OSESP sem magia

Ontem à noite, ainda sob o efeito da poderosa diferença de fuso horário entre Brasil e Malásia, resolvi zapear um pouco na TV e, a tardas horas, parei num concerto da OSESP transmitido pela TV Cultura. Não entendo porque os concertos da OSESP ou outros quaisquer têm de ser exibidos quando a grande maioria da população já está no sétimo sono. Afinal de contas trata-se da TV Cultura e não de uma emissora comercial que depende da audiência do Ratinho ou do Gugu. Esse pouco caso com a música clássica e com a confiança no seu poder de sedução é fatal para qualquer tentativa de levar ao grande público uma linguagem que, ao menos em teoria, deveria ser a principal de um canal que se define cultural.
Tratava-se de um concerto que aconteceu no mês de abril deste ano, sob a regência de Louis Langrée, um regente que ainda havia sido convidado por mim. Conheço Langrée há muitos anos e sempre tive grande admiração pelo seu trabalho. É um maestro moderno, claro e musical, e, quando o convidei, tive a certeza de que ele poderia contribuir para o amadurecimento da OSESP. A peça à qual assisti foi a sexta Sinfonia de Tchaikowsky, a “Patética”, que eu havia regido alguns anos antes com a OSESP e que gravamos para o ciclo completo das Sinfonias do mestre russo. Tinha na memória o empenho e o entusiasmo que a OSESP teve quando daquela execução, e da emoção que todos sentimos ao final daquele concerto, um dos mais belos que me ficaram na lembrança dos meus anos à frente da orquestra. Qual não foi minha estranheza ao ouvir uma orquestra burocrática e desinteressada que, embora mantenha uma acuidade técnica, musicalmente perdeu totalmente o “élan” e a personalidade. Músicos parecendo entediados, olhando para baixo, sem contato com o maestro que regeu com clareza e competência, mas que nem assim conseguiu que eles dessem sentido à obra prima de Tchaikowsky.
A esse tédio contribuiu fortemente uma transmissão pobre, tanto do ponto de vista visual quanto sonoro. Poucas imagens, que se repetiam constante e freneticamente, sem nenhum comprometimento com a partitura, servindo sobretudo para confundir ou distrair o espectador e sublinhar, com sua falta de sutileza, a inexpressividade dos músicos. A gravação chapada e sem profundidade também não ajudou em nada. Sua sonoridade achatada só serviu para acentuar o aparente desinteresse da orquestra em tocar uma das mais belas obras do repertório sinfônico.
Foi a primeira vez que ouvi a OSESP desde minha inesperada demissão em janeiro de 2009. Se tive um longo período de luto ao ter que me afastar de um grupo a quem me havia dedicado de corpo e alma durante 12 anos, essa experiência não fez nada para que eu sentisse saudades de uma época que já faz parte de um passado digerido e encerrado.

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3 respostas para OSESP sem magia

  1. Kelly disse:

    Maestro, benvindo de volta!

    Assisti à esse concerto ao vivo.
    Mozart me agradou muito, mas fui por Tchaikowsky. Embora alguns (não poucos) desdenhem seu trabalho e especialmente Patética, ela tem um peso essencial no conjunto, por ser a última obra do compositor. Dita pelo próprio autor, de conteúdo subjetivo, é carregada dos mais autênticos sentimentos.
    É necessária uma sensibilidade extraordinária para apresentar essa sinfonia à altura do que representa. Os momentos que antecedem o fim , a imensa dor, desesperança e desespero que tomam conta do ser humano à beira da morte, nossa única certeza, nossa maior estranha e inimiga implacável, contra a qual, nada podemos.

    Então, comparando a sua regência, eternizada em um CD impecável, que tão bem acentuou esses instantes com a mesma orquestra, devo concordar com a imensa lacuna deixada na tarde de sábado. Uma coisa é interpretar de modo diverso. Outra, é interpretar tão diversamente, a ponto de se perder na idéia proposta. Não há outra interpretação para mim, que se possa aceitar dessa obra específica, que não seja a evidência mais indubitável possível, do drama da dor da morte anunciada.

    É de uma intensidade tamanha, que o ouvinte pode sentir a atmosfera no ar e ser tocado com a sombra da morte demosntrada no som obtido .

    A alegria dos tempos da infância, eu pude perceber. A carga dramática e fundamental da morte, não. Assim, é difícil afirmar que gostei em parte, porque a parte do desfecho foi negligenciada , comprometendo o todo.

    A alma do grande compositor perdeu-se na ausência da “alma” da nova orquestra.

    Nas palavras de Cecília Meireles, “em que espelho se perdeu a “sua” face”?

    Sucesso na Cia!

  2. Assisti a Patética com a OSESP anos atrás com o maestro Neschling e vi essa Patética pela tv. Só tenho que concordar com o Maestro, faltou emoção, pegada na orquestração.

  3. Priscila Machado disse:

    Olá, maestro,
    lembro de quando (em 2001) tinha 15 anos e havia começado a estudar música (há menos de um ano). Sonhava dia e noite em prestar música e para a vaga de regência, pois minha maior admiração era ver o regente com sua regência clara e precisa, seu olhar de confiança e um sorriso de satisfação, por ver sua orquestra ou coral em harmonia e isso se refletia na plateia. Lembro de ver, algum tempo depois, uma matéria dizendo que você, juntamente com a Osesp partiam para uma turnê internacional e eu pensei: “É meu sonho ver John Neschling regendo a Osesp” e mesmo morando em São José dos Campos (apenas 1h de São Paulo) eu nunca consegui isso.
    A vida dá muitas voltas e em 2004 eu vim para Araraquara fazer Letras, na Unesp. Continuei com minhas aulas de piano e participando do Coral da Faculdade, mas sempre correndo com meus livros de teoria literária e linguística. Os caminhos mudaram, mas os sonhos não. Em 2006, vocês fizeram uma apresentação única aqui em Arararaquara. Quando eu vi, não pude acreditar. Passei anos sonhando com esse momento e ele veio parar nas minhas mãos. Fui uma das primeiras a comprar o ingresso e, mesmo que prejudicasse um pouco a qualidade sonora, quis me sentar na frente, na terceira fileira, queria ver de perto o regente e os músicos que eu admirava. E a realização do meu sonho pareceu um sonho. Ver a satisfação e a felicidade de vocês me emocionou muito, o sorriso era constante em meus lábios e nos de vocês também. Saí com a sensação de realização, de paz, de felicidade alcançada. Esse sentimento que vocês me proporcionaram. Este ano a OSESP tocou em uma praça aqui no centro. A qualidade sonora era muito boa, mas não vê-lo, não sentir a vibração dos músicos, da música… me deixou triste. Voltei, como se voltasse de um dia cansativo de estudos e trabalho… não era mais a OSESP de meus sonhos, apenas virei para meus amigos e disse: “Ainda bem que eu consegui ver a OSESP que me encantava antes de ver essa”.
    Espero que um dia este encantamento volte a brilhar para eles. Acredito muito no poder que a música clássica tem, mesmo para os que não totalmente adeptos. Quando ela é feita com dedicação e carinho arrebanha multidões para suas apresentações.
    Dia 20 de Novembro estarei em Ribeirão para vê-lo reger seu novo projeto e tenho certeza de que a pequena viagem (a mesma 1h que me separava da OSESP quando era adolescente) valerá a pena. Força maestro!!! Mesmo que os caminhos mudem, sempre realizaremos nossos sonhos. Abraços.

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