez!

  6. Mary-Helen TE disse:

    Seu excelente blog me faz lembrar o de Norman Lebrecht, Slipped Disc.

    Nada se pode fazer contra os ” intelectuais”, donos do poder, com suas idiosincrasias, suas “vendettas”.

    Mais importante ainda, nada se pode fazer contra a falta de amor à beleza da arte em todas as suas formas e ao que ela pode oferecer de belo e sublime ao público.

    Pobre de nós!

  7. Ary disse:

    Finalmente alguém realmente do ramo se pronuncia

  8. Diógenes Gomes disse:

    Bravo Maestro Neschling!

    Obrigado por dizer o que muitos gostariam, mas não podem!
    bravissimo!

  9. Thereza Martins disse:

    caro maestro,

    Fui assinante da Osesp por muitos anos. Lembro de momentos de enorme encantamento, quando por exemplo a orquestra tocou A Sagração da Primavera pela primeira vez, há uns 8 ou 9 anos, mais ou menos, ou quando ouvi Don Quixote, com solo de Antonio Meneses, simplesmente maravilhoso. A interpretação foi tão especial, que quando violoncelo e viola “conversavam”, Don Quixote e Sancho Panza se materializavam. Eles estavam ali conosco, no palco. Os últimos acordes do violoncelo eram delicados, mas claros, como se a vida de Don Quixote estivesse se apagando, nota por nota. Pois bem. No começo deste ano, a programação anunciava mais uma vez a peça de que tanto gosto. Mal parecia ser um solo de violoncelo. O instrumento soava tão baixo, ou a orquestra tocava tão alto, não sei, que o encanto se desfez. E Sancho Panza, aonde se escondeu? Não se ouvia mais a viola. Esse não foi o único desapontamento do ano. A programação de 2010 não traz surpresas, não inova, não ousa. Se antes eu ia à Sala São Paulo para ouvir a orquestra, hoje me limito a escolher o programa pelo solista convidado. Espero que esse não seja um processo irreversível.

  10. Preocupado com o Teatro Municipal disse:

    Exoneração já!
    A matéria do Estadao de hoje deixa bem clara a política da diretora Beatriz Faz Mal. Ela quer acabar com os Corpos Estáveis para pavimentar o caminho para transformar o TMSP num cabide de empregos burocráticos com ela e o secretário Calil no topo da hierarquia. Cancelar as apresentação da OSM prejudica não só os musicos que deixam de receber as gratificações, mas toda a população que deixa de ouvir a sua orquestra. A ausencia de apresentações imposta por Faz Mal também prejudica o Balé e os corais. A exceção neste silencio fica por conta da OER, que foi criada por Lei Municipal e onde seus tentáculos malignos ainda nao chegaram. Nao existe outra opção a nao ser a classe artistica e preocupada com os destinos do Teatro Municipal se mobilizarem e exigiram a exoneração imediata de Beatriz Amaral e que o Secretário Calil defina em conjunto com membros dos Corpos Estáveis uma saida para este caos que se abateu sobre o TMSP à vespera do seu aniversário de 100 anos.

  11. Baby Field disse:

    E pensar que chegamos a sonhar com uma São Paulo com vida cultural própria e efervescente!
    Sonhamos com isso e muito..!!
    Mas,esquecemos que nossos governantes não permitiriam isso.
    E não permitiram ,mesmo!!!

  12. Drex Alvarez disse:

    Maestro,

    Parabéns pela iniciativa do blog. Como um admirador da sua trajetória e trabalho pela música, fico muito feliz de ter este contato mais próximo com suas idéias.

    É uma pena mesmo essa atitude mediocrizante que o poder público insiste em ter em relação às artes. E o Municipal, fechado a mais de ano, é motivo de suspiros saudosos…

    Novamente parabéns e vida longa a estas semibreves. Um abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s