Diário de um Barbeiro 3

O trabalho de nosso diretor Pier Francesco Maestrini é multifacetado: vai da colocação em cena dos cantores à criação de personagens caricatos e correspondentes a seus pares no desenho animado. Isso inclui a maneira de andar e se movimentar em cena, a postura física durante todo e espetáculo, a expressão facial prognata derivada do “pai” Rossini. Além disso, Maestrini cria as coreografias para os grandes “concertati” no final do primeiro e segundo ato, as entradas e saídas dos cantores que devem estar sincronizadas com as entradas e saídas dos protagonistas na tela, e outros detalhes que estão enlouquecendo o nossos elencos que trabalham de 9 a 12 horas por dia nos ensaios. Trabalho ao seu lado, junto aos cantores, atento à emissão vocal , à precisão rítmica e à afinação. Pensar em tudo isso ao mesmo tempo é tarefa hercúlea. Temos cantores experimentados, que não estão enfrentando o papel pela primeira vez, embora nunca dessa forma totalmente inusitada, e temos jovens talentosos a quem está sendo oferecida a primeira chance de participar de uma montagem desse nível. Nossa Berta, por exemplo, Luisa Kurtz, uma linda gaúcha, será sem dúvida uma das revelações da Companhia. O fato de ser linda, porém, não lhe adiantará nada, uma vez que todos os personagens estarão tão caracterizados e maquiados que a beleza será o que menos interessa nessa montagem. São todos filhos de Rossini, gordos, prognatas e desengonçados, verdes, rosados ou pretos.
Eu sabia que teríamos muitos problemas técnicos para resolver nas últimas semanas de ensaio, mas não imaginava quie fossem tantos e tão prementes – estamos em contato direto com nosso criador gráfico, Joshua Held, em Florença, na Itália, que, quase em tempo real, faz as modificações necessárias no nosso desenho animado, “frame” por “frame”, para que o sincronismo atuação/projeção seja perfeito. Com a entrada das luzes, desenhadas por Wagner Freire, teremos que ajustar o nível de luminosidade de nossos retro-projetores, e o cenário terá que se adaptar às dificuldades de locomoção dos persongens nos seus figurinos especialíssimos executados pelo atelier de Lorenzo Merlino.
Finalmente teremos que ensaiar a orquestra, cuja participação começa na semana que vem, e todos os maestros envolvidos necessitam conhecer em detalhes a minha interpretação da obra, porque as récitas têm muito poucas possibilidades de modificação no que se refere aos andamentos ou às cadências.
Enfim, uma aventura fascinante e com a qual estamos, mais uma vez, criando jurisprudência no Brasil.

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2 respostas para Diário de um Barbeiro 3

  1. Mary-Helen TE disse:

    Considerando-se que a orquestra precisa respirar com os cantores, pois eles não conseguem cantar ao compasso de um metrônomo, fico imaginando como deve ser difícil a montagem desse Barbeiro. Um trabalho hercúleo.

  2. Baby Field disse:

    Pipocas,maestro…vc é bacana demais!
    Cada coisa que vc faz que eu fico absolutamente pasmo.
    Parabens!!

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