Onde anda nossa indignação?

Ontem, 7 de junho, um cidadão honrado e admirável como Sergio Bessermann, especialista em desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas e aquecimento global perdeu uma formidável oportunidade de ficar calado, ao revelar suas opiniões sobre política cultural e as orquestras do Rio de Janeiro. Em poucas palavras, Bessermann disse que três orquestras numa cidade como o Rio de Janeiro são um desperdício de dinheiro e que seria melhor acabar com elas e formar uma, “a melhor orquestra brasileira”. Espanta-me ouvir de um ecologista uma afirmação como essa. Usando os parâmetros da própria ecologia, é sabido que um ecosistema tem tanto mais possibilidades de sobrevida quanto mais diversificado for. Acabar com várias orquestras para manter uma é por em risco mortal a vida sinfônica de uma cidade. Um especialista em planejamento urbano deveria ter conhecimento de estudos que dizem que uma cidade com qualidade de vida no primeiro mundo deveria ter para cada milhão de habitantes uma orquestra atuante (sinfônica ou clássica). Acho que seria demais desejar que o Rio tivesse suas 10 ou 11 orquestras atuantes, mas as que tem são certamente insuficientes. E achar que transformar 3 orquestras medíocres numa única boa orquestra é desconhecer as características mais básicas de uma orquestra. É mais importante, e muitas vezes mais fácil, ter três grandes orquestras do que uma medíocre. E os custos e lucros sociais e econômicos de uma orquestra não podem ser medidos como em conta de padaria: uma orquestra custa 3, duas custam 6 e três custam 9. Em termos meramente econômico-sociais uma orquestra emprega diretamente centenas de pessoas, indiretamente milhares de cidadãos e atinge uma populaçao de dezenas, centenas de milhares de ouvintes e entusiastas de forma direta, e todo um País e uma cultura indiretamente. Confere dignidade à população, aumenta a sua auto-estima, educa e sensibiliza, viabiliza a sua criação musical, dá prestígio a uma cidade, estimula o turismo, enfim, achar que os gastos de uma orquestra são despesa sem retorno é de uma estupidez e um reducionismo atroz.
Não posso acreditar que nossos pensadores urbanos não conheçam a realidade das grandes capitais européias e americanas. Que não tenham informação sobre Berlim, por exemplo, e suas 3 casas de ópera, suas 7 ou 8 orquestras, e sobre o que isso significa para a economia da cidade.
Enquanto nossos urbanistas contemporâneos tiverem um tal desprezo pela nossa produção cultural e uma tal ignorância sobre o assunto, o mínimo que deveriam fazer é ficar calados e deixar que técnicos e profissionais realmente habilitados cuidassem do assunto. Mas não, nossos dirigentes culturais são especialistas em desmonte, são pródigos em destruição e pobres em idéias e projetos.
O Rio e São Paulo nunca estiveram tão necessitados de uma política cultural construtiva, depois dos incêndios reais e virtuais que destruiram grande parte do que foi construído em mais de século de trabalho. Quando cheguei a São Paulo, há mais de 12 anos, a cidade tinha o Teatro Municipal, o Teatro Cultura Artística e construímos a Sala São Paulo. Hoje a Sala São Paulo é o único dos três equipamentos em funcionamento. O Teatro Municipal de São Paulo, longamente fechado, está à espera não de um pedreiro, mas de uma idéia. Os músicos, obrigados a tocar em salas alternativas para menos gente na platéia do que no palco, sentem-se indignificados e humilhados, sem um diretor que os apoie e lhes apresente uma perspectiva decente de futuro artístico. Quanto mais tempo passa, mais a cidade se esquece de que tem um teatro lírico que deveria estar oferecendo arte lírica ao menos 150 vezes ao ano.
Em Curitiba o Teatro Guaíra, construído num momento de esperança na cultura do Paraná, está caindo aos pedaços, assumidamente transformado numa casa de aluguel, seus músicos sendo obrigados a tocar nos espaços menos adequados possíveis, por serem manifestamente relegados a um terceiro ou quarto plano, sem saber o que devem preparar para a semana que vem, à mercê das intempéries políticas e personalistas de dirigentes mal preparados. Está aí o exemplo de uma cidade importante com uma única orquestra. Quem sabe se tivesse duas ou três, não estariam todas em melhores condições, ainda que fosse para fazerem-se mutuamente uma concorrência positiva?
Em Brasília, o Teatro Nacional está urgentemente necessitado de uma reforma que permita que seus corpos estáveis possam trabalhar em suas “casas” com tranquilidade.
E vem um cidadão teoricamente moderno, que se diz um pensador da urbanidade progressista e sustentável, falar em destruir o pouco que ainda nos resta de possibilidade de sobrevivência?
Que esperança podemos ter num futuro melhor para nossos músicos se num momento de conjuntura econômica e crescimento inusitado vem nossa elite intelectual, nas maiores cidades do continente, propor o desmonte em vez da construção? A forma vazia em vez do conteúdo? O brilhareco em vez do projeto fundamentado?
Onde anda a nossa indignação?

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14 respostas para Onde anda nossa indignação?

  1. Naiana Trindade disse:

    Adorei o blog e principalmente esse post!
    É incrivel como se esquecem de como a arte e a cultura são essenciais para a formação de um cidadão.
    Morei durante muito tempo no interior de São Paulo, e fiz parte do projeto guri, onde tive o contato com valores implícitos no ensino musical, dentre eles a concentração, a disciplina, o trabalho em grupo, o respeito às diferenças e a apuração da sensibilidade.
    Acreditar na música é mais do que oferecer. É transformar.
    Levar para as crianças e adolescentes a oportunidade de conhecer o mundo da música é promover a união destes jovens em torno de valores comuns: a dedicação aos estudos e a importância de uma atitude positiva diante dos desafios.
    É impossivel não se chatear quando “pessoas” menosprezam um trabalho tão lindo como a música.

  2. Baby Field disse:

    Nossa indignação,maestro?Onde anda?
    Boa pergunta,maestro!

    No processo de sua saída da OSESP muitas vezes me perguntei isso!
    Muitas!
    A nossa incapacidade para lidar com o sucesso,juntamente com a nossa grande capacidade para destruir o que é bom,também são de assustar!
    Demais!!

  3. gilda o. cruz disse:

    Boa, Neschling. Há um velho parâmetro de desenvolvimento que mereceria ser citado: diz-se que um país é tão desenvolvido quanto o número de fagotistas ativos de que dispõe. Lá está o Bessermann querendo fazer cair o índice já tão rebaixado do nosso querido Rio de Janeiro…

  4. Mary-Helen TE disse:

    É lamentável. Quando penso que aqui em Londres temos 5 grandes orquestras: London Symphony Orchestra, Philharmonia Orchestra, London Philharmonic Orchestra, Royal Philharmonic Orchestra e Orchestra of the Age of Enlightenment, fora as do English National Opera e do Covent Garden Opera House. A BBC, rádio, tem 5 orquestras. E por aí vai, com outras grandes orquestras em Birmingham, Liverpool etc etc. Todas lutam com verbas mínimas e nunca desistem. Pelo contrário, cada vez estão melhores.

    Que país singular e patético e esse Brasil.

  5. Aqui em São Paulo, há bem pouco tempo, o Sr.João Sayad afirmou algo semelhante quando justificou a criação da São Paulo Companhia de Dança. Para o então secretário estadual da cultura era melhor criar uma refência na área da dança do que pulverizar a verba em projetos menores… honestamente eu não sei qual é a racionalidade inversa destas pessoas, visto que num país como o nosso parece-me absolutamente necessário pulverizar a verba, no sentido de mantermos a nossa identidade cultural, que é marcada pela diversidade. E, afinal, queremos ser melhores em que? Para quem? A quem interessa termos A melhor orquestra A melhor compania de ópera ou de dança????Muito pertinente o seu post! Valeu!

  6. desculpe pelos erros na digitação…

  7. Gesse Araujo disse:

    Se nas grandes metrópolis o sucateamento pela política do esfacelamento está evidente, como nós nos demais centros ficaremos, se os espelhos se quebram.
    As orquestras das capitais são a visibilidade que professores e músicos dos interiores do estado sempre se remetem e fazem com que os alunos olhem para direção da luz musical que vibra na direção das orquestras em destaque.
    Ficamos indignados sim, maestro, mas os ícones do poder dos “desfazedores” formaram o Império do Mal.
    Mas os séculos mostraram que a música sempre superou porque é uma necessidade para o equilibrio do mundo e da natureza. E, existem pessoas que lutam pela qualidade musical, mesmo que necessite alguns ajustes administrativos que são somente detalhe.

  8. Rose Ferraz disse:

    Uma vez encontrei uma grande mulher chorando copiosamente em pleno Shopping Iguatemi e, ao perguntar se poderia ajudar em alguma coisa, surpreendentemente ouvi:
    “- Não se preocupe. Estou apenas chorando a minha indignação.”
    Tive de concordar:
    Indignação a gente não chora na cama. Sai à ruas, ou aos blogs, para demonstrar.

  9. Além do que você disse, temos que levar em conta que as orquestras servem, principalmente, de treinamento e aperfeiçamento dos músicos.
    Lembrando também da importância social para a comunidade, por exemplo, que tem a orquestra da Favela do Heliópolis, em São Paulo.
    Eu estou desconfiando que o cidadão citado é irmão de um outro que conseguiu ser reprovado simultaneamente em TODAS as matérias na faculdade !!!!

  10. marcosnardon disse:

    Onde anda? Anda por aí, mas não se dá atenção a ela, Maestro!
    Lembra-se de quando veio reger a OSESP no Teatro Nacional de Brasília e seus músicos tiveram de se apresentar sem suas casacas, pois a refrigeração não funcionava? Realmente o Teatro Nacional de Brasília está caindo aos pedaços, sem falar dos graves problemas acústicos que apresenta. Enquanto isso, os recursos da pindorama vão para uma fonte luminosa (8 milhões de reais), para a reforma de um estádio de futebol para sediar alguns jogos da Copa do Mundo (400 milhões de reais, só no Mané Garrincha, de Brasília), e assim por diante. Veja em http://marcosnardon.blogspot.com/search?q=fonte+luminosa em http://marcosnardon.blogspot.com/search/label/nova%20sala e em http://marcosnardon.blogspot.com/search/label/OSESP exemplos da nossa indignação! Que um dia poderá produzir efeitos, desde que caia em mentes abertas para o que realmente vale a pena!

  11. Paulo disse:

    Talvez pudéssemos dizer que no Rio há verde demais… que tal tirar um pouquinho? Não diríamos isso mas também não somos ecologistas!

  12. Analaura de Souza Pinto disse:

    Caro Maestro
    É incrível como os burocratas decidem as questões da Cultura . Aqui , o Diretor Administrativo do CCTG quer transformar a OSP em Orquestra de MPB. porque , teria dito ele ” orquestra Sinfônica não dá lucro!”.
    Acho que a cultura neste país só vai melhorar se pessoas qualificadas na área cultural assumirem o poder.
    Quem dera tivéssemos um Neschling no Ministério da Cultura. A propósito, já pensou no assunto? Seria muito bom, para começarmos a sair desse mar de mediocridade que assola a maioria das nossas Orquestras! Please, help us!
    O único piano Steinway do CCTG está debaixo de um teto cheio de cupins! Todos os dia tenho que remover o pó da madeira que cai sobre o piano.Já pedi várias vezes que removam o teto , e o mesmo Diretor Administrativo teria sugerido colocar uma lona preta no lugar do teto. Acredite se quiser! Esse é o cuidado que se tem para com o patrimônio público! Já pensamos em denunciar no MP, mas quem fiscaliza os administradores ímprobos? A LIA ? Tudo é feito na base da politicagem. Como acabar com esse ” modus operandi brasiliensis”?
    Receba meu abraço e admiração
    Analaura ( pianista da OSP)

  13. Walter Gonçalves disse:

    As críticas ao Teatro Guaíra, em especial as constantes neste blog, carecem de uma abordagem mais cuidadosa. A visão de conjunto é fundamental, não se pode fazer um belo edifício sem passar por várias etapas, sendo a maior parte delas de pouca ou nenhuma beleza, muito suor e entulho vão ser produzidos para que o prédio imponente seja construído.
    A crítica sempre é positiva, ela nos alerta para problemas ainda não resolvidos, mas quando vista por alguém menos avisado pode parecer que todo o trabalho é ruim.
    Durante os ensaios muitas coisas são refeitas para que o espetáculo seja “o melhor”, e ainda assim, haverá um crítico que entenderá que algo não ficou perfeito. No mundo das artes o subjetivo é a essência, a beleza estética divide com a técnica limites de difícil observação.

    O Centro Cultural Teatro Guaíra ao longo da atual gestão buscou atender as demandas do público freqüentador dos vários tipos de manifestação artística, bem como da produção de conteúdo cultural por meio dos seus corpos estáveis, BTG, G2 Cia de Dança, Escola de Balé Teatro Guaíra e Orquestra Sinfônica. Esses grupos são patrimônio cultural do Estado, com várias décadas de histórico (EDTG 54 anos, BTG 41 anos, OSP 25 anos e G2 Cia de Dança 10 anos) e demandam um grande esforço para mantê-los e motiva-los, pois que não basta apenas realizar apresentações, essas tem que ser desafiadoras e devem representar o meio de crescimento profissional e artístico.
    O patrimônio artístico e cultural está presente também no seu aspecto físico, visto que o Teatro é tombado nos seus dois maiores auditórios, Guairão e Guairinha, sendo que o Bento Munhoz da Rocha 36 anos e o Salvador de Ferrante 56 anos. Símbolos arquitetônicos de sua época estabelecem parâmetros muito peculicares sob o aspecto de manutenção, preservação e modernização, não só é necessário conservar mas é imperioso preservar, e isto nem sempre é fácil de ser realizado e percebido. Muitos criticam alguns “problemas” sem que seja analisado o conjunto da obra, que deve ser analisada sob vários enfoques, como os da utilidade, qualidade, estética, segurança e multiplicidade funcional.
    Da mesma forma que se observa a imponência arquitetônica esta precisa ser analisada sob a sua acústica, sua funcionalidade cênica e ainda o conforto de seus freqüentadores, que vão exigir também espetáculos que tragam beleza e emoção, segundo o gosto variado que caracteriza uma população heterogênea como a que vemos em nossa sociedade.
    O equilíbrio das decisões é equação de muitas variáveis e poucas constantes, o espaço destinado ao artista local precisa ser preservado, a oportunidade de apresentações ecléticas é fundamental, a produção própria deve estar em funcionamento regular, a formação de novos talentos deve ser estimulada e tudo sem esquecer de que estamos falando de um ente público que recebe recursos do tesouro do Estado, que se submete a todo a sorte de sistemas de controle e fiscalização que são impostos a uma autarquia estadual.
    Dentro desta visão integrada é que a direção do Teatro está permanentemente empenhada em realizar sua missão, sem perder a noção de conjunto, espaço, tempo, racionalidade financeira, qualidade e variedade artística.

    Os resultados desse esforço, em especial na área musical, demonstram uma evolução indiscutível. Para isso basta comparar o período imediatamente anterior ao da atual gestão, anos 2000, 2001 e 2002, os quais representavam média anual de público de 35.700, para 33 apresentações, números esses que foram superados de forma significativa, pois, o público médio dos últimos 3 anos atinge a 75.000, para 45 apresentações anuais, ou seja um crescimento de 35% no número de apresentações, quase uma apresentação por semana ao longo do ano.
    Outro aspecto relevante refere-se ao orçamento do Centro Cultural Teatro Guaíra que cresceu significativamente; em 2002 correspondia a R$ 8.898.430,00 e em 2009 foi de R$ 19.352.600,00, ou seja cresceu 117%, tendo sido priorizado o investimento nas pessoas, assim a folha de pessoal que representava 53% do orçamento total, em 2009 passou a representar 78%.

    Muitas coisas precisam melhorar, “graças a Deus” assim o desafio continua, para esta e para as próximas equipes que deverão gerir esta autarquia. A evolução é assim, o dia de amanhã deverá ser melhor que o de hoje, mas isto será possível apenas se respeitarmos o que fizemos ontem e o que estamos fazendo hoje, o ensaio de segunda foi pior, mas fez o de terça começar de um ponto mais afinado, até que no dia da apresentação o espetáculo foi aplaudido pela grande “maioria” dos presentes na platéia! “E vamos ao Teatro!”

  14. Diogines Clement disse:

    Caro Mto. Neschling, sempre admirei seu trabalho desde que criou o projeto Sala SP e Osesp, ate sua Lastimavel saida em 2008.Estes dias fiquei sabendo que o atual diretor executivo da Fundacao Osesp quer desmembrar o Coro principal da Osesp e deixa-lo como grupo vulneravel na Secretaria de Cultura de SP, alegando que o mesmo podera seguir sua trajetoria com suas proprias pernas. Sera isso uma verdade? Ou ainda, Faria muita diferenca no orcamento da Fundacao mante-los normalmente?Qual sera o problema?Como o sr. disse casos como esses deveriam espelir um aviso * C U I D A D O * P E R I G O

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