Teatro Colón

Li no La Nacion que reinaugura-se hoje o Teatro Colón , depois de 3 anos de trabalhos de recuperação e renovação. No ano passado, quando fui reger a inauguração da temporada lírica de Buenos Aires, as récitas foram feitas no Teatro Coliseo, o mesmo lugar onde a OSESP tocou na última tournée que fizemos pela América Latina. O lugar era completamente inadequado, os ensaios eram realizados em condições indescritíveis, mas a temporada existia. Não se imaginava a capital argentina sem uma tempoada lírica, mesmo que muito prejudicada. As dúvidas sobre a reinauguração do Colón pairavam no ar, e eu me lembrava das eternas obras do Teatro Massimo de Palermo, que fechou por seis meses e abriu 27 anos depois. Ou, mais modestamente, das obras intermináveis do Teatro Municipal de São Paulo, de que ninguém tem notícias mais detalhadas. Só eu sei de umas 2 ou tres obras de reestruturação do teatro paulista ( eu mesmo regi uma das reaberturas com o Requiem (!!) de Verdi na gestão Erundina)… Parece que nenhuma dessas reestruturações foram definitivas, porque de tempos em tempos o Teatro Municipal precisa ser fechado para obras urgentes. O que na verdade só esconde a falta de um projeto sério de reestruturação física e sobretudo artística de seus corpos estáveis e para a sua estrutura administrativa. As últimas notícias que têm vazado sobre a Fundação que está sendo planejada para o Teatro são desesperadoras. Temo, a crer no que se fala de uma “comissão artística” para a sua programação , que o futuro do teatro lírico de São Paulo fique definitivamente comprometido. Espero que o espírito de “democratismo” que tem se infiltrado nas instituições paulistas não prejudique de vez nossa vida cultural- li na estrutura do Teatro São Pedro que a palavra “regente” ou “maestro” foi substituída por “coordenador de orquestra”. Pode haver coisa mais sem sentido ¿

Mas voltando ao Teatro Colón, tenho inveja de um país que, com grandes dificuldades econômicas e políticas, assume a importância fundamental de seu cartão de visitas cultural e investe fundo na sua reestruturação necessária. Nesse ano ainda, além da Bohème que reinaugura o Teatro, os portenhos poderão assistir à Aida com Baremboim e o Teatro alla Scala ( será que o Brasil também terá essa oportunidade¿), a um Don Giovanni, (que terei a honra de reger), um Falstaff, a um “double-bill” de óperas em um ato de Zemlinsky e de Korngold, entre outras produções. E a um sem número de concertos sinfônicos, recitais, ballets. Enfim, se quiserem detalhes, entrem no site do Colón e deliciem-se com uma temporada de fazer a gente babar de inveja. Mas mesmo assim, e para não esqucermos que estamos no terceiro mundo da política, assitimos a uma guerrinha privada entre o político portenho responsável pelas obras e pela reabertura do teatro e a Presidenta da República Argentina, que, pelo menos até hoje, recusava-se a participar da festa de inauguração. Pobre Presidenta. Daqui a muitos anos ela certamente será lembrada por essa insensibilidade cultural e o Teatro não perderá nada. Parece que somos terras férteis em Presidentas, Governadores e Secretários de Cultura que não assistem às suas orquestras por pinimbas particulares.

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2 respostas para Teatro Colón

  1. Muito interessante seu “post”, especialmente por dois diferentes motivos com os quais guardo concordância:

    1. esse “democratismo” de que você fala é realmente perturbador. Acho absolutamente pertinentes suas inserções em relação ao processo pelo qual vem passando nosso Teatro Municipal em São Paulo. Não é possível, sob a justificativa de democratizar e distribuir poderes, criarem-se tantos novos organismos e funções para “não especialistas” que nada entendem;

    2. sou “argentinófilo”, a despeito disso ser quase crime aqui no Brasil rs. Claro que sei reconhecer que trata-se de um país de terceiro mundo em franca decadência econômica e potencial decadência cultural, por conta da primeira, todavia, do pouco que conheço de minhas idas à capital Buenos Aires, parece-me claro que eles tem um comprometimento muito maior com a cultura e um interesse nato e genuíno por esta em suas diversas formas.

    Por fim, gostaria de dizer que sou grande fã seu. Certa vez obtive um autógrafo seu num concerto na Sala São Paulo. Estava tremendo, porque você é para mim uma referência de fato. Sou apenas um diletante, mas sua contribuição para que eu desenvolvesse gosto pela música erudita foi crucial. Em um de meus “posts” em meu blog ( endereço acima ) presto uma singela e simplória homenagem a você. Dedico ainda o espaço à música, cinema e algumas generalidades.
    Boa sorte nessa sua nova e promissora empreitada.
    Obrigado.
    Fernando.

  2. renata disse:

    Maestro,
    O COLON é uma referência maior que Argentina, é referência Latino-americana, pelo valor e respeito que os argentinos devotam a ele, que sirva de exemplo para nós.
    Quanto às crises permanentes, infelizmente não são sequer “privilégio” da música lírica, basta ver a situação do MASP.

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