Zé Carreira e os caipiras

Que José Carreras, sem dúvida umas das grandes vozes dos anos 70 e 80 do século passado e um artista de respeito na sua área queira aproveitar até o fim o sumo de sua laranja e embolsar todo o dinheiro possível até quando houver gente que pague para ouvi-lo, (até porque sua fundação para a luta contra a leucemia é uma instituição admirável), eu compreendo perfeitamente. Afinal não é a primeira vez que vejo cantores em fim de carreira, ou mesmo no período suplementar sendo recebidos como estrelas no nosso terreiro… Que haja profissionais que se associem a ele para vender um espetáculo de gosto e qualidade duvidosas, (espero que não haja Lei Rouanet envolvida nisso) como se fosse um evento vocal e musicalmente imperdível, faz parte do mercado perverso e insensível que domina o mundo das artes nos tempos que correm. O que realmente “me duele en el alma” é constatar que somos na verdade uma caipirada disposta a pagar entre 500 e 900 reais por um espetáculo patético, triste e de mau gosto como o que se produziu ontem em São Paulo. “Standing ovation” para um senhor alquebrado, cantando boleros num microfone, em dupla caipira com uma cantora decente ( preferiria ouvir a sua Traviata na “Oper unter den Linden” em Berlim, onde faz parte do elenco fixo), e acompanhado por uma orquestra mal ensaiada e amplificada numa sala sem acústica. Isso só faz desmerecer as constantes “standing ovations” com que o público brasileiro costuma brindar qualquer fim de concerto. Em vez de sinal de apreciação de um espetáculo especialíssimo, essas ovações só demostram nossa incapacidade de julgar com parcimônia os espetáculos aos quais assistimos e acentuam a nossa caipirice ao aceitar qualquer engôdo ou espetáculo de terceira classe como sendo uma revelação estética. Nóis engole tudo. E paga caro por isso.

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3 respostas para Zé Carreira e os caipiras

  1. Mary-Helen TE disse:

    É, o “nóis engole tudo” está generalizado. Agora já se começa a aplaudir antes do término do concerto. Aquele momento de silêncio que existia entre o final de uma peça e o início dos aplausos, já é passado. Aquele momento de introspecção, principalmente quando a obra termina em notas delicadas e profundamente tocantes, não se ouve mais pois o aplauso antecipado tudo atropela. A mais recente inovação foi a narração da história na qual o compositor se inspirou, com narrador entrando por entre os músicos “declamando” a história e sentando-se ao lado do maestro para, mais confortavelmente, continuar a “declamar”. Imagine só se tocarem a Sinfonia Alpina!! E… “nóis aplaude tudo”!

  2. Caro maestro, posso publicar esse seu artigo em meu blog?
    Abraços Ali

  3. Musicien inconnu disse:

    Bravo, maestro, bravo mais uma vez, bravo como sempre!!
    Além de reger, conceber e executar projetos de qualidade unânime, ainda age como crítico. Mas também só podia ser assim, visto que os supostos críticos, bocós e desinformados, apenas desejam escrever baboseiras para aquela revistinha deslumbrada, que julga-se o máximo por copiar páginas da Gramophone.
    Bravo maestro, bravo.
    Com certeza, e infelizmente, a sua é a ÚNICA voz não medíocre no mundo da música de concerto no Brasil.
    Bravo maestro.

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