e agora, OSB ?

Parece que o impasse em que se encontravam os músicos e a direção artística e administrativa da Orquestra Sinfônica Brasileira chegou ao seu ápice: mais de quarenta músicos do grupo estão sendo demitidos, alegada a justa causa pela administração, por não terem se apresentado às audições de avaliação programadas por seu diretor artístico. Não há dúvida de que a forma com que a direção da orquestra lidou com todo o processo foi truculenta, arbitrária e socialmente injusta. Não há como camuflar a má fé embutida em audições anunciadas durante as férias dos músicos. Não há como esconder a intenção de demitir, quando se adverte que o não comparecimento às provas será encarado como indisciplina grave, e as audições e os métodos de  avaliação não foram objeto de discussão com os músicos e sua comissão. Não há como justificar humanamente a demissão sumária de músicos que fazem parte da orquestra há 20 ou 30 anos e que evidentemente não estão no auge de suas formas. Enfim, o processo revestiu-se de injustiça, prepotência e falta de habilidade desde o seu início até o seu desfecho lamentável. Já escrevi, em vários posts desse blog, a minha opinião sobre a forma com que se encaminhou todo esse imbroglio. Também já refutei energicamente, embora se insista em fazê-lo, a exemplo do que afirmou Roberto Minczuk no jornal “O Globo”,  a comparação entre o processo de reavaliação pelo qual passou a OSESP, quando de minha chegada para reestruturá-la e as audições organizadas pela OSB.  Não posso aceitar que se use o processo pelo qual passou a OSESP em 1997 como desculpa ou justificativa para o trauma e o desarme que se se está fazendo agora na OSB.

Porque é disso que estamos falando: de um desarme, da destruição consciente e voluntária de uma orquestra que existe há 70 anos, que sobreviveu a tempos de vacas magras e que brilhou em tempos de glória, mas que jamais foi apunhalada da forma como a estão apunhalando. A OSB como a conhecemos todos os cariocas e brasileiros há décadas, acabou, foi desmantelada, não existe mais. Nunca imaginei que o “bon mot” que cunhei em outro post ao dizer que em vez de trocar de regente a administração resolveu trocar de orquestra pudesse corresponder exatamente à realidade. Seria cômico se não fosse trágico, pois quem perpetra tal desgoverno é justamente o filho de um dos músicos que criou a aura dessa orquestra. A imprensa, no afã de tentar entender ou explicar o ineditismo da situação, procura paralelos seja em orquestras brasileiras (todas elas vítimas de nossa extrema precariedade ou grupos criados a partir do zero nos últimos anos), seja em grandes orquestras mundiais. Essas, devido às suas estruturas centenárias e às suas qualidades intrínsecas indiscutíveis não servem para comparação com qualquer orquestra brasileira, da OSESP  à Lira São Joanense. No Brasil, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais está engatinhando, a OSESP acabou de entrar na sua adolescência. As Filarmônicas de Berlim, Nova Iorque e Israel certamente não necessitam de qualquer exame de reavaliação, que, estrutrado de forma diferente e organizado de forma mais respeitosa, poderia, sim, ajudar a OSB a dar um salto de qualidade ao qual, em sã consciência, nenhum músico se oporia.

A Orquestra Sinfônica Brasileira é uma instituição privada, cujos empregados são regidos pelo regime da CLT. Esse regime prevê a possibilidade de demissão, seja por justa causa, seja indenizando-se os demitidos com o pagamento de todos os direitos previstos na lei. O programa de demissão voluntária, embora me pareça perverso no âmbito humano da OSB, é uma alternativa prevista em lei e se não foi levado em consideração pelos músicos da orquestra, é porque toda a situação lhes parecia injusta e mal encaminhada. Aos músicos demitidos cabe a partir de agora a briga na justiça,  que decidirá se as demissões são justas ou não e a administração da orquestra terá que respeitar a sentença que o juiz proferir. As consequências poderão ou não pesar muito no orçamento da orquestra.

O que não está no âmbito das decisões judiciais é o prejuízo dificilmente mensurável que tal crise trará para o futuro da orquestra. Um dos principais patrocinadores da OSB é o BNDES. A letra S no nome do banco significa a preocupação social  da empresa. Terá o banco interesse em continuar a patrocinar uma orquestra que vilipendia de tal forma seus empregados? Que demite de forma tão violenta metade de seu corpo artístico? Qual a empresa, privada ou estatal, que deseja unir seu nome a uma instituição que passa uma imagem de truculência, violência e maus tratos? Será que esse comportamento discutível, para sermos modestos, foi debatido com antecedência com a Prefeitura, um dos grandes mantenedores da orquestra? Essas questões cruciais para a sobrevivência da instituição terão de ter passado pela cabeça de seus administradores, todos versados em economia e nas regras do mercado, sob o risco de serem julgados como irresponsáveis e incompetentes. Uma orquestra não é um banco de investimentos, não é uma fábrica nem uma empresa comercial. Certamente não será necessário que se explique aqui outra vez as peculiaridades e as sensibilidades especiais de uma orquestra sinfônica. O risco que se incorreu ao deixar que essa situação de extrema tensão transbordasse e viesse a público com a violência com que veio, com sua exposição internacional gravíssima e inédita, coloca todos os responsáveis pela instituição, aí incluido o seu diretor musical, na berlinda e os obriga a explicações  claras e transparentes. A culpa que lhes pesará nos ombros, caso sobrevenha a destruição de um dos ícones de nossa cultura não é coisa fácil de expiar.

Cabe, no entanto, uma reflexão sobre o futuro da orquestra, caso se consiga, mal ou bem, ultrapassar o trauma gravíssimo que se inflingiu ao seu corpo musical. Do ponto de vista meramente artístico é de se duvidar da possibilidade do maestro continuar a liderar, por ora, um grupo composto de músicos em sua maioria amedrontados, humilhados, indignados e na defensiva. Que muito provavelmente, com ou sem razão, se sentirão culpados pela situação precária na qual se encontrarão seus colegas demitidos e que serão condenados, por parte destes, a um isolamento destrutivo para sua auto estima. Um maestro que se verá na contingência de apresentar resultados qualitativos a curto prazo a um público desconfiado. Um maestro que terá de lutar pela sua reabilitação no conceito de toda uma classe profissional,  que se opôs frontalmente à sua atitude, não só no Brasil como no exterior. Inúmeros músicos, sindicatos e orquestras do exterior se manifestaram, de forma clara e incisiva, contra o processo instaurado na orquestra carioca. Sua carreira está em risco. Seu nome está em jogo. Não será fácil trabalhar nessas circunstâncias. Terá à sua frente uma orquestra em pedaços e incompleta. Será necessário completar, e com urgência, os quadros do conjunto. Quais os músicos brasileiros de qualidade que se apresentarão aos concursos de admissão após os acontecimentos do passado recente? Qual a garantia que receberão de respeito e segurança no trabalho? Onde encontrar os músicos estrangeiros com a qualidade necessária para preencher as dezenas de vagas abertas pelas demissões? Não se admite que se tragam ao Brasil músicos de qualidade mediana após o escândalo do afastamento de tantos músicos competentes. Estes são  alguns dos problemas que terão de ser enfrentados, e com urgência, pelo diretor artístico da OSB.

Há, no entanto, e não menos grave, o problema econômico a ser enfrentado pela Fundação OSB. Foi dito reiteradas vezes tanto pelo presidente do Conselho quanto pelo diretor artístico que os salários a serem oferecidos àqueles que passarem pelas audições, e naturalmente aos novos músicos da orquestra, serão comparáveis ou mesmo superiores àqueles que são pagos atualmente pela OSESP.  Não estou mais informado extamente dos salários da orquestra paulista mas imagino que estes, devidamente reajustados, devem estar beirando os 10.000 reais para um músico de fila. Um contrato de 10.000 reais pela CLT custa ao empregador por volta de 17.000 reais por mês. Mas não esqueçamos que os “spallas” (e são dois) da orquestra ganham por volta de 18.000 (o que para o empregador não sai por menos de 30.000 mensais) e que os solistas dos diversos naipes recebem por volta de 12 a 13.000 reais mensais (não menos de 20.000 reais mensais para o empregador). Qual a garantia que a OSB tem de que terá à disposição um orçamento anual que cubra esses enormes custos de pessoal? Nunca houve transparência nas informações do “status” financeiro da Fundação. Nunca foi publicado um relatório de atividades econômicas da OSB. Nunca se soube ao certo quanto dinheiro foi arrecadado pelo seu departamento de marketing, nem como esse dinheiro foi utilizado ou em que foi aplicado. Todas as informações que circularam e circulam até hoje sobre o orçamento, a verba arrecadada e a administração financeira da Fundação são obscuras e aproximadas. Quem garante que a OSB terá os meios suficientes para a sobrevivência a longo ou ao menos a médio prazo das suas atividades?  De onde virão esses recursos? Como se arriscar a trazer 40 músicos novos nessa realidade nebulosa? É urgentemente necessário que o Conselho da Fundação venha a público com essas informações de forma clara e transparente para que o processo traumático a que obrigam a orquestra a passar tenha um mínimo de credibilidade. Como será a estrutura administrativa da orquestra num futuro como o que está sendo anunciado? Continuaremos a ter uma OSB com sua estrutura administrativa antiquada e desconhecida do público? Será que essa grande renovação que se proclama ficará restrita aos músicos? Isso faria com que as  injustiças cometidas contra os profissionais da orquestra fossem ainda mais graves.

Enfim, perguntas e mais perguntas, dúvidas em cima de dúvidas. Há, finalmente, uma outra perspectiva de análise para essa questão: e se tudo for  pelo melhor? Nossa realidade econômica, como já comentei diversas vezes, é favorável a investimentos a longo prazo. Não houve, há décadas, momento mais propício do que esse para a criação de outra OSESP, dessa vez no Rio de Janeiro. E se a OSB se transformasse, num passe de mágica administrativa e artística, numa segunda grande orquestra internacional no Brasil?  Isso  viria confirmar o momento de euforia que vivemos no País e nos colocaria de vez no mapa dos países sinfônicamente importantes. No quadro atual, é difícil ter esperança. Se essa hipótese se confirmar, viveremos o luto do processo traumático, continuaremos a pugnar pelo respeito e pela dignidade de nossos músicos, mas algum resultado positivo terá advindo desse tsunami que assolou nossa orquestra.

Caso contrário, o crime terá sido capital, e não terá perdão.

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36 respostas para e agora, OSB ?

  1. Luis Carlos Justi disse:

    Nao creio que haja possibilidade de qualquer acréscimo ao escrito por Neschling, e menos ainda de discordancia com relacao ao conteudo, dada a clareza e lucidez com que ele descreve a atual situacao. Está tudo ali para quem quer ler e, sobretudo, para quem quer entender – da desumanidade em relacao aos musicos à falta de visibilidade nas prestacoes de contas. A Fundacao é, sim, privada, mas o dinheiro público que sempre desembocou nesse saco “senza culo” merece e exige que se saiba o que e feito com ele. Só nao se sabe se o mais triste é ter como algoz um maestro que projeta em seus musicos suas proprias frustracoes ou o filho de um maestro que, este sim, elevou o nome da OSB.

  2. Michel Bessler disse:

    Concordo com sua colocação lúcida . Quero ressaltar que apesar de ter 62 anos nunca estive em tão boa forma,pois tornou-se um “vício “para mim praticar no mínimo três horas por dia além do horário de ensaio, tendo um vasto repertório solista absolutamente em dia .Um abraço do Michel

  3. GildeSpiegel disse:

    Maestro, não sou digno de entrar em sua casa… Mas se um dia quiser as desculpas de seu ex-critico mais ferrenho, meu email particular deveria estar disponível. Nesses ultimos dias se fizeram entender MUITAS coisas! E desejo muita, muita regencia e que um dia chegue a “bater o compasso” igual que o Erich Leinsdorf (melhor não, poucos vão entender…). Bom, como diriam meus filhos: [/Like] (y)

  4. Angelo Heleodoro disse:

    DE LÍDERES, EQUIPES, REGENTES E ORQUESTRAS

    A PRÁTICA DA ARTE VERDADEIRA É UM PRAZER QUE NÃO SE PODE OBTER PELA FORÇA. “Se um regente conhece a psicologia complicada do músico de orquestra e sabe demonstrar-lhe sua confiança, terá ganho muitíssimo. Se não se preocupa com esse importante aspecto de seu trabalho, dificilmente conseguirá o resultado pretendido”. De fato, é dificílimo penetrar a mentalidade específica, amiúde suscetível, do músico de orquestra. Parece-nos incrível que o Maestro Minczuck, que já foi músico de bancada, tenha negligenciado essa verdade. Por isso, na Orquestra Sinfônica Brasileira e, devido à repercussão do caso, em muitas outras pelo mundo, o Maestro Minczuk NÃO INSPIRARÁ MAIS NENHUMA CONFIANÇA. Como poderá então, a partir de agora, realizar o anseio maior de qualquer líder (regente) que é o de obter o melhor desempenho da equipe (orquestra) que dirige? Quem tenta fazer Arte à força só o que consegue é tornar evidente sua situação de inferioridade.
    E O INFELIZ E CATASTRÓFICO MAU RESULTADO ESTÁ AÍ!!!

    Angelo Heleodoro
    Ex diretor artístico e regente da Orquestra Sinfônica Mineira – OSM.
    Não se trata da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, uma orquestra profissional. A OSM congregava músicos amadores e profissionais, tocando por amor à Arte e que, através de concertos públicos, praticava a filantropia. Seus músicos nada recebiam por sua participação, exceto o prazer de praticar sua Arte num ambiente de Cooperação, Amizade e Confiança.

  5. Julio Guerra Duarte disse:

    É de lamentar que as avaliações tenham se dirigido aos que de fato têm sustentado a OSB nos ultimos anos : seus músicos.
    Quem deveria ser colocada a prova é essa administração incapaz de publicar um balanço contábil verossimil. A falta de gestao interna torna-se mais grave por se tratar de dinheiro público. O Conselho comporta-se como se fossem socios de um “Country Club”. Mas e quando o buraco em que afundaram a Orquestra vir a tona, serão capazes de assumir suas responsabilidades?

  6. Eliézer Rodrigues disse:

    Bravíssimo Maestro…

  7. Amanda de Andrade disse:

    Fantástico o texto! Meus parabéns! Espero termos algumas dessas respostas nas próximas semanas. Forte abraço,
    Amanda

  8. josely disse:

    até que enfim alguém com credibilidade toca nos pontos cruciais dessa crise em que o caos administrativo está sendo pago com o sangue daqueles que fazem existir a orquestra, ou seja os músicos.

  9. vanjaharpa disse:

    Maestro, sempre o admirei pela pessoa que é e tenho acompanhado suas postagens sempre muito bem colocadas. Como disse o ilustre oboísta Luis Carlos Justi, não há absolutamente nada a acrescentar em suas colocações descritas neste artigo. Obrigada por compartilhar conosco seu pensamento.

  10. Paulo Sergio disse:

    Meu vizinho de parede Alceu Reis que tambem foi um dos “spallas” de violoncelo da Osesp, se nao me engano e que tambem esta na lista de demissao da FOSB, ia jogar fora este computador que eu estou utilizando pra escrever esta carta e eu peguei pra mim antes que ele o fizesse. Meu macintosh pegou fogo e eu so tenho isso pra escrever portanto me perdoem a ausencia de acentos ortograficos. Nao tenho Ipod nem Ipad nem IFOSB.
    Com essa sua carta eu me retiro do caso pois andei dando umas voltas pelo blog do Nassif falando umas besteiras tambem. Perfeita a tua carta! Faz anos que eu nao leio algo tao lucido e consciente! Ja que tao querendo copiar a OSESP, ninguem melhor do que o criador dela pra ensinar como. Agora posso voltar a estudar o meu instrumento pois ha dias nao consigo pensar em outra coisa, e … eu tenho uns testes de avaliacao para fazer na proxima semana… (meus testes sao minhas apresentacoes… gravacoes etc)
    Consegui brigar com minha mulher, ex-mulher, cachorro, tucano, sindico e ate com Deus a quem eu venero. Minha mae escapou porque estaa com a idade avancada. Volto a dizer: gente, isso nao ee brincadeira! Eu nao estou brincando. Apenas estou utilizando algumas “substituicoes harmonicas e rearmonizacoes” (pra quem ee do ramo). Ee assunto de profissionais e, eu soo me meti nisso porque o nivel era inacreditavelmente baixo. Os argumentos eram sofriveis e inconsistentes. Como eu sou clarinetista e nao “double(e)” de pensador, eu caio fora porque agora o” buraco ficou mais embaixo “e elejo o Neschling, um dos poucos maestros que se posicionaram a respeito dessa loucura (claro, se ele aceitar) , como um autentico porta-voz do meu pensamento e, acredito que da maioria dos musicos que pensam (que sao muitos!)

    Com essa carta, Neschling, se voce me convidasse pra tocar em uma nova Orquestra no Acre (tao longe!) ou na Lapa (tao perto!) eu estaria inclinado a aceitar. Se fosse opera eu aceitaria tambem, mesmo que o cenario fosse num Ipad. Voce nunca me convidou pra tocar na Osesp mas eu sei que voce tinha excelentes clarinetistas la: Ovanir, Burgani dentre outros… Esta completamente perdoado! E nao sei direito o que aconteceu com a Osesp afinal, parece que tem um “Everest” entre o Rio de Janeiro e Sao Paulo. Eu sabia que era inteligente mas… me surpreendi ainda mais! Onde voce apreendeu a raciocinar assim? Em Harvard ou na Sorbonne?
    O preco que se pode ter que pagar por uma pretensao e irresponsabilidades destas ee extremamente alto. Haja BNDES! Mas como a intencao era ma, como ficou provado, no meu ponto de vista, eles que se danem! E que os patrocinadores tenham mais criterio em o que e em quem investir. Fica aqui a sugestao da criacao da Ex-Musicians of the Old Brasilian Symphonie Orchester. Se precisar de um clarinetista que toque Mozart, Brahms, Mahler, Strawinsky, Pierre Boulez, Luciano Berio, Pixinguinha, Camargo Guarnieri, Villa-Lobos and “others excellent brasilian composers” , conte comigo!

    Bravissimo!

    Paulo Sergio Santos (clarinetista do Quinteto Villa-Lobos e “Brasilien Music Player” nascido em Piedade, criado em Quintino Bocaiuva and without a Julliard School of Music curriculum”)

  11. Marcelo Oliveira disse:

    Caramba!! Só poderia dizer que essas declarações estão sendo maravilhosamente vistas por mim ao desvendar uma curiosidade enorme que sempre tive, sempre achei estranho não haver no Brasil o olhar “brodwesco” para nossas instituições, um espetáculo vivo em permanente mutação em seu corpo, que é o ambiente sinfônico brasileiro. Como o Justi foi justo em dizer que não há o que declarar a mais que Neschling escreveu. Enfim, reforço que entendo que os corpos das orquestras são os músicos, e se metade é substituida de hora pra outra com certeza nasce outra orquestra. Me lembro de notar muitos músicos participarem de mais que uma orquestra no meu tempo de juventude ainda morando no Rio. Mas notava o som diferente em cada orquestra, mesmo vendo metade de uma na outra, e vice versa…
    Pensei: Será que tanta movimentação de pessoas pode ser mais justa que a movimentação de poucas, insatisfeitas com metade do que já atuava como OSB? Se o grupo existe, é pelo conjunto dos músicos, é claro que com a colaboração quase paternal/maternal do maestro, mas são as pessoas, que se interagem, ensaiam, se conhecem, se percebem, se afinam, rindo, debatendo, tomando café, vivendo juntos, mesmo com a nossa realidade forrada de cachets (músicos extras) para completar determinadas orquestrações. Acredito que toda mudança proposta deve ser debatida, até mesmo para avaliar as partes interessadas, envolvidas. Se o problema é esse, por que não voltar atrás e conversarem para atender a todas as expectativas com o futuro da OSB??
    Só poderei terminar aqui dizendo que sonhei em tocar na OSB quando iniciando minha vida na música sinfônica, quando assistia os ensaios com meu bonezinho que muitos perceberam e brincavam com os meus professores, mas com esse clima de trabalho me recusaria. Com certeza não teria o prazer de ouvir um concerto sabendo que o maestro agiu assim com meus amigos. Pena. Vou assistir aos mesmos músicos mas em outras situações, sem esse stress…
    Música não combina com nada disso. Pessoas devem se afinar como quando com os instrumentos…
    Abraços!
    Marcelo Oliveira – clarinetista em Curitiba

  12. Julio Guerra Duarte disse:

    Maestro, sua eloquencia me fez lembrar dos bons tempos em que tive a honra de trabalhar na Fundação OSESP. Vez por outra, em conversas informais alguém reclamava de seu salário, considerando-o uma exorbitância. Não poucas vezes defendi-o comparando com os técnicos de futebol. E bastava enumerar as atividades da OSESP para que a conversa tomasse bom rumo. Sabe por qual motivo não pude fazer o mesmo quando trabalhei na OSB ? Porque nem a administração assume o salário do Maestro. Escondem! Falam de modernização mas escondem os balanços, atas, conselhos. Só fazem questao de mostrar aquele vídeo hiper cafona da Cidade da Música.

  13. Hélio disse:

    Trabalhei muito pouco com o Maestro Eleazar já em seus últimos anos,minha 1a lembrança dele é a de sua absoluta autoridade sobre o corpo orquestral,do respeito e excelência que de seus músicos exigia(e conseguia),ríspido muitas vezes ou até mesmo grosseiro,seguindo a velha escola de regentes lendários.Contudo,se o que vi não terá sido pouco para afirmar,jamais teria sequer aprovado tal inescrupulosa e covarde chacina contra uma orquestra inteira e menos ainda o inegável assédio moral contra músicos consagrados e jovens estudantes,estes,chamados a uma responsabilidade que bem pode lhes custar um preço alto sob tantos aspectos.Que um projeto de poder custe a tanta gente e suas famílias os maus tratos e sofrimento que nem mesmo um cão mereceria(e não é isto uma cena de Sófocles,é real,está de fato acontecendo e sob nossos narizes e cujo mau cheiro em toda a parte do mundo já se faz sentir),é de causar vergonha e o mais veemente repúdio e revolta.Ganância,volúpia de poder,a mais completa ausência de valores humanitários,indescritível corrupção moral e artística é o que se pode ler desta que ficará como a mais vergonhosa página da história da música de concerto no Brasil.Minha vontade é parar de ensinar Música para não sentir culpa num futuro que nos é cada vez mais desconhecido e obscuro.

  14. Nayran Pessanha disse:

    O maestro Neschling analisou de forma sintética a crise por que passa a OSB e a sua administração , a FOSB , com muita propriedade. Estamos diante de absurdos administrativos e artísticos que sem vem arrastando faz tempo e não foi por falta de sinalização por parte dos músicos. Na verdade, na OSB o músico nunca é ouvido a não ser pela força da insistência e mesmo assim ouvido com desdém. O fato que todos já sabem é esse que está ai, de conhecimento nacional e internacional, fruto da incompetência, arrogância e do egocentrismo respaudado por burocratas sedentos e não menos incapazes. Orquestra não é fábrica, onde você troca uma máquina por outra, mas formada de individuos , cada um com sua história , carreira, e que não se faz de uma hora para outra. O esfacelamento da OSB tem que ser reparado e os culpados punidos. As organizações internacionais que apoiaram os músicos estão esperando uma resposta, a nossa classe musical atingida duramente, também. Essa crise não acaba com as demissões, não é o fim da linha. Posso garantir que os demitidos estão dormindo tristes mas estão com a cabeça erguida pois fizeram e farão tudo para defender a Orquestra Sinfônica Brasileira, patrimônio desse país.

  15. Lúcia Barrenechea disse:

    Acho que não podemos deixar de mencionar também as manobras escusas que estão sendo feitas para poder usar e abusar da OSBJovem como tapa-buraco da temporada oficial da OSB. Os alunos também estão sendo achacados para providenciar, a toque de caixa (o proximo concerto é no dia 9 de abril), documentação para serem transformados em estágiarios da OSB (eles são alunos bolsistas) e assim poderem se apresentar em concertos com ingressos vendidos. Assinantes da OSB, é isso mesmo que vcs querem? Pois é isso que o Sr. RM tem a oferecer.

    Lúcia Barrenechea
    Pianista e Professora de Piano – IVL/UNIRIO

  16. Maria José disse:

    Extremamente digno e justo,o seu pronunciamento,Maestro!!
    Perfeito!

  17. Prezado Neschling, seu texto transborda em argúcia e bom senso – qualidades que infelizmente tem faltado aos tomadores de decisão da OSB – e deveria ser de leitura obrigatória aos integrantes do conselho curador, especialmente de Eleazar de Carvalho Filho e David Zylberstein.
    Em conversa que tive com Eleazar e David há mais de cinco anos, pouco antes dessa aventura ter início, frizei a eles que, ainda mais importante que o nome de um novo diretor artístico, seria o cuidado de estabelecerem-se com clareza as atribuições do cargo, tais como com deveres, direitos, limites etc. Minha recomendação foi simplesmente desprezada.
    A falta de transparência tão bem colocada em seu texto nos faz questionar as contradições observadas nitidamente entre o contrato do atual diretor artístico e o estatuto da Fundação.
    Corroboro as afirmações de que há um abismo intransponível entre seu trabalho feito na OSESP com um amplo, abrangente e bem estruturado projeto (já provado) vitorioso e as atuais lastimáveis e, no mínimo, duvidosas iniciativas da direção da OSB.
    Um grande abraço
    Bernardo Bessler

  18. Moabe Vettore disse:

    Olá Maestro, sou estudante de música na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tenho acompanhado de perto essa situação pois tenho muitos amigos que tocam na OSBJovem e na OSB profissional, e essa situação tem me deixado cada vez com mais certeza em NÃO SEGUIR A CARREIRA de músico de orquestra, pois a vida do músico de orquestra, pelo menos aqui no rio de janeiro é cercada de incertezas e inseguranças, perseguições de maestro e tudo mais, isso também tem deixado alguns amigos meus estudantes desanimados com a carreira tb, pois quando se começa seus estudos musicais tocar em orquestra é um sonho, e essa situação tem contribuído para que esse sonho vire um pesadelo…

  19. Stella disse:

    Interessantíssimo e inteligentíssimo este texto. Uma análise clara, realmente. Me fez pensar, inclusive, que no Brasil esta situação com a OSB é um macro do que sempre ocorre no micro… o que quero dizer com isso? Simples: no Brasil temos muitas orquestras; talvez não tantas qualitativa e quantitativamente proporcional às que há nos grandes antros da cultura (como Europa), mas também não há só duas ou três principais: há, sim, muitas orquestras. Sejam elas amadoras, sejam feitas através de projetos de lei de incentivo fiscal, sejam submissas a verba privada ou mesmo incentivadas por algum dinheiro público, sejam aquelas onde os músicos tocam porque gostam e querem, sejam aquelas que existem há anos e anos e que teve um tempo de auge, mas com o tempo sua energia no palco decaiu, enfim, o fato é que existem, e lhes pergunto: por acaso isto que acontece na OSB não ocorre igualmente em muitos outros lugares? Músicos que não são ouvidos (ao contrário, desdenhados quando reivindicam o mínimo que lhes é por direito), falta de transparência em relação ao futuro (muitas vezes a falta de transparência não é só financeira, mas artística também, como indefinição de repertório ou mesmo de corpo artístico – no caso da OSB, a temporada tem sido coberta pela OSBJovem), falta de competência profissional dos regentes (muitas vezes falta até formação adequada – acadêmica e/ou artística), falta de editais claros para os testes, falta de divulgação desses testes quando há vagas disponíveis (se bem que no caso da OSB essas vagas estão mais que divulgadas), falta de confiança dos instrumentistas em relação ao regente (como profissional e como pessoa, já que muitos agem obscuramente), falta de diálogo da administração/diretoria executiva (chamem como quiserem!) com os músicos, sendo que o que ocorre na maioria das vezes é o maestro se apresentar a esta diretoria como representante das idéias e ideais dos músicos, porém este tem uma visão totalmente diferente do que é a “profissão arte” em relação aos músicos, e esta representação é vista como frustrada por parte dos músicos, sendo que o maestro acha que fez uma grande coisa… e por outro lado, os mesmos problemas que os músicos reclamam em relação ao maestro, estes mesmos cometem, como aqueles indisciplinados que não prezam por chegar no horário, os que não se preocupam em atacar a nota com precisão no conjunto ou tocar com a mesma dinâmica ou na mesma região do arco, nem fazer o mesmo dedilhado, nem buscar um timbre homogêneo como naipe, ou mesmo se fechar para uma sugestão musical de um músico hierarquicamente superior… essas atitudes são perfeitamente perdoáveis em orquestras amadoras, onde supostamente o músico não executa a obra com qualidade técnica avançada porque não teve oportunidade de adquirir o conhecimento necessário para assim fazer, de modo que a preocupação com aperfeiçoamento de questões musicais e/ou artísticas fica colocada em segundo plano justamente por que não há nestes grupos amadores a “profissionalização da arte”. Nestes lugares, onde tocar é diversão (muitas vezes estes levam a atividade muito mais a sério), há o motor que é a paixão pela música (apenas a paixão justificaria tamanho desgaste não recompensado), porém onde tocar é profissão, onde a recompensa é o salário, independente da paixão, ocorre que a instituição/fundação/organização que seria para defender esta classe desprotegida (porém não desunida) dos músicos profissionais, acaba só prejudicando o andamento, desenvolvimento e progresso da atividade encaixada na ala das ciências HUMANAS, (que de humano não parece ter nada), já tão difícil de ser desenvolvida no Brasil, e ainda assim, os sobreviventes se afogam no mar da burocracia dos papéis ou da burrocracia de seus dirigentes…

    Amor ao Brasil – amor à Música – amor ao ser Humano: qual a ordem? Qual a diferença?

  20. Luciano Soares disse:

    A voz decisiva de NESCHLING .

    Passei pelo mesmo problema no Banco do Brasil. Sob o pomposo nome de REENGENHARIA NOS RECURSOS HUMANOS se escondiam truculências e vaidades. Parece ser o caso na OSB. Ao importar um modelo americano, se esquecem das especificidades locais. E a ideia é desmontar . E a estratégia é a mesma : paga muito bem ao chefe para chicotear subalternos . Intimida para silenciar. E estes, com contas a pagar, prestações da casa a quitar, ficam ” falando de lado e olhando pro chão”, na expressiva poesia de Chico Buarque. Tem que mobilizar : sindicato e justiça, já que o estrago foi feito.
    O caso já ultrapassou os limites da OSB : esta é um patrimônio do Brasil e do Rio. É caso de Política. O Rio não pode perder mais esta.

  21. De acordo em gênero, número e grau com o posicionamento do Maestro John Neschling. As recentes ações e políticas da FOSB em relação aos seus artistas extrapolaram de tal forma o mínimo senso de decência que é forçoso considerar se os seus mandatários não deveriam submeter-se a uma avaliação de especialistas em distúrbios mentais. Seja qual for o desfecho, o custo moral para a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira – e que refletirá sobretudo para seus patrocinadores, cuja exposição a esse desastroso processo é inaceitávelmente negativo à imagem de respeitabilidade pública que a comunicação social institucional exige – já é, sem qualquer dúvida, impagável e irrecuperável no Brasil e no exterior.

  22. é isso
    fazer uma teste de reavaliação de todo corpo administrativo da orquestra (são concursados?) e abrir os livros contábeis e verbas de patrocínios e doações
    axé

  23. jessica disse:

    analise lùcida e profunda que deixa em aberto muitas perguntas..tomara que a Direção da OSB tivesse pensado em todo isso…

  24. José Staneck disse:

    Diante te tanta inabilidade política e de tanta presunção de superioridade, como ficam os patrocinadores? Posso ter perdido alguma coisa mas não li nem ouvi nenhum pronunciamento dos responsáveis pela manutenção da orquestra sobre estes lamentáveis acontecimentos. Deram carta branca para que tudo isso acontecesse? Estão satisfeitos com a associação de seus nomes a esta devastação? Se apoiam, uma lástima, se foram enganados, revertam isso!! Com a palavra nossos patrocinadores…

  25. Leonel Ribeiro disse:

    Gente,estou estarrecido com tudo que li!Desde o escrito do Maestro Neschling até os posts dos colegas.Tenho amigos na OSB,meu tio é UFF, e eu quando mais novo sonhei em tocar numa orquestra e tive frustrações terríveis numa orquestra estudantil e quando cobri cachês para amigos…daí larguei meu instrumento que era o contrabaixo e voltei a estudar guitarra que era meu instrumento de origem.Bem,hoje se passaram 9 anos,tem bons trabalhos no meio jazzístico que eu amo,mas minha família até ler isso me dizia:tenta uma orquestra!Lá é melhor,mais elegante e mais seguro!
    Meua queridos colegas:não os conheço,mas em minhas orações pedirei a Deus por voces e suas famílias, e que esses tiranos, egocêntricos, filhos da….tenham o que merecem por desrespeitarem a CLASSE que os sustenta.
    Fica aqui meu pesar e com verdadeiras lágrimas nos olhos me despeço.
    Paz e Bem.

  26. Sergio Alexandre Antunes de Carvalho disse:

    Brilhante analise, Maestro!, só faltou dizer que o Minczuk corre o risco de um dia subir ao pódio e ao fazer o movimento para início da música receber como resposta os braços cruzados de todos os músicos, o pior, isto pode ocorrer não apenas aqui mas também no exterior. Na semana passada recebi o livrinho da OSB com a programação para as assinaturas, pergunto-me como alguém pode fazer assinatura de uma orquestra que não existe, de uma orquestra da qual nada sabemos ? O Rio de Janeiro tomou uma atitude totalmente inédita, comparando ao futebol, despediu todos os jogadores e está prestigiando o técnico, resta saber como entrará em campo.
    Um abraço

  27. harold emert disse:

    Hi Maestro John Neschling:
    In my 37 years of trying to make music here in Brazil,I have never seen or experienced a moment so difficult as what is going on these last weeks at the OSB. Maestro Minczuk though is acting and reacting as if we were in the dark ages before internet.Sooner or later if he doesn’t get fired himself from the OSB,he will receive reprisals from all over the globo with orchestras suddenly cancelling his invitations to conduct.
    A shame because he is a good conductor indeed and a fine French horn player.But as you well know,”Maestro” means someone who sees beyond the trees for the entire picture.Maestro is a father figure,brother,guide, person of musical and worldly experience, who understands that musicians are human beings who have their good days and bad days.Good Maestros have “emotional intelligence.” Knowing the score even by memory is not enough to make good music.
    Even if he imports the “best” musicians in the world,what guarantee does the new OSB have that they will adapt?Brazil is not for beginners they say and Rio de Janeiro is not easy as well to understand.
    I know from personal experience because despite the fact I arrive here in 1973 and married a Carioca(33 years of marriage now!) and have worked in all the orchestras in Rio(OSB,first oboe 1973-1997) ,I still don’t understand exactly what is happening in this complex and culturally rich world called Brazil.
    It is sad to go to a hospital and see a person(Antonio,OSB first French horn) ,who I had met a week prior on a street as a healthy person,recovering from a heart attack.It is even more difficult for me to hear the desperate voices of persons in the “OSB” who are beginning to wonder how will they make their ends meet and pay the bills for their children and family.
    Why is this all being done?I believe because OSESP has now hired a new American woman conductor Baltimore and Minzcuk knows he won’t go back there so he wants to create the “greatest ” orchestra in the world in Rio de Janeiro to benefit his own career.
    And shame on his mentor Kurt Masur ,who married a former viola player in the OSB of my time and knows only too well how difficult it is to make good music and make ends meet in Rio and Brazil.
    Is the price worth it?
    Best wishes always,
    Harold Emert
    Orquestra Sinfonica Nacional-UFF
    oboe -english horn

  28. Ricardo Almeida disse:

    Estou chocado e triste, com lágrimas nos olhos, após ler cada um dos comentários acima, muitos de músicos ilustres que sempre admirei e que não devem, de modo algum, sair da OSB.

    Sou assinante, há muitos anos, de todas as séries, tendo acompanhado com regularidade as temporadas dos três últimos regentes titulares. Com imensa alegria, acompanhei o crescimento da Orquestra, em qualidade de execução e de repertório, na gestão Minczuk. O sucesso vem sendo admirável, maior a cada ano. Fico chocado ao saber que existe – e parece ter sempre existido – tamanha animosidade e incompreensão entre o maestro e os melhores elementos da orquestra, inclusive o spalla Bessler e alguns chefes de naipe, tão queridos do público. Lembro-me bem daquele tempo lastimável, anterior à chegada de Minczuk, em que a orquestra quase acabou, por falta de dinheiro, atrasando os salários por meses. Os músicos foram uns verdadeiros heróis na ocasião.

    O maestro Minczuk é (era) um excelente relações-públicas para si e para a orquestra. Sempre apareceu muito bem na imprensa, como maestro brilhante, inovador, corajoso, pai de família, religioso, empreendedor. Inúmeras qualidades. Os comentários feitos neste Blog, porém, sugerem que seria, na verdade, um tirano vaidoso.

    Quanto ao Conselho, devo dizer que sempre achei muito curiosa a sua composição. Cheio de gente ilustre, do high-society, do “mercado”, banqueiros, advogados, etc. Mas creio que só os vejo no Municipal na abertura e no encerramento das temporadas, por coincidência nas ocasiões onde champagne é servido.

    Pelo teor dos depoimentos postados acima, de músicos que têm grande credibilidade, parece que o Conselho está realmente confundindo a OSB com uma empresa ou um banco.

    Na qualidade de integrante do público assinante, não-músico e também, modestamente, vítima da situação, faço um apelo à FOSB e demais envolvidos, para que procurem preservar os postos dos músicos que quiserem ficar e que seja mantido o maestro, alcançando-se um consenso conciliador. É possível! Basta haver bom senso, boa vontade e que se baixem as armas, de ambas as partes. Tem que haver uma solução!

    Um grande abraço do admirador
    Ricardo

  29. Pingback: Esperemos que não seja: e agora,OSP ? « us3davidairada

  30. ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA
    Um tiro no pé e o espírito no chão
    Por Bernardo Bessler, domingo, 3 de abril de 2011

    O senhor Minczuk é conhecido pela sua difícil convivência no meio musical, por sua
    arrogância, intolerância com opiniões discordantes e por guardar ressentimentos com memória de elefante. Perguntem aos músicos e funcionários onde ele trabalha ou trabalhou. Raríssimas são as opiniões diferentes.

    Músicos são sempre apaixonados e naturalmente envolvidos com sua arte. É de se esperar que tenham, eventualmente, atitudes mais emocionais. O que simplesmente não é aceitável é que o conselho curador da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, representado pelos senhores Eleazar de Carvalho Filho e David Zylberstein ajam da mesma forma e, ao contrário de mediar o conflito, polarizem cada vez mais as posições. E onde está o restante do conselho que deveria fiscalizar e aconselhar seus pares?

    Eleazar e David evitam posar de “frouxos” perante a uma comunidade empresarial onde a dureza nas negociações são tradição e onde têm o maior filão de suas próprias carreiras profissionais. Por mais que suas palavras em cartas e entrevistas sejam aparentemente brandas, equilibradas e justificáveis, seus atos não o são.

    E a corrente, como sempre, rompe-se no elo mais fraco: os músicos.

    Eleazar e Zilberstajn, apesar de alhardearem seu despreendimento e boas intenções, demonstram estarem mais preocupados com sua vaidade e imagem pessoal, e menos com o estrago que fazem na orquestra sinfônica brasileira e na vida de profissionais sérios. Não há dúvida de que as avaliações foram forjadas como fachada com a clara intenção de separar os submissos dos chamados “insubordinados” e usadas para o maestro se livrar, não daqueles que apresentassem menor rendimento, mas sim de seus desafetos, ou seja, daqueles não cumprem sua vontade sem questionamento. Tanto isso é verdade que ele mesmo anunciou que os que fizessem a prova não seriam demitidos. Ora, qual o sentido então de uma prova alardeada mundialmente, se não teria efeito prático algum? O maestro pretendia conversar amigável e carinhosamente com cada um dos músicos com performance insatisfatória (para ele) e convencê-lo a tocar melhor? E porque não o fez com os que se submeteram? Quem conhece o maestro sabe que ele não é dado a esse tipo de abordagem. Nenhuma satisfação foi dada depois da prova. E se a prova não implicaria em demissões, por que brigar tanto por ela? Era só pra saber como tocavam os seus músicos?

    Ora, senhores, ingenuidade tem limites! E os músicos não são ingênuos. Todos sabem que há tres anos atrás os músicos, numa inédita unanimidade, exigiram a demissão do maestro. Isso ele nunca esquecerá. Sua vingança disfarçada de “avaliação” seguida de demissão em massa é prova cabal disso. Ele nunca soube conquistar a confiança dos músicos que os levassem a desmontar a guarda e se submeter às suas “boas intenções”. Só o conselho não percebeu tudo isso, talvez inebriados com o aumento da captação de recursos financeiros.

    As demissões incluem alguns dos maiores instrumentistas brasileiros em suas áreas! Alguns que atuaram na OSESP, cultuada por Minczuk como seu modelo, ou em orquestras como a Filarmônica de Berlin. Muitas outras baixas foram verificadas na atual gestão quando grandes profissionais abandonaram a OSB num êxodo paradoxal ao discurso da direção. E não foi por questões salariais que eles se foram. Eles simplesmente partiram por não concordar com os métodos de trabalho, desorganização artística, prepotência de seu diretor e por se sentirem desconfortáveis num ambiente de trabalho conflituoso, pesado e desagradável, incompatível com a atividade que exercem. Aos que ficam sobram tendinites, esgotamento por stress continuado, medo e humilhação. Muitos outros potenciais candidatos a integrar a orquestra, ao tomar conhecimento do que lá ocorre, desistiram de prestar concurso.

    Não tem sentido estratégico algum demitir o naipe inteiro de contrabaixos, violoncelos, spallas, trombones, trompetes etc e produzir uma temporada inteira com os alunos, ainda em formação, desses mesmos instrumentistas! É evidente a intenção de retalhar os discordantes e intimidar os sobreviventes.

    Zylberstajn e Eleazar alegam que a OSB é uma entidade privada e portanto estão respaldados pela lei ao demitir. Pode até ser legal mas é imoral. Esquecem de dizer que trata-se de uma Fundação construída quase que exclusivamente com verbas federais, incentivos fiscais e financiamento público. Não devemos esquecer tampouco que as leis de incentivo à cultura implicam em renúncia fiscal e não um simples financiamento privado. Existe o compromisso de uma contrapartida social. Não apenas, por exemplo, convidar alguns estudantes de áreas de risco social para assistir a concertos e depois colocar isso em seus relatórios de prestação de contas. De fato – e não apenas de fachada – devem uma contrapartida à toda sociedade em que atuam, um compromisso de transparência com o estado e, consequentemente, com todos brasileiros, onde se incluem os músicos.

    É evidente que a longo prazo a inadequação das ações perpetradas a uma instituição cultural da importância da OSB fará algum efeito deletério na imagem pessoal de seus dirigentes e em suas carreiras. Porém, certamente será menor que o efeito deletério que fará à imagem da própria OSB. A particularidade da atividade sinfônica não é comparável a da indústria ou do comércio, como diz, com propriedade, o maestro John Neschling. Os membros do conselho parecem não entender isso batendo no peito o aumento dos recursos da OSB. Senhores, bom senso e caldo de galinha não faz mal a ninguém!

    O aumento de recursos tão exaltado por Eleazar, Zylberstajn e Minczuk foi obtido também graças ao serviço desses profissionais, agora demitidos, cuja competência pode ser comprovada no mercado, para usar um termo mais familiar a eles. A temporada teve sucesso com a imprescindível colaboração desses músicos. Muitos têm gravações frequentemente tocadas nas rádios e suas atuações são disputadas pela TV comercial para suas trilhas, CDs, cinema e concertos. Em alguns casos o próprio Minczuk declarou públicamente em entrevistas para rádio e TV serem os melhores do país.

    Mais dinheiro em caixa não pode justificar a prepotência, destempero, falta de humanidade e bom senso em avaliar as conseqüências para a orquestra e para as famílias de músicos com décadas dedicadas a uma instituição que deveria defender e preservar os valores éticos, humanos e culturais atualmente tão escassos na nossa sociedade.

    Mesmo que se faça a melhor orquestra da rua, do bairro, da cidade, do estado, do país, do continente ou do mundo – o que duvido muito – a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira terá inexoravelmente fracassado em seu objetivo maior: o de elevar o espírito humano através da
    arte.

    Bernardo Bessler

  31. Flavio Chamis disse:

    Quieto em meu canto, longe do Brasil e raramente me envolvendo com o que acontece por ai, desta vez não posso me conter ao ler em sites nacionais e estrangeiros sobre a crise da OSB. Regi a orquestra varias vezes durante a época em que era comumente chamada “a melhor orquestra do Brasil”, então sob a direção do Isaac Karabtchevsky. Posso tranquilamente entender o objetivo de tentar “retomar o título” após anos de problemas, algo que certamente seria aplaudido unanimemente pelos músicos e público. Porem a truculência demonstrada na tentativa de atingir este nobre objetivo é algo que imaginei estar extinta desde a época em que Toscaninis mandavam e desmandavam a seu bel prazer. Sinceramente espero que a administração e o conselho da orquestra reconsiderem sua posição imediatamente e encontrem uma maneira na qual o componente humano seja prioritário em sua tomada de decisões.

    Morando em Pittsburgh, nos US há mais de 15 anos, relato uma breve historia – praticamente desconhecida – que aconteceu com a Pittsburgh Symphony: em Dezembro de 1910, Gustav Mahler trouxe a Filarmônica de Nova York para tocar em Pittsburgh, numa época em que a orquestra local estava passando por enormes problemas. Motivado por uma inevitável comparação, seis dias após o concerto, o board da Sinfônica de Pittsburgh simplesmente decidiu acabar com a orquestra, imediatamente despedindo todos os seus músicos. Foram necessários exatos 16 anos para que a orquestra viesse a reiniciar suas atividades.

    Que a OSB volte a seus dias de grandes concertos e esta crise seja superada sem demora. Um forte abraço a meus irmãos em musica.

    Flavio Chamis

  32. Nelsinho disse:

    Maestro,
    O senhor tem o meu respeito e profunda admiração!

  33. Rochele P. Azevedo disse:

    Definitivamente, a melhor análise. Tamanha lucidez, só merece aplausos!

  34. Emanoel Velozo disse:

    Acho que o comentario do maestro Neschling dispensa qualquer outro comentario. Ele foi extremamente claro e suscinto com o que diz respeito a situacao que a orquestra esta vivendo no presente. Tendo lido noticias através de blogs e jornais na internet, pois assim como alguns outros musicos brasileiros estou fora do Brasil ha algum tempo.
    Bravo Neschling!

  35. Eduardo Alves disse:

    Caríssimos,

    Adquiri assinaturas para a temporada de 2011 no Theatro Municipal para assistir a OSB e não sei mais como vou receber este “ditador dos palcos”. Como um espectador sinto vontade de participar de alguma ação pacífica que simbolize um protesto. Alguma sugestão?

  36. Marcelo Oliveira disse:

    Que seja semifusa essa confusão!

    Estamos, nós músicos de orquestra de todo país, consternados com o que aconteceu, e ainda está acontecendo, na OSB, orquestra Sinfônica Brasileira. Por me sentir parte do público dessa orquestra, de me lembrar de diversas ocasiões que eu me encantei ouvindo a orquestra, no Theatro Municipal, na Sala Cecilia Meireles, na praia, na 5º da Boa Vista, na televisão, no antigo Projeto Aquarius, enfim, muito triste por ver essa situação estar de fato acontecendo. Vejo que a vontade de se manifestar foi tão grande que possibilitou esse triste fato no último sábado, com a Orquestra OSB Jovem, a qual me lembro de ensaiar sob a regência de David Machado, na década de oitenta. Imagino o extremo dessa situação que coloca o maestro Roberto Minczuk como único responsável. Bom, quanto aos mentores, responsáveis e organizadores da OSB eu não sei muito, mas ver essa situação em vídeo de you tube aqui tão lonpge, me fez lembrar a sensação de ver meus conterrâneos friburguenses em seus desastres recentes, que me faz lembrar que até mesmo toda aquela história dos desabamentos em Nova Friburgo já estarem sendo esquecida por estar fora da mídia televisiva. Imagino o que pode ser uma grande cicatriz na história de uma orquestra que conquistou tantos admiradores, cutucou a tantas pessoas a começarem a estudar pra valer a música, como eu próprio e nomes como a Aída Baptista, cantora lírica que hoje conhecida em muitos locais do mundo, que assistia uma opera com a OSB na Quinta da Boa Vista, difícil de curar. Cicatriz que pode só atrapalhar o já atrapalhado mundo que vivemos e nos prontificamos a viver em função de momentos de deleite do público, da curtição que é ouvir uma orquestra tocando.
    Que seja breve, ou melhor, que seja semifusa, essa confusão no mundo dos músicos no brasil.

    Marcelo Oliveira
    Músico em Curitiba, Paraná

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