Malásia

A Malásia tem uma orquestra. Uma boa orquestra. Estou por aqui por duas semanas, dois concertos, repetidos. No primeiro participo das comemorações do ano Schumann com um program todo dedicado a ele: Ouvertuere, Scherzo e Finale; Concerto para piano e orquestra e a Sinfonia nº 1 na segunda parte.

A sala de concertos de Kuala Lumpur fica dentro de um shopping center na Petronas Towers, uma obra interessantísima do arquiteto argentino Cesar Pelli, com um belo parque à sua frente, este desenhado por Burle-Marx. As duas torres de 88 andares cada foram durante muito tempo os edifícios mais altos do mundo até que um maluco em Taipei, em 2004, resolveu construir um mais alto ainda. O shopping fica na base das duas torres e a sala de concertos tem uns elevadores privativos, o que não impede que o público dos concertos se misture com os consumidores de Armani, Starbucks e supermercados que ficam abertos diariamente até as 22 horas. Enfim, um pouco como o teatro Bradesco no Bourbon Shoping Center em São Paulo. Como aquele, a sala é super bem equipada e parece bem maior do que na realidade é: comporta pouco mais de 850 pessoas, pouco mais da metade da Sala São Paulo. Mas não posso deixar de me sentir esquisito quando tenho que cheirar a profusão de oleos e temperos orientais dos restaurantes da praça de alimentação para chegar à entrada do teatro. Imagino porém que essa será uma realidade com a qual teremos que conviver no futuro em diversas cidades do mundo. Os shopping centers modernos já tem teatros magníficos e cinemas luxuosos, porque não ter também belas salas de concerto ou de ópera¿

A Orquestra Filarmônica da Malásia tem músicos de 27 diferentes nacionalidades- uma babel que prova mais uma vez que a música é realmente a única linguagem universal, na qual todos se entendem e se comunicam (bem ou mal), sem distinção de cor, cultura ou região. Só 6 dos músicos são da Malásia.

É óbvio que uma orquestra com essa composição tem dificuldades de encontrar um estilo próprio e definido. Por outro lado a maleabilidade é enorme e um trabalho longo e concentrado como o que foi feito nos primeiros anos da oquestra por seu diretor musical acabou por criar por aqui um dos segredos sinfônicos mais interessantes no mundo. A orquestra já girou toda a Asia e Oceania, e está pronta, penso, para se apresentar na Europa e nos Estados Unidos.

Petronas, a Petrobrás malasiana é o grande patrocinador da orquestra, o que lhe dá uma segurança e também lhe impõe grandes limites: por ser uma empresa estatal de um país cuja religião oficial é o islamismo, não se pode executar na sala de concertos da orquestra nenhuma obra de cunho religioso que não seja o oficial. Portanto ficam eliminados do programa todos as Missas, Requiems, Cantatas de Bach ( embora eu tenha visto muitas árias separadas no programa), Motetos etc… Como a orquestra não tem coro, (talvez por isso mesmo) sente-se menos a falta desse repertório, mas a lacuna é gritante. E acontecem fatos curiosos: dentro de umas semanas a orquestra executará a “Danação de Fausto” de Berlioz. Para tanto teve que importar o Coro Sinfônico de Birmingham na Inglaterra, com cem pessoas, o que lhe custará um esforço econômico tão grande quanto se mantivesse um coro aqui durante todo o ano. E os sobretítulos terão que ser adaptados às restrições religiosas locais. Quando se canta, no final da obra o “Christ est ressucité”, os títulos dirão genericamente “ele voltou” e assim por diante. Enfim, é o jeitinho local. Afinal, por aqui Deus deve ser malasiano.

Tem mais…

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